Decisões que afetarão o futuro de todos os mutantes e novas alianças que transformarão a vida dos X-men.
Capítulo XXV
ELEGIA
Parte V
BATER DE ASAS
Por Rodrigo Zago
Julho/2009
- Vamos continuar falando sobre isso? – interrompeu a caminhada e encarou levemente irritado o amigo que vinha logo atrás - Já não basta a aporrinhação do caolho hoje pela manhã? – abanou os braços sobre a cabeça como se espantasse alguma mosca – “Milícia” é meus bagos...
Uma sala claustrofóbica no subsolo do Instituto Xavier abrigara algumas horas antes boa parte dos X-men e associados para uma reunião convocada por Scott Summers enquanto, muitos metros acima, o restante dos presentes na mansão continuava pesarosamente relembrando os amigos enterrados naquele dia.
- Eu diria que até certo ponto ele tem razão, Mein Freunde... – falou Kurt pulando de uma parede para outra do longo corredor que atravessavam no segundo andar do Instituto Xavier – Atacar “preventivamente”, acredito que tenha sido esse o termo que você utilizou, não é exatamente o modus operandi dos X-men. É compreensível que...
- Esses caras podem continuar aqui sentados com a bunda na cadeira, Elfo, esperando que o Magneto da vez venha e sacaneie com a molecada. A gente vai pegar a estrada e ir atrás desses filhos da puta – parou súbito e Noturno que vinha logo atrás só não trombou com ele porque teleportou-se para dois metros à frente no mesmo instante, deixando Logan respirando o inconveniente cheiro de enxofre deixado para trás – Olha só isso: o Departamento X foi reativado e do pouco que eu vi, só tem gente boa reunida por lá. Creed, Yuriko, Sauron... Pior não poderia ficar.
- Obviamente não questiono isso, Logan, mas há que se entender que Frau Frost tem um ponto quanto à participação de Jubileu e Monet em nossa empreitada.
Wolverine encarou-o, ainda um tanto quanto irritado, e continuou um pouco menos agressivo:
- Frost se exaltou um pouco durante a reunião, mas também não me sinto tão confortável ainda com Jubis se envolvendo nessas paradas mais pesadas. Só que no fim, tanto ela quanto St.Croix já são de maior, já tiveram treinamento suficiente e ainda se saíram mais do que bem no ataque da escola.
Não mais que algumas noites atrás, a Escola Xavier, onde Emma Frost e Sean Cassidy treinavam jovens mutantes a controlarem seus poderes, fora atacada por uma força paramilitar. Ainda que não tenham cumprido seu objetivo final de obliterar os residentes do edifico, os atacantes conseguiram um saldo relativamente positivo: a destruição das instalações, a morte de um dos alunos (Everett Thomas, o Sincro), o desaparecimento de Suplício, o seqüestro de Sanguessuga, a incapacitação de Derme, entre outros danos.
- Falando nisso, não deveria ser essa nossa prioridade? – Kurt olhou pela janela e ao longe viu Drake conversando com Vampira no gramado atrás da mansão – Eu já mencionei que há fortes evidências que a organização que Vampira, Kitty e eu visitamos no WTC antes do ataque às torres possa estar envolvida também...
- Já estou em cima disso... - Logan olhou para os lados, aparentemente tentando certificar-se de que ninguém os ouvia – Mas vambora agora e depois a gente fala disso – continuou, agora com um sorriso nervoso e um leve aceno de cabeça – Bora tomar umas cervas lá embaixo com o resto que só bebendo talvez dê para esquecer essa merda toda. Ou melhor, esquecer que ela está apenas começando...
- Tenho certeza de que teremos que fazer algumas adaptações, mas acho que, no momento, não há nada melhor a fazer – Hank McCoy colocou mais uma pilha de relatórios dentro da caixa de papelão a seu lado – Você poderia terminar de embalar aqueles bicos de Bunsen, por favor, Sean?
O irlandês pegou no chão uma folha de papel-bolha e começou a cortá-lo em pedaços menores. O laboratório estava quase todo revirado, Hank tentou selecionar apenas algumas coisas para levar.
- Hank McCoy, meu caro... Porque nossa vida é assim? Mortes e tragédias, mas tão poucas vitórias? – suspirou Sean enquanto recobria um dos instrumentos com o papel.
- Temos feito muito progressos também, Sean, nas últimas semanas...
- Não, Hank, por mais racionalmente otimista que você queira ser, basta lembrá-lo que nossa enfermaria está parecendo um flashback do massacre dos Morlocks e três de nossos amigos estão enterrados na colina atrás da mansão para você rapidamente verificar que qualquer notícia positiva não vai conseguir compensar as negativas, meu amigo.
