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 Mulher-Maravilha 08 – Hiketéia: Tentativa de Assassinato – Parte 03
Mulher-Maravilha

Com a invocação do ritual de hiketeia, a Mulher-Maravilha está de mãos atadas e precisará proteger a nazista Cintia Becker de um atentado. As heroínas da Sociedade da Justiça se preparam para enfrentar o clone do Caçador. Intrigas e conflitos começam a convergir para uma batalha sem precedentes na capital da Alemanha. E ainda: uma imortal poderá ter de matar alguém de seu próprio sangue, o que poderá trazer sérios desastres para o reino das amazonas.




Museu de Berlin
Antiga Alemanha Oriental

A princesa Diana de Themyscira estava de mãos atadas.

Esta não era uma situação a qual estivesse acostumada, mas não era inédita. Três ou quatro vezes em sua vida ela já passara por situações em que se sentira impotente, como aquela que estava vivenciando – não por se sentir incapaz de derrotar o desafio que estivesse diante de seus olhos (ela encararia a morte certa e a derrota inevitável de olhos fechados sem pensar duas vezes), mas por não possuir o controle de seus atos ou porque agir seria totalmente contra a sua natureza naquele momento. Diante desta última possibilidade ela só se encontrara uma vez.

Duas agora, contando com a que passava naquele exato momento.

Hiketeia era uma das mais particulares tradições da antiga Grécia. Uma vez que alguém perseguido e com a vida ameaçada evocasse o juramento de hiketeia diante de um autêntico grego, este deveria oferecer a sua proteção e a sua mais completa hospitalidade ao suplicante, não importando se a perseguição ou ameaça que ele sofresse fosse justificada. Recusar ou negar esse pedido uma vez feito, era impensável para um filho da Magna Grécia. E este era o caso das amazonas.

Para Diana, diante da invocação do ritual de hiketeia, saber o “porquê” não tinha importância. Ela tinha certeza de que saberia no seu devido tempo. De acordo com as regras do ritual, o suplicante não podia mentir e, uma vez questionado, tinha de dizer por que estava sendo acuado. Por isso, naquele momento sua curiosidade estava interessada no “como”.

- Como... como alguém como você poderia saber do ritual de hiketeia? Pelo que sei não sobraram registros históricos depois da destruição da Biblioteca de Alexandria e da absorção do império grego pelos romanos. O ritual estava perdido para sua civilização há milênios!

- Pobre princesa... – o fato de saber que Diana não gosta de que a tratassem por seu título de nobreza, a não ser em ocasiões nas quais isso era exigido, só aumentava o prazer de Cintia Becker em chamá-la assim – Esqueceu que, no seu mundo, viajar no tempo não é uma condição tão rara assim? A Biblioteca de Alexandria está à distância de um estalar de dedos, se você tiver o equipamento certo.

- Meu mundo? Viagens no tempo...? – A surpresa de Diana estava maior do que sua indignação – Quem afinal de contas é você, Cintia Becker?

- Eu sou a mulher que você deverá proteger enquanto minha vida estiver em perigo, princesa. É o que diz a tradição. E, como você percebeu nos últimos dias, as coisas andam bem agitadas para mim... – Sem perder mais tempo falando, Cintia olhou o relógio e começou a se encaminhar para a saída – Vamos, princesa. Em poucas horas vou fazer minha primeira grande aparição pública em muito tempo. Vamos ver qual será a reação dos jornalistas quando eles verem que você estará lá ao meu lado para me “prestigiar” e proteger aquela em quem os alemães devem confiar nas próximas eleições para a União Europeia.

Contra a sua vontade, Diana suspirou fundo e seguiu os passos da diplomata.


Hiketeia
Tentativa de Assassinato: Parte 03

Por Carlos Vinícius Marins, Larissa Moreira e Marcelo Moro


Porto de Pireu
Atenas
Grécia

Diversos homens descarregavam caixas de madeira oriundas de uma embarcação recém-chegada do continente africano. Um grande cargueiro atracara há pouco tempo na parte oeste do porto, reservada para a carga, descarga e armazenamento de grandes quantidades de produtos. Ali era o bairro de Drapetsona, recheada de armazéns e estivadores autônomos a espera de trabalho esporádico sem muitas perguntas.

