 A Mulher-Maravilha e a Rainha Hipólita se digladiam em um conflito histórico que poderá decidir o futuro da civilização! As lutas marciais se elevam a outro patamar quando Puma encontra aquele que pode ser seu nêmese! E para completar surge o Caçador!!
Potsdamer Platz
Berlim
Antiga Alemanha Oriental
Horas atrás
O bairro de Potsdamer Platz é um dos grandes exemplos da desenfreada reforma pela qual passou Berlim após a queda do Muro. Localizado na antiga região da cidade que fazia parte da Alemanha Oriental, o bairro não existia há dez anos atrás, quando o local não passava de um vasto terreno inóspito. Hoje, as torres de metal e vidro, símbolos da arquitetura contemporânea que proliferam no local e podem ser vistas a grande distância, compõem um cenário moderno onde fervilham lojas das grifes mais famosas do mundo em exuberantes centros comerciais, hotéis cinco estrelas e escritórios de profissionais liberais, além de filiais e representações de algumas das mais importantes empresas européias.
A noite não ia demorar a chegar quando Cintia Becker dirigia seu próprio carro de forma cautelosa pelas vielas secundárias do bairro. Ao seu lado, no banco do carona, a Mulher-Maravilha encontrava-se impassível, desconhecendo o destino das duas e sem a menor disposição de fazer qualquer pergunta para aquela a quem estava ligada pelos laços da Hiketeia, aquela a quem precisa tratar como irmã. Cintia olhou de relance para Diana e, num gesto repentino, acariciou a face da amazona, que recuou instintivamente.
- Não gostou do meu toque? Pode deixar, princesa. Com a Hiketeia, sei que você tem de ser cordial comigo, mesmo desejando cuspir na minha cara. Logo, logo você vai saber quem manda aqui...
- Sei que vou descobrir. E tenho certeza de que não é você. Quais são os planos, afinal?
- Ora, ora... Então a princesa sabe ser irônica quando quer... – Cintia soltou um riso forçado, que não conseguiu ocultar a raiva que sentia – Os planos são muito simples, minha querida. Estão querendo me matar. Várias pessoas, várias organizações. Você mesma me salvou de uma dessas tentativas...
- Duas... – Mal interrompera a explanação de Cinta, Diana se arrependeu de ter aberto a boca. O sorriso de satisfação de Cintia Becker mostrou que ela esperava que a Mulher-Maravilha a corrigisse.
- Hehehe... Não, princesa. Eu não estava em perigo de verdade agora a pouco no museu. Foi só um golpe para atraí-la e poder invocar a Hiketeia diante de você.
- A primeira vez foi verdadeira? Então a minha vinda à Alemanha não foi um plano arquitetado por vocês...
- Não. Você ter me salvado naquele beco foi uma feliz coincidência. O fato de você estar aqui na cidade era uma oportunidade que não podíamos deixar passar. Agora sei que estou segura, pois você deve me proteger, mesmo que isso lhe custe sua vida. E já vou lhe avisar que isso vai ser um trabalho em tempo integral por muito e muito tempo. Depois que eu ganhar as eleições da União Européia, muito mais gente vai tentar me matar.
Ao dobrar uma esquina, o carro que Cintia conduzia entrou em um acesso particular para veículos de um dos primeiros prédios construídos na região abandonada que viria a ser o bairro de Potsdamer Platz. Diana sentiu um arrepio antes de entrar na garagem. Ao olhar para fora do carro, viu durante alguns instantes no outro lado da rua três vultos encapuzados que pareciam olhar em sua direção. Ela nunca as vira antes, mas tinha certeza absoluta de quem eram.
As Eríneas.
Podiam não ser percebidas, mas as Fúrias estavam sempre presentes quando o sagrado juramento de Hiketeia era invocado. Diana notou que Cintia não percebera nada demais e permaneceu calada. A natureza das Eríneas não permita que elas fossem vistas por pessoas comuns, ainda que estas estivessem envolvidas no juramento que as atraíra. A não ser que as Eríneas se dirigissem diretamente a estas pessoas comuns.
A garagem para qual o acesso levava tinha um elevador privativo que conduzia direto a cobertura. E foi para lá que Cintia Becker seguiu, acompanhada de sua guarda-costas relutante. Ao sair do elevador, a diplomata estacou e ergueu o braço direito, interrompendo a caminhada de Diana.
- Espere aqui. Deste ponto para frente preciso me apresentar de acordo com nossas tradições. Fique quietinha. Volto já.
