Enquanto os Lanternas Verdes enfrentam na Terra novos desafios e Alan Scott cruza o espaço restabelecendo parcerias e acordos diplomáticos para a equipe, o maravilhoso e cobiçado sistema estelar de Betelgeuse foi invadido pela impiedosa Irmandade Badoon em sua onda conquistadora na galáxia e nem os agentes da Tropa parecem capazes de detê-los! E, em algum lugar do universo, Badru Finnes tem um encontro com seu destino. É o início da Saga Skylight!!
NO ESPAÇO
Crixhalde
27º Planeta do Concurso Betelgeuse
Constelação de Órion
Galáxia Via Láctea
Até a chegada dos Badoons, para Zilzix Anfocebe as coisas corriam bem em Crixhalde.
A nova versão da Sociedade Xistáltica surgira no planeta Crixhalde quando os últimos 12 mil ulmexianos que existiam no universo e vivam na espaçonave nº 35 dos Errantes – chamada por seus ocupantes de Anxímene –, desembarcaram ali há quase cinco anos.
É verdade que aquele não era o planeta que eles tinham pleiteado na partilha do Concurso coordenada pelos regelianos. É verdade que sua temperatura era em geral mais alta do que a do planeta natal de sua espécie, que água potável em abundância só existia em um dos seus três continentes e que o perigoso e raro fenômeno climático, que os rigelianos intitularam com o estranho nome de “Martelo de Thor”, ainda não pode ser previsto nem controlado – por causa disso, mais de 100 ulmexianos tinham morrido desde então em ocasiões que o fenômeno se manifestava.
Mas aquele era o planeta deles. Eles o haviam batizado com o nome da saudosa capital da antiga civilização que havia levado milênios para se estabelecer e que levara apenas algumas horas para se transformar numa esfera morta e estéril a vagar pelo espaço ante a passagem do Devorador.
Galactus, o Devorador de Planetas.
Enfim, os ulmexianos voltaram a ter um planeta só seu após a passagem de quase uma dezena de gerações. Voltaram a sentir uma atmosfera não controlada sobre seu corpo. Voltaram a absorver a energia solar diretamente através da epiderme. Voltaram a rastejar em terra firme. Voltaram a sentir, pelos seus órgãos sensores superiores, os raios infravermelhos através de uma atmosfera. Este era um tesouro cujo valor não havia como ser calculado.
Além do mais, os problemas que encontraram em Crixhalde não tinham a menor importância comparados à enfadonha, estressante e extremamente desestimulante rotina de passar toda a sua vida no interior de uma espaçonave com ambiente climatizado e com sua comida aromatizada artificialmente. A vida de Zilzix Anfocebe tinha sido assim por 47 longos anos. O mesmo aconteceu por nove gerações de antepassados antes dele.
Então os badoons chegaram a Betelgeuse. Com seu grande número de belonaves, com seu aparato de destruição, com sua sede de morte e sua ânsia de conquista. E a nova Era de Ouro dos ulmexianos se extinguiu tão rápido como havia florescido. Nenhuma das espécies do concurso – nem mesmo os rigelianos – pareciam ter capacidade para enfrentar o invasor.
Dez dos mundos externos de Betelguese foram facilmente conquistados e suas populações abatidas e dominadas – Crixhalde fora uma exceção devido justamente ao até então amaldiçoado “Martelo de Thor”. A complexa e incontrolável variação de absorção de radiação ultravioleta pela atmosfera e pelo solo, além da imensurável emissão de rádio e da destruição desenfreada propiciada pelo fenômeno, tornava a colonização do planeta inviável para os badoons.
Assim, a Sociedade Xistáltica tornou-se uma espécie de foco de resistência dos ex-Errantes na frente inimiga, já que as comunicações entre eles e os mundo interiores não foram interrompidas. Mas os ulmexianos não eram um povo tradicionalmente guerreiro, por isso pouco mais podiam fazer do que atos esparsos de guerrilha e espionagem, que em geral não afetavam a irresistível onda de conquista da Irmandade Badoon sobre o Complexo. Mas, o fato de estarem no planeta livre mais afastado do sistema permitiu que os ulmexianos fossem os primeiros a ver em ação aqueles que atravessaram o cosmo em seu socorro.
Atendendo a um chamado dos regelianos enviado através do subespaço, os agentes da Tropa vieram para promover a justiça.
Zilzix Anfocebe passou então a acreditar que as coisas voltariam a correr bem em Crixhalde.
Betelgeuse era uma estrela rara. A gigante vermelha localizada no cinturão de Órion da Via Láctea era a estrela mais brilhante de sua constelação e 900 vezes maior que o Sol – seu diâmetro é maior que a órbita de Saturno. Betelgeuse era uma das maiores estrelas da galáxia.
