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 Justiceiro 69 - O Homem de 60 Milhões de Dólares: CHEGA DE SER BONZINHO
JusticeiroSe você achava que o Justiceiro era impiedoso, saiba que, até agora, ele estava pegando leve. A perseguição a Frank Castle atinge outro nível, pois criminosos metahumanos também estão interessados nos 60 milhões de dólares. Enquanto isso, Slade Wilson chega a Nova Iorque em grande estilo. Neste episódio acompanharemos mais do passado trágico do Exterminador na África.

Janeiro / 2010


JUSTICEIRO
Capítulo 69

CHEGA DE SER BONZINHO
O Homem de 60 Milhões de Dólares - Parte IV

Por Henrique JB


O velho pôs as mãos no rosto. Estavam pálidas, trêmulas, hesitantes. Elas estudaram o relevo procurando identificar a face de seu dono, uma vez que este não mais reconhecia a si próprio. Aquelas mãos... O que fizeram? Ele se horrorizou ao perceber, aos poucos, o que elas foram capazes de realizar, animadas por alguma força demoníaca.

O sujeito olhou ao redor. Piscou para apurar a vista nas trevas que inundavam a rua sombria. Luzes amareladas pontilhavam aqui e ali, vindas de postes na calçada. Ele enxergou casas com cercas, quintais, grama malcuidada. Um terreno baldio. Portas e janelas gradeadas. Lixo empilhado numa caçamba. Um bueiro transbordando. O vento fez uma folha de jornal voar do meio-fio. Longe, cachorros latiam insistentes.

Porém, o idoso nada enxergou que ajudasse a esclarecer o que diabos um pobre coitado como ele — um quase moribundo, seu corpo um campo de batalha arrasado pela guerra entre o câncer e a quimioterapia — fazia ali de madrugada.

Não viu nada que explicasse também a presença das outras 55 pessoas no local.

O homem sentiu certo alívio ao entrever o rosto familiar na multidão. Os dois se aproximaram, afoitos, preocupados. Não houve abraços. Nenhum deles sabia o que falar. E de qualquer forma, seu relacionamento nunca fora afetuoso mesmo, apesar de serem pai e filho.

Os outros eram completos desconhecidos. Havia homens e mulheres. Eram diversos na compleição física, na etnia, uma amostra da população de Nova Iorque. A maioria, razoavelmente trajada. Outros porém estavam sujos, rasgados, como se tivessem se envolvido em briga de rua.

Todos sofriam torpor, confusão, despertos de algum lisérgico sonho coletivo. No entanto, os objetos que tinham em mãos estavam longe de ser fruto da imaginação. Tábuas, barras de ferro, paralelepípedos, garrafas, cacos de vidro.

O idoso vítima de câncer — Roger Denkins era seu nome — carregava uma faca de cozinha. Seu filho, Richard - conhecido nas ruas como Big R - esticava um arame farpado.

O longo segmento de metal estava escorregadio. Gotas vertiam por ele e caíam no asfalto. A outra extremidade, presa. Ele seguiu com os olhos o caminho que o arame indicava. Foi preciso tatear, pois ali a escuridão era mais profunda, como se o negrume que alagava a rua emergisse daquele ponto. Encontrou as hastes de um portão de ferro, encimado por pontas de lança, emoldurando a silhueta de uma casa tétrica.

Alguém usou o aparelho celular como lanterna e iluminou debilmente o local. Big R praguejou, em seu linguajar chulo, mas nem conseguiu formular a frase completa. Todos se voltaram para a cena - e tomaram consciência da hedionda realidade que se havia perpetrado naquela noite.

Havia um homem. Cabeça tombada para a frente. Sangue pingando dos cabelos, lavando o rosto disforme por equimoses. As mãos, espetadas no topo do portão. Os braços, abertos em V para cima. O peso do corpo, sustentado pelo arame que dava voltas entre as barras do gradil. As roupas, totalmente negras, reduzidas a trapos, expondo sua nudez lacerada pelas farpas. Os pés, suspensos no ar. As pernas tinham desvios improváveis, sugerindo que ossos foram quebrados. A pele vermelho-arroxeada exibia uma coleção de marcas, contusões, abrasões. Plasma rubro gotejava da virilha, de onde seu membro fora decepado.

Essa era a cruel verdade. Aqueles cidadãos o haviam linchado.

Atônitos. Horrorizados. Sem palavras. Um caiu de joelhos, outro rezou, alguns viraram o rosto, a maioria permaneceu sem ação.