Cintia entrou pela porta à esquerda da saída do elevador, fechando-a atrás de si. O saguão do elevador daquele andar era finamente decorado, com uma atmosfera que remetia a algum ponto da primeira metade do século vinte da aristocracia alemã.
Diana cerrou os punhos, sentiu um arrepio na espinha e ficou ainda mais atenta. Alguma coisa ali estava errada, perniciosa, fora de lugar, mas ela não sabia identificar o que era. Então Cintia retornou ao saguão e ela entendeu o que despertara seu instinto de guerreira.
Cintia Becker estava trajando um uniforme militar do alto comando nazista da 2ª Guerra.
- Agora estou pronta. Vamos. – Ela avançou alguns passos. Diana hesitou em segui-la. – Não adianta ficar com essa cara, querida. Quem sabe que males podem estar me esperando por trás daquela porta? Estou em perigo, princesa. Você é obrigada a me acompanhar.
O olhar de Diana foi fulminante em sua direção, mas ela caminhou firme atrás de Cintia, se esforçando para não quebrar a tradição.
- Mal posso esperar para vê-la diante do Mestre... – disse Cintia Becker antes de passar pela saída principal do saguão, acompanhada da princesa amazona.
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Hiketeia
Tentativa de Assassinato: Parte 04
Por Carlos Vinícius Marins, Larissa Moreira e Marcelo Moro
Altes Museum
Berlin
Antiga Alemanha Oriental
Agora
- Dinah, algo está errado.
Ao sentir o toque de Speed Sanders em seu ombro, a Canário Negro desviou instantaneamente sua atenção dos locais onde acreditava que o clone de Paul Kirk poderia se instalar para um tiro certeiro na diplomata Cintia Becker que, pelo bater de palmas da multidão e da música marcial que começara a tocar, havia acabado de entrar no salão. Ela sabia que, numa situação como aquela em que precisava estar atenta aos planos que traçara para evitar um assassinato, Speed só teria chamado a sua atenção em caso de extrema necessidade.
Dinah acreditava estava preparada para qualquer coisa que pudesse acontecer. Estava enganada.
Que diabos fazia a Mulher-Maravilha seguindo os passos de Cintia Becker? Era por isso que ela tinha vindo à Alemanha? Será que ela fazia idéia de quem a diplomata era na verdade?
Mal formulara estas perguntas, a Canário Negro percebeu que seus planos para proteger a diplomata alemã tinham ido por água abaixo. Bastou olhar na direção de Hipólita para constatar o que tinha certeza que ela iria fazer. Com um salto além dos limites humanos, a rainha das amazonas saiu do meio da multidão pousando sobre o palco, diante de uma assustada Cintia Becker.
- Ahhhhhhhhh!!! – gritou Cintia, caindo no chão com o susto.
- Cale-se, nazista! Isto é entre mim e minha filha! Diana, o que faz ao lado desta seguidora de Hitler?
- Mãe?! Não!! O que está fazendo?! Afaste-se!!!
Dotada da velocidade de Hermes, a Mulher-Maravilha entrou na frente de Cintia e, com seu impulso e sua força de Hércules, empurrou Hipólita para fora do palco, arremessando-a para o outro lado do salão de encontro ao pedestal de uma estátua grega representando Perseu, além da multidão de expectadores que, sem entender o que estava acontecendo, começou a se dispersar de forma desordenada, tomada pelo pânico. A estátua e seu pedestal se partiram em pedaços. As câmaras de TV transmitiam ao vivo o que acontecia ali para toda Alemanha e boa parte da Europa.
- Se soubesse que a Mulher-Maravilha estava envolvida nisso jamais teria trazido Hipólita comigo.
- Também não fazia a menor idéia, Dinah. Estou tão surpreso quanto você.
- Bom, acabou-se. – A Canário Negro suspirou – Temos novas prioridades agora. – Canário sintonizou seu rádio de pulso patenteado da Holtronics para falar com suas parceiras – Esqueçam os planos! Precisamos evitar que as pessoas se firam! Procurem conter e acalmar a multidão!
Tanto a Mulher-Falcão quando Sideral usaram seus equipamentos para erguerem-se no ar, procurando chamar a atenção das pessoas da multidão e tentando conduzi-las de forma ordeira para fora do salão. Sem suas asas, usando apenas o metal enésimo contido na fivela do cinto que usava, Kendra podia fazer pouco mais do que flutuar ao sabor dos ventos. Mas, com suas técnicas de luta, ricocheteava nas paredes e adornos espalhados pelo saguão, chamando atenção para si com suas acrobacias. Cassie utilizava rajadas de luz emitidas por seu cajado cósmico para fazer as pessoas concentrarem-se nela deixando o pânico de lado.