Hank interrompeu o que vinha fazendo e avaliou o semblante e a linguagem corporal de seu colega. Em um átimo, pesou o impacto da morte da enteada de Moira e a de um de seus alunos e da transformação em cinzas da razão de viver de Sean nos últimos anos, então adicionou a esse pensamento a confusão mental causada pelos copos de uísque ingeridos pelo irlandês e cujo odor seu olfato apurado não conseguia evitar e finalmente concluiu que uma abordagem otimista não era realmente a mais indicada para aquela conversa. Resolveu assim tentar uma pragmática:
- Você acha que devemos também transferir as centrífugas ou não será necessário? – disse ele apontando para um conjunto de aparelhos repousando logo atrás de Sean.
- Não, não, acho que já há o suficiente delas na ilha... – respondeu ele desinteressado.
Um dos pontos altos da reunião pela manhã com Ciclope foi a decisão de Scott de fechar o Instituto e exigir que todos os atuais habitantes arrumassem suas malas e procurassem outro lugar para ficar. Tal medida era necessária, segundo o eterno líder dos X-men, pois quem quer que tenha atacado a Escola Xavier provavelmente teria o Instituto como próximo alvo.
Considerando que Charles já havia debandado os X-men semanas antes e poucos deles efetivamente continuavam por ali, Hank McCoy era um dos poucos que ainda precisavam efetivamente achar um novo quartel-general para suas atividades.
- Acho que eu consigo finalizar todo o resto sozinho, Sean. Porque você não checa se Cecília precisa de uma mão? – na verdade a verdadeira pergunta na cabeça de Hank era por que ele não voltava para perto de sua namorada para consolá-la, mas achou que não valia a pena entrar nesse campo no momento.
- Já que você mencionou o assunto, Fera – disse Sean, descendo da mesa em que estava sentado - Assim que a dor pela morte de Rahne se dissipar um pouco, Moira vai querer voltar à pesquisa por uma cura do vírus Legado e vocês dois vão se enfurnar nos laboratórios e eu...
- Bem, a Dra. Reyes vai continuar por lá... E, no mais, não creio que Moira vai simplesmente ignorar sua presença, se é essa sua preocupação...
- Sim, mas Reyes provavelmente estará mais preocupada, pelos menos agora, em cuidar de Rictor e Ângelo. E logo, logo vai acabar se juntando a vocês. – inquieto, ele começou a olhar para os lados constantemente procurando algo que não sabia dizer o que era. - Ao menos vou poder passar um pouco mais de tempo com Artie, isso deve ajudar alguma coisa.
- Sean, há algo específico sobre o qual você queira conversar...
Ele hesitou por alguns segundos e depois, num suspiro leve e já caminhando em direção à porta do laboratório, respondeu:
- Não, não é nada – virou-se e antes de fechar a porta atrás de si – A gente se vê na Muir...
Katherine distraidamente brincava com uma estrela de Davi que pendia de seu pescoço e seus pensamentos vagavam por outras paradas. Peter a admirava como vinha fazendo nos últimos quinze minutos de conversas entrecortadas, quando interceptou o olhar que a moça deixava perder-se em um grupamento a conversar do outro lado do Hall.
- Vocês ainda estão juntos? – a pergunta levou alguns segundos para ser compreendida e ela ficou encarando-o confusa até que rapidamente voltou seus olhos para onde estavam anteriormente e viu que Peter Wisdom estava entre as pessoas que distraidamente observava.
- Não, Peter! – lançou-lhe um suspiro de reprovação. - Já faz muito tempo que não temos nada... – virou-se irritada, dando-lhe as costas, e ficou mexendo-se na cadeira indecisa entre ir e continuar naquela situação ao mesmo tempo irritante e estranhamente familiar.
O silêncio infiltrou-se entre eles claustrofóbico, denso, triste e ao mesmo tempo reconfortante. Como sempre, ao lado dela ele sente-se muito mais tranqüilo e no controle de si mesmo. Ao contrário do que alguns pudessem pensar, ele nunca chegou nem perto desse tipo de relação com Sarah.
Medula era para ele uma lembrança, uma segunda chance para seu amor fraternal, uma oportunidade de trazer Illyanna novamente para sua vida. Nunca foi uma opção romântica para ele.
Outras mulheres passaram por sua vida, mas nenhuma despertou os mesmo sentimentos que nutria por Katya. Callisto e Meggan foram situações atípicas geradas por condições que só os que vivem vidas tão estranhas como as deles podem tentar entender.