Mas não eram essas características que tornaram Betelgeuse uma estrela tão cobiçada na Via Láctea nos últimos tempos. O que a tornava notável era o seu inexplicável concurso de planetas – eram surpreendentes 31 ao todo. A maioria absoluta deles habitável, se levarmos em conta a diversidade de fauna e flora inteligente da galáxia e de todos os visitantes desse setor do universo.
Três dos planetas já haviam desenvolvido vida, mas nenhuma espécie inteligente, quanto o concurso foi descoberto e ocupado há cinco anos terrestres por uma facção dos Colonizadores de Rigel, exploradores oriundos de um sistema estelar vizinho determinados a ajudar outras espécies e acumular conhecimento, e pelos Errantes – uma legião de refugiados que reunia diversos sobreviventes de espécies sapientes e que vagava pela galáxia há gerações em busca de novos mundos para viver depois que seus planetas natais foram destruídos e assimilados pelo lendário Galactus, o Devorador de Mundos.
O concurso de planetas fora definido como “inexplicável” pelos rigelianos, quando lá chegaram com os Errantes, por duas razões. Primeiro porque, pela lógica da física universal, uma estrela gigante vermelha não poderia ter tantos planetas com órbitas estáveis ao se redor. A segunda razão era ainda mais inexplicável. Betelguese era uma das estrelas vizinhas a Rigel, sistema estelar de origem dos rigelianos, e foi uma das primeiras estrelas que eles visitaram quando adquiriram a tecnologia para a navegação interestelar. Isso acontecera há pouco mais de 200 anos terrestres. E, naquela ocasião, Betelguese possuía apenas dois planetas em seu sistema.
Dois únicos planetas.
Mas, na situação que estavam e maravilhados com sua descoberta, os rigelianos decidiram não prestar muito atenção aos dentes do cavalo dado. Após catalogar aquele novo e promissor sistema, as diversas espécies que faziam parte dos Errantes se espalharam pelos planetas do concurso, cada uma delas se concentrando em um único astro do sistema, formando verdadeiros guetos planetários. Os rigelianos se concentraram no planeta central, chamado por eles de Rigélia, em homenagem a sua estrela de origem. Estavam dispostos a participar da experiência social única que surgia ali e a mediar os conflitos e relações que certamente iriam aparecer entre as espécies. Os Errantes estavam sedimentando novas sociedades, cada qual com suas características individuais, construindo relações de comércio e troca de conhecimento – e até frutificando típicas rivalidades, que já existiam enquanto singravam o universo, mas não tinham espaço físico para florescer – e que poderiam descambar em futuras guerras territoriais ou movidas por causas subjetivas como religião, tradição ou pelo fato de certos indivíduos terem pêlos ao invés de penas. Os rigelianos estavam tendo trabalho, mas eles sabiam que seria assim e estavam adorando.
Foi neste momento que a Irmandade Badoon chegou ao Concurso Betelgeuse.
Oriundos de um planeta recoberto de pântanos de um sistema estelar sem nada de especial, perdido em algum ponto do extremo externo da Via Láctea, os badoons são humanóides com traços reptilianos altamente belicosos e expansionistas. Sua cultura é voltada para a conquista e a ampliação de seu império – segundo dizem, movida por seu eterno e imenso complexo de inferioridade. Desde que sua tecnologia chegou ao nível das viagens interestelares economicamente viáveis a Irmandade Badoon procurou anexar novos sistemas estelares ao seu império, escravizando ou exterminando as raças inteligentes que encontrasse pelo caminho.
A eficiência dos Badoons podia ser facilmente comprovada pelo fato da espécie já ter no passado conquistado mais da metade de sua galáxia natal – a própria Via-Láctea. Mas o crescimento de outros impérios e federações com grande poderio bélico, além do surgimento ou chegada de várias forças mantenedoras da paz e da ordem, fez a Irmandade Badoon reduzir drasticamente o alcance de sua influência durante um bom tempo. Devido porém à explosão demográfica que assolou a espécie nos últimos anos e a associações com outras forças no campo das negociações diplomáticas interespécies, aos poucos os reptilianos estavam reconquistando espaços que já haviam sido seus e investindo em regiões do cosmo nas quais nunca haviam se aventurado. Este último era o caso do Concurso Betelgeuse. Atualmente os badoons voltaram a controlar 37,7% da Via Láctea.
Com tantos planetas férteis em um único sistema cuja estrela central está entre as mais brilhantes daquele setor, muitos ainda se surpreendem com o fato de ter demorado tanto para Betelguese ser descoberta e explorada por viajantes interestelares – mas, como os rigelianos sabiam, aquele sistema não era tão promissor até duas centenas de anos atrás. Quando as atuais características de Betelguese começaram a ser conhecidas pelo cosmo, foi só uma questão de tempo para algum dos poderosos impérios ou federações, que estendem seu longo braço pela Via Láctea, tentasse tomá-la para si...