Um homem veio de trás da turba. Passou entre eles, que abriram caminho, e andou direto para a vítima retalhada, sem desviar o olhar da cena dantesca. As pessoas o seguiram como se hipnotizadas por sua imponente presença.

Instintivamente, elas sabiam: ali estava o responsável por sua desgraça. Ali estava quem os manipulara, quem os libertara das amarras da civilização para, ao menos por um momento na vida, cederem livres aos instintos mais bestiais.

O homem mergulhou os dedos enluvados na cabeleira do cadáver. Ele ergueu a macabra face sem vida, e se surpreendeu ao encontrar lascas de madeira preenchendo as órbitas. Fragmentos de dentes e lábios inchados formavam um sorriso gutural.

Até que ponto o ódio podia reduzir um ser humano a uma... uma coisa, ele refletiu.

O sujeito ergueu uma faca.


O dedo no gatilho avançou lento, gradativo. Fez-se um ruído seco e a mola foi acionada. A agulha espetou o fundo do cartucho feito um minúsculo martelo. Esse impacto, tão sutil, liberou de uma só vez toda a energia armazenada na composição química da pólvora. Gases incandescentes sopraram em alta velocidade pelo cano. A bala girou graciosamente ao sabor das ranhuras internas, até voar livre no espaço. O projétil atravessou cabelos, osso e massa cerebral, a língua de fogo surgindo do outro lado em minúsculas fagulhas carmesins.

Por mais que estivesse acostumado, Slade Wilson ainda se espantava com a beleza daquele fenômeno.

Já fazia dois meses, desde a emboscada que massacrara o lendário Jean Marie Baptiste. O único africano a liderar soldados de aluguel estrangeiros na guerra civil do Zaire. O homem que o povo dizia ter corpo fechado.

Na mesma escaramuça, uma explosão colhera Slade. O americano vagara a esmo na selva, mais morto que vivo, até ser socorrido por civis, dias depois. Suas memórias eram nebulosas. Só tinha certeza de duas coisas. Sabia que nesse período ele invadira uma festa ou algo parecido e matara um homem. E havia uma negra de quem lembrava claramente, vestido branco longo, pulseiras e colares dourados, cigarro na boca, com uma risada sinistra.

Desde então, muita coisa mudara. Wilson fora alçado à posição de segundo em comando da força mercenária no Zaire. Tiveram vitórias expressivas a partir daí. Seu chefe, Ulysses Klaw, mais conhecido como O Belga, não estava nada feliz com a presença de Slade. Afinal, ambos foram responsáveis pela traição que derrubara Baptiste e quase acabara com Wilson também. Porém, este deixara de lado o desejo de se vingar de Klaw em troca do almejado posto de Jean Marie.

A maior mudança para Slade Wilson, porém, foi mais... pessoal. Os ferimentos que deviam tê-lo matado na emboscada cicatrizaram totalmente. Mais tarde, ele sobrevivera a uma rajada de fuzil à queima-roupa. O americano ocultou dos colegas esses fatos perturbadores, já que ele próprio não compreendia o que estava acontecendo.

E não era só isso. Mesmo tendo um olho só, ultimamente sua percepção das coisas atingira um nível sobre-humano. O fenômeno ocorria em momentos de perigo ou de tensão. Slade presumia que tivesse algo a ver com adrenalina, mas ele não era médico, não tinha como saber. De fato, Wilson agora conseguia enxergar o rastro de ar quente deixado por balas. Era capaz de calcular com precisão distâncias, trajetórias, quase instantaneamente. Percebia movimentos e sons na mata de longe. Percebia coisas sutis como variações na respiração dos outros, farfalhar de roupas, ranger das peças de uma arma... Para ele, um cérebro explodindo parecia um inebriante espetáculo de luz e tons variantes de vermelho. E havia muitos outros "efeitos especiais" bastante úteis na sua linha de trabalho. Era exaustivo. Assustador. Fascinante.

A revolução estava praticamente extinta. Parte do êxito se devia à contratação de um temido facínora chamado Roald Bushman. Ele era famoso pelo apelido de Cabeça da Morte, por causa da máscara de caveira que tinha tatuada no rosto. Bushman iniciara uma campanha de dissuasão — melhor dizendo, de terror — junto à população. O fato era que boa parte dos civis colaborava secretamente com o inimigo, dificultando o combate por parte das tropas regulares. Mas à medida em que surgiram pessoas enforcadas à noite em praça pública, os rebeldes deixaram de receber proteção, alimentos, informações e, principalmente, novos recrutas para repor os que tombavam. Com isso as manobras chefiadas por Slade foram capazes de fechar o cerco até sufocar os guerrilheiros.

