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A Mundo foi amaldiçoado com a América, a América foi amaldiçoada com Gotham City e John Constantine terá que voltar aos Estados Unidos para impedir o nascimento de um grande mal... Ou será tarde demais?
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Capítulo XV A Décima-terceira hora Primeira Parte: O que nos traz à América Por Raul Kuk
A madrugada em Gotham City é diferente de qualquer outro lugar do mundo. É como um demônio ensandecido, fora de controle, buscando sangue. Lojas, bares, shoppings e casas de espetáculos continuam funcionando, indiferentes ao perecer do sol no horizonte. Táxis desgovernados cortam o trânsito, prostitutas oferecem seu “seguro de vida” (“cobrimos qualquer carência”) e criaturas da noite deixam o submundo para experimentar o gosto cáustico da civilização, em sua maior metrópole. O Rabino Ashlag caminhava apressado por becos escuros e imundos, pisando na desgraça de uma sociedade corrupta, sob as sombras de gárgulas e políticos inescrupulosos. Não gostava de Gotham City. Tinha planos de deixar a cidade com sua mulher e as duas filhas e voltar para Tel Aviv. Gotham não era mais segura para as crianças. Mesmo assim, tinha um trabalho a fazer e o faria bem-feito enquanto nele fossem depositadas a fé e a confiança da comunidade israelita de Gotham. Na Cidade das Trevas, pequenos pontos de luz não podem perder a esperança. Sirenes, gritos, tiros e pneus cantando, o Rabino continuava apressado em sua jornada. Bateu à porta com certa rispidez, mais pelo nervosismo do que pela pressa. A sra Mordechai atendeu entre lágrimas, tentando conter o choro em meio a preces e expressões em iídiche. Rav Ashlag beijou a mezuzah no batente da porta e entrou. Arieh Mordechai estava ao lado do berço, segurando a mão de seu filho recém-nascido, uma frágil escultura de cristal prestes a se quebrar. A pneumonia estava consumindo as forças do bebê, nascido prematuro, e não lhe restava muito tempo. - Por que a criança não está no hospital? - Os médicos disseram que já fizeram tudo que podiam... Aquele lugar não é mais o mesmo desde que... Desde que o Dr Wayne foi assassinado, eu acho... - Eu lamento muito... Vamos rezar o Kaddish, sim? O casal se colocou solenemente de pé atrás do rabino, que puxou a oração que deveria iluminar a alma daquela criança no além-vida. A familiaridade daquele ritual deveria ser o suficiente para trazer algum conforto àquele lar, mas não foi bem assim. Os versos da oração ecoavam pelos corredores da casa. Talvez não houvesse conforto àquela noite. Não em Gotham City. A oração terminou sem que ninguém se sentisse melhor. Algo ainda estava incrivelmente errado. A criança continuava agitada dentro de seu berço, lutando pela vida contra um inimigo invisível. Mas era tarde. O Anjo da Morte já estava presente naquela sala. A sra Mordechai ainda abraçou o filho no colo, uma mistura de dor e força, tentando impedir que aquela vida cálida se perdesse. A luta de uma mãe, uma leoa ao lado de Arieh. Uma mulher digna. O rabino se aproximou e olhou para os olhos da criança, já vazios, os lábios ficando roxos. - Rasputin está voltando – disse o bebê, antes de expirar para sempre.