A Rainha de Themyscira porém, não prestou a menor atenção às palavras de Dinah que chegavam ao seu ouvido por um fone oculto. Sua expressão facial estava alterada pela indignação e ela só tinha olhos para a decepção que sentia pela filha naquele momento. Hipólita só fora atingida como uma guerreira amadora e projetada tão longe porque jamais esperava que sua filha pudesse atacá-la de forma tão inesperada. Isto não iria se repetir.
Com um salto ainda mais potente do que o primeiro, Hipólita voltou ao palco onde a Mulher-Maravilha ainda se colocava a frente de Cintia Becker, que estava sendo levantada e retirada dali pelos agentes de segurança do Partido Democrático.
“Hipólita, pare!!! Lembre-se do que conversamos!! Você não pode brigar com sua filha diante das TVs do mundo inteiro!!”
- Lamento, Dinah... Você não entende as amazonas. Isto é mais importante do que relações diplomáticas. – Após dizer estas palavras, Hipólita arranca o fone de seu ouvido, esmagando-o entre seus dedos, e encara sua filha – Então é verdade! Você está mesmo protegendo esta nazista... O que houve com você, Diana? Todo o tempo que passei falando do mal que essa laia perpetrou a humanidade foi em vão?? É desta forma que pretende continuar representando Themyscira no Mundo do Patriarcado??
- Mãe, não faça isso. Não importa o que você sente pelos nazistas, não posso permitir que faça mal a Cintia. A senhora tem razão, ela está sob minha proteção. Vá embora. Sei o que estou fazendo.
Ver Diana verbalizar o que considerou como ato de traição – não só em relação às amazonas e ao seu reino, mas principalmente em relação a ela, sua mãe – surtiu um efeito que não seria muito diferente se sua filha a tivesse esfaqueado pelas costas.
Com o olhar tomado de ira, Hipólita se projeta sobre a Mulher-Maravilha, agarrando seu pescoço com suas mãos. Diana é empurrada para trás, de encontro a uma parede que, devido à força do golpe, se racha com o impacto.
- Como... COMO SE ATREVE?!?!?
Praça Syntagma
Atenas
Grécia
Horas atrás
Custara um bocado de dinheiro e foi preciso pedir e exigir favores de diversos contatos que tinha na Ásia e na Europa através de suas duas carreiras, mas Thomas Fireheart descobrira quem era a misteriosa loura que vendeu na África o artefato que agora estava em seu poder. Seu nome era Juliette – ninguém parecia saber seu sobrenome - e durante algum tempo trabalhara como agente da antiga MI-6 inglesa [1]. Não foi surpresa descobrir para quem ela trabalhava agora.
Através de sua identidade mais conhecida – a de presidente do conglomerado Fireheart Entrepises, que sempre figurava entre os empresários mais influentes do mundo listados anualmente pela Forbes [2] – era fácil para o Puma circular pelo jetset europeu. Assim, após descobrir o destino do Gatotem, pegou seu jato particular e se dirigiu sem empecilhos a capital da Grécia.
Depois de se hospedar num dos hotéis mais caros da cidade, localizado na Praça Syntagma no coração de Atenas, Thomas Fireheart fez a cerimônia de transformação dos escolhidos da sua tribo, onde sua aparência se altera e seus instintos mais selvagens afloram. A seguir saiu pela janela de seu quarto e se deslocou por cima dos prédios, das casas e através de becos e ruelas pouco frequentadas em direção ao porto de Pireu, onde suas fontes lhe informaram estar o galpão da empresa de Hong Kong no qual o Gatotem estaria guardado pelos próximos dias.
Sabia que devia ter esperado o anoitecer para agir, mas confiava nos seus instintos e capacidade de se ocultar nas sombras. Além do mais o crepúsculo já se aproximava e a ansiedade esgotara com sua paciência. O Gatotem precisava ser seu o quanto antes.
O mais surpreendente era que, até poucos dias atrás, Thomas acreditava que o Gatotem não passava de uma lenda entre os arqueólogos, já que nunca se encontrou registros confiáveis de sua existência. Ele nunca tinha se interessado pela histórias que se contava sobre aquele ídolo. Isso mudara da água para o vinho depois que os olhos dele cruzaram com uma das versões do Gatotem, na África do Sul.