...e para que algum (ou alguns) dos defensores do universo pudesse vir em socorro dos que ali primeiro chegaram.
Rigélia
16º Planeta do Concurso Betelgeuse
A rigeliana Tana Nile havia vagado pela galáxia durante anos após a destruição de seu planeta natal pelos temíveis rhunianos. Ela era o que poderia ser chamado em termos convencionais de espiã especializada em infiltração: buscava outras civilizações e tentava se misturar com os nativos para adquirir conhecimento que poderia ser útil em confrontos futuros dos rigelianos. Procurava também planetas que poderiam ser colonizados por sua espécie, que estava em busca de novos territórios onde sua sociedade pudesse voltar a crescer e frutificar.
Nem todos os rigelianos tinham esse pendor para a conquista e a expansão – somente os oriundos de Rigel 3, o terceiro planeta do sistema. Os nativos de Rigel 5 – chamado pela espécie de Planeta Mãe, por ter sido onde a espécie efetivamente surgira – possuíam características gregárias e cooperativas. Ao ter seu planeta destruído pelos rhunianos, os nativos de Rigel 5 procuraram se associar abertamente com outras espécies não beligerantes, trocando informações em busca do bem comum. Para isso, se espalharam pelo universo através de expedições.
O fato de ser da facção mais agressiva da espécie não impediu Tana Nile de ser uma das primeiras rigelianas a buscar os membros da Expedição 36, que liderava o grupo multiespécie conhecido como os Errantes, quando estes encontraram o que parecia ser a lendária Terra Prometida, que consta na mitologia de diversos povos do Universo.
O concurso Betelgeuse parecia mesmo extraordinário demais para ser verdade. E, pelas leis universais, deveria ser mesmo impossível de existir, mas isso não importava para todos aqueles que dele começaram a usufruir. Durante todos aqueles anos que cruzara a Via Láctea, Tana Nile nunca encontrara tantos planetas habitáveis em um só sistema, tanta variedade geográfica e climática. Ela já estivera em seis dos planetas do concurso e sua espécie poderia viver sem grandes dificuldades em quatro deles.
Os badoons não estavam no topo de lista de raças conquistadoras interestelares que imaginou que tentaria controlar aquele sistema – segundo ela, os gordanianos da Cidadela ou os thanagarianos teriam mais chances –, mas era óbvio que, assim que a notícia se espalhasse, algum império ou confederação iria querer reivindicar todo aquele tesouro para si.
Como ela imaginava, os líderes da Expedição 36 também tinham pensado nesta possibilidade e estavam preparados para pedir auxílio à Tropa à menor sombra de invasão do Concurso. Mas fora estabelecido em uma reunião do Conclave – organização do Concurso liderada pelos rigelianos com representantes de cada planeta do sistema onde se discutiam normas e questões diplomáticas interplanetárias – que os moradores de Betelguese tentariam se proteger antes de pedir auxílio externo. Todos prezavam sua autonomia recém-conquistada. Não contavam porém que, quando acontecesse, o ataque de um possível conquistador fosse tão fulminante e devastador.
Quando os membros da Tropa chegaram, dez dos quinze mundos externos já tinham sido dominados pela Irmandade Badoon. A princípio os agentes da Tropa causaram severas baixas entre os badoons, fazendo-os recuar até quase o limite do sistema. Quatro dos dez mundos por eles conquistados haviam recuperado a liberdade. Mas esta situação não perdurou por muito tempo. Subitamente os badoons mudaram de tática: seus soldados começaram a usar equipamentos com uma nova tecnologia de vôo e teletransporte, do qual nunca se suspeitou que a Irmandade possuísse, e demonstraram um ímpeto suicida muito maior do que antes. A vida de cada um deles não importava – apenas a missão tinha significado. Os invasores também possuíam uma superioridade numérica impressionante. Para cada reptiliano abatido, vinte outros pareciam tomar seu lugar.
Pegos de surpresa, os membros da Tropa não souberam como se adaptar à nova situação. Os badoons recuperaram os planetas que haviam perdido e, apesar de estar em velocidade menor, a carga reptiliana voltou a avançar sobre o concurso – para o desespero dos rigelianos e dos Errantes, que não tinham um plano B para o caso da Tropa Nova falhar. É claro que os soldados e milenários presentes da Tropa já haviam entrado em contato com o Aglomerado de Xandar na galáxia Andrômeda para pedir mais reforços para a frente de batalha – e certamente eles agora enviariam centuriões, os soldados de elite da Tropa, para reverter esse fiasco.