Havia boatos sobre a existência de focos de oposição embrenhados na floresta. Se fosse verdade, era possível que, com o tempo, arregimentassem forças para um novo levante. Wilson estava decidido a caçá-los até o último homem.

O oficial mercenário largou o braço do negro. O corpo sem vida caiu pela porta lateral aberta do Huey, um rastro de sangue esguichando do crânio, indo em queda livre para as árvores que se estendiam até onde os olhos alcançavam. Aquele homem fora um mateiro experiente, grande conhecedor da região. Diante de sua recusa em revelar o esconderijo dos rebeldes, ganhara um túmulo na mesma selva onde passara toda a vida. Tivera o mesmo destino que o filho adolescente, jogado por Slade pouco antes.

Talvez eles não tivessem mesmo a informação para dar. Ou quem sabe nem existissem mais rebeldes a caçar. Slade estava obcecado.

Os três outros soldados de aluguel no helicóptero se entreolharam. Wilson permanecia de pé à porta da aeronave, vento no rosto, pistola na mão, fitando o vazio. Dois dos homens presentes estavam com Slade desde o início da campanha, quando Jean Marie Baptiste ainda era o líder. Agora não reconheciam mais o colega de batalha. A guerra estava vencida. Porém seu chefe agia como um desesperado, perseguindo fantasmas. Seus atos eram cada vez mais erráticos, imprevisíveis, brutais até mesmo para os padrões daqueles matadores. Alguns chegavam a temer que ele perdera o juízo.

Um dos que acreditavam nessa hipótese se chamava Marc Spector. Era o único outro americano entre a força multinacional de mercenários. Talvez por isso, sentisse uma ponta de identificação com Slade. Ele percebeu que o comportamento do tenente mudara a partir do assassinato de uma prostituta. Depois daquela noite, Wilson pareceu fora de controle em algumas ocasiões. Como por exemplo na noite em que ordenou que chicoteassem um sentinela que dormiu em serviço. Ou então quando mandou cortarem os dedões dos pés de um soldado que estuprara uma camponesa, arruinando a carreira civil de jogador de futebol dele.

No entanto, para Spector estava claro que ninguém ousaria tirar o homem do comando. Wilson era um guerreiro formidável, isso não se podia negar. Ele se arriscara na linha de frente de uma maneira que oficial algum faria. Também desfrutava de boa reputação perante a junta militar que governava o país.

O único que poderia tomar uma providência era o superior hierárquico de todos eles. Mas O Belga não parecia interessado em ajudar Slade. Não era segredo que os dois se tornaram desafetos, fosse lá por qual motivo. Era mais provável que Ulysses Klaw abrisse uma cerveja e sentasse para assistir à derrocada do outro - ainda que a situação pusesse a vida de colegas em risco.

Apesar da vitória recente, o moral estava baixo. Na mesma medida, crescia o respeito da tropa por Roald Bushman. O sanguinário soldado de aluguel contava com o apoio do Comandante-em-Chefe, Klaw. Para Marc, estava óbvio que o Cabeça da Morte almejava tomar o lugar de Slade. Mas faltava uma oportunidade, uma falha irrefutável, para derrubar o tenente.

O UH-1 Iroquois Huey contornou ágil uma montanha, retornando ao quartel do exército que abrigava os mercenários. O sol estava baixo, pintando o horizonte de vários matizes. O brilho do astro-rei em ângulo baixo ofuscou por um momento a vista dos paramilitares.

— O súc... O súcubo... — Slade balbuciou.

Os passageiros viram Wilson estender o braço para fora da aeronave. Músculos retesados, a face transtornada num misto de surpresa e raiva.

Marc esquadrinhou a paisagem em busca do que quer que tivesse atraído a atenção do tenente. Percebeu alguma coisa branca em meio à folhagem densa lá embaixo.

Seu pensamento foi interrompido pois Wilson começou a disparar contra as árvores. Era obviamente inútil atirar àquela distância com uma pistola. O piloto se voltou, assustado, perguntando o que estava acontecendo. Slade gritava impropérios. A munição acabou num instante.

Marc se alarmou ao ver o tenente soltar os dedos da porta. O tenente ia pular! Instintivamente, Spector agarrou o pulso do homem.

