Feed RSS Twitter da Quadrim

Você já ouviu o Quadrimcast?

 



Nós temos 13 visitantes online

Latest Message: 9 months, 1 week ago
  • Henrique JB : Uma nova edição da série da nova Questão, by José Eduardo Bertoncello
  • Luis Garavel : Quadrimcast 22 falando de Alienígenas nos quadrinhos!
  • Nikita : O Quadrimcast #21 sobre o CDZ foi muito bom! E ha que eu nem curto o Anime/Mangá...
  • Luis Garavel : Quadrimcast 21 fala de cavaleiros do Zodíaco! ME DÊ SUA FORÇA PÉGASO!
  • André Facca : AVANTE VINGADORES, QUADRIMCAST 20 NO AR!
  • Luis Garavel : Quadrimcast 19! Guerra nas Estrelas! A nova trilogia!
  • Luis Garavel : Saiu o Quadrimcast 18, falando de Watchmen e Liga Extraodinária! Crossover com o Badernacast!
  • [Luis Garave : Quadrimcast 17 homenageia Moebius! Com depoimentos de amigos!
  • Luis Garavel : Quadrimcast 16 homenageia as artistas femininas das HQs!
  • Luis Garavel : O cast15 atrasará um pouco devido ao Carnaval, mas vai te botar na estrada!

Guests are shown between [].

Only registered users are allowed to post

Hellblazer 14 - Os Pertences de um Morto PDF Imprimir E-mail
Avaliação do Usuário: / 0
PiorMelhor 
Escrito por Raul Kuk   
Seg, 15 de Novembro de 1999 00:00

John Constantine já encontrou o Monstro do Pântano, o Vingador Fantasma, anjos e demônios. Mas o que um homem morto tem a dizer... E o que o mago inglês pretende fazer a esse respeito?

"


Capítulo XIV
Os Pertences de um Morto

Por Raul Kuk


Inglaterra, 6 de junho de 2006

John Constantine acordou com uma terrível dor de cabeça, a pior de que se lembrava. Não que pudesse se lembrar de muita coisa. Tivera alucinações enquanto embriagado e pesadelos enquanto dormia, mas tudo ia e vinha dentro de sua cabeça, sem fazer muito sentido, sem querer ter sentido, afinal. Era apenas a boa e velha cabeça desgovernada de John lhe pregando peças. Precisava conversar com seu amigo, apenas um bom bate-papo e tudo estaria bem novamente. Tudo entraria nos eixos.

Abriu os olhos tentando reconhecer que lugar era aquele. Tinha apenas dormido ao contrário na cama, com os pés na cabeceira. Teve dificuldade para se situar, achou que estava em algum outro lugar, na sarjeta novamente ou na casa daquela puta desbocada que conheceu em Leeds. Por que foi se lembrar dela justo agora? Por que nos lembramos de algumas pessoas inoportunas nos momentos mais inesperados? Continuou deitado, fechou os olhos e rezou para dormir de novo, longe do alcance da luz do dia e seus pesadelos coleridgeanos. Mas o barulho de Londres não deixa, é como tentar digitar muito rápido no frio, uma sutil sensação incômoda, tornando-se cada vez maior, insuportável.

Já eram quase duas da tarde. O dia entrava por frestas em sua janela e buscava seus olhos, como a luz preenchendo o vazio de um buraco negro. O corpo estava dolorido, a cabeça pesada, não conseguia mover as pernas mas, ainda assim, tentava lutar contra pequenos lampejos solares. Nas ruas, alguém gritava as notícias do jornal da tarde, as mentiras que não foram impressas pela manhã, as músicas que não eram mais sucesso, as vidas que estavam perdidas pela marcha inclemente das horas. Tudo incomodava, pensar incomodava, tinha vontade de morrer um pouco, mas só um pouco, para finalmente se livrar daquela sensação...