A Quadrim Apresenta: John Constantine - Hellblazer  A Décima-Terceira Hora Constantine criado por Alan Moore, Steve Bissete e John Totleben
Eu odeio a América – pensou John Constantine, ao desembarcar. E odeio Gotham, mais do que tudo! Talvez o problema não fosse a longa viagem, o péssimo serviço de bordo ou mesmo a sua chegada. Talvez o problema fosse com o que vira acontecer semanas atrás. A barba mal-feita, o humor desgraçadamente irritante e o hálito de whisky acusavam que Constantine não estava realmente em seus melhores dias. Ela está morta, murmurou para si mesmo. Ela está morta, seu filho da puta, e a culpa é sua mais uma vez! Obviamente, nem tudo era preto no branco. Mas é muito fácil se afogar em auto-piedade quando não se tem mais esperança. O que sombra? Um monte de fantasmas gritando seu nome, pesadelos constantes e aquele maldito amargor subindo pelo estômago, entalando na traquéia e ameaçando explodir em sua boca. Constantine esperava morrer engasgado com essa sensação, mas a morte era um privilégio reservado àqueles que se importavam com ele apenas. Mas John... John Constantine não precisa se importar com ninguém. Tudo que queria era se destruir, se consumir, gritar, chorar e vomitar seu ódio e desprezo pelas maquinações do destino nas calçadas fétidas de Gotham City. Por isso, de todos os lugares na face da Terra, ele foi aportar justamente no que mais odiava. A cidade continuava exatamente do jeito que ele se lembrava. Suja, escura, mesmo à luz do dia, e quente até no inverno. Se tinha um lugar esquecido pela misericórdia, esse lugar era Gotham City. Constantine acreditava que o apocalipse começaria por Gotham e seus demônios noturnos, mas ao atender o chamado do Rabino Ashlag sequer podia imaginar o quanto estava perto da verdade. Resolveu parar num bar, após se esquivar de mendigos, travestis e trombadinhas. Odiava essa cidade, odiava! Precisava de um trago. Não dá pra encarar Gotham City careta. A qualquer momento, a escória da civilização ocidental podia abrir um rombo no peito dele e John Constantine se tornaria apenas mais uma estatística na loteria da morte local. Não escolheu o bar. Aliás, o boteco. Não encontraria nada parecido com os pubs londrinos, apenas espeluncas famosas por sua comida ruim e bebida ainda pior. Mas ia ter que servir. Encostou-se no balcão e pediu uma Budweiser, pois tinha certeza que um lugar daqueles não serviria Jack Daniel’s. Ironicamente, também não servia Budweiser. A cerveja era barata e tinha gosto de mijo de rato, mas ele não se importou. Afinal, o que é um peido pra quem já está todo cagado, mesmo? Um sujeito encostou no balcão ao seu lado, provavelmente um cafetão local, a julgar pela aparência. Cabelo bem aparado, bigode e óculos escuros, terno falsificado e um palito de fósforo no canto da boca. Pediu uma cerveja e cumprimentou Constantine: - Saúde! - Saúde. - Passeio ou negócios? - Alguém vem pra esse fim de mundo a passeio? - Heh! Na verdade, não – disse o desconhecido. – Mas essa cidade não é boa pra negócios. Não é boa pra mexer com coisas que não conhecemos. Sabe como é, “em Roma, como os romanos”. E aqui não é Roma. - Entendo. Na verdade, estou pensando em sair daqui o mais rápido possível. Só preciso ver um velho amigo... O Rabino Ashlag. - Um inglês veio a Gotham City atrás de um rabino? - Não há bons rabinos em Londres. O estranho pareceu não ver graça na piada. Ou talvez não seja realmente engraçado, mas seu tom de voz tornou-se mais ameaçador: - Escute... Gotham não costuma ser muito hospitaleira. As notícias correm muito rápido, sempre há alguém de olho, sempre há alguém que sabe. Eu sei que você é inglês, que se chama John Constantine e que já se meteu em muita encrenca. Mas isso não é da minha conta. Eu sou só um observador. Cuide-se, John. Há mais gente observando. O estranho colocou o dinheiro no balcão e saiu sem encostar na cerveja. Já estava na porta quando Constantine chamou sua atenção: - Ei! Você ainda tem pesadelos com... Morcegos? A pergunta pareceu incomodar o estranho, que deu as costas e sumiu nas sombras da cidade. Seria um longo dia... Cidade do caraleo! O Rabino Ashlag estava esperando John. Tinha o braço enrolado no tefilim, a