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 Batman 46 - Origens Secretas Parte 3 - Herança Genética
Batman

O confronto decisivo entre o Cavaleiro das Trevas e o Mercenário! E como a Caçadora reagirá diante das revelações feitas por Bruce Wayne?





Mercenário.

Outras identidades conhecidas: Benjamin Poindexter, Lester Poindexter, Leonard Poindexter. Assassino profissional, psicopata, homicida. Apesar de não ter poderes, o Mercenário pode transformar praticamente qualquer objeto num projétil letal. Ele pode se sair bem com armas, como shurikens ou katanas, mas não deixa a desejar quando recorre ao improviso.

O tipo de facínora em que eu adoraria colocar as mãos se tivesse a oportunidade.

Ironicamente, a oportunidade se apresentou esta noite. O desgraçado está em Gotham.

Mas ele teve o elemento surpresa ao seu lado e está prestes a me matar, contratado por Vito Bertinelli. O mafioso matou a repórter Amanda Perkins, uma das únicas pessoas no mundo que tinha provas de que Bruce Wayne pode ser o pai de Helena Bertinelli.

Helena é a Caçadora. Ela está aqui comigo, agora.

E, a menos que eu faça alguma coisa, o Mercenário vai matar ela também.


- Então, esse é o famigerado Batman... Não estou impressionado. Mas, se o Bertinelli tivesse me dito que o trabalho incluía matar você, eu teria cobrado um adicional.
- Mercenário... Seu idiota! Mate o Morcego!
- Não se preocupe, enrugado. Você me contratou pra ser o seu guarda-costas e pode ter certeza que dou conta do recado – disse o criminoso, aproximando-se da Caçadora. – Vou matar o Morcegão e cuidar dessa coisinha linda pessoalmente...

O Mercenário a puxou pelo cabelo, aproximando-se do rosto dela e prestes a lhe dar uma lambida. A Caçadora, contudo, não estava fora de combate. Deu uma violenta cotovelada no nariz do maníaco.

Se tivesse mirado no queixo, poderia ter feito ele morder a língua, mas o sangue desceu farto pelo nariz dele, exatamente o efeito que ela desejava.

- Já entendi, sua puta... Você gosta com violência, não é?

O próximo gesto dele teria sido bater o rosto dela no chão, seguidas vezes, até que ela perdesse a consciência e fosse uma vítima fácil para sua selvageria.

Mas o Cavaleiro das Trevas não estava fora de combate.

Num rápido movimento, ele puxou o Mercenário de cima da Caçadora, arremessando-0 contra uma parede do outro lado do quarto. Não pretendia ficar parado vendo aquele psicopata matar sua...

... filha?

Pensamentos demais. Dúvidas demais. Tudo que ele não deveria ter levado para a batalha, as preocupações, os dilemas.

Sua própria filha.

Uma fração de segundo de hesitação poderia se mostrar fatal contra uma gangue de criminosos comum, mas contra o Mercenário era o mesmo que flertar com a morte.

E o Mercenário não pretendia desperdiçar a chance.

Usando o plugue da tomada de um abajur como chicote, ele conseguiu “laçar” o pescoço do Batman e, com um forte tranco, o colocou de joelhos a seus pés. Em seguida, pisou e chutou o mais forte que pôde. Foi tudo muito rápido. Batman estava prestes a perder a consciência, mas a Caçadora não estava fora de combate. Usando sua besta, ela disparou uma flecha em direção a cabeça do Mercenário. Ele deteve a flecha com a mão, que atravessou sua palma.

- Garota – ele disse, lambendo o ferimento – Por você, eu sou capaz até de dar um desconto...


A Quadrim apresenta:
Batman – o Detetive Encapuzado!
Por Raul Kuk


Origens Secretas
Conclusão: Herança Genética
Batman criado por Bob Kane, com Bill Finger e Jerry Robinson


Em um grande jornal de Gotham:

- Que diabos é isso?
- Não sei, acabou de chegar. Sem remetente, sem destinatário.
- O correio não faz entregas tão tarde da noite.
- De onde só podemos concluir que...

Os dois repórteres olharam para o envelope pardo, considerando as alternativas. Ataque terrorista, ataque do Coringa, trote, pista falsa... Podia ser qualquer coisa. Em Gotham, toda hipótese devia ser considerada.