Levantou-se devagar, tentando fazer as pernas trabalharem novamente. Foi até a sala e ligou a TV. A Inglaterra sorria, a Inglaterra trabalhava, o mundo continuava girando ao redor de si mesmo, sem que ninguém consiga ver nada além disso. Se ao menos soubessem, se os tolos lá fora soubessem o quanto suas vidas poderia ser mais do que isso, mais do que alvorada e crepúsculo... Mas não tinha tempo a perder educando fracassados, ensinando-os a continuarem contando com as migalhas que caiam da mesa.

Por um instante, John teve a sensação de que estava tão bêbado quanto na noite anterior, e desligou a TV.

Podia saber o que quisesse, o que precisasse, apenas consultando o fundo de uma garrafa. Precisava falar com seu amigo, era isso que precisava, mas não naquele estado.

Foi até o banheiro. A barba estava desigual, como o mato cobrindo o Estuário do Fourth. Tinha saudades de lugares grandes e espaços, tudo ali cheirava a urina e bolor, mofo e gente morta. Não gostava de morar em apartamentos, não gostava do clima frio e impessoal da Inglaterra. Estranhamente, era incapaz de ficar longe dali por muito tempo. Precisava de um novo rosto, uma vida totalmente nova, vejam, comprem, aproveitem! Esse é o novo John Constantine, sem tantos esqueletos no armário, sem tantas mentiras e blasfêmias. Compre, antes que o filho da puta ferre com tudo novamente, antes que alguém se lembre dos defeitos de fábrica e idiossincrasias que acompanham o original.

E, enquanto tomava banho, a água lambia delicada as tatuagens com que cobrira o corpo por tantos anos, as histórias, as identidades e inúmeras maneiras de se conseguir o que deseja. A água lavava tudo, podia dar vida nova, aparência nova, até mesmo uma chance nova, novinha em folha, daquelas que vivemos orando por. Sentiu-se idiota, nu e com o barulho da água, sem nada para desviar sua atenção, com a ressaca ainda tentando derrubá-lo numa onda de preguiça e ociosidade. Tinha o gosto amargo na boca de quem vomitara muito, um odor azedo e maledicente. A garganta doía, talvez tivesse gritado, talvez fosse o clima. Se ao menos ela pudesse vê-lo agora, passando os dias sem saber que rumo tomar, ela saberia, confiante, que estava certa o tempo todo e John Constantine seria o primeiro a afundar. Ela estaria rindo, vagando sozinha pelas ruas, fazendo compras e conversando com gente normal, como gente normal, diferente dos pesadelos que John tirara de sua caixa de pandora. O fato de ela nunca ter dito adeus o consolava, para ele nunca estava acabado enquanto não se dizia adeus, não era definitivo, não era pra doer tanto. Ela sempre deu algo que ele não precisava, ele a abraçava fingindo saber, mantendo-a aquecida e indiferente ao medo.

Será que ele realmente acreditou no amor algum dia?

Talvez fosse encontrar seu amigo, não era longe dali e tinha a noite toda pela frente. Vestiu-se da mesma forma que fazia todos os dias, a meia esquerda antes da direita – era apenas a maneira como ele fazia as coisas, não era uma mania estúpida ou um ritual – e ficou pensando no que precisava fazer, no quanto aquilo lhe era importante. Era tudo que lhe restara, conversar com seu amigo.

Aproximou-se da porta e notou a correspondência se acumulando, notou também que tinha derrubado cerveja em cima do carpete. Apanhou as contas, as cartas e um pacote, coisas de gente normal levando uma vida normal, sem céu, sem inferno, sem mentiras. Eram apenas coisas que o correio entregava, sem saber que elas já estavam lá muito antes mesmo de serem despachadas. Nada chega a lugar nenhum depois de partir, elas já estão lá desde antes, muito antes. Sentou-se no sofá e começou a ver o que tinha em comum com o mundo dos vivos.