Mas no fundo, o desejo de Tana Nile e de milhares de outros habitantes do Concurso Betelgeuse era que fossem membros de uma outra Tropa de agentes da justiça que estivessem ali. Bons tempos aqueles em que os Lanternas Verdes patrulhavam todo o universo conhecido. Tana ouvira dizer que o grupo havia ressurgido das cinzas na longínqua Terra, no Sistema Solar, arregimentando novos membros e procurando recuperar seu lugar na ordem das coisas. Mas, mesmo se isso fosse verdade, seria pedir demais que pudessem ajudá-los agora – ou mesmo que soubessem que os rigelianos e os Errantes precisavam de ajuda.
A Quadrim apresenta:
Lanterna Verde
SKYLIGHT – PRIMEIRA PARTE
O CONCURSO BETELGEUSE
Por Carlos Vinicius Marins e Raul Kuk

Lanterna Verde da Era de Ouro criado por Martin Nodell e Bill Finger
Tropa dos Lanternas Verdes criada por John Broome e Gil Kane
Editor: Leandro Laurentino
NA TERRA
América do Norte
Território Livre sob supervisão da Liga da Justiça
Cidadela dos Lanternas Verdes
Pátio Central
Guy Gardner era chamado por seus recrutas de diversos nomes, a maioria nem um pouco lisonjeiros: carrasco, torturador, maníaco, psicopata, sádico, louco – e o mais popular de todos: fera peluda e estúpida dos pântanos fétidos de Garnet. Segundo Jack T. Chance – nativo de Garnet, planeta mais conhecido como “Buraco do Inferno” – Gardner seria o pior tipo de fera peluda e estúpida dos pântanos fétidos de sua terra natal: “aquela que está ficando careca”. Apesar de ser veterano e não ser um instrutor (ele quase morreu engasgado de tanto rir quando Kyle Rayner sugeriu essa possibilidade para ele), Jack T. Chance adorava acompanhar os treinamentos sempre que podia e acabou se tornando uma espécie de ídolo dos recrutas.
Toda essa consideração dos recrutas para com seu instrutor se devia ao fato de Guy Gardner ser implacável nessa função. Entre eles corria a explicação de que Guy fora escolhido para treiná-los porque quem sobrevivesse ao seu treinamento intensivo seria capaz de enfrentar qualquer ameaça com a qual pudesse se deparar no universo. Poderia até enfrentar Galactus ou o Devorador de Sóis de peito aberto. E sem o anel.
Os fatos constatavam o quanto o treinamento era duro. Dos 38 recrutas que faziam parte no início da atual turma de treinamento para admissão a Tropa dos Lanternas Verdes, só restavam doze. Quinze desistiram antes de se passar a primeira semana. O último, um khúndio (sim, um khúndio!), abandonou o treinamento após uma dura sessão de resistência e combate mortal em ambientes inóspitos, quando ele começou a exalar pelos poros um vapor com odor de batatas fritas feitas com óleo de soja usado. Só mais tarde os recrutas entenderam a sua vergonha ao descobrir que aquilo equivaleria nos humanos a “mijar nas calças de medo”.
Mais um dia de treinamento estava chegando ao fim e mais dois ou três recrutas estavam seriamente pensando em pedir arrego. Entre eles estava um dos recentes recrutas terrestres, que entraram para a equipe de novatos após o evento que ficou registrado no Livro de Oa como a Batalha de Sierra Nevada [1].
- Démons..!! Agora é sério: vou voltar para o Canadá.
- Vamos, francês... Ninguém acredita mais nesse seu chororô! – o grandalhão Jeff Schnneider ria mais uma vez de seu antigo colega de escravidão [2] – A cada dois dias você fica choramingando pelos cantos, dizendo que não vai agüentar o tranco... Nem parece que viveu comigo aquele inferno no Kubanakan!!
- Naquele lugar ele tinha vida mansa, Jeff... – Troçou o mexicano Juan Pablo Bolívar, cada vez melhor no seu inglês após passar cinco meses na Cidade Esmeralda e suas cercanias – O cara só cuidava de papelada na sala da Baba Yaga com o ar condicionado o tempo todo ligado. Aposto que sente saudades daquela moleza...
- Assim vocês me ofendem...! – resmungou Pierre Lacombe, que parou de se arrastar demonstrando cansaço e empinou o peito e o nariz – Pierre fez tanto quanto vocês para estar aqui. En réalité, fiz mais. Vocês teriam entregado o ouro ao Kyle logo no início, se estivessem no meu lugar.
- Estou vendo esse francês ainda jogando isso na nossa cara daqui a vinte anos...!! – afirmou Jeff antes de soltar uma sonora gargalhada.
- E eu estou vendo daqui a vinte anos você ainda me chamando de francês... Já nem me sinto mais offensé.
