Kimota! Ao pronunciar a palavra, Mick Moran, o retraído colega de Peter Parker, se transforma em Miracleman! Mas... Quem ele é? E como o Espetacular Homem-Aranha poderá aplacar sua sede de vingança?
- Eu sou Miracleman.
Foi a última coisa que Peter ouviu antes de Moran sair voando pelo teto. Miracleman. Então, seu colega de trabalho era um super-herói (do qual nunca tinha ouvido falar antes), parecia bastante poderoso e tinha acabado de matar um homem. Peter tinha que detê-lo. A qualquer preço.
A questão era como. Não podia voar, e o tal Miracleman já devia estar longe. Mesmo assim, tinha que tentar. Após se certificar de que as câmeras de segurança tinham sido destruídas, pulou para o telhado, através do rombo que o Miracleman fizera ao levantar vôo. Era seguro trocar de roupa ali. Sob plena luz do dia, o uniforme do Homem-Aranha surgiu em cores vivas.
O Sentido de Aranha disparou. À sua direita, não muito longe dali, um furgão disparava em alta velocidade, os pneus cantando em desespero. Um risco dourado cortou o céu em direção ao furgão. Era o Miracleman, voando em alta velocidade. Certamente, o invasor do laboratório tinha cúmplices. Estavam esperando por ele e, como ele não voltou nem respondeu ao rádio, resolveram se mandar ao ouvir o som de sirenes.
E isso atraiu a atenção do novo herói de Nova York.
Sem hesitar, o Homem-Aranha o seguiu, balançando com suas teias entre os prédios, o mais rápido que podia. Era rápido o suficiente pra alcançar o furgão em poucos minutos, mas Miracleman voava a uma velocidade impressionante. Conseguiu alcançar os fugitivos em poucos segundos!
Valendo-se de sua força, ergueu o furgão e o rasgou ao meio, derrubando quatro assustados criminosos no asfalto. Arremessou longe os pedaços do furgão e, sem dizer uma só palavra, desceu em direção a um deles, os punhos cerrados, pronto para estmagá-lo.
Por uma fração de segundos, o Homem-Aranha conseguiu salvar o infeliz, puxando-o com sua teia. Miracleman se chocou com o asfalto, abrindo uma enorme cratera. O Homem-Aranha prendeu o criminoso com sua teia em um poste, enquanto prendia os outros três no chão.
Miracleman apenas o encarava.
- Er... Oi?
- Esses homens são criminosos!
- Olha, concordo. Mas não precisa matar os caras, ok? A polícia vai investigar o que esses caras fizeram – continuou o Aracnídeo, pendurado num poste. – Daqui pra frente é com eles, você se saiu bem. Que tal se a gente deixasse de lado os clichês e conversasse um pouco, só pra variar?
- Eu adoro um bom clichê – respondeu Miracleman, com um sorriso demoníaco. E investiu contra o Homem-Aranha furiosamente.
A Quadrim apresenta:
O Espetacular Homem-Aranha!
Por Raul Kuk

O Poder da Palavra
Segunda Parte: O Confronto
Homem-Aranha criado por Stan Lee e Steve Ditko
A Balística pode ser qualquer coisa, menos uma ciência linear. Desde que Galileu e Newton demonstraram que, sob a ação da gravidade, a trajetória de qualquer corpo deixa de ser retilínea para ser parabólica, muitos estudos, fórmulas e equações foram criados para a interpretação dos movimentos.
Mas não é só isso.
A Balística se divide em três categorias. Quando o projétil é disparado, até o momento em que deixa o cano da arma, é chamada de Balística Interior. Baseia-se na temperatura, volume e pressão dos gases dentro da arma, bem como no formato da arma e do projétil. Já a Balística Exterior estuda o que acontece entre o momento em que o projétil deixa a arma até o instante em que atinge o alvo. O estudo aerodinâmico tenta encontrar a relação entre o movimento do projeto e o ar que o envolve, considerando calibre, formato, massa, velocidade inicial e rotação.