Sob o comando de uma mulher loura que usava um alinhado terno azul, os homens desciam diversas peças encaixotadas na direção de um dos galpões.

- Cuidado com isso! – gritava a loura, única representante do sexo feminino naquele local cheio de estivadores suados – Se quebrarem algo vão pagar com a própria vida.

Os trabalhadores tratavam de transportar as caixas com um receio maior do que o normal. Algo naquela mulher sugeria perigo e nenhum deles estava interessado em ver o quanto havia de verdade em suas palavras.

Mas, apesar do receio, alguns dos estivadores foram aos poucos tomados pela curiosidade típica dos gregos, a mesma que moveu Pandora a abrir a caixa que continha todos os males do mundo. Essa curiosidade foi atiçada ainda mais ao saber para qual galpão iriam as caixas que desembarcavam: um dos armazéns mais bem vigiados do cais, pertencente a uma empresa com sede em Hong Kong. A maioria dos funcionários dali era estrangeira e nunca tinha ficado claro para os estivadores da região com que tipo de produto ou serviço aquela empresa trabalhava.

Zorba Kamindopolos era um dos mais curiosos. Por isso não desperdiçou a oportunidade de ver o que continha nas caixas que não estavam bem vedadas enquanto as transportava para o galpão. Aos menos seria um tema diferente na conversa com seus amigos no horário de almoço.


Altes Museum
Berlin
Antiga Alemanha Oriental

As garotas da Sociedade da Justiça haviam passado as últimas horas circulando pelo Altes Museum de forma discreta em meios aos demais visitantes e convidados para impedir o crime que estava programado para acontecer naquela noite.

Sideral não admitiria nunca, mas estava deslumbrada com sua primeira viagem a Europa e o fato de estar em um museu de história antiga ao lado de mulheres que chamavam tanta atenção pela beleza e elegância, como Dinah e Hipólita, a faziam se sentir uma patricinha da alta roda, como as protagonistas de “Gossip Girl” [1]. Hipólita se deixou envolver paulatinamente pelo encanto que aquele lugar exercia sobre ela. Artefatos que ela acreditou por muito tempo estarem perdidos para sempre a faziam lembrar de um período tão distante de sua vida, que parecia ter sido vivido por outra pessoa: a época da Magna Grécia, da Hélade que agora só era lembrada pelos mortais por lendas. A Mulher-Falcão – que, como Hipólita havia profetizado, acabou entrando no museu atrás das colegas de equipe e do avô – se mantinha distante, acompanhado cada gesto de Speed como um predador a procura de um momento de distração de sua presa para poder atacá-la.

A única que estava alerta de verdade – prestando atenção a disposição dos guardas, investigando com os olhos o palco que estava sendo instalado para o evento do Partido Democrata Alemão, tentando descobrir as posições de onde o falso Caçador poderia surgir para dar cabo da diplomata, elaborando em sua cabeça uma estratégia defensiva para ela e suas companheiras – era a Canário Negro, que circulava pelos salões do museu ao lado de “Speed” Saunders. O velho espião conhecia o museu como a palma de sua mão e dava dicas para Dinah de onde as garotas poderiam estar posicionadas quando o show começasse. Por muito tempo Dinah se ateve na conversa com Speed sobre esses preparativos, mas quando faltava cerca de meia hora para o início do evento que culminaria com a reaparição pública de Cinta Becker e sua indicação para o cargo de presidente da União Europeia, a heroína não agüentou e colocou na mesa a dúvida que vinha incomodando os membros da Sociedade da Justiça por tanto tempo.

- Por quê, Speed?

- Por quê o quê, Dinah?

- Vamos Speed... Você sabe do que eu estou falando.

- Claro que sei, Canário. – O velho se permitiu expressar um sorriso sarcástico – Você quer saber de Kendra. Por que virei às costas para minha netinha, blá, blá, blá...