- SE AS PRINCESAS AINDA TÊM ENERGIA PARA GASTAR, PODEM FICAR MAIS DUAS HORAS COMIGO REPASSANDO A TÉCNICA DE DEFESA TAMARANIANA!!!
Instantaneamente os recrutas se calaram ao ouvir os gritos de seu treinador. Ninguém ousou retrucar.
- AMANHÃ, ÀS SEIS EM PONTO AQUI NO PÁTIO!!
Os recrutas debandaram como um bando de baratas diante de uma rajada de inseticida. De braços cruzados, flutuando alguns metros acima deles, Guy Gardner deixou escapar um sorriso de satisfação. Decididamente ele nascera para aquela função.
“Guy!”
O chamado fora transmitido através de seu anel. Não precisou pedir a ele que identificasse qual Lanterna Verde o estava chamando.
- Estou ocupado, John.
“Não está, não. Estive monitorando seu treinamento hoje o dia todo. Você acabou de mandar seus recrutas para o chuveiro”.
- Deu para ficar me espionando, agora? Seu lado bicha não conseguiu ficar sem ver um macho de verdade usando seus músculos?
“Esqueça, Guy. Suas piadinhas idiotas não vão me tirar do sério. Se você acha que me irritando fará com que esqueça de sua promessa, só está perdendo seu tempo. Vamos ver agora se Guy Gardner é um homem de verdade e vai cumprir a sua palavra. Ou será que você é só outro fanfarrão?”
- VÁ A MERDA, JOHN!! Não sei como me deixei convencer...
“O problema é que você não acreditou que Connor aprenderia as manhas do pôquer tão rápido...”.
- Aposto que tinha o dedo dela por trás disso... Tenho certeza que ela usou os poderes para me passar a perna...!!
“Reclamar agora não adianta. Trato é trato. Venha. Ela está te esperando na nossa Sala de Reuniões”.
- Já?! Mas eu terminei o treinamento uma hora antes do horár... Ah. Eh, eh. Claro. Como pude esquecer, não é? Ela sempre sabe de tudo. Ninguém passa a perna em Kari Limbo [3].
Connor Hawke tinha esfregado na cara dos Lanternas Verdes o que acontecia em seu quintal, mas John Stewart só percebeu de verdade que não podia mais ficar de braços cruzados esperando que os milhares de peregrinos e aproveitadores se cansassem de ficar rodeando a Cidadela e fossem embora de livre e espontânea vontade quando ficou claro o quanto o que estava acontecendo poderia afetar a estabilidade e a credibilidade da Tropa entre os povos da Terra [4].
O incêndio no Kubanakan e a batalha com um sindicato extraterrestre do crime em Sierra Nevada – com a prisão de dezenas de criminosos alienígenas –, podiam até passar como simples acontecimentos corriqueiros em um mundo onde os super-heróis enfrentam coisas parecidas todos os dias. Mas as imagens dos humanos vivendo tão próximos à Cidadela em regime de escravidão, usados para confeccionar e testar drogas que alteravam as características físicas e mentais de seu usuário, eram chocantes demais para serem consideradas triviais – para a grande satisfação da mídia que procurava seguir há meses todos os passos dos moradores da cidade Esmeralda.
Os humanos que lideravam a Tropa se reuniram com Connor Hawke e decidiram finalmente mostrar a opinião da equipe sobre a “Lanternamania” que tomara conta da América e do mundo e dizer que chegara a hora de tomar para eles a responsabilidade sobre a manutenção da lei no pedaço de terra que, afinal, estava sob a responsabilidade deles. A equipe decidira que John seria o porta-voz da Tropa na coletiva que dariam para tentar esclarecer a posição deles de uma vez por todas sobre tudo aquilo. Afinal, na ausência de Alan Scott, ele era o mais racional e experiente da equipe. Parecia ser mesmo a decisão mais lógica.
Mas este foi um grande erro.
Outro erro pelo qual a Tropa pagaria caro e tentaria remediar nos meses seguintes, sem sucesso.
Cidadela dos Lanternas Verdes
Sala de Comunicação
Agora que finalmente encaminhara Guy para conversar com sua esposa não declarada, John Stewart poderia tirar aquele assunto da cabeça.
Não que esse problema pudesse atrapalhar sua linha de raciocínio, que estava dividida entre os diversos afazeres que realizava ao longo do dia. Mas o simples fato de não ter de prestar atenção a Guy Gardner era o suficiente para fazê-lo sentir-se melhor. Além do mais, como não precisava estar de olho no que Guy Gardner estava fazendo, poderia se concentrar na conversa que pretendia ter com Jackson King, o antigo membro de codinome “Batalhão” do extinto supergrupo Stormwatch e atual assessor das Organizações das Nações Unidas para negociações diplomáticas entre nações no qual o elemento metahumano estivesse envolvido.