Conta de gás. Conta de telefone, que raramente usava. Aliás, sequer se lembrava de ter um, não se lembrava do número e tinha sérias dúvidas se tinha dado o número a alguém. Ia deixar a conta vencer e o serviço ser cancelado, não fazia a menor diferença. Conta de água, conta de luz. Precisava acertar essas coisas, era o mínimo que se esperava de alguém tendo uma vida normal. Gás, água e luz. Se conseguisse manter isso, já estava de bom tamanho. Aluguel. Ia esperar até ser despejado ou precisava pagar isso também? Por que o governo vivia cobrando impostos em cima de impostos sobre os serviços que já se pagavam pelo simples sistema de fornecimento? Não via a hora de os trabalhistas começarem a colocar a mão na massa novamente, não tinha como ficar pior do que nos tempos da Dama de Ferro. Ela tinha um bom guia, ou os feiticeiros das ruas teriam dado um jeito nela, como aquela cigana que via a sorte usando cartões de crédito.

Não havia tantos cartões de crédito nos anos 80. John não tinha nenhum e não fazia a menor idéia de como pagaria aquelas contas.

Ajuda previdenciária, há algo de bom nos trabalhistas, afinal. Direitos autorais das antigas músicas da Membrana Mucosa. Quem diria que alguém pagava por aquilo. O dinheiro sempre chegava, de lugares inesperados, mas chegava. Era o suficiente pra cobrir as contas do mês e ainda sobrava o suficiente para encontrar seu amigo. Podia vender a Inglaterra por uma libra, mas essa não era mais a moeda local. O mundo era um lugar diferente, muitos lugares, e um lugar só.

Havia um pacote entre a correspondência, uma caixa sem identificação. O nome do remetente era Tiresias, mas não havia endereço nenhum, nada que pudesse dar uma pista do que aquilo significava. John abriu o pacote pacientemente, analisando-o, interpretando-o. O papel, cor de beladona, não tinha cheiro, mas havia sido tocado por um homem morto, disso John tinha certeza. Ele morrera antes de enviar o pacote, ou depois? Ele sabia que morreria? Sabia que já estava morto no instante em que abriu os olhos neste mundo, no instante em que fez o pacote? O que continha ali?

Era uma caixa de papelão, com alguns objetos dentro. John sentou-se no chão, encostado no sofá, deixando as outras cartas de lado e concentrando-se no estranho pacote que recebera.

Tinha um par de óculos, daqueles antigos, bem grandes, com lentes grossas de vidro. Do tipo que não se fabrica mais. Tinha uma caneta tinteiro, ainda funcionava mas não tinha tinta. Sua pena era de ouro e havia um nome gravado nela, mas John não o leu. Tinha um lenço fino de seda, artigo de luxo, com as iniciais do antigo dono bordadas. Tinha um relógio de bolso, mas este estava parado. Marcava duas e quarenta e oito. Tinha um pedaço de papel muito velho, alguém rabiscara um mapa astral nele, à mão livre, mas não havia nada naquele mapa que John já não soubesse. Tinha uma caixa de música, ela funcionava, mas John duvidou que aquela fosse a música original da caixinha. Pinhos, folhas secas, uma flor hermafrodita e outras coisas estavam na caixa, mas eram coisas sem importância. Serviam apenas para afastar o cheiro da morte, com seus odores especiais.

John segurou os óculos e viu o que o dono deles vira quando em vida. Era uma pessoa amarga, que via tudo em preto e branco, rígida demais com os outros e consigo mesma. Incapaz de perdoar ou esquecer, incapaz de aceitar o que não compreendia, ou de se esforçar com o que lhe era maior. Maniqueísta, triste, distante. Não enxergava nas pessoas nada além dos defeitos, via em suas inquietudes sinais claros de que lhes faltava algo, de que lhes faltava ordem. A ordem que ele entendia, o ordem que ele impunha, a ordem que ele criava. Mas não era mais do que um homem míope para o grande mundo lá fora, pulsando em vida e tons de cinza.

