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Oliver e Dinah finalmente resolvem tomar uma decisão a respeito de Mia. Mas a felicidade familiar encontra-se ameaçada pela nova jogada de Phineas Wing, que acredita ter descoberto a identidade do Arqueiro Verde, com consequencias que se mostrarão bastante desagradáveis para Oliver.
Arqueiro Verde Criado por Mort Weisinger e George Papp Capítulo XXI Identidade Secreta – Parte um Escrito por Nano Souza Editado por Walter Stodieck
Meu nome é Oliver Queen e eu sou um fora da lei. Por fora da lei, não quero dizer um criminoso, mas uma pessoa que não opera dentro do sistema. Em primeiro lugar, porque não acredito nele. Em segundo lugar, porque sempre fui um sujeito independente, dono das suas próprias idéias.
Em geral, essas idéias envolvem se fantasiar de Robin Hood e pegar marginais na calada da noite antes que eles machuquem pessoas inocentes, não importa se pretendem assaltar, ferir, matar ou venderem drogas. Por causa disso, algumas pessoas me chamam de super-herói. Pena que a polícia de Star City não pense o mesmo.
- Ai! – Resmunguei quando Dinah apertou o curativo no meu braço, recém-ferido.
- Fique quieto, senão eu juro que aperto com mais força ainda! – Ela sorriu maldosamente.
- Malditos tiras. Ainda bem que a bala só pegou de raspão...
- Você não acha que está meio crescido pra ser alvejado pela polícia? Eu nunca tive um problema desses...
- Comece a passar por cima da polícia de Star City e você vai ver... – respondi. – Mais da metade do departamento está sujo, e como já estraguei algumas das operações dos seus “parceiros” do crime organizado, é claro que receberam ordens pra me tirar do caminho.
- Com que acusação?
- Ah, qualquer coisa serve: agressão contra “cidadãos inocentes”, invasão a domicílio, obstrução da justiça, desacato à autoridade, tentativa de homicídio...
- Tentativa de homicídio?
- Acertar flechas nos ombros, braços e mãos de crápulas pode ser interpretado como uma tentativa minha de matá-los, como se eu fosse errar se quisesse...
- Mas você não quer isso, certo?
- Pelo amor de Deus, Dinah, você esqueceu com quem está falando? Eu sou o sujeito que chegou a se enclausurar num monastério budista porque matou um sujeito acidentalmente...
- Realmente, você completamente careca ficou até meio charmoso...
- Pode rir. – Eu abaixei a cabeça, sorrindo.
- Se eu fosse você me acostumava, porque cedo ou tarde... – Ela passou a mão nos meus cabelos. – Sabia que tem uma pequena clareira se formando aqui atrás? Agora eu sei porque você passou a usar o capuz, no lugar do chapéu...
- Eu devia é usar peruca, como você costumava...
- Você usava peruca? – Mia Dearden finalmente se meteu na conversa, entrando na sala.
- Você não sabia? Dinah é uma loira completamente falsa... – Dei uma puxadinha no cabelo dela.
- Ai, Oliver! – Ela me deu um tapinha carinhoso. – Sim, Mia, eu sou morena, na verdade, a loirice é um atributo da Canário Negro, não de Dinah Lance.
- Então porque tingiu? – Mia se sentou no sofá, interessada.
- Quando abandonei a minha identidade secreta, era um saco ficar colocando a peruca. Cheguei a ser a Canário Negro morena, mas de repente, resolvi voltar a usar o visual antigo.
- Por quê?
- Porque faz parte do poder da Canário Negro, garota. – Resolvi provocar. – Ela é loira e usa essa meia-arrastão pros bandidos ficarem babando quando a vêem. Então, com os retardados hipnotizados, zapt, detona os caras com um ou dois golpes de kung-fu...
- Pode rir, mas você sabia que funciona? Por que acha que Diana luta seminua?
- Ué, achei que fosse pra se exibir... Mostrar pra todo mundo que tá com tudo em cima...
- Homens! Vocês só pensam numa coisa... Não importa se são bandidos ou heróis... – Ela ruminou, fingindo estar mal-humorada.
Notamos de repente que Mia ficou quieta, quando começamos a falar nesse assunto. Fazer piadas sobre a fixação masculina por sexo não é o mais indicado perto de uma menina que foi abusada pelo padrasto.
- E aí, garota, tudo bem? – Tentei puxar conversa.
- Hã... Tudo. Acho. Mais ou menos...