Num piscar de olhos, o soldado americano se viu pendendo do lado de fora do helicóptero, as solas das botas apoiadas no esqui da aeronave. A única coisa que o impedia de despencar era a mão férrea de Slade Wilson em seu colarinho.

— O QUE VOCÊ QUER COMIGO?? O QUE VOCÊS QUEREM, FILHOS DA PUTA DESGRAÇADOS??? — o oficial berrou.

— ME BOTA DE VOLTA, WILSON! — Marc se esforçou em manter o sangue frio, a voz sob o ruído dos rotores. — FICOU LOUCO?

— Louco? LOUCO??
— Slade ecoou, olhos esbugalhados, vítreos, a face pálida e suarenta. — Quer dizer que EU sou louco? Miseráveis... PAREM DE ME PERSEGUIR, TODOS VOCÊS!

— Vai fazer o quê, me largar? Pois então vai logo, seu doido do caralho! Me joga e vai encarar uma maldita corte marcial!!
— Marc Spector, agarrado ao punho do outro, sustentou o olhar insano com um desafio, talvez por coragem ou talvez por desespero. — Agora quer matar um companheiro de batalha por nada? Quer entregar o comando de bandeja pro Bushman, é isso??

Slade ficou congelado ali, segurando Marc, que urrava em protesto sem resultado.

Súbito, o tenente ergueu Spector no ar com um braço. O soldado estremeceu ao ver as hélices se aproximarem rápido de seu rosto, revolvendo-lhe os cabelos, a ventania arrancando lágrimas dos olhos.

Wilson largou o aterrorizado mercenário no piso do helicóptero.

Os outros dois apontavam as armas para o oficial. Eram seus companheiros de luta, mas agora o viam como uma ameaça. Marc se encolheu junto à parede traseira da aeronave. Slade encarou um por um. Sua expressão não mostrava sinal de racionalidade.

O tenente apenas se sentou no chão, sem falar nada, ignorando-os. O piloto acelerou para chegarem logo à base.

O Huey aterrissou, erguendo uma nuvem espessa de poeira no crepúsculo. Spector relatou o ocorrido ao comandante Ulysses Klaw. O Belga convocou os oficiais da força mercenária e foi pessoalmente ao local. A notícia se espalhou, a força paramilitar entrou em polvorosa. Slade nada alegou em defesa. Ele foi preso.

Marc não se deu conta, mas por trás do turbilhão de uniformes militares que os cercava no momento em que algemaram o tenente, ele viu de longe uma mulher vestida de branco no quartel.


— Orgulhoso?

— De quê?
— ele se fez de desentendido.

— Ora... Disso tudo. — ela gesticulou com a mão para o ar. — Do fato de você estar aqui, comigo, neste carro, numa missão tão importante. Do prestígio que conquistou com ele.

— Ah! Isso.
— Slade ironizou, meio distraído. — É apenas o justo reconhecimento por um trabalho muito bem feito.

— Um trabalho bem feito... Sei!
— Mercy Graves caiu na provocação. — Olha só, já vi entrarem naquele gabinete ministros, políticos, chefes de Estado estrangeiros, líderes comunitários nacionais... Gente que determina o destino de países!

— É mesmo?
— o Exterminador tirou os olhos da interlocutora, sentada diante dele, e casualmente apreciou a paisagem da ponte Washington pela janela da limusine. Sua imagem refletida no vidro, com um olho só, o encarou de volta. — E você não acha possível que o presidente esteja simplesmente satisfeito com meu trabalho, e por isso tenha me escolhido pra esse serviço?

— Você é um mero subalterno. Um criminoso conhecido pela população. E que passou por cima da autoridade da sua superior no projeto Esquadrão Suicida.

— Cuidado...
— o Exterminador alertou.

— Até entendo que tenha sido aceito para uma audiência a portas fechadas com o presidente. — Mercy apontou, desconfiada. — Mas não dá para entender por que ele escolheu justamente você, bem mais afeito a trabalhos sujos, para uma tarefa que vai gerar tanta... exposição.

— Talvez seja tudo uma questão de humor negro por parte de Luthor.
— Slade reagiu, sem perder o tom irônico da voz. — E desde quando isso é da sua conta?