- Ela é sua neta. Vivia em orfanatos ou vagando pelas ruas desde a infância. Ninguém a queria. Você lhe mostrou um vislumbre da felicidade quando apareceu diante dela, só para sumir depois sem deixar vestígios, tirando seu chão como se não se importasse.

- Isso mesmo.

- Faz idéia do que você fez a Kendra?

- Claro que faço. Tenho plena consciência do que meus atos fizeram a minha neta, assim como tenho certeza de que você sabe qual era a minha intenção fazendo isso. Alguém como você, que já enfrentou alguns dos maiores lutadores do mundo, sabe do que é necessário para se forjar os grandes guerreiros.

- E valeu à pena? Valeu à pena ter perdido o amor de sua neta? Valeu à pena ter feito ela perder toda adolescência, toda esperança e toda chance de poder acreditar em outra pessoa que não fosse nela mesma?

- Também acho tudo isso muito triste, Canário. Mas acho mais triste a morte de dez, cem, milhares de pessoas. Ou o fim de tudo que conhecemos.

- ...? Que quer dizer?

- Você pode não gostar de mim, mas sabe o que sinto pela Sociedade da Justiça. Sabe que acho que a Sociedade é a coluna vertebral a partir da qual toda a comunidade metahumana se estabeleceu e o quanto acredito ser importante que essa equipe continue viva para manter o esqueleto de pé. Sabe o quanto estudei esse grupo, o quanto eu entendo como ele funciona, quem são os seus inimigos e como são os perigos que vocês enfrentam e ainda vão enfrentar. E que faço isso há mais de 50 anos. São décadas de análise e você sabe que, com minha experiência, não sou um leigo ou um reles fã. Você sabe que sei sobre o que estou falando...

- Aonde você quer chegar com esse papo afinal?

- ...Por isso posso te afirmar que sei que a Sociedade da Justiça vai enfrentar muitos problemas pela frente. Você não sabe o que rola por aí, o que circula nos bastidores fora das ruas da boa e velha América. Eu tenho andado por aí há anos. Pergunte ao seu amigo Nick Fury. Eu sei. Então escute o que eu digo quando falo que a sua equipe, neste momento, precisa de um de seus heróis gaviões para vencer o que vão enfrentar. Como não havia nenhum disponível, precisei forjar um deles para vocês.

- Por Deus, Speed!! Ela é a sua neta!!

- Exato. E por isso mesmo tinha certeza de que ela era a pessoa certa para ocupar essa vaga. Ela tinha o meu sangue, o sangue de minha irmã, o sangue de Carter Hall. Bastava ter o treinamento e a motivação certa para que ela alcançasse o patamar necessário. Ou pelo menos forjá-la até o ponto de entregá-la a vocês que, aí sim, a levariam até o ponto ideal.

- Você usou a sua neta como se fosse um mero instrumento, sem se importar com o que ela sentia... Você é um maldito insensível, Speed!!

- Será mesmo, Canário? Tirei Kendra das ruas. Dei-lhe um objetivo na vida. Sem contar que dei a Sociedade da Justiça a ela. Não consigo imaginar família melhor do que esta para cuidar da minha neta.

Dinah continuava indignada e iria continuar discutindo – na realidade estava pronta a dar um murro na cara do velho espião –, quando viu um grupo de homens suspeitos chegando pela entrada principal do museu. Eram homens usando sóbrios conjuntos e óculos escuros que tinham pequenos rádios de transmissão com fones acoplados a um dos ouvidos.

- São os agentes de segurança do Partido Democrático, discretos como sempre – Disse Speed para Canário, com ironia – Vão passar o pente fino no museu antes da chegada dos convidados e da imprensa.

- Então aí estão os nazistas afinal... – Sussurrou Dinah enquanto cerrava as mãos, mas para si mesma do que para Speed. Há anos ela tinha começado a seguir os passos de sua mãe, a primeira Canário Negro, quando vestiu uma versão do uniforme dela e assumiu seu lugar como membro da Sociedade da Justiça. Mas somente enfrentando nazistas como sua mãe, ela iria sentir que haveria ocupado de verdade o seu lugar.