Thomas cumpria com uma das ordens de seu tio – o único homem que ele temia no mundo. Ele ordenara que o Puma interceptasse dois conhecidos contrabandistas no dia em que comprariam algo que ele precisava interceptar. A única coisa que o mercenário sabia era que os contrabandistas comprariam um objeto valioso, de grande caráter místico e que, segundo seu tio, era perigoso demais para estar circulando por aí.
Ao dar de cara com aquela versão do Gatotem, o Puma se surpreendeu ao ver que aquilo era mais que um símbolo: era seu avatar, a representação máxima daqueles que se envolvem com os felinos mais do que deviam. A surpresa foi ainda maior quando seu tio lhe falou que aquele era o objeto errado. O Gatotem que ele buscava não era incrustado de pedras preciosas nem era bonito e deveria estar ainda com aquele que vendera aos africanos aquela que era uma das versões criadas por um dos diversos povos da antiguidade que idolatravam e se digladiavam para possuir o verdadeiro Gatotem. Ao menos isso era o que dizia as lendas.
A partir de então, encontrar o verdadeiro Gatotem passou a ser seu único objetivo na vida. Objetivo que iria alcançar afinal daqui a alguns minutos.
Altes Museum
Berlin
Antiga Alemanha Oriental
Agora
Diana segura os pulsos de sua mãe, que pareciam querer esganá-la de verdade.
- Queria não estar viva para testemunhar esse momento. Minha própria filha... Só pode estar sob o jugo mental de alguém. Quem está te controlando??? DIGA!!
A Mulher-Maravilha conseguiu dobrar umas das pernas e aplicar um potente chute no estômago de Hipólita, afastando-a mais uma vez. A Rainha de Themyscira foi jogada de encontro a uma das pilastras do palco, fazendo com que parte do teto dele desabasse sobre as duas. Por sorte as outras pessoas que estiveram no palco já haviam se afastado com a briga e ninguém além delas duas se feriu.
A área do saguão próxima ao palco, que estava lotada até minutos atrás, se encontrava agora quase totalmente vazia, com os últimos retardatários que não haviam sido pisoteados pela multidão procurando fugir ou se esconder. As únicas exceções eram algumas das equipes de TV, que ainda procuravam registrar a batalha devastadora que acontecia entre mãe e filha, e Dinah Lance e Speed Saunders, que, ao invés de fugir, olhavam atentamente para o que ocorria no palco.
- Ver Diana ao lado dos nazistas foi demais para Hipólita. Preciso trazê-la de volta a razão.
- Calma, Dinah. As duas vão se entender. O clone do Caçador ainda está por aqui e se ele tem um décimo da sagacidade de Paul Kirk sabia que a Mulher-Maravilha estava protegendo seu alvo e procuraria agir de forma diferente desta vez...
- Speed, seus planos não me interessam! Kendra tem mesmo razão em te odiar! Você só pensa em nos manipular para conseguir o que quer! A vida daquela nazista não é mais importante do que impedir que duas de minhas amigas se matem!
- Mas, a memória de Paul Kirk...
- Paul Kirk está MORTO!! Seu legado é importante, mas não vale mais que a vida daquelas duas!! Diabo, Speed!! Ele era amigo da Hipólita, assim como você!! Acredita que o Caçador acharia seu legado mais importante do que a vida de uma amiga??
Speed hesitou, não conseguindo responder de imediato. Foi a deixa para Canário Negro deixá-lo sozinho e partir saltando em grande velocidade na direção do palco, onde as duas amazonas acabavam de sair debaixo dos escombros do teto e voltavam a se engalfinhar.
Byrne Park
Gateway city
EUA
Horas atrás
Quando Cassandra Sandsmark não passava de uma criança birrenta e mimada (alguns dizem que essas características continuam válidas para ela até hoje), sua mãe costumava levá-la àquele recanto de Gateway City nos fins de semana. Ali Cassie teve seus primeiros contatos com a natureza e extravasava seu gênio forte e sua energia perseguindo esquilos.
Isto porém acontecia em algum ponto num raio de dois quilômetros da entrada principal do parque. Desta vez ela levara a mãe a um dos locais do parque quase intocados pelo homem, na região de Giordano Hills. Ali existia uma bela e idílica cachoeira nas margens da qual Cassie sempre se dirigia quando estava em sua cidade natal e queria ficar em um local sossegado para pensar.
Aquele era a primeira vez que Cassie compartilhava seu cantinho de meditação com alguém. Algo lhe dizia que precisava estar em um local acolhedor para ouvir o que sua mãe tinha para lhe dizer.
- Fale tudo, mãe. Não me esconda nada, não sou mais criança.