— Wilson, deixe eu esclarecer uma coisinha...
— ela sentou na ponta do banco, o batom rosa desenhando um sorriso, como se falasse a uma criança. — Eu sou Diretora Assistente do Escritório de Operações de Proteção desde o início deste governo. São 12 divisões, mais de 2.300 funcionários, totalmente voltados para garantir o bem estar do presidente dos Estados Unidos da América. Entendeu? Participamos da elaboração da agenda, do planejamento das viagens, verificamos trajetos, horários, trânsito, previsão do tempo...

— Imagino porque você nunca se casou.
— o mercenário interrompeu, fazendo pouco caso.

— Então, você me acha uma chata? Uma intrometida? Pois bem, minha função como membro do Serviço Secreto é essa mesma. E garanto que qualquer assunto que interfira na segurança de Alexander Joseph Luthor é, sim, do meu interesse. — ela frisou bem as últimas palavras. — Não gosto de segredos que possam pôr em risco quem eu protejo. E, definitivamente, não gosto de você.

— O que está te incomodando, Mercy?
— Wilson alfinetou. — Está irritada porque existem assuntos que Luthor não confia nem a você? Será que está... com ciúmes?

— Sou uma profissional de...

— Você acha mesmo que tem credenciais pra assumir o posto que ocupa? Devem existir mil funcionários de carreira no Serviço Secreto mais capacitados, com curso de aperfeiçoamento, MBA, condecorações e tudo mais! Ele te colocou nessa função porque acha que você não é capaz de denunciar as sujeiras que acontecem no Gabinete Oval.
— o Exterminador se alterou pela primeira vez. A bela mulher recuou sob a postura agressiva do outro. — Você é um bibelô, Mercy! Um enfeite pra impressionar os visitantes. Um capacho de Luthor, isso sim. Sempre foi, desde os tempos em que era guarda-costas dele na Lexcorp. Só que agora esse capacho tem o selo presidencial impresso, como se fosse a marca da mão dele tatuada na sua bunda.

— SEU DESGRAÇADO!


A mão da garota foi bloqueada antes de bater no rosto dele. O criminoso apertou o pulso da guarda-costas.

— Me diz uma coisa, Mercy...

— Ai! Me larga, seu estúpido...
— a mulher rangeu, tentando não transparecer fraqueza.

— ...você está com ciúmes do Luthor... ou de mim?

Ele soltou o braço da mulher. Ela massageou o punho dolorido, e pensou em várias possíveis respostas, mas resolveu permanecer calada. O bandido continuou admirando o desenho dos arranha-céus se projetando no firmamento. Teriam que passar muitas horas juntos durante este trabalho. E o começo não poderia ter sido pior. Mercy Graves era muito séria em seu ofício, não por causa do profissionalismo, mas por uma espécie de devoção que alimentava por Lex Luthor. Ela o defenderia até do Super-Homem, se fosse possível. E a guarda-costas farejava em Slade um aliado traiçoeiro. No entanto, ambos tinham suas ordens. Preferiram não levar a discussão adiante. Mas o silêncio dentro daquele carro ficou sufocante.

O motorista bateu com os nós dos dedos na placa de vidro opaco que o separava dos passageiros. Era o sinal de que haviam chegado ao destino.

A limusine estacionou. Slade Wilson fez um gesto para que a garota saltasse primeiro. Mercy Graves respirou fundo e saiu, confiante, em uma combinação sóbria de saia e paletó curto. O mercenário a seguiu, vestindo terno e gravata.

Estavam no Centro Cívico de Nova Iorque. Diante deles se erguia imponente o edifício da prefeitura, construído em 1812 e considerado um marco histórico nacional. O resto da comitiva da Casa Branca desembarcou das outras viaturas. Todos adentraram pela porta reservada a autoridades. O Exterminador e os outros foram recebidos no grande saguão por um assessor municipal, que os encaminhou pelo elevador privativo até a reunião com o prefeito.


Uma silhueta espreitava numa esquina sombria do Queens. Ela esquadrinhou com os olhos a rua obscura. Deserta. O imenso olho prateado da lua era a única testemunha à vista. A forma emergiu, revelando um jovem robusto de camiseta sem mangas e tatuagem tribal no braço. Nas mãos, um rolo de arame farpado.

No outro extremo da via, uma mulher se esgueirou por uma parede decorada por grafiteiros. Estava vestida como uma executiva, cabelo arrumado, tailleur e saia cinzas. Manejava uma tábua com pregos. Atrás dela vinha um senhor de aparência frágil, trêmulo, faca de cozinha em punho. E havia outro. E mais outro.