Todas as equipes de super-heróis que possuíssem ao menos a conivência dos líderes das nações onde atuam e cujas atividades tivessem matematicamente uma chance maior do que 30% de interferir com a soberania de um dos países membros da ONU, possuem algum tipo de conexão direta com o departamento de Jackson King. E não apenas no caso das equipes metahumanas norte-americanas. Os Guardiões do Norte, da Rússia, e os Dez Grandiosos, da China, por exemplo, também possuíam essa conexão com King.
Stewart e os Lanternas Verdes possuíam essa conexão direta, mas nunca a tinham utilizado até então. Na realidade as equipes em geral só costumavam usá-la em último caso e a maioria delas sequer lembrava que essa conexão existia. Em geral as equipes prezavam sua independência em relação às autoridades ou, de forma diametralmente oposta, juravam fidelidade cega ao governo de seu país. Precisar da ajuda da ONU para resolver seus problemas era algo que os atingia diretamente em seu orgulho.
Mas depois que qualquer diálogo entre os Lanternas e o governo Luthor se tornou totalmente inviável e as negociações com Vladimir Putin e os principais líderes europeus se provaram um fiasco, John se viu sem alternativas.
John Stewart acessou a conexão pelo computador e a imagem de Jackson King com sua careca reluzente, seu óculos da Paco Rabane e sua pele negra apareceu na tela. Jackson já estava aguardando a ligação.
- Ola John.
- Jackson.
- Não que eu desejasse isso, mas quando soube como foi sua última conversa com Luthor, tinha certeza de que iria me procurar.
- Também acreditei nisso, mas mesmo assim esgotei primeiro todas as outras possibilidades.
- As pessoas só me procuram em último caso. Não faz tanto tempo eu era um de vocês: um super-herói liderando uma equipe de idealistas dispostos a salvar o mundo do mal. Hoje me sinto como um coveiro ou um agiota.
- Sabe como o pessoal te chama, Jackson?
- Se eu não soubesse, não deveria ocupar essa minha cadeira aqui na ONU, John. O “Wolverine da Terra-2”.
- Pois é. Assim como Logan, você “é o melhor no que faz, mas o que você faz não é nada agradável”... Só que com menos sangue.
- Praticamente nenhum. Mas não vamos perder mais tempo, John. Acredito que, assim como eu, você deve ter uma agenda cheia. Por isso vou te responder antes mesmo que você faça a pergunta: não posso te ajudar, John. Ao menos ainda não.
- Você conhece a Tawny Young. Sabe que aquilo foi uma armadilha e não corresponde à verdade.
- Desculpe John, mas o que interessa é o que a opinião pública pensa. As pessoas em geral ainda adoram os Lanternas Verdes, mas não gostam de você.
- Mas eu não posso entregar a administração da Cidadela e dos arredores a outra pessoa. Só o Alan teria a experiência e o perfil para assumir o meu lugar e ele está no espaço.
- Então é bom torcer para que ele não demore a voltar. Até lá a ONU nada pode fazer por vocês. Desculpe John. De verdade.
NO ESPAÇO
Proximidades do Concurso Betelgeuse
Fronteira da Zona de Guerra
Constelação de Órion
Galáxia Via Láctea
A vastidão do espaço interestelar costuma ser vazia e tediosa, mesmo para Lanternas Verdes – entidades capazes de desenvolver velocidades hiperespaciais que deixam relativamente curtas as distâncias entre galáxias. Porém, a velocidade que podiam desenvolver – tendo tempo para isso e um objetivo geograficamente claro para alcançar e sem muitos e grandes obstáculos pelo caminho – não costumava nem ser a capacidade mais admirada pelas espécies que conheciam a organização. O poder de viajar no espaço sem nenhum traje de proteção ou a possibilidade de conversarem entre si no vácuo interplanetário – mesmo estando a parsecs de distância uns dos outros – costumavam ser mais invejados.
Mas é justamente a sua facilidade de locomoção por todo o universo conhecido – desde a Muralha da Fonte, formada por centenas de viajantes que tentavam transpor as fronteiras de nosso universo de forma inadequada, até a Cascata Energética Triturante, onde muitos acreditam existir vestígios do universo que existia no lugar hoje ocupado pelo nosso – que permitiu aos agentes da Tropa dos Lanternas Verdes serem a força da justiça de maior alcance entre todas as outras que surgiram antes e depois.
Este poder também foi uma das razões para que apenas um Lanterna Verde fosse escolhido para singrar o universo com a missão de recompor as alianças que existiam entre a Tropa a as centenas de organizações políticas reunindo milhares de espécies sapientes que borbulhavam pelo cosmo. Com um contingente pequeno, principalmente de agentes experientes, a Tropa não poderia dispor de mais membros para esta missão naquele momento.