- A Oficial do Juizado de Menores avisou que irá levar Mia neste final de semana. Eu tentei usar a influência da SJA pra ampliar o prazo de custódia, mas a promotoria está convencida de que Mia não corre mais risco de vida...
- E agora, o que acontece?
- Ela não tem parentes próximos, e os ainda vivos são de terceiro e quarto grau, não tem obrigação de ficar com a guarda de Mia...
- Eu até prefiro ir pro orfanato a ficar com essa gente que eu nunca conheci... – De repente, seus olhos estavam lacrimejando, contrariada.
- Não diga isso, garota, eles ainda não te conhecem, quem sabe... – Tentei acalmá-la.
- Não, Ollie, eles não me conhecem e eu não quero conhecê-los. Porque eu simplesmente não posso ficar com vocês?
- Hã... Olha... – Eu realmente não sabia o que dizer.
- É, eu sei, vocês não são obrigados a acolher todas as garotinhas que salvam... Mas eu... Eu não confio em mais ninguém... – Ela chorou.
- Tudo bem, querida. – Dinah a consolou. – Tudo vai ficar bem. Por que não vai ao banheiro enxugar essas lágrimas, hein? Até domingo você ainda está sob minha custódia, então vamos aproveitar esse tempo. Se arrume que a gente vai dar um passeio, certo?
Ela concordou mais por não ter outra opção do que por gostar mesmo da idéia, e saiu. Mas eu percebi o que Dinah estava fazendo:
- Então, porque tirou Mia daqui? O que quer falar comigo?
- Oliver, eu não sei como dizer isso, mas... Acho que devemos adotá-la.
- Como é que é? – Fiquei embasbacado.
- Adotá-la Oliver. Torná-la nossa filha. Legalmente falando.
- Dinah, você tem certeza disso? Quer dizer, e aquele papo de ser agente da Oráculo e membro da SJA, de ter uma vida independente de mim? Além do mais, com essa cruzada maluca pra limpar Star City, eu estou com tanto tempo quanto você! Não sei se nós podemos cuidar de uma criança...
- Ela não é mais uma criança, Oliver. Ela tem quinze anos. Sabe se virar muito bem. Na verdade... Quero ficar com ela justamente por isso. A pobrezinha precisa se sentir segura por si mesma. E só há uma maneira de fazer isso.
- Peraí, além de querer adotar a pirralha, você também vai me dizer que quer treiná-la?
- Ela foi estuprada e violentada, Oliver. Eu sei muito bem como uma mulher se sente depois disso, esqueceu?
- Não, não esqueci, Canarinho. – Eu passei a mão no seu rosto, me lembrando amargamente do canalha que quase a matou, se eu não tivesse intercedido e dado cabo do desgraçado.
- Defesa pessoal é uma forma de auto-afirmação. Se essa menina não ganhar auto-confiança, jamais será capaz de ter uma vida normal. Não vou conseguir dormir se deixarmos ela ir pro orfanato, Oliver...
- É, nem eu... - Tentei raciocinar. – Mas será que o melhor é mesmo adotá-la? E se achássemos uma família que pudesse fazer isso e dar esse suporte, enquanto nós...
- Não, Oliver. Não é só por ela... É por mim.
- Você quer?
- Eu não posso ter filhos, Oliver, lembra? Que tipo de legado eu vou deixar, se não tiver alguém que me dê netos quando estiver velhinha? Quem vai contar minha história, quem vai lembrar de mim? Você já tem os seus garotos Oliver... Connor e Roy. Tem até uma neta... A Liam. Mas e eu? Esqueceu da sua promessa, quando me pediu em casamento?
Pior que esse detalhe tinha mesmo me escapado. Era algo que eu falei no calor do momento, tentando convencê-la do impossível. Muito daquilo foi no calor do momento, e eu nem mesmo estava tão certo se era o passo certo a ser dado. Só queria ter Dinah de volta e faria tudo para isso. Como acabei fazendo.
- Certo, mocinha. Você me convenceu. – Eu a abracei. – Eu também já pensei em ter uma filha. Chega de ter só marmanjos em casa.
- Quer dizer que eu vou ter irmãos? – Percebemos de repente que Mia estava na porta, provavelmente escutando sorrateiramente nossa conversa.
- Menina, já disseram que é feio escutar conversa alheia?
- E vocês já repararam que esse apartamento é pequeno? Deveriam me mandar passear se queriam privacidade, não me mandar ao banheiro... – Percebemos que ela estava chorando.
- Venha cá, Mia... – Dinah lhe abriu os abraços e nós três nos abraçamos.