- Nazistas...? Não canário. Eles nada têm a ver com nazistas. Estes últimos são discretos de verdade e já estavam circulando no museu antes de nossa chegada. Identifiquei vários deles entre os visitantes.

- Como...??

- Depois eu te digo quem eles são. Agora é melhor você ir falar com Kendra, pois a forma como ela não para de nos encarar pode gerar suspeitas. Vamos nos posicionar.


Porto de Pireu
Atenas
Grécia

Michael Turnembaun era um arqueólogo com métodos pouco ortodoxos. Era comum ser o motivo de chacota nas reuniões do Clube de Arqueologia em Londres por causa de sua estranha técnica para conseguir informações para seu trabalho. Mas e daí? Com sua técnica já tinha conseguido alguns bons resultados em sua carreira.

Michael costumava ir as regiões do planeta que a maioria de seus colegas acreditava que praticamente nada tinham a oferecer em termos de novidades acadêmicas: Egito, México, Grécia. Regiões exploradas à exaustão por arqueólogos há décadas. Só que ele não ia a sítios conhecidos, nem mesmo procurava informações com estudiosos daquelas regiões. Na realidade ele ia a locais onde arqueólogos sequer se aproximavam quando estavam trabalhando: bares, cantinas, hospedarias, refeitórios populares... Qualquer lugar onde gente do povo se aglomerava para passar o tempo e colocar o papo em dia. Contribuindo voluntariamente para as chacotas que seus colegas faziam dele, Michael intitulou essa técnica de busca de informações de “método hiboriano”, remetendo à lendária época pré-histórica que alguns arqueólogos mais loucos que ele afirmavam existir antes dos mais antigos registros históricos conhecidos.

Desta vez Michael estava em uma das várias cantinas de Drapetsona, na margem oeste do Porto de Pireu. Já frequentava o lugar há duas semanas e as outras pessoas que lá iam diariamente estavam começando a deixar de prestar atenção ao seu rosto, que sem dúvida não pertencia àquele território. Estavam mais espontâneos e deixando de falar cochichando na sua presença. Por isso não foi difícil de prestar atenção a conversa que Zorba Kamindopolos estava tendo com seus amigos na mesa ao lado da sua.

- Sério, Miklos! A gente daquela empresa chinesa do cais 11 é mesmo estranha. Precisa ver o tipo de coisa que eu descarreguei para ele esta manhã.

- Essa sua curiosidade ainda vai te fazer mal, Zorba. Lembre-se do que Pandora fez por causa dela...

- Ora, se era para que eu não soubesse o que continha aquelas caixas, eles que a vedassem melhor!

- Mas o que você viu demais afinal de contas?

- Muitas coisas estranhas. E tudo parecia ser bem velho, antigo. Um caldeirão que tinha um formato esquisito. Uma caixa que parecia um daqueles brinquedos que você mexe e muda as cores de lugar...

- Um cubo mágico?

- Isso! Só que era feito de metal e tinha uns desenhos bem esquisitos... Mas o que achei mais estranho foi uma enorme estátua de gato. Parecia um totem de algum povo esquecido.

- Devia ser mesmo um povo bem antigo para orar a gatos!

Enquanto os amigos riam da piada de Miklos sobre o que Zorba tinha visto, Michael se aproximou.

- Desculpem por me intrometer na conversa de vocês, amigos... Mas é verdade que um de vocês viu um gatotem?


Centro Médico Estadual
Gateway city
EUA

Cassandra Sandsmark achava que tinha passado tempo demais desde que sua mãe entrara no consultório do bom e velho Dr. Sandalus, o clínico amigo de sua família com o qual ela e sua mãe sempre se consultavam. Ele inclusive reclamou do tanto que tinha passado da época de sua mãe fazer um check-up. Dr. Sandalus sabia que sua mãe dava pouca importância a própria saúde e, se alguém não estive ali lembrando e pressionando...