A caneta tinteiro era muito bonita, e John ficaria com ela, se não fosse a sujeira que ela podia fazer. Não queria tinta em seus casacos ou em suas camisas, aquelas manchas eram difíceis de sair. Resolveu focalizar, e começou a pensar nas mãos que seguraram aquela caneta. Assinou as demissões de muitos homens, dois cometeram suicídio ao perder toda e qualquer perspectiva. Escrevia o que via, mas nunca o que sentia, carregando o peso dessas mortes consigo sem se importar com as vozes. Não havia vozes. Não havia mais nada que pudesse escrever. Contudo, aquela caneta não tinha sido usada para escrever seu testamento.

O lenço enxugara suas lágrimas no dia em que sua mulher faleceu, levada pela esclerose lateral amiotrófica, uma doença tão dolorosa quanto a perda, uma perda tão dolorosa quanto a triste e solitária vida que levava. O lenço ainda tinhas as lágrimas, toda a dor e desespero do único momento em que se permitiu mais humano, ainda que distante de seus iguais. Guardara aquele lenço consigo todos os dias desde então, sua maneira de se apegar à única chance de verdadeiro amor que jamais conhecera.

John entendia esse sentimento, mas não guardava nada consigo.

O relógio parou às duas e quarenta e oito da manhã, a hora em que recebeu a notícia da morte dela e, desesperado, arremessou-o de encontro a uma parede. Era um bom relógio, mas estava transtornado demais para pensar nisso. Alguns minutos depois, começou a chorar, enxugando as lágrimas no lenço, mas o relógio não mais marcava as horas. Havia parado. Algo dentro dele havia parado, ainda que o corpo continuasse vivo. Não teria mais tempo para ela, não teria mais ela, não teria mais tempo. Independente do que sua vida se tornasse, tempo era irrelevante. Mas guardou o relógio mesmo assim. Fora um presente dela.

O mapa astral era curioso. Muitas pessoas olhavam para o céu buscando respostas, olhavam para as estrelas e ousavam julgar conhecer seus movimentos e traçavam suas vidas, e traçavam seus destinos através delas. Não que estivessem errados, era possível compreender os desígnios mais misteriosos através das estrelas. Mas quem disse que precisávamos olhar para os céus tão distantes se tínhamos nosso mapa astral bem ao nosso alcance?

John colocou a mão espalmada por baixo daquele rascunho de mapa astral, e não ficou surpreso ao notar que as linhas de sua mão coincidiam com aquelas traçadas pelo homem morto. Eram caminhos dentro de caminhos, vidas dentro de vidas, e tudo levava ao mesmo lugar, sob o mesmo céu. Curioso, o firmamento era o mesmo para todos sob ele, mas cada um tinha um rumo diferente traçado. As mesmas estrelas, diferentes vidas. Diferentes mortes. E as respostas, tão óbvias, estava nos lugares em que as pessoas menos procuravam. Nos lugares mais óbvios, mais simples. Por que a resposta seria colocada longe de nosso alcance? Bastaria aceitar o óbvio, mas o quanto do óbvio esse homem míope seria capaz de aceitar.

Já a caixa de música era um capítulo à parte. Uma bailarina disforme dançava ao som de Old King Cole, o que não era lá muito convencional para um brinquedo tão antigo. Foi um presente dele para ela. Mas ela não gostava da música, um ritmo tedioso e triste, e pediu para que substituísse por algo de que gostasse. A bailarina se sentiria mais glamourosa assim, mais feliz. Como ela mesma, em manhãs de sábado, mesmo com todo aquela névoa. Curioso como um homem tão míope podia enxergar tão bem os desejos da mulher que amava. Ou talvez ele não fosse míope, talvez estivesse apenas fora de foco, incapaz de enxergar outra coisa que não fosse ela. E nada do que fizesse poderia mudar isso, pois a vida é curta demais e ela não partilhava desse amor, não mais. Ela pedia para que ele tocasse Old King Cole e assim ele não estaria tão distante, era o tempo que ela precisava para viver a vida dela, linda e intensamente. Uma velha alma alegre fumando seus cachimbos após o chá, aprendendo violino e tricotando. O relógio e seu tic-tac, o calor da lareira, e o amor dos dois era sincero, até o fim era sincero. Uma donzela e o tempo de sua vida, escovando seu cabelo, deixando conhecer seu rosto, sua cama, sua carne, àqueles olhos míopes, cegos demais para ver, esperando por tanto tempo e todo esse tempo passou, ele continuava em pé com a expressão fixa, duvidando de tudo que não fosse capaz de explicar, enquanto ela pedia – implorava – por que você não me toca, por que você não me ama, está tão frio aqui sem você, por que, por que...

