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 Hellboy 11 - Desperta Parte I: ESPELHO
HellboyAnteriormente

Joseph Willian e Gibson Moore, agentes do Departamento de Defesa e Pesquisa Paranormal (DDPP), desapareceram durante investigações de assassinatos que envolvem rituais na ilha de Mann, no arquipélago das Ilhas Britânicas. Para cuidar do desaparecimento, os sensitivos, com o consenso dos diretores do departamento, decidiram por enviar a jovem Bianca Hamsay para o resgate, em sua primeira missão de campo.



Mike Mignola’s
Hellboy
Capítulo 11: Desperta
Parte I - Espelho

por Dario Mesquita


Ilha de Mann

Grama rasteira, o cheiro de maresia que percorre de ponta a ponta, o ar úmido e gélido deliciando-se sobre as vestimentas, por entre as linhas do corpo, pelas mechas soltas do cabelo. Olhos apertados e compenetrados por idéias aleatórias. Um sentimento de solidão e pavor, que rebaixa o orgulho, visível pelo ângulo do queixo caído, das mãos apertadas sobre o corpo, dos dedos que correm sobre o rosto para afastar o cabelo. A terna sensação do amanhecer perdido, do peso da responsabilidade frente à jornada inicial. O que existe não é o heroísmo apaixonante dos mistérios, mas a simples necessidade de sobrevivência.

- Hellboy... Por que veio? – Bianca Hamsey pergunta num tom que tenta partir de sua insegurança para um lugar mais seguro.

O demônio a acompanha lado a lado, encurtando seus passos, olhar reto, as mãos comprimindo seu casaco para aquecer um pouco. Nenhuma sensação lhe transparece moldada no rosto, nem nos gestos naturais ou na respiração pesada sob o frio. Não há mais paixão na sua rotina, nem mais linha contínua, mas um emaranhado de possibilidades que se encurtam a cada fim diurno. Ao menos por hoje, até sua dúvida voltar para o lado irrelevante da vida e emergir mais máscaras humanas para um ser deslocado.

- Sempre protegemos uns aos outros, Bianca. É meu papel protegê-la mesmo quando um bando de velhos engomados e um grupo de desajustados com poderes mentais decidem que não é da minha conta. Se eles não têm noção de estupidez, eu tenho. Você não teve treinamento para missões em campo, e nem idade para...
- Mas ainda assim dizem que salvei todo mundo no meu próprio resgate [1] – Bianca interrompe.
- Foi sorte, garota. Nunca se sabe o que virá. E seus poderes nunca foram rastreados devidamente, não sabemos quase nada sobre eles. Nem mesmo o Dr. Estranho soube nos explicar no relatório que fez [2]. – Hellboy a retruca, olhando brevemente seu corpo frágil, acobertado pelas roupas de frio e o olhar espremido no rosto avermelhado.
- Mas me disseram que meus poderes... Eles de alguma forma estão conectados com este lugar. E que isso poderia ser perigoso para quem me acompanhasse. Inclusive você! E não faço a mínima idéia do que pode mesmo acontecer, além de estar com medo de... – “morrer”, ela pensa, mas estanca a palavras em sua boca, e segue – Quer dizer, fico preocupada de perder o controle e acabar... Te machucando de verdade.

Hellboy discretamente aperta seu ombro e ambos prosseguem com o andar. Liz Sherman já havia passado por isso. Após anos para sair do seu estado pós-traumático depois de carbonizar seus pais e dezenas de pessoas por acidente, foi preciso mais outros anos para ela se sentir segura a ponto de manifestar novamente seus poderes pirocinéticos. Tempo suficiente para assimilar que seus infortúnios são o que formam a base de seus dons, mesmo que eles lhes levem à morte.

Alguns minutos de silêncio cúmplice. Uma leve barreira de ar trás o confortável cheiro da precipitação furtiva. Hellboy apura sua vista para acima dos morros. A ponta de uma nuvem chuvosa, em dégradé turvo descendo, pesada e negra.