Assim, uma a uma, pessoas brotaram da escuridão. Surgiam entre lixeiras e carcaças de carros abandonados, atravessavam quintais, pulavam cercas. Os cães da região latiram em coro, porém tamanho alarde era inútil, pois os moradores, acuados em seus lares, não ousariam abrir suas janelas gradeadas naquela noite maldita.

Era uma cena estranha, e mesmo quem a visse de relance perceberia que algo sinistro estava em andamento. Cerca de 30 pessoas caminharam lentamente rua abaixo, ocupando o asfalto e as calçadas. Nenhum automóvel surgiria ali. Escravos posicionados na outra via garantiriam que o trânsito fosse desviado. O grupo arrastava ferros e madeiras.

À frente da misteriosa trupe vinha um homem. Ele acabara de desembarcar sozinho de um vistoso carro esporte — um Lamborghini Murciélago. Confiante, dominador, era seguido pelos outros sem dizer palavra. Vestia calça e casaco pretos. Seu rosto era magro, de expressão vil, a pele brilhosa como se esticada sobre o crânio, e com uma inusitada tez violeta.

De todos os cantos, homens e mulheres convergiram para o mesmo ponto — um casarão antigo, com ar de abandono, cercado por um muro com portão de ferro. A multidão se deslocava lenta e em silêncio, determinada, impossível de deter. Parecia algo saído de um filme de George Romero.

Uma grande sombra se aglomerou ao redor da casa, amorfa, móvel, cada pedaço somando força ao coletivo. O cerco se fechara. Mais de cem olhos brilhavam na noite, fitando a residência de quem consideravam um inimigo mortal.

O submundo do crime da cidade estava em polvorosa nos últimos dias. Boatos corriam de que Frank Castle, o Justiceiro, tinha se apossado de 60 milhões de dólares, dinheiro de um magnata do contrabando. Criminosos de toda espécie partiram para uma caça ao tesouro.

Encontrar o Justiceiro era, obviamente, um trabalho e tanto. Há anos ele vagava feito uma lenda urbana, executando uma violenta cruzada solitária. Nova Iorque era o habitat natural daquele predador. Sua estratégia mais bem sucedida era se esconder na multidão. Frank Castle não tinha superpoderes, traje ou veículos chamativos... Era apenas um rosto a mais no vaivém das calçadas da metrópole. Seus esconderijos, iguais a tantos outros lugares comuns da cidade. O Executor de Assassinos era basicamente um guerrilheiro urbano, hábil em efetuar ataques-surpresa rápidos e mortíferos, para em seguida desaparecer nas ruas da maior cidade dos Estados Unidos.

Mas no caso, localizar o alvo era apenas parte do problema. Outro desafio era capturá-lo — e com vida, o que era bem mais difícil. Sim, porque todos queriam saber onde estaria a suposta fortuna que Castle roubara — morto, ele não seria capaz de fornecer tal informação.

Restaria, por fim, arrancar a verdade sobre o dinheiro. Para os homens que estavam em seu encalço, tortura seria a primeira opção a ser considerada. No entanto, era preciso levar em conta que Frank Castle era um ex-Fuzileiro Naval, veterano de guerra e membro condecorado das Forças Especiais. Dobrar a força de vontade do Justiceiro não seria tarefa para amadores — havia o risco de ele morrer sem revelar o segredo.

No entanto, nada disso era empecilho para o Homem-Púrpura.

Zebediah Killgrave era um ex-espião. Traiçoeiro. Manipulador. Egocêntrico. Psicopata.

O mais importante era que seu corpo tinha a capacidade de excretar feromônios que induziam as pessoas ao redor à obediência cega.

Com seus conhecimentos e poderes, seria questão de tempo até ele achar alguém que tivesse uma pista do paradeiro de Frank. Killgrave encontrara esse alguém. Seu nome era Richard Denkins. Nas ruas, era conhecido como Big R. O rapaz já fora membro de gangue, viciado e assaltante. Isso foi antes de seu caminho cruzar com o Justiceiro. Sua vida fora poupada em troca do fornecimento regular de informações. O dinheiro do vigilante custeara o tratamento médico do pai do jovem, Roger Denkins, um ex-estelionatário vítima de câncer.

Na semana anterior, Castle entregara ao rapaz um número de celular para contato. Como não podia deixar de ser, Richard, escravizado pelo Homem-Púrpura, contou tudo. Usando seus contatos no ramo da espionagem, Killgrave providenciara uma triangulação que apontou aquele endereço como sendo o esconderijo do Justiceiro.