- Eu sei, Cassie... Eu sei. – Helena acariciou o rosto da filha e deu um suspiro – Diana tinha razão. Não era apenas falta de fome ou falta de vontade de não interromper meu trabalho que me levava a ficar sem almoçar. Estou com câncer no estômago.
O rosto de Cassie permaneceu impassível, mas o tremor nas mãos e a falta de foco em seu olhar denunciavam seu nervosismo após ouvir aquelas palavras.
- Mas, mãe.... Como, como esses médicos podem ter certeza?? Um negócio assim não aparece de uma hora para outra!!
- E não apareceu mesmo. Os sintomas estavam ali, mas eu não dava a devida importância. O Dr. Sandulus confirmou que na maioria das vezes os primeiros sintomas são vagos e passam facilmente despercebidos: o fato de me saciar muito rapidamente, estar perdendo peso... E eu achei que estava ficando elegante.
- Pare, mãe!! Não brinque com isso!!
- Desculpe, querida. As vezes brincando com isso acho que podemos aceitar melhor estas coisas. Deve ser a idade.
- A senhora falou em primeiros sintomas... Então esse negócio ainda está no início, né?
- Não Cassie. Já venho sentindo esses sintomas há muito tempo. E, como o Dr. Sandulus disse, nunca me preocupei muito com minha a saúde e sempre adiava minhas consultas. Além disso, nunca falei desses sintomas com ele. Sempre acreditei que não eram nada demais.
Nesse momento Cassie interrompeu a fala de sua mãe, segurando-a no ombro e olhando-a nos olhos.
- Mãe... Isso tem cura, não tem?
Helena deu mais um suspiro antes de responder.
- Não sei, minha filha... Vai depender do resultado dos exames que fiz hoje e dos que ainda faltam fazer. Mas... Mas eu já vomitei sangue algumas vezes. O câncer não está no início.
As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto de Cassie. Ela fungava o nariz sem o menor pudor.
- Viu, mãe?! Viu?! Eu vi a senhora vomitando sangue! Por que escondeu isso?! Por que não ia almoçar comigo quando eu te chamava?! Como é que eu vou fazer se a senhora morrer?!?!
Helena abraçou sua filha, apertando-a contra seu peito, e começou a chorar também.
Altes Museum
Berlin
Antiga Alemanha Oriental
Agora
Diana saltara sobre sua mãe, procurado imobilizar seus braços antes que ela tentasse dominá-la novamente. Seu objetivo era chamar a atenção de Hipólita para si e permitir assim que Cintia pudesse ser levada por seus guarda-costas a um local seguro enquanto tentava acalmar a sua mãe. Ao descobrir a verdade sobre Cintia Becker mais cedo, incluindo seus objetivos, a Mulher-Maravilha teve certeza que opositores à volta do nazismo na Alemanha e no mundo iriam tentar impedir a ascensão da diplomata no jogo da política internacional européia, mas nunca passara por sua cabeça que sua mãe estaria entre os opositores dispostos a eliminá-la a qualquer custo – mesmo sabendo o quanto a Rainha das Amazonas era intolerante com nazistas.
Movida pelo que acreditava ser a paixão maior da Sociedade da Justiça – eliminar os nazistas da face do mundo – Hipólita se desvencilhou facilmente das mãos de Diana, jogando-a com um direito no queixo do outro lado do palco. Fazia mais de 50 anos que a ela aprendera a arte do boxe com Ted Grant, seu parceiro da SJA conhecido como Pantera, mas sempre continuara a praticar e estava em plena forma.
Naquele momento, para surpresa de Diana, Dinah Lance dá um último salto e pousou diante dela e de sua mãe no que restara do palco.
- PAREM!!! AGORA!!! Ficaram loucas?? Ainda não faço idéia do que está acontecendo aqui, mas vocês causaram um tumulto dos diabos! As garotas estão tentando conter a multidão, mas enquanto vocês continuarem se engalfinhando, vai ser difícil!
Canário Negro...? Garotas...? Mamãe não está aqui sozinha?
Uma rápida olhada em torno enquanto limpava o filete de sangue que escorria de seus lábios mostrou a Diana de que garotas Dinah estava falando. Não foi difícil para a Mulher-Maravilha reconhecê-las, mesmo sem que estivessem de uniforme. Afinal ela as encontrara antes nas lendárias reuniões anuais entre os membros da Liga e da Sociedade da Justiça e já pode vê-las em ação algumas vezes.
- Sideral e Mulher-Falcão...? Não entendo...