- Bianca, vamos indo. Chuvas repentinas nunca combinam com missões de resgate. E mal temos três horas de luz do sol. Ainda faltam duas casas pra vasculhar, depois retornamos até o porto...
- Por que simplesmente não seguimos o caminho da estrada ou pegamos um carro? Me sinto desorientada no meio desse campo sem nenhuma trilha sequer. Não sei como não nos perdemos.
- Primeiro porque caminhos alternativos são os melhores para encontrar pistas interessantes em lugares com atividades paranormais. Segundo, precisamos de um primeiro contato mais natural com essa ilha. E não nos perdemos porque me oriento bem nesses atalhos. Mas tudo isso é apenas desculpa para andar mesmo, não sou muito bom em direção... Nunca fui bom! – Hellboy entorta o canto da boca num sorriso nostálgico, se recordando de como quase matou Abe do coração enquanto dirigia um jipe em alguma savana africana. O carro por pouco não capotou num barranco.
- Como alguém tão... Velho não sabe dirigir?!
- Não é questão de saber. É questão de segurança. Meu curso de direção nunca foi de defensiva, mas de ofensiva, entende? E eu gosto de caminhar.
- Caminhar cansa... – Bianca faz uma expressão de desgosto infantil, observando seus próprios passos sobre a grama. Fica imaginando o tamanho do calo que deve está se formando na ponta do dedão.
- É bem mais seguro, acredite! As máquinas não gostam de mim. Uma vez tive que pilotar um bimotor em Honduras. Um desastre. Até hoje o Abe agradece a Deus que havia um pára-quedas. Ele nunca iria sobreviver a uma queda daquelas...
- Você caiu com o avião e tudo?! – Ela olha espantada, imaginando Hellboy como um maníaco contente ao despencar com o avião sobre o solo. “Ele fala como se fosse a coisa mais divertida do mundo”, pensa.
Hellboy tenta desconversar. Odeia profundamente quando se mete num acidente. Mas depois de uns anos, tudo se torna uma boa piada.
- Ah, os galhos das árvores na floresta ajudaram pra amortecer. Usei uma chapa de aço do piso do avião pra me proteger... – Ele gesticula com as mãos seu ato de sobrevivência ao acidente.

Ela faz um cara de total descrença. “Ele está brincando comigo, só pode”.

- Ok. Sem histórias.


Dia anterior – Sala da Diretora de Operações de Campo DDPP

- Eu vou com ela.

- Você sabe que não pode Hellboy. – rebate Kate Corrigan, posta frente à porta de vidro da varanda de sua sala. Lá fora, a noite esconde e adormece o vale de montanhas estéreis que circundam o prédio do DDPP. Para esconder-se do frio soturno, ela apela para um café forte, enquanto teima com seu vício cancerígeno, fumando um Lucky Strike.

Por trás dela, Hellboy está sentado na sua cadeira, com os pés inclinados sobre a mesa bagunçada, sob uma iluminação opaca de luzes direcionais. Uma dezena de pastas, centenas de folhas timbradas e ordenadas. Ele se presta a remexer e estudar o último calhamaço de folhas referentes ao sumiço de Joseph Willian e Gibson Moore [3] numa ilha européia enquanto investigavam a coisa mais banal de qualquer filme de terror: assassinatos e suspeita de uso de magia negra em alta escala, suficiente para que dezenas de jovens sumissem da região e famílias inteiras fossem desmembradas sem algum vestígio. Os agentes já eram veteranos nesse tipo de caso, mas aqui a experiência não é algo que esteja em equilíbrio com a sorte.

- Sabe que eu devo ir. O problema é que não querem. – Hellboy arruma os papéis dentro da pasta suspensa, e então o coloca ao lado de outros envelopes com fotos, já havia estudado tudo ao seu jeito sobre a missão suicida que a diretoria havia passado para Bianca. Não havia participado da reunião que designara a missão; ainda estava quebrado de uma aventura mirabolante numa caverna remota na China envolvendo uma ninhada dum antigo demônio alado da região, o nome da criatura era tão complicado de falar que não se deu o trabalho de memorizá-lo. Foi uma noite inteira preso entre rochas úmidas e litros de gosma verde dos monstros. Na próxima vez ele engole seu orgulho solitário e pede ajuda para Liz Sherman, pouparia todo o trabalho e balas simplesmente incendiando a caverna.

Kate dá uma baforada calma contra o vidro que a separa das sombras noturnas. Bebe um último gole de seu café e retorna ao cigarro novamente, refletindo. Ela e Hellboy tinham uma sólida amizade no trabalho, se tratavam como iguais e quase irmãos. Ele já matava monstros mesmo antes dela nascer, e deveria ser o membro ativo mais velho do departamento. Via nele liberdade para fazer o que quisesse lá dentro, inclusive estar no cargo que ela ocupa como chefe de equipe, mas mesmo assim preferia agir em campo e amassar cabeças inumanas [se bem que as autoridades americanas não iriam gostar de um demônio nesse tipo de cargo]. Pela lógica terrena, ele já deveria ter assumido as responsabilidades de um senhor de cinqüenta anos, sua idade, mas pela própria lógica de Hellboy, sua responsabilidade se entendia como uma desenvoltura adolescente da improvisação. Ele odiava tudo que era planejado, organizado, burocrático. Tinha seus motivos.