Cassie levantou por impulso quando a porta do consultório se abriu e por ela atravessou sua mãe, o Dr. Sandalus e dois outros médicos que ela não conhecia. Uma junta médica? Algo muito errado devia estar acontecendo.

E, para piorar, dava para ver que sua mãe tinha chorado.

- Mãe, o que está acontecendo?

- Calma, Cassie... Você me conhece há muitos anos. Sabe que pode confiar em mim, não é?

Por que o Dr. Sandalus respondeu a uma pergunta que ela tinha feita a sua mãe? Por que o médico está pedindo para confiar nele? Isto não era bom.

- Mãe, quem são esses médicos...? O que é que você tem...?? QUER ME EXPLICAR O QUE ESTÁ HAVENDO?!?!

- Cassie, calma! Você vai precisar ser forte!

- Dr. Sandalus, por favor! – Helena segurou seu médico no ombro – Entendo o que vocês estão querendo fazer, mas eu conheço minha filha. Só estão deixando ela mais assustada. Deixe-me falar com ela. Vamos ficar bem.

O médico olhos nos olhos de sua paciente e decidiu que era melhor deixar por conta dela.

- Está bem. Mas lembre-se: precisa voltar o mais breve possível para fazermos mais testes. De preferência, amanhã.

- Pode deixar, doutor. Obrigada.

Depois que os médicos se afastaram (o que realmente deixou Cassie aliviada), a Moça-Maravilha se aproximou de sua mãe, quase sussurrando em seu ouvido.

- O.K., mãe. Se antes eu estava preocupada, imagine como eu estou agora. Me diga que você NÃO VAI morrer amanhã...

Uma lágrima escorreu pela face de Helena, enquanto um sorriso furtivo escapava de seus lábios.

- Não, Cassie. Não vou morrer amanhã. Mas, como ouvi alguém dizer a muito tempo atrás, o gato subiu no telhado.

- Não brinque com essas coisas, mãe!

- Eu não estou brincando, filha.

Cassie encarou Helena durante alguns segundos, boquiaberta. Como se estivesse processando no seu cérebro a informação que acabara de receber. Uma informação irreal demais para se tomar como verdade. Helena segurou a filha pelos ombros e lhe falou com ternura.

- Vamos, Cassie. Você sabe o quanto eu odeio quando você me carrega voando, mas preciso que me leve para algum lugar sossegado, longe daqui. Vamos conversar.


Biblioteca Nacional
Atenas
Grécia

Possuindo um dos mais completos acervos sobre a literatura, a filosofia e a história grega, a Biblioteca Nacional da Grécia recebe anualmente centenas de pesquisadores de todas as partes do mundo em busca das mais variadas informações sobre o passado do povo helênico e de todas as civilizações da Europa e da Ásia Menor que existiram no início dos registros históricos conhecidos. Entre eles existem historiadores, arqueólogos, filósofos, jornalistas, escritores, sociólogos e pessoas de mais uma dezenas de profissões. Fotógrafos são raros, mas não é exatamente uma novidade – em sua grande parte vão em busca de referência de sítios históricos ou na busca das origens de povos da região que procuram registrar em imagens. Uma fotógrafa porém estava freqüentando a biblioteca nos últimos dois dias por um motivo diferente: descanso. Ela dera para si mesma um período de uma semana de férias depois dos últimos dias agitados que viveu e antes de dar uma passo para uma nova fase em sua vida [2].

Seu nome é Donna Winkley Stacey Troy. Mundialmente ela é conhecida pelo codinome que utiliza em seu outro modo de vida: Tróia.