Naquele momento Diana percebera que se equivocara profundamente em seu julgamento. Ela não soubera da recente convocação de Hipólita para uma reunião da SJA onde os membros reservas como a sua mãe foram chamados [3], por isso não sabia que ela havia retomado o contato com a velha equipe. Uma coisa, porém era certa: Hipólita agindo sozinha era uma coisa - os antigos códigos de conduta amazônicos poderiam falar mais alto -, mas a Sociedade da Justiça jamais participaria de uma missão cujo objetivo fosse matar quem quer que fosse, não importa o mal que essa pessoa pudesse vir a causar.
Hipólita massageava seu próprio pescoço com umas mãos, como se quisesse colocá-lo no lugar, enquanto se aproximava calmamente da Mulher-Maravilha e da Canário Negro. Foi a sua mãe que Diana dirigiu a palavra.
- Se elas estão aqui, você não veio matar Cintia. O que vocês queriam?
- O mesmo que você – respondeu Hipólita, ainda encarando a filha com raiva nos olhos – Impedi-la de morrer. Mas, penso eu, por motivos bem mais nobres.
- Protegê-la? Mas então...
O significado era óbvio. O assassino ainda deveria estar por ali e a briga com sua mãe foi um equívoco que desviou Diana de seu dever de defender sua suplicante. Aquela altura, o acordo de Hiketeia já poderia ter sido quebrado.
Com um salto e a rapidez do vento, Diana deixa as surpresas Hipólita e Canário Negro para trás voando em direção a entrada do saguão, para onde se dirigira minutos antes Cintia Becker e seus guarda-costas.
Porto de Pireu
Atenas
Grécia
Horas atrás
Não foi difícil para o Puma encontrar o armazém do Porto de Pireu onde estaria guardado o Gatotem: era o mais vigiado deles. Ele poderia ter acabado com aqueles vigias com uma mão nas costas sem se sujar muito de sangue, mas optou por uma entrada discreta. Com seus dons felinos e o crepúsculo chegando ao fim aqueles vigilantes sem nenhum treinamento na selva jamais iriam perceber o mercenário se esgueirando nas sombras, pulando sobre telhados e entrando furtivamente em janelas altas onde um homem comum não conseguiria chegar perto sem uma escada ou equipamento de escalada.
Ao entrar no armazém, com um grande e amplo salão entulhado de caixas e um mezanino que circundava internamente toda a estrutura, Thomas Fireheart podia sentir no ar o quanto o gatotem estava perto. Seu cheiro impregnava o ambiente. Já era capaz de senti-lo em suas mãos. Agora seria uma questão de minutos.
Foi esta certeza absoluta da vitória e a ansiedade em encontrar o gatotem que o fez, um guerreiro obcecado como ele em ficar em estado de alerta constante, deixar ser pego de surpresa.
O Puma ainda se encontrava no mezanino quando escutou o estalido de um chicote quase ao mesmo tempo em que sentia o dito cujo envolvendo seu tornozelo esquerdo com uma lambida de dor. Um forte puxão procurou desequilibrá-lo, mas ele acabou se aproveitando do movimento para se lançar no ar, torcer seu corpo e quicar em algumas caixas caindo de pé lá embaixo – como era de se esperar de um gato.
Seus pelos se eriçaram e ele olhou na direção de onde deveria estar a pessoa que o atacou com aquele chicote. A escuridão do armazém não era empecilho para alguém com seu olhar felino. A pessoa estava onde ele imaginou que estaria: uma loura, usando uma minisaia e um tailleur azul, recolheu o chicote enquanto procurava se afastar pelo longo corredor suspenso.
Com um salto quase sem preparação e desafiando as leis da física, o Puma voltou a se projetar no ar e, com mais dois pulos, saltou sobre caixas e contêineres, retornando ao mezanino. Ninguém pegava um dos maiores mercenários do mundo de surpresa e saía por aí para cantar vitória. Logo ele se lançou sobre a mulher, que caiu no chão do corredor com o peso do Puma sobre si. Thomas não pretendia deixar espaço para conversar e já tinha estendido suas garras para dar cabo daquela atrevida, mais a loura sacou uma arma de algum lugar que o Puma não vira e atirou contra ele antes que concluísse sua ação. O Puma conseguiu se esquivar sendo levemente ferido de arranhão em um dos ombros, enquanto a loura elegante se levantava e voltava a correr.
Mais indignado ainda com o ultraje daquela mulher, Thomas se encolheu e saltou na direção dela, já com as garras de suas mãos estendidas, prontas para estraçalhá-la quando chegassem em seu corpo. Mas sua trajetória foi interrompida por alguém, vindo não se sabe de onde, que lhe aplicou certeiro em seu fígado um chute típico dos grandes mestres de wushu, jogando-o contra a parede do armazém. Mal caiu no chão, bastou um piscar de olhos para o Puma estar novamente de pé, procurando entender o que aconteceu.