- Bem, já leu o relatório da missão. Então já sabe o que fazer. – Kate caminha para sua mesa, onde despeja uma guimba do cigarro no cinzeiro. – Mas saiba que eu não tenho conhecimento da sua atitude, nem quero saber dela oficialmente.

Hellboy abre um sorriso rápido, e se levanta da cadeira.

- Eu apenas vou sair pra beber e ficarei de porre durante uns dias. Não terá notícias minhas por um bom tempo até a Bianca voltar, por coincidência!
- Hellboy, eles falaram que a ilha tem alguma conexão com os poderes da garota. Que só ela sobreviveria à missão... Que nem você seria imune a isso. – Ela alerta novamente, em tom calmo.
- Deve ser apenas mais um monstrengo feioso como os outros, Kate. Gente com poderes psíquicos só sabem lançar mau agouro. No pega-pra-capar o que vale mesmo são umas boas pancadas.

Kate olha com ironia para o demônio a sua frente, abrindo um sorriso correspondido.

- Você nunca vai mudar mesmo. Tudo se resume a punhos e balas na cabeça.
- E sempre funciona. Feitiços são um saco para conjurar. E tem uns em cada língua maldita... Putz! – Hellboy vai a uma estante de bebidas num dos cantos da sala e enche meio copo com uísque. Toma tudo de um gole.
- Ainda cansado?
- Muito. Isso deve me acordar por um tempo até eu pegar um vôo clandestino para Inglaterra e me encontrar no porto com Bianca antes de sua saída pra ilha. Se a equipe inglesa questionar minha presença, digo com toda minha educação para eles enfiarem suas perguntas. – mais uma dose de uísque, agora menor.
- Mas siga as instruções de investigações sugeridas por eles. Todos os passos dos agentes desaparecidos foram devidamente mapeados, especialmente seus últimos dias em ação.
- Que assim seja! – Prepara uma terceira dose. – Uns dias perambulando como um cego numa ilha semi-abandonada atrás de não sei o que... Me dou bem com esse tipo de aventura.
- Não é uma aventura. E nunca perca Bianca de vista!
- Isso vai ser simples! A não ser que ela seja uma adolescente mais teimosa do que eu.


Hoje – Iha de Mann

O piso range vagarosamente. Pelo avesso das paredes o ar defronta a atmosfera abafada que paira entre os imóveis aparentemente intocáveis. Ao pé da porta uma pilha considerável de correspondências. No sofá o cheiro de mofo; na mesa de centro da sala uma camada de poeira marcada pelos dedos de Bianca, que se senta num banquinho, defronte a televisão, sonâmbula em seu olhar pensativo. Tediosa pelo cansaço da viagem, afetando suas pernas com uma dorzinha aguda próxima dos joelhos e deixando seus olhos secos.

Para entrar no lugar, Hellboy teve que arrombar a porta da residência, onde segundo os relatórios dos agentes desaparecidos, foi o último local investigado. Uma daquelas construções rurais bem acabadas de madeira no meio de um terreno gramado, igual a toda vizinhança próxima, agora abandonada após os crimes de desaparecimento de jovens e assassinato de algumas famílias – como a morava naquela casa.

- Sabe o que tem de errado com essa casa? – pergunta Hellboy, vindo da cozinha com uma garrafa de água que encontrara na geladeira.
- O cheiro dela? – responde Bianca após um bocejo.
- Ela está toda arrumada. Nos quartos onde haviam encontrado marcas de sangue está tudo limpo. O outro que estava todo revirado, tá mais arrumado que o quarto do Abe, e ele é maníaco por limpeza! Já re-conferi tudo, e estamos na casa certa! Andei em cada cômodo daqui e nenhum me pareceu suspeito.
- Também percebi, parece mais arrumado que nas fotos. Quer que eu olhe os quartos? Quem sabe eu possa ver alguma coisa... – Bianca ergue seu olhar a Hellboy, que a percebe exausta apesar de sua voz ainda medrosa.
- Não precisa... – Hellboy sente uma mão pousando sobre seu ombro. Num pulo de espanto ele gira seu corpo, se defrontando o branco da parede atrás dele.
- O que foi? – Bianca se levanta na mesma velocidade, dando alguns passos para trás e os braços sobre o peito. – O que foi Hellboy?
- Nada... Não foi nada. – Ele responde enquanto caminha sorrateiramente para a cozinha. – Fique onde está, nem pense em sair daí! – Algo parecia o chamar para os fundos da casa, não mais uma mão invisível, porém uma sensação insuportável semelhante a um peso ligado à mente que o conduzia intuitivamente ao lugar. Mesmo sabendo o quão ridículo e perigoso era atender a um chamado oculto, suas pernas teimavam em carregá-lo, assim como o foco de sua intuição.

