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John Constantine tem uma conversa com Proence sobre o destino de seu bebê e de toda a humanidade!
Referente à Janeiro/ 2007
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John Constantine – Hellblazer A Décima-terceira hora Segunda Parte: Apenas um bebê em um abismo negro Por Raul Kuk
O suor escorria pela testa de Proence, marcando seu rosto e refletindo a imagem da TV. Ela jamais as veria, mas cada gotícula de suor formava um arco-íris perfeito, um caleidoscópio de ondas eletromagnéticas, a radiação tocando os elétrons de sua pele de maneira desgovernada, acariciando moléculas em suspensão, universos em miniatura que desapareciam em um intervalo pequeno demais para ser mensurado. Cada centímetro de seu corpo era um mundo diferente, mundos que John Constantine conhecia muito bem. E esse pensamento, de vez em quando, voltava para atormentá-la. Gostava daquele humor debochado, tipicamente inglês, a maneira como ele menosprezava a “grande América”, sentado nos pubs para ver os jogos do Liverpool. Não parava de reclamar, xingar juízes, jogadores e adversários, deixava todos ao redor dele putos e de bom humor, ao mesmo tempo. Mas tinha aprendido a lidar com gente como John Constantine, aproveitadores, gente ingrata e mal intencionada. Não confiava em homens de sorriso bonito, humor mordaz, inteligência petulante. Mas os amava. A professora de ginástica na TV continuava retesando seu corpo, indiferente às limitações que o tempo e a idade impuseram a Proence. A gravidez a tornara lenta, cansava-se muito facilmente, não tinha paciência para ouvir as instruções. Queria apenas manter a forma, não se sentir tão cansada, tão mal-humorada em uma cidade com mais de oito milhões de caras feias a evitando todas as manhãs. Assim era Gotham City, todos pareciam carrancudos e estar constantemente com o Batman enfiado no rabo. Gotham precisava de um desgraçado como John, nem que fosse só por uma noite, uma noite para dividir com ela. Mas era tarde demais para ambos. Desde que decidira ter um filho – uma produção independente – Proence Fowler tinha dado por encerrada sua vida social, sentimental e sexual. O tempo a estava alcançado, aquela podia ser sua última chance e não tinha mais paciência para namoros, relacionamentos, intimidade, confiança, perder a privacidade, mentiras, desilusões e voltar atrás apenas para não ficar sozinha. Nunca mais estaria sozinha depois que tivesse um filho. Como o chamaria? Certamente, não seria John. Aquele nome podia dar azar, e John Constantine não era o pai da criança. Uma vez, Constantine dissera que, quando um bebê nasce, o anjo Gabriel sussura para a mãe qual deverá ser o nome do recém-nascido. Mas eu andei dando motivos de sobra para aquele desgraçado ficar puto, ele não deve estar fazendo nenhuma sugestão minimamente apresentável ultimamente. Esse era John Constantine. Subitamente, seus pensamentos fugiram ao ouvir as batidas na porta. Levantou-se devagar, tentando lembrar no que estava mesmo pensando, parecia algo bom e divertido, uma lembrança agradável, como é que tudo foi sumir assim de repente, não é a gravidez, a memória sempre falha, odeio perder as coisas, odeio esquecer no que estava pensando, ou o que estava dizendo, principalmente quando conheço alguém e não lembro o nome da pessoa ou o que ela faz, acho que tinha a ver com um anjo, ou seria um bebê... - Olá, Proence. Espero que não esteja pensando em cobrar pensão de mim. Resistiu à tentação de estapeá-lo, de bater a porta na cara dele, de gritar o quanto ele era imprestável e mau caráter. Mas o instante se congelou, sentiu-se presa para sempre em uma ironia, o cheiro dos cigarros de Constantine dando-lhe náuseas, o bebê em seu útero parecia gritar mande-o embora, mande-o embora. O jato de vômito veio forte, quente, no pé de Constantine. - Eu pensei que ia ser muito pior, acredite...