Zebediah formulara um plano bem à altura de sua perversidade. Ele entrou num vagão do metrô e ordenou a todos lá dentro que o seguissem. Agora ali estava, cercado por 56 cidadãos inocentes. Eles serviriam de escudo humano. Frank Castle era um oponente formidável em combate, mas como poderia reagir contra agressores que não têm consciência de seus atos? Killgrave estava curioso para ver a resposta. De qualquer forma o bandido era bastante experiente e, por via das dúvidas, usava um colete leve à prova de balas.

A casa permanecia silenciosa, as luzes apagadas, com exceção de um quarto superior. Apenas alguns metros separavam o Homem-Púrpura de 60 milhões de dólares... A um comando de seu mestre, a multidão se voltou para ouvir as instruções.

— Vocês e vocês aqui... — ele determinou, falando baixo. — Fiquem comigo. Na minha frente. O resto... — fez um gesto largo para a maioria. — Vão! Ataquem! Mas lembrem-se: quero ele vivo. Tragam-no para mim!

O grupo avançou feito uma onda que se abateu contra o muro. Alguns conseguiam escalá-lo passando por cima dos outros. Mas o progresso foi lento demais para aplacar tal fúria. Dezenas de mãos agarraram o portão, empurrando e puxando. Músculos humanos vergando ferro. As pontas de lança se curvaram. Dobradiças cedendo no reboco. Soldas se desprendendo. Uma das grades tombou, com estrépito. Eles entraram como um rio de gente. A invasão da casa foi completa. Portas, janelas, paredes, tudo foi destruído. O barulho era impressionante.

O Homem-Púrpura aguardava na rua, não sem satisfação ao assistir ao hipnótico espetáculo. Uma dúzia das vítimas permaneceu à frente, protegendo-o. O ruído do quebra-quebra foi diminuindo.

Killgrave observou com ansiedade seu séquito retornar, desordenado, ruidoso. Ele esperava ver Frank tragado nos braços da horda. Talvez houvesse feridos, até mesmo mortos, mas isso era irrelevante para o criminoso.

Zebediah simplesmente perguntaria onde a fortuna estava escondida. Sua voz de comando era irresistível, mesmo para alguém como o Justiceiro. Depois de obter dele o segredo, ordenaria que aquelas pessoas o fizessem em pedaços. Ele podia obrigar o vigilante a se matar, claro. Mas seria óbvio demais. Killgrave se considerava um homem de estilo, principalmente em termos de iniqüidade. Gostava da idéia de fazer cidadãos comuns - cidadãos como muitos que já foram salvos por Frank Castle - sujarem as mãos de sangue, e terem que lidar com a culpa pelo resto da vida.

Um negro usando roupas de basquete trouxe-lhe não o que ele queria ver, mas o que precisava saber.

Um aparelho roteador. Um maldito roteador!

Uma dor afligiu o Homem-Púrpura. Ele levou as mãos ao pescoço. Seu sangue espirrara no rosto de uma jovem garçonete, aspirante a atriz, os olhos azuis brilhantes fitando o mestre.

Atônito, Zebediah olhou em volta e encontrou nos rostos a mesma expressão de surpresa. Ele girou. A primeira coisa que viu, atrás de si, foi a marca branca da caveira. Em seguida, divisou a faca com a qual sua garganta fora aberta. Seus olhos subiram para encontrar uma face oculta sob uma máscara de gás.

"MATEM! MATEM!!!", o malfeitor apelou em altos brados, apontando para a figura vestida de preto que atacara pela retaguarda.

O que as pessoas escutaram foi um gorgolejar rouco, grunhidos sem significado.

O facínora se deu conta de que fora atraído para uma cilada. Quando Frank dera ao informante um número de telefone, imaginava que alguém acabaria conseguindo essa pista. Ele contava com isso. E não era difícil supor que o Homem-Púrpura era quem tinha mais chances de chegar primeiro. Na verdade, Castle alugara duas residências naquela rua. A primeira, o casarão abandonado, com o roteador redirecionando as ligações, serviria como isca. A outra, logo em frente, seria o ponto de observação para o vigilante ficar de tocaia, usando o telefone celular rastreado. E a máscara que tornara Frank imune aos feromônios exalados pelo criminoso.

Agora Zebediah sentia o peso da bota de Castle em seu peito. Desesperado, o homem caiu tentando segurar a ferida, estancar o sangramento. Ele clamou novamente a seus escravos para salvá-lo. O comando pareceu ser compreendido, pois dúzias de mãos avançaram na noite para erguê-lo.