Depois da morte de seu marido e de seu filho, sempre que tinha um tempo livre em que queria se afastar dos Titãs e sua irmã Diana estava longe, Donna costumava passar um período em algum dos recantos esquecidos da Europa. Viagens a grandes centros como Atenas são mais raros, mas ela quis retornar a Biblioteca Nacional da Grécia – onde já havia estado duas vezes antes – para rever os antigos livros gregos e recordar parte de seu passado, antes de deixar novamente de ser nômade e voltar a viver em Nova York. Donna acreditava que finalmente havia aprendido a conviver coma ausência de seu marido Terry e seu filho Robert e que agora poderia voltar a viver na cidade onde começara sua carreira como fotógrafa.

Ela adorava aquela sensação de anonimato. Apesar de não usar máscara quando age como membro dos Titãs, ao circular pela Europa – principalmente fora do eixo reunindo os grandes centros do Reino Unido, França, Itália e Alemanha –, em geral Donna passava desapercebida pela maioria das pessoas, que a viam como uma simples turista americana. Por sinal, Donna percebia quase imediatamente quando a reconheciam. Foi esse o caso quando aquela mulher de grandes óculos e estranhos cabelos brancos repartidos para o lado direito ficou insistentemente olhando para ela, quando acreditava que Donna não estava prestando atenção.

Em nenhum momento a pesquisadora CDF tentou se aproximar dela – na realidade Donna tinha quase certeza que ela procurou evitar qualquer aproximação entre as duas. Apesar de não ser uma atitude incomum entre as que a reconheciam em suas andanças pela Europa, aquela pesquisadora a deixou inquieta. Subitamente a pesquisadora fechou o grande livro que estava estudando e saiu correndo da biblioteca, como se tivesse feito uma descoberta surpreendente. Não demorou muito porém para a mulher se tornar uma vaga lembrança para Donna, que antecipava o prazer que sentiria no final da tarde, ao rever a Baía de Falera às margens do Porto de Pireu [3].


Altes Museum
Berlin
Antiga Alemanha Oriental

As garotas da Sociedade da Justiça estavam posicionadas nos locais indicados pela Canário Negro, observando atentamente os pontos onde um pistoleiro da categoria de Paul Kirk poderia se posicionar para matar Cintia Becker com um tiro certeiro de longa distância – a técnica clássica que certamente o Caçador usara para a abater sua presa.

A única delas que não estava em uma posição discreta era a Rainha Hipólita. Devido ao seu porte naturalmente altivo, Canário acreditou que mantê-la discreta naquela situação seria impossível, então preferiu que a rainha ficasse logo a vista de todos. Chamando a atenção para si, Hipólita poderia desviar a atenção de suas parceiras de equipe. Ela estava bem próxima ao grande palco onde se posicionaria a diplomata alemã e seus companheiros do Partido Democrata para o anúncio da candidatura oficial de Cíntia a presidente da União Europeia nas próximas eleições.

Cintia já era um dos políticos alemães que fazem parte da bancada de 284 deputados da Coligação Popular no Parlamento Europeu. Apesar de ter sua reputação manchada ao ter seu nome associado ao nazismo, suas chances ainda eram muito boas, devido a força de seu partido, a sua postura agressiva contra o intervencionismo americano e o combate ao término das barreiras que ainda dividem os países membros da União Europeia.

Alguns membros do Partido Democrata já haviam se posicionado e os jornalistas presentes começam a gravar a cabeça das matérias que fariam para os jornais da noite nas tevês de seus países, quando Hipólita começou a sentir algo estranho. Não sabia definir bem o que era, mas algo lhe dava uma verdadeira sensação de perigo. Seus sentidos ficaram ainda mais atentos, seus olhos ficaram arregalados. Ela tinha certeza de que estava deixando passar despercebido algo muito importante.

Então ela viu.

A primeira delas estava posicionada na lateral da entrada principal. Seu rosto não podia ser visto, estava coberto por um capuz. Mas o ar em torno dela parecia exalar uma sujeira, um mau agouro tão intenso, que a rainha não entendeu a princípio como as pessoas que se acotovelam próximo a ela não percebiam. Alguns segundos depois, a explicação lhe veio à mente como um raio certeiro.

As outras pessoas não a viam. Não podiam vê-la. Somente Hipólita parecia perceber sua existência.