A Quadrim Apresenta: John Constantine - Hellblazer  A Décima-Terceira Hora Constantine criado por Alan Moore, Steve Bissete e John Totleben
Interlúdio: Voltas, quantas voltas, quanto tempo até se cansar e perder a conta? Jamais conseguiria se concentrar por tanto tempo, era impossível manter o pensamento focado no que realmente importava... Setenta e duas voltas, no sentido horário, era tudo que precisava... Não, ainda não era tudo. Dúzias de tabelas, seqüências de letras, encantamentos e conjurações que de nada lhe serviriam se não fosse capaz de manter o pensamento focado acima do medo, acima do desespero. Mas era apenas um homem, tentando fazer o que aprendera que era certo. Quanto tempo até desistir, até o medo dominá-lo, até tudo se perder e sumir em uma nuvem de intolerância e preconceito? Teve visões de campos de concentração, fornos crematórios, corpos sendo enterrados e pessoas cavando seus próprios túmulos. E um nome, John Constantine, o nome de seu amigo. Talvez aquela fosse sua única chance, não gostava de mexer com essas coisas sem John, mas tinha que fazer alguma coisa ou enlouqueceria. Não podia, pura e simplesmente, esperar que a situação se resolvesse, ela nunca se resolvia, tudo era em vão. E, toda vez que esse pensamento alcançava sua mente, tinha certeza de que estava no caminho certo, era apenas a contra-inteligência tentando derrotá-lo, fazendo-o acreditar que não era digno das promessas feitas a seus ancestrais, a Avraham, Yitschak e Yaacov. Rav Ashlag continuava estudando e meditando e, quando a hora certa chegasse, precisava estar pronto. Fim do interlúdio.
- A que devo a “honra”? Proence ainda era tão bonita quanto se lembrava. Os anos tinham passado, claro, e essa idéia idiota de gravidez em fim de carreira ainda podia acabar com ela. Principalmente se ela soubesse o que John já sabia. Mas precisava se deliciar, ainda que por apenas alguns instantes, com a visão da mulher diante de si. Grávida, transpirando vapor e tão bonita quanto se lembrava. - Você não me ligou, não me escreveu. Pensei em fazer uma visita cordial. - Corta essa... Está tentando me dizer que você veio de Liverpool até aqui... - Londres. - ... de Londres até aqui só pra fazer uma “visita cordial”? - As pessoas mudam. - Não você. Não você. Era irônico, mas ela tinha razão. Jamais iria aos Estados Unidos se não tivesse algo a ganhar com isso. E o que estava fazendo ali? Um favor para um amigo, salvando o mundo, tentando salvar o filho não-nascido de uma ex-namorada com motivos de sobra para odiá-lo? Talvez apenas estivesse tentando fazer com que as pessoas se sentissem em débito com ele, ou parassem de pensar coisas negativas ao seu respeito. Já tinha inimigos demais, no céu e no inferno. Talvez pudesse conseguir arrancar algo de bom da humanidade, afinal. - Eu odeio quando você fica pensativo assim, John. - Olha, você tem razão. Eu não devia ter vindo aqui. - Como é? - Eu não vim aqui pra fazer uma “visita cordial”, não vim aqui com as melhores das intenções e não vou ser hipócrita de dizer que, mesmo depois de tanto tempo, ainda penso em você. Mentira. Esqueci você, muitas vezes, nos braços de muitas mulheres, muitas noites. Não te tratei como você merecia e também não sou um pecador arrependido, vindo aqui me desculpar, bancando o Jesus pros leprosos na minha cabeça. Tem um mundo muito grande e desgraçado lá fora, e isso você já devia saber, morando em Gotham. Não tem ninguém no mundo que entenda melhor o que é a loucura e o desespero do que eu e, vai por mim, nem eu gosto daqui. Estou tentando arrumar um jeito de manter as coisas em seus devidos lugares, como eu sempre fiz. Mexi com muita gente grande, muita gente filha da puta, a qualquer momento pode aparecer alguém e acabar com meu “estilo de vida”, mas, por mais que eu corra, essas... Essas coisas acabam vindo atrás de mim, elas pulam no meu colo e, quando me dou conta, tenho o sangue de um demônio correndo em minhas veias, a criação dependendo da decisão que eu tomar ou a vida de um amigo indo pro ralo. Gostou? Era isso que você queria ouvir? Que eu não presto?! Ouviu isso diretamente de mim