Um homem de altura e porte atlético consideráveis estava de pé diante dele, usando um termo que, mesmo no escuro, Thomas Fireheart identificou pelo seu corte impecável como sendo da Giorgio Armani ou de Dolce & Gabbana. O homem acabara de tirar a gravata e desabotoara os dois botões superiores da camisa social que usava por baixo do paletó, que já estava com os botões abertos.
Aquele devia ser um excepcional lutador de artes marciais. Já seria mais do que louvável que ele pudesse Puma com um certeiro golpe de wushu naquele exíguo espaço do mezanino – devia ser adepto de um estilo de Neijia, a escola interna. Agora, fazer isso no escuro, sem suar – sem aparentemente sequer alterar a sua respiração – e sem que o Puma percebesse sua aproximação? Antes daquela noite o mercenário achava que aquilo fosse impossível.
Para tomar a iniciativa do confronto, que aparentemente seria inevitável, o Puma se projetou para frente sem pensar, dando o bote com suas garras estendidas na direção do estranho bem vestido. Foi uma reação impulsiva e instintiva desenvolvida em anos e anos de treinamento. Seu avô dizia que o Puma nunca pode ser pego de surpresa e que deve sempre treinar para agir sem pensar no assunto, sem dar tempo para seu oponente dar o primeiro golpe. O intuito da ação era rasgar com suas garras a caixa torácica do oponente e arrancar seu coração.
O Puma, porém, ficou ainda mais surpreso do que já estava. Seu oponente conseguira se esquivar de seu golpe quase totalmente. Não sofrera nenhum arranhão, mas as garras de Fireheart alcançaram seu paletó e sua camisa social, que ficaram em frangalhos na altura do peito.
- Ora, ora... Eu já ia tirá-las. Também estavam me incomodando.
Em algum canto de sua mente, o Puma registrou o sotaque do estranho como sendo do norte da China – isso explicava seu conhecimento de wushu, a milenar arte marcial chinesa conhecida erroneamente no ocidente pelo nome de kung fu. O homem com terno bem cortado retirara o que restara de seu paletó e de sua camisa com um gesto rápido de prestidigitador, lançando-os lá embaixo.
Naquele momento as luzes do armazém começaram a se acender e o Puma pode ver claramente o rosto de seu oponente e seu torso nu.
As técnicas de luta, o apuro para o combate e o sotaque davam uma vaga idéia ao Puma de quem era aquele homem. Mas as suspeitas do mercenário só se concretizaram quando ele viu a grande tatuagem que estampava o peito de seu oponente. Nunca o encontrara antes, mas sua fama era lendária.
- Shen Kuei. O Gato.
- Isto mesmo, Thomas Fireheart. Este grande gato tatuado em meu peito sempre foi o meu cartão de visita.
Altes Museum
Berlin
Antiga Alemanha Oriental
Minutos atrás
A distância entre o palco e a saída estratégica do grande salão do museu onde aconteceria o malfadado reencontro de Cintia Becker e o público eleitor da Europa através das imagens das redes de TV não era tão grande: não chega a 20m metros. Mas a diplomata estava cercada de mais e uma dezena de seguranças do Partido Democrático, que tudo estavam fazendo para impedir a aproximação dela de quem quer que fosse, por isso quase estavam tropeçando nas próprias pernas.
Cintia não entendia o que estava acontecendo. Na realidade estava à beira de um ataque de nervos, por isso não estava conseguindo raciocinar muito bem. Apenas seu bem-estar a preocupava naquele momento. Já havia sofrido outros atentados depois que sua relação com o nazismo foi escancarada na mídia, mas nunca se sentira tão frágil ou tão pequena como na frente daquela mulher que saltara diante dela no palco, minutos antes. Aquela era uma Mulher-Maravilha sobre a qual não tinha nenhum controle e que parecia considerá-la nada mais do que um verme que merecia estar esmagado sob seu salto alto. Ainda bem que, aos trancos e barrancos, os seguranças a estavam tirando dali, procurando levá-la a um local seguro.
A diplomata escutara um forte estrondo e olhara para trás a tempo de ver o teto do palco desabando sobre aquelas poderosas mulheres que se engalfinhavam e pareciam dispostas a lutar por ela até a morte. A idéia de seu Mestre de ter a Mulher-Maravilha como sua protetora nunca lhe pareceu tão boa quanto naquele instante.