Depois desse momento telenovela, fiquei enjoado de mim mesmo, e resolvi dar uma passada no Movimento pela Recuperação de Star City, já que ia demorar ainda um pouco pra anoitecer e eu poder colocar minha roupa preferida.
A melhor forma de matar o tempo seria conversar com meu novo amigo, Miles Poindexter, quem sabe convidar pra uma cerveja e tal. O cara estava passando uma barra em casa, com uma fofoca mal insinuada nos jornais de que ele poderia ser homossexual, plantada pelo crápula do Phineas Wing, pra tentar melindrá-lo. O pior é que o coitado do Miles nem mesmo é gay, e se fosse, ninguém deveria julgá-lo por isso. Mas o Wing é assim mesmo, tenta descobrir seus podres, e se você não tem, ele os inventa.
- Oi Hilary, como vai essa força? – Cumprimentei a secretária da sede, uma gracinha, cabelo preto liso e amarrado, óculos finos, nariz arrebitado...
- Indo bem, Oliver. Miles está lhe esperando.
Ah, que lugar bacana! Todo mundo se chama pelo nome, nada de “senhor daqui, senhor de lá”... Ninguém te olha de cima, e você não fica constrangido olhando pra baixo... A vida deveria ser assim. O mundo deveria ser assim.
- Ollie, como vai? – Miles me cumprimentou meio sorumbático.
- Vou levando, Miles, vou levando. – Apertei sua mão. – Mas é você, como é que está?
- Agüentando, Ollie. Embora as mentiras nos jornais não tenham feito mal ao movimento, lá em casa a coisa é diferente...
- A sua esposa não acredita em você?
- O pior não é ela, mas meus filhos... Não é fácil pros dois escutarem fofocas na escola. Acho que vou ter que mandar eles pra um internato fora da cidade. Maldito Wing!
- Como é que uma coisa dessas foi acontecer, Miles? Digo, eu nunca fui com a cara do Wing e tal, mas como ele foi se tornar um gangster?
- Oficialmente ele é só um homem de negócios, Oliver. Temos de tomar cuidado com as palavras, podemos até sofrer processo por isso...
- Que se danem os advogados! O que é difícil pra eu entender, depois desse tempo fora de Star City, é que a ganância de Phineas Wing o levou pra esse tipo de coisa. Eu tinha ouvido falar que o avô era mafioso e tal, mas seu pai parece que tinha se afastado completamente desse tipo de coisa.
- Como a maioria das famílias italianas e judias ligadas ao crime organizado, os negócios de fachada e lavagem de dinheiro acabaram se tornando os negócios de fato, e muitos foram aqueles que abandonaram atividades ilícitas por outro tipo de negócios. Na história da América, há muitas grandes empresas que foram fundadas por mafiosos, sem contar que muitos políticos de sucesso vieram dessas famílias.
- No fundo, no fundo, ter uma financeira é praticar agiotagem com anuência da lei. A grande verdade é que nesse país o que é considerado crime são apenas as atividades de baixo calão, que esteticamente não são aceitas para os padrões morais da sociedade. Existem vários modos de você ferir, roubar e matar pessoas, totalmente dentro da lei...
- E combater esse tipo de crime, eventualmente também torna a pessoa um criminoso, não?
- Fatalmente.
- Você já pensou em cruzar essa linha, Oliver?
- Todo santo dia. Sabe quando chega o fim de um difícil dia de trabalho e você têm a impressão de que não é suficiente?
- Depois que assumi a direção do movimento de recuperação, comecei a aprender sobre isso...
- Pois essa é a história da minha vida: já devo ter colocado na cadeia centenas de bandidos pés-de-chinelo, mas a impressão que tenho é que eles se multiplicam. Pra cada traficante que eu prendo, aparecem dois disputando o ponto dele. No final das contas, o que eu faço é lidar com as conseqüências, mas não com as causas do crime.
- Pensei que pra vocês vigilantes isso fosse suficiente.
- A maioria gosta de se enxergar como um bombeiro ou policial, garantindo a ordem do jeito que as coisas estão. Mesmo os caras mais parecidos comigo, como o Batman, bem, esse parece que adora tanto o que faz que não quer acabar com o crime coisa nenhuma. Se o crime acabasse o Batman entraria em parafuso, o sujeito vive pra pegar bandido.
- E você, acha que é possível?
- Eu sei que sozinho não tenho as respostas, nem vou resolver, mas...
De repente, escutamos um grande tumulto vindo da recepção.