tira de couro que os judeus usam em suas orações, e a cabeça estava coberta pelo talit. Estava rezando há três dias, em jejum, esperando encontrar respostas para o estranho fenômeno que presenciara. Continuava tendo pesadelos, tinha dúvida em discernir o sono do despertar e era incapaz de puxar pela memória fato mais bizarro do que testemunhara. A única alternativa que lhe parecia racional era pedir ajuda a um velho amigo, um mago beberrão que conhecera no Cairo, anos atrás. Tão racional quanto podemos entender a intromissão de John Constantine em assuntos do Paraíso e do Inferno. - Shalom, rav. Cheguei numa hora ruim? Rav Ashlag não se considerava um amigo íntimo de Constantine, mas nutria grande respeito por ele. Contudo, aquele homem à sua frente não se parecia muito com o provocador que conhecera no Cairo. - Qualquer hora que você apareça só pode ser uma péssima hora, John. Como vai? - Nada mal. - Tem certeza? Você não parece bem... Aconteceu alguma coisa? - Intoxicado pelo ar daqui. E você? Verificou aquelas coisas que roubamos no Egito? - Sim, ao que parece, são autênticos. Mas não foi por isso que te chamei. - Suponho que não. O que foi? - Constantine, o que você sabe sobre Grigori Rasputin? - Não muito. Mago, charlatão. Filho da puta. Essas coisas. - E sobre a morte dele? - Bom, a menos que eu esteja enganado, e Lúcifer tenha mentido pra mim, ele se recusava a morrer da maneira tradicional e alguns rituais tiveram que ser feitos para manter a alma dele no inferno. Mas ele não morreu da maneira como entendemos a morte. Por que? - Porque, na semana passada, eu vi uma criança recém-nascida falecer de pneumonia. Eu fui até a residência da família para rezar e confortar a família diante dessa tragédia. Um bebê, John. Nasceu prematuro e faleceu com treze dias... - Sei. E? - Antes de morrer, o bebê olhou nos meus olhos e disse: “Rasputin está voltando”! - Puta que o pariu! O espanto de Constantine era real. Claro, ele já vira muitas coisas estranhas antes. Muitos demônios, muitos fantasmas. Mas aquilo o pegou de surpresa... Não era o fato de um bebê recém-nascido ter falado, mas por ele acreditar no que a criança dissera. - Eu acredito em reencarnação, Constantine. Sempre acreditei. Mas o fato de uma criança, desculpe, um bebê vir ao mundo apenas para dar esse recado é prova de que há forças se alinhando nesse momento! - Não vou negar que é sinistro, mas pode ser um incidente isolado... - Acredita realmente nisso? Pois não é! Eu tentei esquecer o ocorrido, mas nos últimos dias, eu vi em jornais que outros casos como esse ocorreram! Crianças autistas escrevendo “Rasputin” com sangue nas paredes das escolas, bebês que dizem “ai, ai dos que vivem na Terra”, cegos descrevendo os horrores do inferno em que o demônio foi acorrentado... - Ainda lendo Notícias Populares? - Aprendi com você! - Hah! Certo. Tudo bem, rav. Vou ver o que descubro. – Constantine tentava transparecer calma, mas Rasputin era um assunto tabu nos círculos de iniciados. Qualquer coisa envolvendo o nome do feiticeiro russo era tratada com reticência e cautela, talvez mais do que o necessário. Talvez, não. - Me ligue, se precisar de alguma coisa. Podemos hospedar um velho amigo aqui. - Obrigado. Aliás, o senhor tem dormido bem? - Não, eu... Eu não tenho dormido muito bem... Pesadelos... - De que tipo? - Monstros, eu acho... Se erguendo do chão... Da lama. Isso te diz alguma coisa? - Me dá alguns palpites. Vou fazer uma pesquisa de campo e telefono se descobrir alguma coisa. - Ótimo, John. Obrigado. - De nada. Mas diz aí... Você tem alguma bebida decente aqui? - Vinho kosher. Se isso não servir, pode procurar algum boteco. Rav Ashlag ainda explicou a Constantine o que a Kabbalah tinha a dizer sobre aquele fenômeno. As informações pareciam se conectar em um nível muito profundo, algo que não surpreendia o inglês nem um pouco. Noventa anos se passaram desde a morte de Rasputin. E o bebê falecera na mesma data que o monge, 16 de dezembro. - Acho que já sei por onde começar. - Certo. Mas, escute... Tem certeza que não quer ficar por aqui? Você parece... Outro. Ela morreu, Rav. - Não se preocupe, eu estou bem. - Não estou tão certo disso. Sinto um... Luto