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 Guerra Civil Quadrim 01! - O Apocalipse!
Quadrim Autoral

Guerra Civil! Um dos maiores eventos dos quadrinhos dos últimos anos! A polêmica história que foi sucesso de público e crítica, dessa vez numa descompromissada e divertida abordagem! Quando a Lei de Registro é aprovada, chega a hora dos heróis que fazem a Quadrim tomarem uma decisão... De que lado você vai ficar? A estréia da sessão de Contos Autorais da Quadrim!




A Quadrim apresenta:
GUERRA CIVIL!
Um Evento em Quatro Partes
Um: Apocalipse
Dedicado a todos que ajudaram a fazer da Quadrim o que ela é hoje: uma grande família!

Qualquer semelhança com pessoas vivas, mortas ou traíras terá sido mera coincidência.

Sala de Controle, Rede Vida: - Tudo bem, Morfo, de quantos vilões estamos falando?

Videira, Santa Catarina: - Três. Não, peraí... Acho que vi mais uma no quintal esvaziando o lixo. Ao todo, são quatro. E todos na lista dos mais procurados da delegacia de Videira, certo?

- Certo. O que não é lá grande coisa.
- Qualé, é a grande chance de fazer a audiência do nosso reality-show bater o programa da Ana Maria Braga! Se continuar nesse ritmo, logo vamos estar no horário nobre!
- Vocês já estiveram no horário nobre.
- Briga com a patroa não conta, certo?
- Cala a boca ou te arrebento, Melo! Nós...
- Oh-oh.
- Que foi?
- Fomos avistados!
- Todo mundo descendo o sarrafo na bandidagem!

A equipe de Marcelo Morfo, “Jovens Cruzados”, era motivo de piada em toda a cidade. Primeiro, pelo nível de restolho que abrigava em suas fileiras:

Leon Melo – vulgo o “Homem Mais Corajoso do Mundo”. Mesmo sem poderes, era capaz de incríveis proezas;
Vitor Aza – vulgo “Aracno”, graças à força e agilidade proporcionais a de um ácaro (“O ácaro não é um inseto, é um aracnídeo, sabiam?”);
Ric Rigas – vulgo “Tuiuiú” - ave ciconiforme pernalta, tem pescoço nu, preto, e, na parte inferior, o papo também nu e vermelho (fonte: Wikipédia). Capaz de voar e correr em supervelocidade.

Além, é claro, do próprio Marcelo Morfo, vulgo Trairão, dotado de poderes de... Bom, de trairagem. Um dos motivos por ele apanhar tanto da mulher, que o mantinha em rédeas curtas. Ah, ele também mudava de forma, de opinião e conseguia alterar a realidade. Pelo menos, é o que dizia. Exames acurados nunca foram capazes de precisar se ele realmente alterava a realidade ou se só entendia mal as coisas.

Ele falava de coisas que só ele via, o que muita gente entendia como alienação total, autismo ou burrice pura e simples.

O reality-show “Novos Cruzados em Ação” não só era um fracasso de audiência, mesmo para os modestíssimos padrões da Rede Vida, como também não passava de uma versão sem graça de “Os Osbournes”. Os programas giravam em torno da vida conjugal do líder da equipe.

O Brasil era cheio de super-heróis. Cada estado tinha sua própria equipe, cada grande cidade, seu próprio defensor. Mas o tempo era inclemente com justiceiros mascarados e todos tinham suas crises. O problema dos Novos Cruzados, contudo, era sua recusa em admitir que a deles já tinha chegado, logo que nasceram.

O reality-show era a grande chance de darem a volta por cima. Após seis episódios que se resumiam a gritos e objetos de cozinha voando, muitos especularam se aquela não seria a gênese de uma grande vilã. Uma denúncia anônima, de que uma equipe de vilões estava foragida, desviou a atenção da produção.

Era hora da ação de verdade!

Os “super-vilões” em questão não tinham muito de “super”. Eram criminosos fantasiados, usavam roupas iguais às do Batman, Superman, Capitão América e Homem-Aranha. O problema é que carregavam armas.

Muitas armas.

Melo deteve o primeiro, esquivando-se de uma rajada de AR-15 e golpeando seu adversário no pescoço. Aracno saltou nas costas do segundo antes que ele tivesse a chance de pegar uma escopeta no arsenal da quadrilha. Tuiuiú conseguiu desarmar o terceiro, usando sua supervelocidade para ficar fora do alcance dos disparos e nocauteá-lo. Quando Morfo viu o último com uma granada, estufou o peito e falou grosso (bem diferente do que acontecia na casa dele):

- Larga essa porra, filho duma puta!
- Fica longe de mim!
- Larga essa porra ou eu enfio ela no teu cu!
- Não se aproxime...
- Não vou falar de novo!
- Agora, vocês estão enfrentando gente grande!