Finalmente, a Balística Terminal estuda a interação entre os projéteis e seus alvos. Ou o que quer que tenham atingido.
A Balística Terminal envolve muitas formas empíricas, porém estudos teóricos também são considerados para tentar descobrir quem atirou de onde e utilizando o quê.
Já os alvos dividem-se em duas categorias: os duros e os moles.
Alvos duros podem ser armaduras, tanques e até coletes a prova de balas.
Alvos moles podem ser animais ou seres humanos.
Marianne Potter odiava esse último tipo.
Sempre que transcrevia as equações, estudos de movimento, fórmulas e teorias de Balística, perguntava-se quanta dor a vítima sentiu – e por que nenhuma fórmula levava isso em consideração. A energia, o calor, o impacto... E o crânio em cima de sua mesa continuava morto, impassível, indiferente, com um buraco de quase trinta milímetros na sua têmpora.
Queria poder perguntar como foi, qual a sensação...
Quem atirou.
Mas sabia que ficaria traumatizada se ele pudesse responder. Tomou o crânio em suas mãos, mas não conseguia examinar o furo da bala. Ao invés disso, olhou atentamente para as órbitas vazias, pensando o que aqueles olhos teriam visto antes de se fecharem para sempre.
Um chute na porta a fez pular de susto, quase derrubando o crânio.
- Stacy! Você ficou doido?! Isso é jeito de...
- Potter, é o Parker! Teve um tiroteio lá no laboratório da Lakesmere!
- O que!? Ele...?
- A gente não sabe, tem um carro indo pra lá. Você vem, ou...?
Desnecessário perguntar.
Correram acompanhando as viaturas da polícia. Mari sabia que Peter era o Homem-Aranha... mas também sabia que seu namorado não era à prova de balas. Se tivesse mesmo ocorrido um tiroteio com ele envolvido, as coisas podiam ficar feias.
Não demorou muito para chegarem ao laboratório. Contudo, tiveram que manter distância – a perícia só entraria no prédio depois que os policiais se certificassem de que não havia ameaça.
- Quando vamos poder entrar, Stacy?
- Você sabe como essas coisas podem ser demoradas, Stacy. Tente se acalmar.
- Mas e se...
Antes que pudesse terminar a frase, um policial se aproximou deles:
- Tudo limpo lá dentro. Podem entrar.
- Corpos? – perguntou Mari, apreensiva e com medo da resposta.
- Sim, de alguns seguranças e do invasor.
- Dois peritos tinham vindo pra cá mais cedo.
- Não sei quem são, mas não estão aqui. Nem vivos, nem mortos.
Mari quase teve tempo de se sentir aliviada. Foi quando o carro da viatura em que estava deu o alerta:
- Tumulto entre dois super-seres no centro! Homem-Aranha e super-ser não identificado! Todas as unidades...
- A gente tem que ir pra lá!
- Potter, a gente é da perícia. A gente fica na cena onde o crime ocorreu, não onde está ocorrendo. O Parker sabe disso, ele não iria pra lá.
- Hmmm. É. Tá.
Tudo que Marianne teve a fazer foi esperar Stacy dar as costas e entrar no laboratório. Pegou o carro e saiu em disparada para o centro.
Miracleman investiu furiosamente contra o Homem-Aranha. Mesmo com o Sentido de Aranha e sua agilidade, foi por muito pouco que conseguiu se esquivar do ataque, deixando seu super-poderoso antagonista destruir o poste em que estava.
- Moran! Pense! Você não é assim, cara! Não precisa fazer isso!
A resposta veio na forma de uma nova série de ataques, forçando o Aracnídeo a dar uma série de saltos mortais para trás. A cada ataque que terminava no asfalto, Miracleman atacava novamente e continuava golpeando, tentar atingir o herói.