Libertas do poder irresistível do Homem-Púrpura, aquelas mentes se viram subitamente sem direção, sem ordem, sem norte. Suas personalidades, seus princípios, há pouco suprimidos em função da vontade de um psicopata, não voltaram à tona de imediato. Havia um lapso. O que restava em seus espíritos naquele instante era essencialmente emoção. Sentimentos privados de censura. Privados de limites. Mas que dispunham de um foco: Zebediah Killgrave.

O suplício levou vários minutos. O golpe no pescoço não o matara rápido. O objetivo era seccionar suas cordas vocais, só isso. Mas a morte veio e o eximiu da dor excruciante que lhe proporcionavam. Mesmo assim, durante aquele longo extravazamento da angústia escrava o corpo de Killgrave foi horrendamente vilipendiado, da maneira como ele o fizera com os corações e mentes daqueles transeuntes, trabalhadores, gente de família, pagadores de impostos, tementes a Deus.

O Justiceiro não tentou impedi-los. Ele disse a si mesmo que seria perigoso — para ele e para as vítimas — intervir. Mas talvez não fosse essa sua motivação. Talves ele achasse que as pessoas necessitavam daquela oportunidade de retribuição. Para não passarem o resto da vida se sentindo vítimas. Para terem consciência de que puderam fazer alguma coisa a respeito, e definitivamente o fizeram. Para que houvesse uma espécie de equilíbrio no universo... uma espécie de justiça.

Depois que a situação se acalmou, Frank retirou a máscara de gás e foi até Zebediah. Os cidadãos o fitaram, buscando em sua figura o comando que obtinham do ditador morto, tão essencial para eles quanto a droga para um viciado. Castle avaliou o cadáver pendurado na grade remanescente do portão. Encontrou chaves de carro e do que parecia ser o cofre de um banco. Em seguida, ergueu sua afiada Ka-Bar.

A lâmina abriu através da faringe, pacientemente, de baixo para cima. Foi preciso cortar fundo para alcançar a ligação da raiz com o osso hióide. Castle fez secções na epiglote, palato mole, mandíbula, freio lingual, e sua mão ficou banhada em sangue. Ao final, extraiu o longo músculo esquelético pela boca do Homem-Púrpura.

Cabeça de Martelo era o apelido de um antigo mafioso da cidade. Embora não fosse tão importante quanto o Rei, ele sempre ocupara lugar de destaque na hierarquia do crime. A força de sua gangue era digna de cautela. O vigilante sabia que Cabeça de Martelo enviara homens às ruas no seu encalço. Castle mandaria então um recado para o líder criminoso, via correio, para desmotivá-lo da perseguição — a língua de Zebediah Killgrave.

Ao se voltar, o Executor de Assassinos se deparou com o público daquele assustador procedimento cirúrgico. Entre eles, Big R, Richard Denkins, o jovem que deixara a delinqüência por medo de morrer. E ao lado dele, Roger Denkins, o estelionatário condenado à morte pela natureza de seu corpo doente. Frank sabia que era a primeira vez em muitos anos que ambos se uniam. Um reencontro de pai e filho numa noite de horror. Um momento fugaz, pois a dura realidade logo se impôs.

— O Homem-Púrpura descobriu que você era meu informante. Outros também já devem saber, ou vão ficar sabendo em breve. — Castle asseverou ao rapaz, entregando uma sacola com notas de mil dólares. — Nunca mais volta pra Nova Iorque.

Frank não aguardou resposta. Também não deu nenhuma aos confusos cidadãos. Agora que recobravam a consciência, algum deles chamaria a polícia. Ele caminhou rua acima. Na esquina, encontrou o Lamborghini Murciélago do falecido Zebediah Killgrave. A chave personalizada funcionou perfeitamente.

— Peraí, você não pode... não pode ir embora assim. — a garçonete suplicou, a trilha de gotas de sangue ainda manchando seu rosto delicado. Outros a acompanharam. — Depois do que aconteceu hoje... Me diz: e agora? O que a gente faz?

O Justiceiro deu a partida. O motor rugiu suave.

— Vocês seguem com suas vidas. É só o que podem fazer. — o vigilante sentenciou. E desapareceu nas ruas da maior cidade dos Estados Unidos.

Posted on Wednesday, January 27 @ 00:00:00 BRST by Henrique_JB
 
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