O ladrão não sabia que, no momento em que puxou o pino da granada, os poderes de alteração da realidade de Marcelo Morfo já tinham sido ativados. O problema é que, quando a espoleta da granada alcançou a pólvora, Morfo só conseguiu pensar em uma coisa:

Os velhos episódios do desenho do Papa-Léguas, onde qualquer situação, por pior que pudesse parecer, era resolvida com uma bigorna.

No instante seguinte, uma bigorna gigante caiu dos céus, apagando Videira do mapa para sempre.


- Fui informado de que os Novos Cruzados morreram – disse Márcio, um tom grave e preocupado em sua voz.
- Há males que vêm para bem.
- Eram nossos amigos. Demonstre algum respeito.
- Só se você deixar eu fazer a elegia do Morfo.
- Depois do que você fez na autópsia, Raul?
- Chama aquilo de autópsia? O Morfo tava dentro de um copinho de café descartável. E aquilo era a melhor parte dele.
- Agora você falou uma verdade.

Não parecia, mas Márcio Sampayo e Raul Kuk eram grandes amigos. Os melhores. Não foi sempre assim, na verdade.

Logo que descobriu seus poderes elétricos, Raul passou a combater o crime de uma maneira muito pouco ortodoxa. Ora eletrocutando criminosos, ora roubando em proveito próprio, tornou-se uma espécie de lenda urbana em Suzano, sua cidade natal. O comportamento desregrado sugeria um transtorno grave de personalidade. Diagnosticado como maníaco-depressivo, chegara ao cúmulo de incapacitar toda a iluminação pública da cidade com seus poderes quando o PT ganhou a eleição.

- Da próxima vez, votem em branco. Bwehehehe…

Adotando a identidade de Fase, Raul estendeu seus atos de terrorismo até ser preso por Márcio Sampayo, um burocrata com uma carreira ascendente na B.O.S.T.A. (Batalhão Operacional de Sadismo, Terrorismo e Autofelação). Os dois tomaram um whiskey juntos, um estranho incidente aconteceu (os dois não falam sobre isso) e Fase foi anistiado. Desde então, tornaram-se aliados na luta contra o crime.

- Isso vai mudar tudo, Raul. O país inteiro viu a fita com o retardado do Morfo dizendo que só estava interessado em audiência.
- Ei, ele se livrou da Megera-Mór. Não foi de todo ruim.
- Para ele, não. É com o restante que estou preocupado.

Os dois continuaram ajudando as equipes de resgate a tentar encontrar sobreviventes. A contagem de corpos já tinha atingido cinco dígitos.

No dia seguinte, uma missa foi realizada em Florianópolis, capital do Estado de Santa Catarina, em memória das vítimas de Videira. Cada palavra era um punhal no intestino debilitado de Márcio. Cada olhar, uma acusação.

Saiu da igreja de cabeça baixa, se perguntando se daria tempo de voltar a São Paulo e ir ver o jogo no Morumbi, quando foi abordado por uma mulher:

- Márcio Sampayo? rrrhhh... PTU! – A catarrada o atingiu em cheio no olho bom. – Seu canalha asqueroso! – gritou a mulher.
- Ah, cai fora, sua puta. Porra, cuspiu no meu olho...
- Cair fora? Do enterro do meu filho? Você é quem devia ser expulso daqui! - Foda-se, tou saindo mesmo.
- Você devia sair do seu empreguinho de amigo dos super-heróis, seu cagão!
- Moça, eu não tive nada a ver com a merda que rolou em Videira.
- Ah, é? Quem é o assessor cleptomaníaco da presidência que defende os super-heróis no Congresso Nacional? Quem tem uma amizade pra lá de dúbia com um dos piores elementos que já surgiram na face da Terra? Policiais têm de treinar e portar distintivos, mas isso é chato demais pra Márcio Sampayo! O “Sr-Faço-Tudo-do-Meu-Jeito-e-Foda-Se” acha que basta ter poderes e fazer pose de Jack Bauer pra montar sua própria supergangue! Agora, o sangue do meu pequeno Damien está nas suas mãos!
- Porra! O nome do teu filho é Damien e tu ainda me xinga? Eu posso ter impedido o apocalipse. Devia me agradecer.

Pouca gente entendeu a referência. Mas, no fundo, Márcio sabia que posar de cool e descolado não seria o bastante. Nunca mais.


Horas mais tarde, em uma das salas de reunião do Itamaraty:

- Obrigado por terem vindo.