O Homem-Aranha sabia que, assim que ele acertasse um único golpe, a luta estaria encerrada.
Tentou todas as suas táticas: teia nos olhos, bater e correr, arremessar objetos... Tudo. Qualquer coisa. Estava enfrentando alguém que parecia ser páreo até pro Superman. O que o Superman faria numa situação dessas?
O que o Batman faria?
Queria que o Bruce estivesse aqui, pensou. Ele sempre sabe o que fazer.
Infelizmente, isso estava fora de cogitação. Precisava se virar sozinho. Precisava conter Moran antes que fosse morto, antes que ele destruísse a cidade inteira.
Mas espere...
Moran não estava interessado em destruir a cidade!
Ao se dar conta disso, se viu preso pelo mortífero abraço do Miracleman.
- Estou farto de você, Homem-Aranha!
- Moran... Peraí... Vamos conversar...
- Farto, ouviu bem?
- Eu tou do seu lado...
- Você nunca mais vai ficar no meu caminho...
Sentiu uma costela se partir. Teve medo de que ela perfurasse o pulmão e engasgasse com o sangue. Em uma fração de segundo, se deu conta de que não precisava se preocupar com isso.
Ia morrer esmagado pelo Miracleman, não engasgado.
Num último e desesperado esforço, usou suas teias para puxar o poste que Miracleman derrubara logo no início da luta. Felizmente, a própria elasticidade da teia ampliou sua força ao puxar. A ponta do poste metálico atingiu em cheio a nuca de Moran.
Se fosse um homem comum, teria a cabeça destruída pelo impacto.
O poste caiu, já totalmente destruído, ao lado de Miracleman. Foi apenas o suficiente para que ele afrouxasse o mortífero abraço, dando ao Homem-Aranha tempo pouco mais que suficiente para escapar.
- Moran... Pense! Eu não sei o que está acontecendo com você, mas você não é assim! Resista, cara! Você é um policial, um bom homem! Sua esposa...
- Eu...
- Você é casado! Seu nome é Michael Moran, é perito da polícia! Você mora...
- Como sabe?
- É você quem tem de se lembrar disso!
- Eu... aquele homem... ele ia me matar...
Está dando certo, pensou o Homem-Aranha.
- Ele ia matar o... Parker?
- Puta merda...
- O Parker...?
- Ele está bem! Ele está bem!
- Bom... Bom, eu... Eu não queria que... ele...
- Tá tudo bem, Moran... Tá tudo bem...
- O que foi que eu fiz?
Antes que tivesse a resposta para essa pergunta, Miracleman foi atingido por um potente disparo de fuzil. Nada do que o Homem-Aranha tentou surtiu efeito. Não seria um fuzil da polícia de Nova York que se sairia melhor.
- Seu... verme... traiçoeiro!
- Eu vou matar esse guarda...
Mas Miracleman não ouviu o chiste. Apenas investiu contra o Homem-Aranha, culpando-o pelo ataque. Achou que fosse uma armadilha. Estava cego pelo ódio, e seus recém descobertos poderes pareciam afastá-lo do Mick Moran que Peter Parker conhecera meses atrás, ao entrar para a polícia.
Ainda com a mão na costela partida, Peter se perguntou quantas vezes não vira essa cena se repetir com o Hulk. Quando ele estava quase se acalmando, alguém cometia um erro e enfurecia ainda mais o monstro. Ele só parava de destruir quando se acalmava, o que podia levar horas.
Dias.
Não tinha tanto tempo assim.
Começou a revisar o que sabia sobre o Miracleman: era rápido, forte, invulnerável, podia voar e não tinha nenhum respeito pela vida humana. A propósito, era bom dar ênfase no rápido. Estava avançando como um raio e, na fração de segundo que Peter tinha para se afastar, ficou cansado daquele jogo. Resolveu bater com tudo que tivesse. Ia descer a porrada num cara capaz de rasgar um furgão ao meio. Ia enfiar a mão na cara dele, nem que pra isso quebrasse todos os dedos.