A empatia de Meggan fez com que ele acreditasse estar apaixonado por ela, quando na verdade, eram os sentimentos dela em relação a ele que transbordavam numa torrente de emoções caóticas quando estavam próximos um do outro.
O relacionamento com Callisto foi ainda mais estranho, porque não era realmente ele quem estava vivendo com ela, mas uma versão de si mesmo, uma possibilidade de vida, a do pintor Peter Nicholas, que habitou seu corpo após os X-men atravessarem o Portal do Destino na Austrália.
Katya foi seu amor perfeito, inocente, puro e mesmo depois de todas as mudanças e desventuras pelas quais ambos passaram e mesmo com o atual relacionamento dos dois, esse sentimento não parece ter se alterado para nenhum deles.
Mas o que Wisdom conseguiu com ela foi um amor maduro e completo, algo completamente diferente. E por mais que civilizadamente tenha convivido com isso enquanto colegas no Excalibur, emocional e primitivamente ele nunca poderá perdoar o homem que lhe roubou esse direito.
- Logan e Kurt falaram com você, não? – ele tentou novamente trazer a conversa para o presente, mesmo que o passado se manifestasse patente toda vez que olhava para o rosto dela.
- Sim – ela pareceu relaxar e chegou praticamente a esboçar um sorriso. - Vamos esperar apenas mais alguns dias e vamos pegar a estrada.
- Eu gostaria de ir também, mas minha prioridade no momento é Sarah. Talvez, quando eu encontrá-la, nós dois possamos nos juntar a vocês depois.
Ela demorou alguns segundos antes de continuar, ponderando rapidamente suas próximas palavras:
- Seria muito bom se vocês...
- Wisdom também está nessa? – Arrependeu-se assim que o nome saíra de sua boca. Sentia que não fora nem mesmo ele quem efetivamente fizera a pergunta.
- Não seja infantil, Piotr... Pensei que você havia passado dessa fase... Você sabe qual o problema entre nós, Piotr?
Ele preferiu não responder, apesar de ter consciência de qual era, nunca se permitiria verbalizá-lo.
- O tempo passou, mas foi só para mim. O amadurecimento, inevitável para todos e ainda mais para pessoas como nós, parece não ter atingindo você. – levantou-se da cadeira onde estava e passou a olhá-lho de cima. - Você... continua a viver, a pensar e a sentir como nos velhos tempos... Você, mais do que qualquer outra pessoa, deveria ter sentido o peso das tragédias que nos atingem freqüentemente. Illyana, Mickail, seus pais e agora Sarah e Rahne...
Ela o abraçou ávida e rapidamente, virando-lhe as costas e deixando-o para trás sem olhar por sobre os ombros uma vez sequer. Ele sentiu como se o mundo por alguns segundos tivesse comprimido ao redor dele, criando uma pressão insuportável. Pensou em Sarah e sentiu-se ainda mais desconfortável.
A Ferrari cortou rápido mais uma das curvas das sinuosas estradas vicinais do condado de Westchester. Os cabelos negros de Elizabeth Braddock dançavam ao sabor da velocidade do conversível, enquanto Warren Worthington continuava taciturno ao seu lado, ponderando possibilidades:
- Só vamos nos encontrar com Kurt, Logan e os outros daqui a dois dias, você não acha que o melhor seria...
Interrompeu o que estava dizendo quando súbito o carro parou, completa e instantaneamente, e eles só não foram lançados longe porque aparentemente a mesma força que agiu sobre o automóvel também o fez sobre eles.
Apenas um instante foi também o necessário para que a ninja de origem britânica velozmente saltasse do carro e, antes mesmo de atingir o chão, sua Katana já estava à mão pronta para atravessar quem quer que fosse o responsável pelo ataque. Em um próximo movimento a arma foi lançada na direção do homem parado alguns metros a frente do carro.
A espada, no entanto, não atingiu seu alvo. Ficou parada no ar a centímetros do peito dele. Um dos olhos da potencial vítima brilhava fugidiamente.
- Uma reação um pouco mais violenta e instintiva do que o necessário, não acha, Braddock?
- Cable! – esbravejou Warren do carro. – O que diabos você pensa que está fazendo, homem?
- A julgar pela reação de sua namorada, parece que a coisa certa. – telecineticamente ele enviou a espada de volta na direção de sua dona, a qual com uma ágil manobra desviou-se da lâmina e agarrou o punho, recuperando sua arma - Vocês pareciam estar esperando uma ataque. Eu não consigo deixar de me perguntar por quê...
- Eu não faço a mínima idéia do que você está falando – Warren desafiou e logo percebeu a expressão de Cable mudar e seus punhos fecharem-se lentamente.