A saída do salão estava a poucos passos e Cintia se permitira respirar mais aliviada quando percebeu que um dos guarda-costas de repente estacou sem conseguir tirar os olhos do palco atrás deles. Foi uma questão de sorte: Cintia só percebera porque coincidentemente olhava em sua direção naquele momento. Apesar do excesso de ruídos e do falatório entre os outros seguranças, ela entendeu perfeitamente o que ele falou para si mesmo no instante seguinte:
- Droga. Não vou poder esperar até sairmos do salão.
Cintia se virou novamente na direção do palco para ver o que chamara atenção daquele guarda-costas e pode ver a princesa Diana decolando do meio dos escombros, voando em sua direção. Então ela escutou o grito de agonia de um de seus seguranças.
A seguir tudo lhe pareceu ocorrer em câmara lenta. Era como se ela estivesse fora de seu corpo, vendo um filme em que fosse uma das protagonistas.
Na realidade, a vítima fatal pouco antes de morrer.
Cintia virou seu rosto em direção aos gritos. Um dos seguranças teve seu corpo projetado para cima pelo impacto de uma grande e poderosa lâmina que atravessara seu tronco e surgira esguichando sangue pelas suas costas. O som de tiros tomava conta do ar enquanto corpos de dois outros seguranças caíam sem vida, aparentemente trespassados por balas.
Alguns guarda-costas simplesmente estacaram sem conseguir sair do lugar, surpreendidos com a violência inesperada da cena, perpetrada por alguém que parecia ser um deles. Dois seguranças, ainda impulsionados pelo dever, procuraram ficar diante de Cintia, usando seus próprios corpos como escudo enquanto tentavam sacar suas armas. Três deles se lançaram sobre o atacante com a intenção de contê-lo a todo custo, o que atrapalhou a mira de dois outros, que já tinham sacado suas armas. A confusão era tamanha que, se atirassem, provavelmente acertariam um de seus companheiros.
A tentativa daqueles três porém, foi inútil. Duas shurikens, em formato de pequenos discos recheados de pontas, se projetaram rodopiantes atingindo de forma certeira os pescoços de dois dos seguranças ainda em pleno ar, fazendo cortes profundos e deixando em sua passagem um rastro farto de sangue. A dor e a surpresa os fizeram perder a direção no meio de suas trajetórias, caindo longe de seu objetivo, de forma agonizante. O terceiro homem conseguiu alcançar o assassino, apenas para receber em sua barriga a imensa lâmina que ele carregava, penetrando-o de forma tão forte que partiu sua coluna.
Cintia nunca vira uma máquina de matar como aquela estranha e gigantesca faca. Era uma katar de lâmina dupla, também conhecida como adaga bundi. Um instrumento mortal de origem indiana, com uma grande lâmina triangular e empunhadeira na base, que permite utilizá-la como se fosse uma extensão do braço. Ela é usada desde a antiguidade para matar bois e executar pessoas com rapidez e silêncio.
A única coisa que a diplomata pode se perguntar, após ter certeza que a Mulher-Maravilha não chegaria a tempo de salvá-la e antes de começar a gritar desesperada e sem controle, era como aquele homem conseguira esconder a imensa lâmina sob o uniforme de segurança.
Elevada há tão pouco tempo ao posto de predadora pelo jogo político que participava, naquele momento Cintia Becker era apenas uma presa desprotegida que parecia irremediavelmente fadada a cair nas garras letais do Caçador.
CONCLUI NA PRÓXIMA EDIÇÃO!!
A seguir: O eletrizante final da saga! Diana contra o Caçador! O confronto do Gato com o Puma, decidindo o destino do Gatotem! E a Mulher-Maravilha continuará submetida a Cintia pelos laços da hikateia?
Notas dos Autores:
[1] – MI-6 é a sigla da antiga denominação do SIS (Secret Intelligence Service), o departamento do governo britânico encarregado de dirigir as atividades de espionagem e contra-espionagem fora do país. MI-6 é a abreviatura de Military Intelligence Section 6.
[2] – A Forbes é uma das revistas americana semanais de negócios e finanças – está entre as mais conceituadas do mundo. Suas listas anuais de pessoas mais ricas e influentes costumam pautar as mídias de todo o planeta.
[3] – Hipólita e os demais membros reservas da Sociedade da Justiça da América foram convocados para uma reunião extraordinária da equipe, que começou a ser contada na edição #13 das histórias da SJA aqui na Quadrim – o início da saga “Seis Graus de Separação”. Esta aventura se passa logo após aquele arco.
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