em seu coração. - Nada que eu já não tenha passado antes, acredite. Constantine pegou um táxi até a zona portuária de Gotham. Tinha certeza que o motorista estava roubando pela corrida, mas “em Roma...” O porto de Gotham já fora um dos maiores do mundo, agora era apenas uma relíquia para lembrar à população o que uma péssima administração é capaz de fazer com o progresso. Ratos, prostitutas, contrabandistas e estivadores se misturavam ao ar salino, um retrato de tudo que Gotham podia oferecer de pior. - Ei! Ei, você! O que está fazendo aí? - Só passeando. - Então saia daqui e vá passear em outra freguesia! Não temos tempo pra perder com turistas idiotas. Idiota é sua mãe, pensou Constantine, quase grato pela informação do segurança. O estaleiro ficava longe, mas tinha tempo de sobra. O pôr-do-sol no cais não era tão feio, talvez nem Gotham City pudesse estragar essa cena. Mas tudo que queria era voltar logo para a Inglaterra, para longe do calor cáustico da poluição americana. Aquele lugar o envenenava. Era como um câncer, um tumor inteligente tentando destruir a todos. O maior hospício do mundo. Não, você não quer voltar para a Inglaterra. Você quer voltar é para ela! Mas ela não estava mais lá. E John Constantine nunca mais a encontraria nesse mundo, exceto em seus pesadelos e memórias que ruminava para as paredes. A vida estava lentamente se tornando um inferno, ao ponto de fazê-lo querer desistir. Na verdade, era apenas a auto-piedade patenteada da família Constantine assombrando-o, mas não podia negar que havia um certo conforto acalentador na morte. Kit finalmente estava livre dos horrores que John trouxera ao mundo. Os horrores são apenas meus agora.
O estaleiro era pequeno, não fazia jus à estrutura portuária da cidade. Uma cidade daquele tamanho, com centenas de navio atracando a todo momento, devia ter, pelo menos, mais segurança. Mas talvez fosse justamente isso que atraía toda corja de malucos. O que estaria dentro daqueles contêineres? Armas? Drogas? Escravas brancas? Fosse o que fosse, era problema do Cavaleiro das Trevas local. Não havia necessidade de mais um maluco se intrometer nesses assuntos, mesmo assim Constantine torcia para não encontrar nenhum dos “nativos” no porto. Alguns barcos ali tinham mais de dez anos, mas nada do que Constantine procurava. Não era exatamente a idade, mas alguma coisa no barco que pudesse forçar o oceano a falar com ele, contar o que precisava saber. Era um antigo ritual dos marinheiros sumérios e já tinha visto dar certo antes. Tudo era uma questão de encontrar o barco certo. Finalmente, encontrou um velho veleiro de pesca chamado “São Petersburgo”. Era exatamente o que precisava. Tomou de uma faca e cortou a corda que prendia o veleiro no estaleiro e observou enquanto o mar o puxava. Constantine recitou um velho encanto que aprendera com um mendigo na Mesopotâmia e passou a se concentrar na história que tinha ouvido do Rabino Ashlag. Uma pequena chama se formou no convés do veleiro e, então, um forte incêndio o destruiu em poucos minutos. Alguns marinheiros começaram a se aglomerar no estaleiro, perguntando a Constantine se ele tinha visto alguma coisa. Mas o inglês nada respondia, apenas olhava para o barco em chamas e a coluna de fumaça que se estendia até o céu. Ainda nenhuma resposta. Foi só quando pensou no nome do barco, São Petersburgo, é que o oceano começou a lhe dar respostas. Esse era o nome da cidade onde Rasputin fora assassinado. O reflexo do sol na água e a coluna de fumaça tocando os céus formaram a imagem de uma mulher de longos cabelos negros, alguém que Constantine conhecera muito bem em suas andanças pela América. Ela era linda como uma daquelas modelos que se aventuravam pelos bares punks de Londres nos anos 70, procurando uma diversão que não encontrariam nos círculos mais exclusivos da elite. Haxixe, álcool e muito sexo eram os maiores atrativos do submundo que Constantine fingia comandar. Era apenas um cantorzinho de merda em uma banda de fracassados, mas eram alguma coisa no East End. Não tão grande quanto os Pistols, mas já tinha conversado com Malcom McLaren, e isso devia querer dizer alguma coisa. E foi justamente nessa época que teve