- Mas que diabos está acontecendo? – Me dirigi até a porta, me preparando pra porrada, porque se tem algo que a gente aprende nessa vida é reconhecer encrenca quando ela chega.
- Hilary? Hilary!? – Miles tentava em vão contatar sua secretaria pelo interfone.
Cheguei com menos de dez passos até a recepção e a coisa era pior do que pensava: dez tiras mal encarados e armados, quatro deles da S.W.A.T.
- Eu vou perguntar pela última vez, mocinha... – Gritava o sujeito de terno e gravata, provavelmente líder da operação. – Onde está Oliver Queen?
- Não precisa ser bronco, cara. Eu estou aqui. – Fui em direção a ele, porque parecia que ia se atirar em cima da Hilary.
- Parado aí, Queen. Você está preso! – Me apontou a arma e o distintivo.
- Hã? Preso? – Eu desconfiava do porquê, mas não entendia como.
- Isso mesmo, não tente nenhuma dessas gracinhas de super-herói, ao menor movimento seu temos ordens pra atirar! – Percebi que dez armas estavam apontadas pra mim, por todos os lados, e eu sem uma única flecha. Além de não saber se eu daria conta de um pau bravo desses, com certeza revelaria minha identidade secreta, caso agisse. Melhor cooperar.
- O que está acontecendo? – Miles, esbaforido, e lerdo como sempre, finalmente chegou na sala.
- Fique parado exatamente aí, Poindexter, ou vamos levá-lo também por obstrução da justiça. – O engravatado apontou a arma pra ele.
- Você não pode sair apontando armas pras pessoas sem um mandato, Tenente Heincz... – Pelo visto, Miles conhecia o crápula.
- Pois seu amigo aí tem um contra ele... – O barbudinho tirou um envelope do bolso e atirou para Miles. – Assinado pelo próprio juiz Calahan.
O nome não me era estranho. Calahan era um dos juízes que estavam no bolso de Wing. De repente, as peças se encaixavam.
- Com qual acusação, posso saber? – Desafiei-o através do meu tom de voz.
- Vigilantismo. Obstrução da Justiça. Invasão de Domicílio. Agressão. E tentativas de assassinato.
- Nossa... – Sorri, ameaçadoramente. – Não sabia que eu era tão perigoso. Sou apenas um ex-playboy desempregado...
- Pode rir, Queen, mas a piada vai perder a graça quando você estiver na cadeia. Sabemos que você é o Arqueiro Verde. Mãos nas costas!
O cara se aproximou e me algemou. Eu tive que deixar.
- O Arqueiro Verde? Que besteira! O que eu tenho a ver com esse cara...?
- A descrição bate com o acusado: loiro e de cavanhaque...
- E agora quer me dizer que tu vai prender todos os caras loiros e de cavanhaque em Star City? Eu nem tenho mais idade pra essas coisas...
- Isso é um absurdo. – Miles tentava protestar. – Vocês não podem ir prendendo pessoas sem provas. Digam pro juiz Calahan que desta vez ele passou dos limites. Vou denunciar ele pro juizado federal...
- O que você vai fazer, não nos interessa, Poindexter. – O tal Heincz me pegou pelo braço. – Nós vamos agora pra delegacia. Passar bem.
- Liga pra Dinah, Poindexter. Ela está no meu apartamento, no centro. Ela saberá o que fazer! – Disse, enquanto era arrastado para fora.
Os caras me atiraram no carro sem cerimônia e algumas pessoas tinham se aglomerado pra ver porque tantos carros da polícia tinham parado em frente a sede do movimento. Com certeza, eles esperavam uma reação do Arqueiro Verde, pra ter trazido tantos efetivos. Minha lenda é maior do que minhas reais capacidades, pelo jeito. Devo ter assustado realmente os desgraçados, nestes dois meses.
- Você cometeu um erro, Queen. – Heincz acendeu um cigarro, enquanto seu motorista dirigia. Deus, como eu odeio cheiro de cigarro, ainda mais quando o vento empurra a fumaça pra minha cara. – Pisou no calo de pessoas muito importantes... E adivinha, desta vez você está do lado errado da lei.
- Ainda não sei do que você está falando... – Me fiz de desentendido.
- Claro, claro... – Ele riu. – Já te disseram que o seu disfarce é o pior do mundo? Não vamos ter problemas em arrumar uma dúzia de testemunhas, entre policiais e marginais, pra apontar você como o Arqueiro Verde.
- E se eu não for?
- Pensa que eu me importo? Se não for mesmo você, paciência. Pegamos o próximo também. Um cadáver a mais ou a menos...
CONTINUA! |