agora. - John, eu... - Não se atreva a dizer que não teve a intenção, não vem dar uma de coitada agora. Minha paciência anda muito curta e tenho ouvido um bocado de bobagem ultimamente. Por que você acha que estou aqui, afinal? - Eu... Eu não sei, eu... - Por que você acha? Proence preferiu abaixar a cabeça. Depois daquele desbafo, qualquer coisa que dissesse soaria mentirosa, o tipo de mentira que sabemos que as pessoas querem ouvir. Mas isso não daria certo com ele. - Me desculpe. - Eu fiz uma pergunta. - Eu pedi desculpas, tá legal? - Responde, Proence! Você não é tão mais nova do que eu! De onde tirou essa idéia de ter um filho? O que você pensa que está fazendo? - Você não sabe nada a meu respeito! - E o que você sabe!? Eu odeio perder tempo, e esse é um luxo que não temos aqui . - Dá pra me dizer o que está acontecendo? Ela, finalmente, parecia ter baixado a guarda. Aquela era sua melhor, senão a única chance de resolver tudo. Era só explicar a ela que... Pensando melhor, suas chances continuavam não sendo das melhores. - Me dê sua mão. Constantine não conseguiu disfarçar seu mal estar quando Proence estendeu a mão esquerda – aquilo, por si só, já era um péssimo sinal vindo de uma mulher grávida. Arregaçou as mangas, tentou afastar de sua mente o cheiro do vômito que impregnava a barra de sua calça e segurou a mão dela. Com os olhos fechados, procurou enxergar as coisas que ninguém mais veria, nem com os olhos abertos. A maior parte das pessoas desperdiça energia e neurônios tentando enxergar as coisas com os olhos abertos, dentro de uma gama muito estreita de possibilidades. Idiotas, todos idiotas. Todos cegos demais para ver. Obviamente, não ia perder tempo tentando ensinar. Ainda havia muita coisa em Proence que era familiar a Constantine, uma vibração que só podia ter se originado entre duas pessoas muito íntimas. Ela teria recolhido sua mão se soubesse o que John estava pensando, no tipo de coisa que ele precisava se concentrar para ler a alma dela. Foram íntimos, por tempo suficiente para que fossem um só, para que não houvesse segredos entre eles, para que não precisassem de luz, discursos ou roupas. Tinham tudo que precisavam nos fluidos um do outro, no sabor dos lábios quentes e desesperançosos, na vida que ousaram entregar de corpo e alma ao parceiro de seus delírios. Ela jamais saberia, mas pôde sentir o que ele estava sentindo, e sentiu-se subitamente envergonhada por ainda carregar esses sentimentos dentro de si. E havia algo mais... Algo mais que ela carregava, uma espécie de... Vazio. Algo estava errado, havia um corpo sem alma dentro dela, mas a alma dela estava lá, então... - Proence, precisamos conversar. Então Constantine explicou a ela sobre a conversa que tivera com o Rav Ashlag, sobre Rasputin e sobre a maldição que aquela alma carregava. E sobre como ele queria voltar e o que tinha descoberto até ali. - Por que eu? - Sem querer me gabar, mas talvez seja pra que tenhamos uma chance de impedir isso. - Ele vai ser apenas um bebê! Um bebê, não pode ser capaz de atrocidades! - Você sabe que isso não é verdade. Enquanto ele for um bebê, não vai sair por aí se alimentando de carne humana, sodomizando virgens ou dando um 360 com o pescoço. De forma alguma. Será uma criança perfeitamente sadia e normal. Porém, o Rav Ashlag me disse que “uma nação prevalecerá sobre a outra”. Essas nações são as almas que vão habitar esse corpo. A mais antiga, a mais poderosa, vai tirar o lugar da outra. Nada de “possessão demoníaca”, apenas partes de uma alma que não deveria estar ali. Há um jarro dentro de você, esperando que essa alma se instale. Foi quando ela baixou a cabeça e começou a chorar. Não por temer seu destino, não pela vida da criança que carregava, mas por ter sido, em menos de meia hora, arrastada para a loucura que era a vida de John Constantine. - Isso não nos deixa muita escolha, Proence. Precisamos resolver logo a questão. - Como!? - Você precisa tirar essa criança. - Está sugerindo que eu faça um aborto!? - Não foi uma sugestão. - Seu desgraçado, porque precisa ferrar com tudo, porque precisa transformar a vida das pessoas de quem se aproxima