A coisa certa a ser feita seria chamar a polícia para que o Esquadrão Anti-Bombas e a Equipe Anti-Terrorismo pudessem examinar o volume. Mas nenhum jornalista em Gotham City gostava de perder tempo com a polícia.

A burocracia, a lentidão e a corrupção da polícia, por si só, eram motivo de sobra para deixar qualquer receio de lado e abrir o envelope ali mesmo.

E foi o que fizeram.

Dentro, havia fotos de Bruce Wayne, ainda jovem, na Europa, em companhia de Carmella Panessa. Havia um diário, onde a jornalista Amanda Perkins contava que descobrira o romance entre os dois, a viagem secreta pela Europa. Até aí, nenhuma novidade.

Tudo aquilo tinha sido publicado anos atrás.

A coisa ficava realmente interessante no diário de Perkins quando ela afirmava ter sido paga por Bruce Wayne para sair de Gotham e se instalar na Europa, “para sua própria proteção”. O diário conta como ela não acreditou, achando que Wayne queria apenas abafar o caso. Semanas depois, ela conta que descobriu que seu apartamento em Gotham tinha sido revirado e antigos colegas de trabalho tinham sido ameaçados.

O diário também contava como, nove meses depois do affair entre Wayne e Panessa, nasceu uma menina, Helena.

Carmella Panessa já era a Senhora Guido Bertinelli, mas as datas descritas por Perkins faziam sentido.
Ela estava morta, mas se certificou de que a notícia vazasse assim que alguma coisa acontecesse com ela.

Obviamente, Bruce Wayne não era o culpado. Ele tinha tentado proteger Perkins e, apesar de ser um perdulário, nunca se envolvera com algo dessa magnitude. O diário deixava isso bem claro. Wayne não tinha medo da verdade, mas sabia que Perkins tinha se tornado um alvo.

Tinham um escândalo bastante interessante em mãos.

Envolvia o “filho favorito” da cidade, a máfia, um romance proibido e uma paternidade duvidosa.

Era bom demais pra ser verdade!

- E aí?
- “E aí”, pergunto eu! A coisa está bem documentada, mas não há provas. O Wayne pode acabar com a gente.
- É, mas vai saber pra quantos jornais a Perkins conseguiu mandar isso?
- Burra ela não era. Ela praticamente isenta o Wayne de qualquer crime que ele possa ter cometido. Aparentemente, ele é o pai da bebê Bertinelli, mas ficou na dele por causa da máfia.
- “Bebê Bertinelli”? Ela deve ter a idade da minha filha!
- Que ótimo, mais uma pra processar a gente.
- É, só que, se a gente publica, eles vão ter que se manifestar de alguma forma.
- Eles? Por que eles? Se nós publicarmos isso, nós é que teremos de provar o que diz aí.
- Eles que processem a Amanda Perkins. Não vamos publicar uma reportagem sobre o Wayne ou sobre a garota. A Perkins foi assassinada. Vamos publicar o diário dela.
Ou talvez soubesse e tivesse perdido isso.

A dupla de repórteres sorriu, maliciosamente.


- Fique longe dele!
- Seu namorado? Morceguinho tarado... Mas ele não é um pouco velho pra você?
- Apenas o suficiente pra te dar uma surra, desgraçado!

O upper do Cavaleiro das Trevas desequilibrou o Mercenário. A voz sombria e cheia de fúria o atingiu com tanta violência quanto o murro. O Mercenário tinha a reputação de ser um dos assassinos mais perigosos do mundo, mas o Batman...

O Batman era uma lenda por si só.

Uma máquina de lutar, que nunca parava, nunca desistia.

O vilão sentiu isso na pele, a cada golpe.

Caído no chão, com uma massa de músculos prestes a esmagá-lo sob o peso de luvas de couro que já tinham derrotado todo tipo de criminoso. Em seu desespero, precisou recorrer ao seu mais antigo golpe:

O improviso.

Alcançou um pequeno tapete no chão e o golpeou no ar como se fosse um chicote. O estalo atingiu em cheio os olhos do Detetive Encapuzado, que precisou se afastar para não ser estrangulado. O Mercenário continuava atacando, enquanto o patriarca da família Bertinelli buscava uma arma que pudesse encerrar a contenda.

