Por Leonardo Marcello
Um conto simples sobre a coisa mais complicada do mundo.
Chegou ao quarto de hotel arrasado. Todo molhado da chuva que caía lá fora. Abriu a porta com tamanho desprezo pela mesma que quase a quebrou, em seguida batendo-a violentamente. Como não dormia ali, apenas usava o local como ponto de partida todos os dias, o local estava impecável. O hotel era tão barato que não possuía serviço de quarto, mesmo assim lençóis continuavam perfeitos sobre a cama e toalhas alinhadas no suporte ao lado da pia no banheiro. Teve raiva daquela organização estéril que mal havia notado até então. O primeiro golpe afundou a cama, desfiando o lençol e partindo o estrabo abaixo. O segundo destruiu o ar condicionado embaixo da janela de cortinas sempre fechadas. Não parou até que o quarto adquirisse forma semelhante ao que se passava em sua cabeça. Marcas de unhas foram feitas no papel de parede velho que recobria as paredes e um chute certeiro dividiu a televisão em duas carcaças. Foi somente quando se recostou sobre e, por conseqüência partiu, o espelho inconveniente posto ao lado da mesa de cabeceira, com um filete de sangue escorrendo de suas mãos em direção ao chão, que parou um segundo.
O sangue não era seu. E nem poderia. Ainda restava em suas malditas mãos lembranças do que havia feito há menos de uma hora. Fazia parte de sua condenação pelo crime que cometeu. Pelo último e mais significativo, já que foram muitos. Havia matado a única mulher que amara.
Quando chegou naquela cidade imunda não a conhecia. E sua missão era específica, sem direito a distrações e erros. Mas quis o destino que seus passos cruzassem com os dela. Aí sim as coisas se complicaram. Perdeu a concentração adquirida após tantas bem sucedidas empreitadas, escorregou no que deveria fazer, correu o risco de ser banido ou pior devido ao fracasso iminente. Fora a primeira vez que se apaixonara, não entendia completamente o que estava acontecendo. Demorou mais que o necessário para aceitar o sentimento, apesar de tudo. Ainda mais tempo para abordá-la. Mas para que os dois se rendessem ao amor foi rápido. E foi gostoso, lascivo, com vontade e desejo, como sempre deveria ser para todo mundo.
Foi logo depois disso que ele resolveu contar a verdade. Por quê?
Não pensou muito a respeito, não houve planejamento nem meias palavras. Simplesmente, como nunca antes, achou que cabia a verdade naquele momento. E ela se horrorizou. Depois de um instante de incredulidade, como poderia se esperar. Afastou-o de seu corpo nu, recolheu as roupas do chão do próprio quarto – levara aquele estranho para sua casa! – e gritou em desespero. Ela gritou com toda a força de sua garganta, mandando aquele homem, aquele ser, embora de seu quarto, de sua residência, de sua vida. Preferia morrer a continuar com aquilo que seu coração mais queria até antes da revelação.
Ele de imediato se surpreendeu com a reação. “Tolo, imbecil, idiota”, pensou. Não deveria se surpreender e nem tampouco sentir o vazio da rejeição. Mas sentia. E ver a mulher que fez com que largasse tudo que lhe importava, tudo pelo que dependia, o escorraçando dali fez surgir a idéia em sua mente de que aquilo não acabaria assim. Não conseguiria tirá-la dos pensamentos, como não havia obtido êxito desde que a vira em seu caminho. Não conseguiria vê-la em outros braços. Não conseguiria ficar muito longe dela. Sempre acompanharia sua vida. Não poderia ser desse jeito.
Com um movimento veloz, lançou-se contra ela. A mão acostumada ao golpe, as unhas afiadas, tudo funcionava como uma arma perfeita. Uma arma muitas vezes usada. Perfurou-lhe o peito, enquanto olhava-a nos olhos. Arregalados. Depois do impacto inicial ainda precisou fazer um pouco mais de força para que chegasse ao seu objetivo: o coração. Fechou a mão ao seu redor, desligou artérias, segurou o órgão por um segundo hesitante. Não haveria volta. Puxou o coração com força e dessa vez foi ele quem gritou de dor. Em sua própria alma pelo que fazia. Pelo corpo morto que despencava à sua frente.
Agora, no quarto de hotel totalmente destruído, observava as últimas gotas de sangue que secavam em seus dedos enquanto esperava o momento ideal para partir. Era o certo a se fazer, ele sabia. O único meio de resolver a situação. O único meio de ela ir para onde ele jamais poderia segui-la, vigiá-la, desejá-la de longe. Ela precisava ir para onde as pessoas boas vão quando morrem. Seja céu ou paraíso. Porque só lá, e apenas lá, um demônio como ele não poderia passar as próximas décadas atrás daquela mulher que lhe enfeitiçou como nenhuma outra. Era o certo a fazer, ele sabia. Mas por que doía tanto?