Leandro Laurentino (vulgo Jumentauro, líder dos Titãs Cariocas, metade jegue e metade... jumento); Ricardo Sorvillo (vulgo Lanterna do ABC, com seu anel energético, a arma mais poderosa do universo); Henrique (vulgo Henrique, matador de criminosos cruel, implacável e monge budista nas horas vagas); André Faccas (vulgo Sapuxo, o último jedi); Rodrigo Zago (vulgo Zagolino, diretor da Escola Xavier em Mato Grosso do Sul); e Raul Kuk, claro.

- Todos estão cientes da tragédia em Videira e de como isso pode nos afetar. Alguém tem algo a dizer?
- O Ricardo engordou?
- Este é o rascunho inicial de um projeto que chegará à Câmara dos Deputados em um mês ou dois. Foi entregue a mim sigilosamente.
- Você roubou.
- É uma lei de registro. Qualquer um com poderes... Qualquer um fantasiado... Qualquer mutante... Qualquer um dos nossos vai ter que, por força de Lei, se revelar ao Governo Federal. Em troca, o herói registrado será contratado como guarda na nova força de segurança da B.O.S.T.A., com direito a salário miserável, mas com estabilidade.
- O PT tá sempre inchando a máquina pública...
- Vocês continuarão fazendo o que sempre fizeram, mas terão de responder a alguém. Recusar-se a fazê-lo será considerado crime federal.
- Tipo desacato?
- Bem pior que desacato.
- Já sabem pra quem ligar quando forem presos.
- Pare de agir como se não tivesse mais ninguém aqui, Raul. Alguém tem algo a dizer?
- Eu tenho – disse Leandro. – Se uma pessoa usa máscara, como saberão ...?
- A B.O.S.T.A. está desenvolvendo uma unidade especial para caçar qualquer um que desobedeça à Lei de maneira flagrante. Se chamará “Unidade Especial”.
- Que bosta.
- E acho que todos deveriam obedecer e apoiar voluntariamente a Lei antes mesmo dela entrar em votação. Nós deveríamos, de livre e espontânea vontade, nos mostrar favoráveis.
- Como é? – o tom de voz de Raul mudou de repente. Aquilo não era bom.
- Devemos cooperar antes que as coisas se compliquem. Antes que alguém ou todos sejam feitos de exemplo.
- Você está dizendo que eu tenho de me tornar um funcionário público de novo? Prefiro comer carne de porco.
- Por que vocês não podem treinar e responder pelos seus atos? Videira foi o que bebuns chamam de “momento de clareza”. Faz todo sentido se isso ajudar as pessoas a dormirem mais tranqüilas.
- Não acredito que eu tou ouvindo isso... As máscaras são uma tradição! Não podemos deixar que uma merda que o Morfo fez nos obrigue a virarmos super-policiais!
- Tá de brincadeira? Você tem sorte de as pessoas terem aturado você tanto tempo. O registro é sua chance de não ter que correr da polícia toda vez que frita os bagos de algum meliante.
- Eu só não quero voltar pra Suzano e descobrir que meus amigos e minha família começaram a ser perseguidos pela turma com foices e tochas do PT. É pra esse governo que vamos entregar nossas identidades? É realmente isso o que você quer? Pense no pouco que o Luis Inácio realizou enquanto perdia tempo apenas tentando administrar a máquina pública. Mais funcionários, mais papéis, mais burocracia. E a troco de quê? Nós somos a resposta democrática. Uma contra-cultura. Nós agimos quando ninguém mais pode, quando ninguém mais tem força ou coragem. Você quer pôr holofotes sobre tudo isso?
- Raul, acho que vale a pena discutir a proposta – contemporizou Henrique. – Alguém mais acha que essa conversa é extremamente paranóica?
- Nós precisamos estar acima dessas coisas, ou o governo vai começar a nos dizer quem são os vilões!
- Mas tudo isso ainda é só especulação, certo? Do jeito que a Justiça, o Congresso e o nosso presidente são lerdos, vai levar anos até essa Lei passar.
- Receio que não, Henrique – respondeu Márcio. – Isso vem sendo pensado há muito tempo. Videira foi só a gota d’água que fez transbordar o balde.
- Exato. É o fim do nosso jeito de fazer as coisas. Dá pra sentir o fedor da bosta no ar.
- Talvez não seja bem assim – falou Leandro.
- Não está certo.
- Ele está completamente certo – disse Henrique.
- É ceder ao medo e à ignorância dos outros.
- Ele está certo – assentiu Ricardo.
- Meldels...
- Ele está certo – confirmou André.
- Raul, tente entender – continuou Márcio. – Vai chegar o dia que um herói, provavelmente um novato, com a melhor das intenções, vai fazer uma besteira. Vai tentar salvar alguém, fazer algo heróico. Diante das câmeras de TV. Como o Morfo fez em Videira. Isso será exibido muitas e muitas vezes ao redor do mundo. Até que a intranqüilidade que já está borbulhando entrará em ebulição. Todo político interessado em ganhar fama vai correndo pra TV dizendo como pretende salvar o mundo desses irresponsáveis fora de controle que se acham acima da Lei. Metade de nós vai acatar as novas determinações, metade não vai. Por causa dessa pequena rebelião, nossos legisladores serão forçados a fazer alguém de exemplo. Algum amigo nosso. Alguém que garanta um grande espetáculo, pra que o mundo inteiro possa ver. As pessoas tomarão lados, muita gente vai se ferir. Amigos morrerão. É isso que vai acontecer. A menos que a gente impeça essa loucura antes de começar. Já começou. A merda foi feita.
- E, de merda, você entende – disse Raul, se levantando. – Nunca mais voltem a me procurar.