Bianca pensa em acompanhá-lo, mas uma suave voz infantil começa a cantarolar pela casa. Uma música suave que ela imagina ser em francês, quase sussurrado. Enquanto Hellboy vai aos poucos passando pela cozinha rumo aos fundos da casa, Bianca segue a melodia vocal que a leva rumo aos quartos, subindo um breve lance de escada.

Nos fundos da casa, Hellboy prossegue vagaroso, puxando sob o casaco sua arma já engatilhada. No instante que ele gira seu corpo para visualizar o lugar, um amplo campo verde aberto com um cercado mediano alinhado a poucos metros, como por encanto as bordas de um poço nascem do nada em sua frente.

- Isso não é bom, Vermelho. Poços não brotam da terra quando se está de costas a eles. – Fala num tom quase mudo para si, visando pela ponta dos olhos o buraco.

Assim mesmo, ele é seduzido por uma infindável curiosidade em se aproximar da boca do poço, por onde o ar começa a ser puxado aos poucos. Ao toque de suas mãos, a abertura de pedras assume uma textura de musgo negro, que percorre como um ser vivo toda sua extensão, começando a se estender sobre a pele do demônio.

- CARALHO!!! SEMPRE CAIO NESSAS MERDAS DE... – Todo fascínio que o levou até o lugar se evapora, e agora o corpo de Hellboy era aos poucos tomado pelo musgo negro, que já engolia boa parte de seu corpo. Subia para sua cabeça, recobria sua boca, sua garganta, seus olhos...


Na casa

- Alô, alguém aí? – Bianca prossegue pelo corredor dos quartos acima, com a melodia cada vez mais clara, brotando do último quarto, a alguns passos da escada.

A apreensão inicial de Bianca ia definhando a cada momento que se aproximava do cômodo. E a sensação de conforto a conduzia. Algo que não sentia verdadeiramente desde a morte de seus pais.

Chegando ao destino, o quarto se encontrava tal como Hellboy havia dito, arrumado ao estremo, numa harmonia simétrica gritante entre os móveis. Numa parede estava uma estante com livros organizados em ordem alfabética, ao lado um guarda-roupa aberto expondo peças empilhadas de acordo com as tonalidades de cores dentro. Mas nenhuma presença humana além de Bianca e a voz pueril que insiste com sua canção francesa.

Com um olhar mais atento, Bianca pôde perceber que um espelho de corpo, ao lado duma mesa de estudos, parecia vibrar junto com a melodia. Ela se aproxima intrigada, tão que mal percebe o reflexo de sua aparência derrotada após um dia de caminhada.

Sua imagem treme a cada tom agudo empreendido pela canção. A cada torção, o reflexo fica mais turvo, mais disforme. E Bianca simplesmente fica a contemplar o fenômeno, alheia a como a realidade se deformava no espelho pela vibração. Ia derretendo, formando pontas, vazando das bordas do espelho como uma tinta escorrida, tomando o piso do quarto. Formas que aos poucos se projetam como tentáculos que cobrem o corpo de Bianca, que agora é abraçado pelo desespero. Resta-lhe apenas a reação de gritar. E gritar cada vez mais alto antes que seja dissolvida pelas distorções do espelho.

Continua...


Notas

[1] Bianca Hamsay foi raptada pelo demônio Baphomet, que assassinou toda sua família - Hellboy 3 – Suspiros: cap. 3 - Quadrim

[2] Após seu resgate, Bianca entrou em coma devido a um feitiço que foi retirado com a ajuda do Dr. Estranho - Hellboy 4 – Bianca - Quadrim

[3] Hellboy 10 – Sincera - Quadrim
Posted on Friday, February 19 @ 20:15:07 BRST by Henrique_JB
 
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