- Nem pense nisso – disse a Caçadora, com a besta apontada para sua cabeça.

Aquele homem era seu avô, a menos que a versão do Batman para seu nascimento estivesse correta. Já tinha visto aquele homem ser cruel e amoroso, vingativo e paternal, sujo e carinhoso.

No fundo, não o conhecia. Não sabia o que o movia, qual era seu propósito no mundo. Se disparasse uma flecha na cabeça dele, estaria ajudando a fazer do mundo um lugar melhor. Era um mafioso, responsável por centenas de mortes e, enquanto continuasse vivo, seria responsável por muitas mais.

Podia atravessar a cabeça dele e fazer do mundo um lugar melhor.

Podia correr atrás da verdade sobre quem realmente era, sem se importar com Bruce Wayne ou com o que ele dizia. Podia descobrir por si só. Podia fazer da Caçadora a combatente do crime que sempre imaginou.

Inclemente.

Mas será que era realmente isso que queria para si? Era realmente assim que se via? Ao olhar para aquele homem velho de coração duro, se perguntou o que realmente a separava dele. A máscara? A motivação, os objetivos?

Para o Batman, tudo era muito maniqueísta.

Preto no branco.

Heróis e vilões.

Ele estava errado?

E se, em sua desesperada tentativa de ser mais como ele, estivesse perto de se tornar alguém como Frank Castle? Quem realmente saberia dizer quem merece morrer e quem merece viver?

O Batman podia estar errado em seus julgamentos. Podia estar deixando criminosos viverem. Contudo, se ele matasse e estivesse errado, sua vítima nunca teria outra chance. Talvez aquele velho, que ela não via como seu avô, precisasse da oportunidade de não ser morto para mudar seu rumo na vida.

A chance, ela sabia, era mínima.

Valia a pena tentar?

O Mercenário estava castigando o Batman, com violentos golpes do pequeno tapete na cabeça e na virilha. Apesar de sua resistência à dor, não poderia agüentar aquilo por muito tempo. Começou a golpear às cegas, tentando afastar o Mercenário.

Um erro.

Ele não precisava estar perto para infligir dano.

Apanhando um cinzeiro sobre a cômoda, acertou um golpe violento na cabeça do herói. Apanhou, então, um abridor de cartas – um punhal – e se aproximou para terminar o serviço.

- Primeiro, você. Depois a morceguinha.
- Mercenário – ela o interrompeu. – O nome é Caçadora.

E o atingiu com uma flecha na axila.

Não era um ponto vital, mas doía bastante. Era a oportunidade que o Batman precisava para colocá-lo a nocaute. Com os punhos ensangüentados, aproximou-se de Don Vito e disse, em alto e bom som:

- A polícia estará aqui em minutos. Confesse o assassinato de Amanda Perkins e os atentados contra Bruce Wayne e sua neta. Ou eu juro que volto pra terminar o que comecei.

Helena sentiu um calafrio.


Mansão Wayne, manhã seguinte:

- Como sabe que ele vai mesmo confessar?
- Não costuma falhar.
- Eu sei, mas e se ele disser que você invadiu a casa dele?
- Então eu volto.
- Você levou o Mercenário pro Gordon. Por que não levar ele também?
- O Mercenário é um criminoso procurado, o Bertinelli, não.
- Mas ele podia confessar se você o levasse...
- Prefiro ele encolhido, aterrorizado, esperando a polícia chegar.

Aquelas palavras a impressionavam. A frieza com que as dizia, com que aterrorizava os criminosos. Para ele era tudo muito natural. Sentiu vontade de gritar com ele, de jogar na cara dele que jamais o chamaria de pai. Então, por um instante, Helena se deu conta de que não sabia como chamá-lo.