O escolhido para representar a Tropa foi Alan Scott, o mais antigo Lanterna Verde da Terra ainda em atividade.
E por que, entre os agentes capacitados para esta missão, fora escolhido justamente Alan? Aquele que, apesar de experiente no uso do anel, nunca singrara o espaço além das cercanias de seu planeta natal? Sem contar o fato de que ele sempre fora um agente independente. Apesar de possuir o poder dos Guardiões, não pertencia a Tropa até pouco tempo atrás, por isso não estava acostumado aos meandros e normas da organização no trato com as civilizações existentes pelo Universo. Aliás, ele sequer sabia da existência da Tropa dos Lanternas Verdes durante a maior parte de sua vida.
Uma das razões foi o fato de Alan Scott estar aos poucos se alterando geneticamente e que parecia estar se transformando em um oano, a espécie extinta que durante milhões de anos foi conhecida como a raça dos Guardiões do Universo, os criadores da Tropa dos Lanternas Verdes [5].
E o que poderia ser melhor do que um Guardião do Universo para anunciar o retorno da lendária Tropa, que eles criaram, entre as forças que protegem o cosmo?
O Lanterna Verde diminuiu sua velocidade ao se aproximar do congestionado sistema de Betelgeuse. Estava retornando à Via Láctea após passar semanas na Galáxia Shi’ar onde, como era de se esperar, as negociações com a Imperatriz Lilandra Neramani em seu Mundo Imperial não foram além do estabelecimento de restrições à ação da Tropa em seu território: O Império Shi’ar estava definitivamente fora da área de atuação da Tropa dos Lanternas Verdes, onde só poderiam agir caso a ajuda fosse solicitada por aquele (ou aquela) que detiver a coroa ou por membros oficiais reconhecidos da Guarda Imperial. A busca de criminosos foragidos ou outros casos onde agentes da Tropa quisessem atuar oficialmente na jurisdição do Império seriam analisados caso a caso.
“Podia ter sido pior”, afirmou o Lanterna Verde na ocasião. “Os agentes da L.E.G.I.Ã.O. são caçados como raposas pela Guarda Imperial se cruzarem o caminho deles”.
Depois de estabelecidas as diretrizes de relacionamento entre as organizações, Alan foi convidado formalmente a deixar os limites do Império, já que não poderiam mais lhe dedicar atenção. O clima entre o Império Shi’ar e os thanagarianos havia passado para o nível de “belicoso” nos últimos tempos. Uma Guerra Fria já existia entre os dois impérios há anos e uma situação de confronto parecia iminente.
Naquele momento alguém que parecia estar seguindo Alan Scott reduziu sua velocidade para emparelhar com o Lanterna Verde, enquanto este se dirigia para Betelguese.
- Ainda não consigo entender por que não ficamos lá para impedir a guerra. Está claro que ela vai acontecer. Se é que já não começou.
- Já falei, Drana, que vi situações como essa antes diversas vezes, em diversos níveis. Querer parecer ser mais agressivo e disposto a tudo para obter o que acredita ser seu de direito, faz parte de uma negociação agressiva. Eles não querem brigar de verdade.
- Como você pode ter tanta certeza?
- O Império Shi’ar já domina praticamente toda a galáxia em que se localiza e a Imperatriz Lilandra não é movida pelas chamas da conquista. Pelo contrário, ela é uma pacifista. A sociedade não terá interesses expansionistas enquanto ela estiver no poder. Já os thanagarianos sobrevivem da fama do poderio que tiveram no passado. Estão decadentes. Não possuem hoje condições reais de manter uma grande guerra por um longo tempo com suas fileiras militares tendo de cruzar distâncias tão grandes para infligir alguma perda no inimigo, afinal eles ainda não possuem a tecnologia do teleporte para longas distâncias. É tudo pose. Dos dois lados. Ambos têm uma fama a manter.
- De onde vem essa experiência de diplomacia entre grandes impérios intergalácticos? Você nunca havia saído das cercanias de sua estrela antes...
- É como na física clássica, Drana. O que vale para o movimento dos corpos celestes, vale para o movimento de corpos no seu planeta. Criei e comandei durante décadas aquela que foi durante muito tempo uma das maiores empresas de comunicações da Terra. Lidei com instituições rivais e governos que fizeram de tudo para me ver fora do jogo. Não teria resistido tanto tempo e suplantado todos eles se não tivesse aprendido uma ou duas coisas sobre como esse mecanismo funciona.
- “Empresas de comunicações”?? Ainda tem muita coisa que não sei sobre a Terra... Mas sou coluana. Vou aprender.