- Preferi não confrontá-lo em frente aos outros no Instituto, Worthington, porque apesar de não ter conseguido imaginar qualquer motivo racional para a pequena farsa de vocês, resolvi que deveria dá-los o benefício da dúvida, mas agora... – passou a encarar a mulher - Braddock, não faço a mínima idéia de como você recuperou sua telepatia sem libertar o Rei das Sombras, mas gostaria muito de saber por que você a estava usando para alterar a percepção de todos os outros em relação a seu namorado.
Ainda encarando Cable ela desviou levemente seu olhar em direção ao namorado procurando algum sinal que a ajudasse a definir se sua próxima reação seria amigável. Warren apenas meneou a cabeça em assentimento e ele mesmo desligou o indutor de imagens que até então vinha usando.
Onde antes Cable via as asas de penas brancas e imaculadas às costas de Warren, agora repousavam lâminas metálicas brilhando sob a pouca luz do sol que tentava escapar entre as nuvens. Warren estendeu suas asas letais ultrapassando os limites do carro e tomando quase toda a largura da pista e inquiriu:
- Satisfeito?
- Eu não poderia estar menos – respondeu Nathan com amargura e uma expressão inconfundível de desgosto. – Elas simplesmente reapareceram da noite para o dia?
- Uma pergunta retórica, eu assumo. – a ninja deslizou desafiadoramente para perto dele. – No íntimo, você já sabia que ainda não estávamos livres desse monstro.
- Poupe-me do showzinho de intimidação ninja – ele afastou-se um pouco mais – Afinal de contas, porque vocês estão escondendo isso?
- Sentinelas, Ahab, um ataque à Escola, guerra civil em Genosha, Xavier aliado a Magneto, Guido, Lupina, Sincro assassinados e eu nem cheguei na metade da lista de problemas. A última coisa que os X-men precisam agora é de alguém acrescentando mais itens a ela.
- Você acredita realmente que qualquer uma das ameaças que você citou sequer chega perto do Apocalipse? Eu esperava que você, mais do que ninguém, entenderia o nível de ameaça com que estamos lidando quando se trata desse monstro.
As asas de Worthington expandiram-se como se tivessem vida própria e seu dono esbravejou:
- Isso não é um problema para os X-men, isso é algo que eu mesmo tenho que resolver. – Cable lançou-lhe um olhar de, simultaneamente, curiosidade e preocupação. – Mas eu não sou louco: Wolverine e Kurt já sabem e assim que resolvermos as coisas com o Departamento X, Apocalipse será nossa prioridade.
- E imagino que será a sua antes disso, não, Cable? – desafiou Psylocke.
Cable não respondeu, apenas fez um sinal com a cabeça e telecineticamente voou para longe dali.
Na madrugada, todos já haviam ido embora ou estavam dormindo, ou pelo menos, assim ele pensa. Tentou inutilmente repousar também, mas seu cérebro não para de trabalhar por um segundo que seja. Sentado no escuro da sala, ele pensava no evento dos últimos dias.
O Professor fez sua escolha, ele nunca o julgou e não será agora que o fará. Já gastou muito mais tempo do que era estrategicamente necessário no assunto e ordenou a si mesmo que não perdesse um segundo a mais nessa ponderação.
Não há nada de novo, nada pelo qual eles já não haviam passado antes. O sofrimento e a perda não lhes eram estranhos, a ansiedade e o medo do que o futuro reservava também não.
A escola já havia sido destruída outras vezes e eles a reconstruíram.
Eles já perderam outros amigos e parentes e se recuperaram.
Os X-men já se separaram antes e reuniram-se novamente.
Por pior que fossem os problemas que tivessem agora, houve momentos ainda piores.
Inspirou profundamente e súbito seus braços tremiam levemente. Após tanto tempo segurando-se, finalmente permitiu-se ceder à insuportável angústia que o assolava.
Uma lágrima escorreu por baixo de seu visor.
Debruçou-se sobre a mesa, escondendo o rosto entre os braços, deixando que o desespero tomasse as rédeas e implorou para que todo o peso do mundo fosse embora entre soluços.
Sentiu que algo não estava certo e, que apesar de todos os elementos comuns e tragédias familiares, havia alguma coisa que destoava do conjunto.
Algum pequeno e indistinto elemento unindo todos os outros estava por desencadear uma seqüência arrebatadora de eventos.
Uma insignificante borboleta bateu suas asas em algum lugar do mundo em algum momento qualquer... A tempestade resultante está se formando.
No próximo capítulo:
O que afinal aconteceu com Medula?