- O que foi, Helena?
- Você sabe. É você. O que eu faço agora? Te dou um abraço e te chamo de “papai”? te chamo de Bruce? De senhor Wayne? De Batman?
- Eu não tenho as respostas para essas perguntas, Helena. Mas talvez nós possamos descobrir juntos.
- Não. Isso, não. Eu preciso descobrir sozinha. Se aquela jornalista não tivesse sido morta por causa do seu segredo, você teria me contado? Se não estivessem tentando me matar por algo que você fez quando era mais novo, você teria revelado sua identidade pra mim?
- Eu não sei.
- Bem... Obrigado por não mentir. Porque se você dissesse que sabe o que teria feito, seria mentira. Você teve toda minha vida pra fazer isso. Minha mãe está morta há anos e, mesmo assim, você nunca tentou se aproximar de mim. Não como Bruce Wayne. Ao invés disso, eu tive o Batman no meu pé, me criticando, me humilhando, se colocando contra mim. O que o Asa Noturna, o Robin e a Batgirl têm que eu não tenho? Deus do céu! Até a Salteadora já trabalhou com você! A Salteadora!
- Helena, não adianta...
- Tem razão. Não adianta. Nada disso adianta. Eu nunca vou saber, não é mesmo? Você esteve nas sombras, me ajudando secretamente durante toda a minha vida adulta. Nunca me faltou emprego, nunca me faltou nada. O que era mérito meu e o que era a sua consciência culpada tentando consertar o passado? Como vou saber se qualquer coisa na minha vida é real ou apenas um fantasma de um passado que só conheci agora? Tente se colocar no meu lugar. Eu rejeitei a herança de minha família, neguei tudo que a máfia me ofereceu e, de repente, eu descubro que o meu lugar podia ter sido ao seu lado. Ao lado de Bruce Wayne, ao lado do Batman. Eu acho que sou mesmo sua filha, sabia? Porque o fruto não cai muito longe da árvore e todas as escolhas que fiz até hoje me trouxeram pra perto de você. Mas eu preciso saber o quanto essas escolhas foram realmente minhas, você entende? Eu preciso me arriscar no mundo, porque agora estou com a impressão que toda minha vida foi uma grande mentira... Como é mesmo o nome daquele filme do Jim Carrey... “O Show de Truman”, você já assistiu? É assim que me sinto agora. Observada durante toda a minha vida, manipulada pra não encontrar a verdade. Mas agora eu preciso sair. Eu preciso ir lá pra fora. Você já esteve em uma “cruzada espiritual” antes, pra descobrir qual o seu papel no mundo, para “se encontrar” como Batman? Pois é a minha vez agora.

Helena tinha lágrimas nos olhos enquanto falava, mas sua voz não falhou nenhuma vez.

- Eu não sei o que é ter uma vida normal. Nunca soube o que é ter uma família normal. E, quando achei que tinha encontrado um propósito no mundo, uma motivação, você fez eu me sentir a pior pessoa do mundo. Indigna. Incapaz. Eu teria que ser muito orgulhosa pra dizer que você não teve nada a ver com isso mas, como qualquer pessoa que usa máscara, eu me espelhava em você. Eu queria aprovação. Você me colocou na Liga apenas pra me expulsar depois. Não houve votação. Você me expulsou, como me manteve expulsa da sua vida desde que eu nasci. Obrigada por não me interromper dizendo “ah, mas você ia matar um homem”. Eu não preciso ser lembrada dos meus erros. Eu só preciso saber porque fui tratada como a pior pessoa do mundo a usar máscara e uniforme.

O táxi chegou. Ela guardou as malas e continuou falando, sem olhar para ele.

- Você perdeu sua família há tanto tempo que não lembra mais como é fazer parte de algo que não envolve máscaras? Pense bem. Eu não esqueci como é. Eu vou sair de Gotham e não sei se vou voltar. Preciso descobrir se há lugar pra mim no mundo, se há um mundo esperando por mim lá fora. E preciso fazer isso sozinha. Preciso descobrir qual a minha identidade. Qual o meu propósito. Descobrir isso, da pior maneira, destruiu todas as minhas expectativas. Eu preciso descobrir quem eu sou e, então, descobrir quem é você. Talvez, quando esse dia chegar, talvez eu volte. Mas não espere por mim. Não fique no meu caminho. Pela primeira vez na vida, eu preciso descobrir sozinha. Você ficou em silêncio durante toda minha vida então, por favor, continue em silêncio agora.

- Helena, eu...

Ela entrou no táxi, que partiu em direção ao portão da Mansão Wayne. Ela não olhou para trás. Não hesitou.

-... eu sinto orgulho de você, filha.

Mas ela já estava longe, longe demais para ouvir.

Posted on Friday, January 22 @ 23:12:11 BRST by Raul_Kuk
 
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