mais sexo do que em toda sua vida, garotas de classe mais alta loucas por uma aventura com aquele desmiolado de Liverpool. Constantine sabia o quanto era atraente para as garotas, e usava isso muito bem em seu favor. Com ela não seria diferente. Uma jovem chamada Proence. Constantine se lembrou de como a pele dela era macia, os músculos duros e suados, o perfume cujo nome ele jamais conseguiria pronunciar. Não era de se apaixonar, mas algumas garotas... Ah, algumas mulheres são simplesmente inesquecíveis! Ele a reencontrara na América anos mais tarde, enquanto ele vagava pelo Louisiana. Ela tinha a vida que lhe fora destinada afinal, uma professora universitária bem-sucedida. Mas ainda tinha aquele olhar inflamado, o corpo capaz de enlouquecer um homem e uma queda por ingleses loiros de olhos azuis. Só tinha um porém. Constantine a largara por uma vaca loira de dezesseis anos após uma briga que começou com “quem canta melhor, Dylan ou o Bowie”. E o fã-clube aumenta cada vez mais... Acendeu um cigarro e caminhou de volta ao centro da cidade, pensando em como explicar seu sumiço para a garota que não via há quase dez anos. Pelo menos, não precisaria procurar muito. Gotham City realmente é a cidade onde o demônio veio parir... De todos os lugares do mundo, de todas as mulheres do planeta, de repente esse cu-do-judas se tornou o centro do universo. Espero que ela tenha amadurecido sobre aquele negócio com a loira... Ao se afastar, não notou a terrível silhueta da fumaça sobre as águas, o rosto de Rasputin! Longe dali, o Rabino Ashlag terminava suas orações e pensava em finalmente descansar um pouco. Conhecia a reputação de John Constantine, já o vira fazer coisas inacreditáveis. Se alguém podia dar um jeito naquela situação, era ele. Foi até o Aron HaKodesh, o armário sagrado onde guardava as mais preciosas relíquias de sua sinagoga: um rolo da Torah, o castiçal de sete braços em ouro, a Menorah, e os livros que ajudara Constantine a roubar de uma sinagoga no Egito, anos atrás. Os livros, na verdade, pergaminhos, estavam em aramaico, o que, segundo Constantine, servia para preservar seu conteúdo. Afinal, é a única língua que os anjos não falam, lembrou-se Rav Ashlag das palavras do inglês. Já tinha ouvido falar em como o conhecimento ancestral podia ser protegido dos anjos das sombras, e aqueles livros eram fundamentais. O Livro do Anjo Raziel e o Livro da Criação. Aparentemente, estavam no Egito desde a segunda diáspora, talvez mais. Eram tratados místicos de intensa poesia e poder. Rav Ashlag quis verificar suas páginas uma vez mais. O aramaico não era muito diferente do hebraico, mas por um minuto pensou: se os livros fossem traduzidos, será que anjos caídos poderiam ter acesso a seu conteúdo? Será que isso poderia ser usado por um demônio como Rasputin? A chama das velas na sinagoga bruxuleava lentamente e Rav Ashlag viu-se na Rússia, em 1916. A noite em que Rasputin fora assassinado. Seus assassinos transportando o corpo até uma cova às margens do rio Neva. E a sombria gargalhada que ecoou naquela madrugada, gelando os ossos de todos aqueles homens que tentavam livrar o mundo de um grande mal encarnado. Rav Ashlag acordou suando, trêmulo, tentando entender o que aquele sonho significava. Sua mão repousava sobre uma passagem do Livro do Anjo Raziel, uma espécie de proteção mística para bebês dentro do útero. A resposta era óbvia. Rasputin não estava voltando. Ele já estava aqui. E tudo indicava que o fracasso de Constantine em detê-lo traria um grande mal para a humanidade. A seguir: Desculpas que os homens dão
Glossário:
Grigori Yefimovich Rasputin , místico russo, nasceu dia 23 de janeiro de 1864 em Pokrovskoie, Tobolsk e faleceu dia 16 de dezembro de 1916 em Petrogrado, atual São Petersburgo. Foi uma figura influente no final do período czarista da Rússia. Rasputin foi médico de czarith Alexei, filho herdeiro do trono russo que tinha hemofilia. Ele influenciou muitas decisões do czar Nicolau II e também da czarita. Era uma mistura de homem santo milagreiro com o charlatanismo, que, sem ter formalmente nenhum cargo no governo imperial russo, exerceu uma enorme influência na última fase de vida da dinastia Romanov.