Ia resolver aquilo no braço.
Quando ele estava perto o bastante, quando o ângulo era o ideal, ouviu um grito que mudaria tudo:
- Não!
Era Mari Potter, sua namorada.
Aquilo quebrou sua concentração e desmontou o soco que tinha preparado. Para sua sorte, foi o suficiente para distrair Moran também. Ele conhecia Mari. Atingiu Peter com o ombro ao reconhecer a voz dela. Se fosse com o punho, teria pulverizado seu crânio. Mas mesmo o impacto com o ombro foi suficiente para arremessá-lo a vários metros de distância, de encontro a uma parede. Peter sentiu mais ossos se partindo.
Costelas, um braço.
Dor.
- Preciso... Preciso tirar Mari daqui!
Dor nenhuma neste mundo o impediria de colocá-la a salvo. Monstro super-poderoso nenhum. Não ia desistir enquanto fosse capaz de lutar.
E só ia parar de lutar morrendo!
Moran se esqueceu de Mari Potter ao ver Peter atingir o muro. Riu-se daquele esforço débil para se levantar e lutar. Achou graça ao ver que, mesmo sendo bem mais forte do que um homem comum, seus ossos se partiam com facilidade.
Riu do Homem-Aranha, riu de sua convicção, de sua vontade de dar a vida pela mulher que amava. Ia rir de sua morte ridícula e sem propósito.
Segurou-o pelo pescoço e derrubou o muro contra o qual ele se chocara anteriormente, com violência. Peter perdeu o fôlego e achou que fosse desmaiar. Não estava enxergando. Mas, pelo barulho, percebeu que Moran estava derrubando o muro em cima dele.
A dor veio em ondas furiosas.
Miracleman saiu voando, ainda queria encontrar os criminosos responsáveis pelo ataque ao laboratório. Marianne correu em direção à pilha de escombros que servia de túmulo para o Aracnídeo, tentando tirá-lo de lá desesperadamente.
Precisava dizer a Peter que o amava.
Precisava dizer que sabia que ele era o Homem-Aranha, mas não se importava.
Ia amá-lo de qualquer jeito.
Mas precisava dele vivo.
Precisava tirá-lo dali.
Subitamente, um forte clarão a jogou para trás. Não houve explosão, nem calor, apenas uma luz muito intensa. Quando conseguiu abrir os olhos, o Homem-Aranha estava livre do entulho, conversando com um estranho ser.
Mal pôde ouvir o que diziam.
- Quem... diabos... é você? – perguntou um combalido Homem-Aranha.
- Meu nome, humano, é Aza Chorn. Eu sou um Warpsmith. Um dos guardiões dos poderes de Miracleman.
- Você... pode detê-lo?
- Infelizmente, eu detenho o conhecimento de seus poderes, mas não como enfrentá-lo. Contudo, também detenho o conhecimento de poderes que lhe são familiares e que você pode por bem utilizar contra Miracleman.
- Eu?! Do que você...?
- Anos atrás, Homem-Aranha. Anos atrás, você fez jus aos poderes que manipulo. Hoje, você fará uso deles novamente.
Mari percebeu que o brilho intenso vinha dos olhos do alienígena, que começaram a brilhar ainda mais. Luz sem calor.
Envolvendo a tudo.
Quando a luz se dissipou, o Homem-Aranha parecia bem. Recuperado. Não estava mais curvado pelo dor, nem com o uniforme destruído.
Aliás, envergava um uniforme que Peter conhecia muito bem.
Mas foi Aza Chorn quem quebrou o silêncio, decretando:
- O Homem-Aranha Cósmico é o único que pode deter Miracleman!
Começa a batalha final pela alma de Mick Moran! O Homem-Aranha Cósmico enfrenta Miracleman, o homem com a força de mil sóis! Apenas na próxima edição, descobriremos se isso será o bastante!