- É – disse Leandro, impondo o tom intelectual à conversa. – Os super-heróis estão numa enrascada danada, hein?


Aero-Sinagoga Aisha HaOr, nove mil e seiscentos metros acima de Suzano:

- Rabino Kuk.
- Rabino Yehudá.
- Fui informado que doze dos seus amigos estão reunidos no seu apartamento da praia para decidir como devem ignorar a sanção presidencial. Alguma chance de convencê-los a se entregar?
- Nem fodendo, rabbi.
- Qualé, talmid? Deixa de papo furado. Qual é o problema desses caras? Como alguém pode ser contra super-heróis serem treinados adequadamente e receberem salário?
- Sou suspeito pra falar.
- Quantos rebeldes você estima?
- Uma renca, mestre.
- Algum peso-pesado?
- O Waltão.
- Intelectualmente falando?
- O Véio.
- Então eles tão fodidos, hehe. Ninguém que você não possa encarar.
- Como é?
- Você ouviu. A proposta vai à votação em duas semanas e pode virar Lei em menos de um mês. No entanto, não podemos entrar nessa sem garantias. Estamos desenvolvendo uma unidade de resposta anti-super-humanos, mas precisamos garantir que a equipe principal esteja do nosso lado e que você os lidere.
- Me inclua fora dessa. Está me pedindo pra prender pessoas que arriscam suas vidas sem pedir nada em troca, como ensina o Talmud.
- Não estou pedindo, Rav Kuk.
- Eles não são vilões!
- “Vilões” são mascarados que se recusam a obedecer seus superiores. Ninjas-Judeus!

Fez-se ouvir uma movimentação dentro da sala. Vultos negros tomaram posição, cercando Raul. Ninjas-Judeus, os mais bem-treinados assassinos que o Mossad formara.
- Rav Mishael... Nós somos irmãos... Somos judeus!
- Não sou mais judeu, Rav Kuk. A partir de agora... eu sou o Hebreu do Deserto!
- WTF!?
- Atacar!

Shurikens de David surgiram da escuridão, cortando o ar ao redor de Rav Kuk. Sabres com empunhadura em forma de Menorá rasgavam as trevas, enquanto Sevivot explosivos distraíam a audição e Tefilim eletrificados prendiam o Rabino.

- Tefilim eletrificados? Contra mim?

O ar ionizado denunciou o contra-golpe com uma fração de segundo de antecedência, como o relâmpago precede o trovão. Todos foram derrubados, enquanto Raul saltava por uma das janelas da Aero-Sinagoga e aterrisava nove mil e seiscentos metros abaixo, transformado, ele próprio, em um raio.


Gabinete do PT, Suzano:

-... daí o filho da puta queimou todas as lâmpadas públicas da cidade de novo quando caiu, senhor prefeito!
- Típico daquele anarquista. Sempre mandando seus recados.
- Com ele na ilegalidade, todo super-herói que discordar de nós acaba de ganhar um representante de peso.
- Então, vamos encontrar um líder para nós, senhores vereadores, senhor prefeito.
- O que está sugerindo, Sr Sampayo? – perguntou o prefeito de Suzano, a Los Angeles do Alto Tietê.
- Vamos levar o registro adiante, cavalheiros. Trazer Raul Kuk sob custódia será missão deste homem: André Faccas, o Sapuxo... novo líder dos Vingadores-Que-Valem!
- “Sapuxo”?
- O Último Jedi, senhores – respondeu Faccas.
- Que diabo de nome é “Sapuxo”?
- É por causa do Yoda, senhores.
- A Lei de Registro prevê censura de codinomes esdrúxulos?
- Não, senhor prefeito – respondeu Sampayo.
- Droga – respondeu o prefeito. – Tem sempre uma brecha na Lei.


Na próxima edição: os Vingadores-Que-Valem! Vingadores Secretos! DETRAN Avengers! Muitas lutas enquanto um conhecido vigilante revela sua identidade secreta!

Posted on Saturday, August 08 @ 00:00:00 BRT by Raul_Kuk
 
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