Mezuzah: Rolo de pergaminho em que estão escritos à mão os dois primeiros parágrafos do Shemá (Deuteronômio 6,4-9, 11,13-21), a profissão de fé do judaísmo. A cada umbral de porta do lar judaico tradicional, geralmente dentro de uma caixa decorada, acha-se atado uma mezuzah, em cumprimento da ordem: "E as escreverás nos umbrais de tua casa, e nas tuas portas." Os judeus costumam beijar a mezuzah ao entrar numa casa ou ao deixá-la.
Kaddish: é uma prece especial recitada em memória de entes queridos falecidos como uma maneira de demonstrarmos eterno amor por nossos pais e pela qual, eles demonstram seu amor pelos pais deles, e necessário para elevar suas almas. Por este motivo, a pessoa que perde um de seus pais não deverá perder sequer um só Kaddish em memória e amor eterno a ele.
Tefilim ou filactérios: são duas caixinhas de couro, cada qual presa a uma tira de couro, e dentro das quais está contido um pergaminho com os quatro trechos da Torah em que se baseia o uso dos filactérios . O principal é: "Escuta, ó Israel, o Eterno é nosso D-us, o Eterno é único. Amarás ao Eterno, teu D-us, de todo teu coração, de toda tua alma e de todas tuas forças. E estas palavras que hoje te ordeno serão gravadas no teu coração (...) E as atarás à tua mão como sinal, e as colocarás diante dos teus olhos" (Deuteronômio 6:4-8).
Talit é um xaile, usado pelos judeus para fazer preces, com 613 fios de franja ao seu redor, mais 32 fios de franja, oito em cada canto. As franjas são conhecidas como tsit tsit e representam mandamentos (mitsvot).
O Certificado kosher é um documento emitido para atestar que os produtos fabricados por uma determinada empresa obedecem as normas específicas que regem a dieta judaica ortodoxa. Ele é mundialmente reconhecido e atribuído como sinônimo de controle máximo de qualidade.
Kabbalah: é um sistema religioso filosófico que reivindica o discernimento da natureza divina, composta do misticismo inerente ao judaísmo. Kabbalah é uma palavra em hebraico que significa recepção. Formas antigas de misticismo judaico consistiam inicialmente de doutrina empírica. Na era medieval desenvolveu-se bastante com o surgimento do texto místico, Sefer Yetzirah, o Livro da Formação. Este texto básico da Cabala é atribuído ao Patriarca Abraão e explica os 32 caminhos da sabedoria que foram utilizados no processo da Criação. Estes caminhos estão incluídos nas dez Sefirot, as luzes divinas, que agem como canais criativos e conscientes da criação, e nas 22 letras do alfabeto hebraico. As letras são os alicerces, os vasos, e incluem todas as combinações e permutações através das quais Deus criou o mundo com palavras. A Cabala ensina que as palavras, combinações e permutações de letras são vasos através dos quais o processo criativo se realiza.
Sefer Raziel, do hebraico, o “Livro do Anjo Raziel”, é um texto cabalístico escrito originalmente em hebraico e aramaico. A tradição ensina que o conteúdo deste livro foi revelado no Jardim do Eden a Adão pelo próprio anjo Raziel.
Diáspora: refere-se à dispersão dos judeus pelo mundo e a formação de comunidades judaicas fora da Palestina por consequência disso. A primeira diáspora Iniciou-se em 586 a.C., quando Nabucodonosor II — imperador babilônico — invadiu Jerusalém e mandou todos os judeus para a Babilônia. O imperador persa Ciro I chegou a libertar Jerusalém, mas apenas uma parte dos judeus retornou para lá. A maioria preferiu ficar na Babilônia e outros foram para outros lugares. A segunda diáspora Aconteceu muitos anos depois, no ano 70 d.C. Os romanos destruiram Jerusalém, e isso acarretou uma nova diáspora, fazendo os judeus irem para outros países da Ásias Menor ou sul da Europa. As comunidades judaicas estabelecidas nos países do Leste Europeu ficam conhecidas como Asquenazi (netos de Noé). Perseguidos pelo islamismo, os judeus do norte da África (sefardins) migram para a península Ibérica. Expulsos de lá pelo crescente cristianismo do século XV, migram para os Países Baixos, Bálcãs, Turquia, Palestina e, estimulados pela colonização européia, chegam ao continente americano.
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