A segunda delas estava no segundo andar, pouco acima de onde Canário Negro e “Speed” Saunders estavam posicionados. Sua cabeça também estava coberta por um capuz, mas o brilho de sangue escorrendo de sua boca podia ser enxergado por Hipólita, mesmo àquela distância.

A terceira delas estava na passagem que conduzia ao palco. As pessoas passavam por ela como se ela não existisse. Neste caso a situação era ainda mais irreal porque, ao contrário das outras, esta estava sem capuz. E enxergar na cabeça dela as serpentes vivas no lugar de cabelos fez a pele de Hipólita se arrepiar.

As Eríneas. As lendárias Fúrias.

A presença delas colocava aquela situação, que já era bastante séria, num outro nível ainda mais perigoso. E o que era pior: não haveria tempo de compartilhar o que descobrira com suas colegas de equipe. A qualquer momento Cintia Becker poderia subir o palco e ser atingida por uma bala. Hipólita rezava para que suas amigas pudessem dar conta desse recado, por ela achava que sua atenção logo estaria desviada para outro problema que só ela ali poderia resolver.

O que teria trazido as Eríneas ali? Estaria entre os presentes pessoas que fossem mais que humanas? Algum deles iria matar membros de sua própria família? Ou iria quebrar um pacto de proteção dado a quem rogou por ajuda?

Os pensamentos da Rainha das Amazonas foram bruscamente interrompidos quando Cintia Becker começou a subir pela passagem que conduzia ao palco. Neste momento ela percebeu que estava irremediavelmente envolvida em uma trama que, ao contrário do que imaginava, não tinha noção total de sua extensão, podendo encerrar aquela noite de forma particularmente trágica para ela.

Atrás da diplomata alemã – membro do Quarto Reich –, protegendo-a como se fosse seu guarda-costas pessoal, subia sua filha, a princesa Diana de Themyscira.

CONTINUA !!


No próximo capítulo: Diana x Hipólita! A Fúria do Caçador! Hele e Cassandra têm a mais séria conversa de suas vidas! O Puma volta a dar as caras e encontra um inimigo a sua altura! E que diabos é um gatotem?

[1] “Gossip Girl” é uma série de 12 livros, todos lançados no Brasil, criados pela escritora Cecily von Ziegesar que conta a história da vida glamurosa de adolescentes nova-iorquinos. Uma série de TV baseada nos livros faz um grande sucesso na TV por assinatura. No Brasil, passa na Warner.

[2] Os Titãs passaram por poucas e boas ao tentar conter as ações de um herói enlouquecido. Para quem ainda não leu, vejam a última saga de um jovem herói: “Crepúsculo do Falcão”, entre os números #28 e #30 de “Falcão de Aço” aqui na Quadrim.

[3] Não faz idéia de quem é essa pesquisadora e qual foi a sua descoberta surpreendente? Acompanhe o que houve em Gata Negra #36!

Posted on Tuesday, July 21 @ 01:15:00 BRT by Leandro_Laurentino
 
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Re: Mulher-Maravilha 08 – Hiketéia: Tentativa de Assassinato – Parte 03 (Score: 1)
by Conan on Tuesday, July 21 @ 07:59:00 BRT
(User Info | Send a Message)
Lari
Vini


Parabéns... a Continuidade da história está perfeita. O crescimento da SJA dentro do título da MM está dando frutos e sinais de grande crescimento.
Masd conversem com o Caldeira sobre o Gatotem.



Re: Mulher-Maravilha 08 – Hiketéia: Tentativa de Assassinato – Parte 03 (Score: 1)
by Caldeira on Tuesday, July 21 @ 08:55:34 BRT
(User Info | Send a Message) http://se7evidas.blogger.com.br
muito bom, veio! repassar pelos mesmos cenários, dando outra perspectiv ao leitor - das açoes de outros personagens - é fantástico!
não esqueça de que essas histórias da MM se passam ANTES, bem ANTES do que está acontecendo no arco da Gata Negra! preciso saber dos passos, hein? mhahaha
abçs e parabens!


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