nisso!? - Acredite, não tive nada a ver com isso. - Você é um filho da puta se acha que vou acreditar nisso, e eu desejo de coração que sua alma apodreça no inferno! Eu estou me sentindo mal desde a hora que você chegou, com vontade de chorar, com enjôos... - Rasputin está fazendo isso! - Cala a boca! - Presta atenção, Proence! Eu não vim aqui pra tentar te convencer a fazer o que eu quero, eu vim tentar achar uma solução pra isso! Infelizmente, não é a solução mais fácil. Nós temos que impedir que esse russo maluco volte, e está nas suas mãos agora... - John... - ... do contrário, não quero nem pensar no que vai acontecer com a gente! Você vai morrer de maneira lenta e dolorosa, e isso pra mim seria uma benção! - John... Você falava dormindo... Falava sobre Newcastle... - Ah, merda. - O que aconteceu em Newcastle... O que isso fez com você? Algumas lembranças eram de dor, sofrimento e miséria. As de John Constantine eram de Newcastle. Não tinha mais pesadelos com isso, não falava mais dormindo sobre os horrores que libertara naquele lugar maldito. Mas o que fizera, o erro que cometera, o acompanharia pelo resto da vida. Pelas próximas encarnações. Enquanto houvesse um só Constantine na Terra, ele pagaria. - Fiz uma grande cagada em Newcastle. Tentei consertar, o melhor que pude, mas tudo que consegui foi ferrar com um monte de gente que confiava em mim. A maioria deles colocou uma corda no pescoço no exato instante em que começou a me seguir. E é tudo que tenho visto desde então, um mundo desgraçadamente esquisito, de ponta cabeça. - Espera que eu acredite nessas coisas?! Como? Eu sequer tenho motivos pra te receber na minha casa, quanto mais fazer um aborto porque você acha que meu filho será uma espécie de anti-cristo! Que absurdo é esse, John? - Ok, me diz quem é o pai dessa criança. - O que isso tem a ver com...? - Eu quero o nome dele. - Ele nunca vai concordar com... - O nome. Me diz o nome dele. E eu vou embora. - Do que você...? - É pegar ou largar. Qual o nome dele. - Eu... Incontáveis segundos se passaram, o chão se abriu sob os pés dela. - Eu não sei. - Satisfeita? - Isso não prova nada! Eu tenho fotos com ele, tenho... - O que uma foto prova? - Que ele existe! - Eu nunca disse que ele não existia. Por que você está me dizendo isso? Porque ela nunca parou pra pensar. Nunca quis enxergar o óbvio. Poderia escrever um livro descrevendo aquela noite, como o conhecera, da atração irresistível que sentira por aquele homem, o calor entre suas pernas, a respiração ofegante, as veias pulsando com vida e tesão, os seios retesados e, ainda assim... um grande vazio. Como se nada daquilo tivesse acontecido, como se não fosse verdade. Um grande vazio que a preenchera, roubara uma noite – teria sido mesmo apenas uma noite? – de sua vida, olhos sem um rosto, paixão sem um nome, fogo sem calor. - Proence? - O quê? - E então? - Do que falávamos? - Por que você afirmou de maneira tão enfática que ele existe? - Porque é verdade. - Você mente muito mal. - Viu isso com seus “poderes mágicos”, John? - Não, é a maneira como você mexe com o cabelo sempre que fica nervosa. - Muito engraçado. - Eu não estou brincando. Mas o que vai ser, Proence? Vai acreditar em mim e fazer o que tem de ser feito? Era difícil entender porque as coisas tinham de ser dessa forma. Ele atravessou o oceano pra dizer que ela tinha de abortar? Mundo cão, esse em que vivemos. - Eu... Eu não entendo nada dessas coisas, John... Não sei, você... Você sempre foi.... Difícil de acompanhar. Parecia estar sempre um passo à frente de todo mundo, com aquele papo de ocultismo. E agora... isso? A “reencarnação do mal”? Basta fazer um mero aborto e... tudo resolvido? - Na verdade, não seria um “mero aborto”. Seria preciso minar a força espiritual do pulha e blá-blá-blá. Acredite, você não ia gostar de saber dos detalhes. - A gente tem que fazer isso em “solo sagrado”, ou coisa do tipo? - Coisa do tipo. Vamos, arrume suas coisas. - Aonde vamos? - Estudar história antiga. Longe dali, mas não como estamos acostumados: Pobre idiota... John Constantine, seu pobre idiota!
A seguir: O chão sob os pés dela" |