Alan estava aliviado por não realizar sozinho sua missão, como era a proposta inicial da Tropa, e assim poder preencher o vazio e o tédio das longas viagens entre as estrelas e galáxias. Uma agente novata da Tropa singrava o espaço sideral ao seu lado.
- O que afinal está acontecendo neste setor para tê-lo feito deixar as negociações com os Shi’ars tão rápido?
- Não havia mais o que negociar com Lilandra e seus diplomatas, Drana. Quanto ao que está acontecendo aqui, já ouviu falar nos Badoons?
Rei Amarelo
Galáxia lenticular sem nome
Aglomerado Galáxia de Leão
Há um lugar no universo pouco explorado, um ponto distante e fora das rotas comerciais intergaláticas. Não há planetas habitados, não há vida: apenas poeira estelar sedimentando-se em todas as direções desde a explosão que deu origem ao nosso universo. Trata-se da galáxia de Leão – na verdade um aglomerado de galáxias muito luminosas. Um labirinto cósmico nos confins do universo conhecido. Galáxias espirais e elípticas entrelaçadas, seus destinos moldados por mãos desconhecidas, seu caminho nos céus ignorado por homens e deuses.
Em seu centro há uma galáxia lenticular com mais de trinta mil anos-luz de diâmetro. Bilhões de estrelas, sistemas sem vida. Apenas um gigantesco e perpétuo vazio silencioso.
Entre seus muitos sistemas, há um em particular orbitando uma estrela amarela de excepcional fulgor. Essa estrela não tem nome, embora conste dos mapas traçados pelos astrólogos da Mesopotâmia, milhares de anos atrás.
Orbitando o Rei Amarelo há um pequeno asteróide, vagando incansável no vazio e no caos. Pequeno demais para abrigar o surgimento de vida, mas grande o suficiente para esconder um terrível segredo.
Neste asteróide, os armeiros de Qward construíram um templo. Uma profanação dourada coberta de ossos, dor e desespero.
- Que lugar maldito é este? – perguntou Badru Finees.
- Este, meu filho é o templo construído anos atrás pelos armeiros de Qward. – respondeu a quase onipresente voz que o acompanhava – Quando o primeiro anel amarelo foi forjado por Sinestro, para destruir a Tropa dos Lanternas Verdes, os sábios Qwardianos previram que talvez aquilo não fosse o bastante. Talvez precisassem guardar uma arma, para o futuro. Para uma guerra. Então, eles construíram este templo, no recôndito mais obscuro do universo que puderam encontrar, e aqui um monge fez vigília sobre o anel que, agora, pertence ao insano Kalamak [6].
Finees continuou seguindo pelos corredores reluzentes do templo. Seus passos quebravam ossos humanos espalhados pelo chão. As paredes eram de um dourado límpido, puro, refletindo seu rosto marcado pelo sol e pelas cicatrizes. Um prisma para seu ódio. Um espelho para a obscenidade que havia se tornado.
- Aqui, Badru Finees, Kalamak forjou a bateria de seu anel.
- Como isso foi possível?
- Valendo-se do tecnomisticismo qwardiano, ele reuniu os elementos e a vontade necessária para forjar a bateria. O anel o escolheu e o considerou digno para isso.
- Como vou saber se o anel me considerou digno também?
- Você entrou no templo. – disse a voz de Cronus – Se não fosse digno, teria se reunido à pilha de ossos que cobre o chão.
Finees parou diante de um altar, onde jazia o corpo sem vida de um monge. Morto por Kalamak.
- O sangue banha os anéis. – tornou a falar Cronus – E nenhum anel provou tanto o gosto de sangue quanto o que está agora em suas mãos. O anel que, um dia, pertenceu a Sinestro, o maior inimigo da Tropa dos Lanternas Verdes.
- Sinestro está morto – respondeu Finees. – Eu vou forjar minha bateria [7].
CONTINUA!!
Na próxima edição: Guy Gardner frente a frente com sua misteriosa esposa, Kari Limbo! Alan Scott começa a narrar os Contos de Hal Jordan! E o nascimento de Cartago!!
Notas dos Autores:
[1], [2], [3] e [4] – Para maiores detalhes, vejam aqui na Quadrim a saga “Emerald City”, que ocorreu entre as edições #21 e #24 de Lanterna Verde.
[5] – As alterações genéticas de Alan Scott ocorreram na saga “O Senhor dos Anéis”, entre as edições #11 e #13 de Lanterna Verde, aqui na Quadrim.
[6] - Mais detalhes no Superalmanaque Quadrim #02 e em Lanterna Verde #05 e #06, aqui na Quadrim.
[7] – Não sabe quem são Badru Finnes e Cronus?? Leia agora mesmo a saga “Por Onde Quer que Eu Vague” entre os #26 e #29 de Lanterna Verde, aqui na Quadrim!