Repentinamente, John abriu os olhos. Esteve numa espécie de transe. Aquele homem morto, o pobre bastardo morto, estava tentando falar com ele. O infeliz estava tentando pedir que alguém, qualquer um, o tirasse de onde estava e o unisse a sua esposa novamente. Não era um pedido fácil.

Levantou-se, juntou tudo de volta dentro da caixa e foi até a Igreja de Saint James. Era uma boa caminhada, a tarde começava a esconder o sol sob um crepúsculo róseo e o dia terminava para os vivos. Os portões fechavam às seis, então ainda tinha tempo.

Tempo... Engraçado como significava tão pouco para os vivos e tanto para os mortos.

Está frio, todos começam a abotoar seus casacos. John Constantine continuava andando sem se dar conta. Não podia negar o pedido de um homem morto. Um dia chegaria sua vez, e precisava ter certeza de que fizera tudo certo. Entrou na igreja, uma das mais antigas de Londres, deixando duas moedas em um prato. Não era muito e não era para caridade, era apenas parte do que precisava fazer. Aproximou-se do padre, um velho abade que já o vira por ali antes:

- Em que posso ajudar, filho?
- Bom... É meio complicado de explicar. Um cara morreu, eu estou com algumas coisas dele aqui e gostaria que o senhor me fizesse um favor.
- Ora... Diga!
- Eu preciso que o senhor reze por esse desgraçado e sua mulher, padre. Pode ser?
- Hmmm... Não gosto do seu linguajar, rapaz. E gostaria de entender o por quê desse pedido. Entenda, eu rezo por muita gente. Mas há algo de incomum aqui. Não é mesmo?
- Tem toda razão. O cara me mandou isso pelo correio. Eu não sou católico e, pra falar a verdade, acho que esse negócio de oferecer a outra face é papo furado. Mas esse cara era, apesar de estar desligado da fé. Ele quer se encontrar com a esposa novamente.
- Esposa?
- Que também morreu. Antes dele.
- E você acredita que, se eu rezar por ele, eles vão se reencontrar?
- Tem a ver com redenção, padre. Ele nunca levou uma vida muito intensa, se é que me entende. A única coisa que foi capaz de amar, à maneira dele, foi a esposa. Quando ela ficou doente, o último pedido dela foi que ele se tornasse uma pessoa mais calorosa, mais humana. Mas ele não conseguiu. Foi se fechando cada vez mais, mais distante, mais frio, mais solitário... Até que morreu de solidão. E então, me mandou essas coisas. Quer dizer, ele simplesmente mandou. Como elas foram parar comigo é outra história. Mas eu sei o que fazer nesses casos, por isso vim pedir tua ajuda.
- Filho... Eu não estou entendendo mais nada!
- Só faça o que eu pedi, sim? Rezar, para você, não deve ser esforço nenhum...
- Tem razão. E quanto a essa caixa?
- Queime-a.
- Os pertences dele!?
- É um homem morto. Ele não vai se importar. Tudo que ele quer é encontrar sua esposa.
- Está bem, está bem. Haverá uma missa às dezessete horas. Você pode ficar se...
- Obrigado, padre. Mas não é a minha. Eu tenho que encontrar um velho amigo.
- Ora, que seja. Que Deus te acompanhe.

Apertou o passo para sair da igreja. Não gostava nada dessa conversa de “você precisa rezar”. Rezar não mudava nada.

Caminou por ruas movimentadas, a juventude começando a tomar o lugar dos mais velhos na noite. Não queria perder tempo entre as pessoas e suas preocupações vis e mesquinhas, tipo “como eu vou pagar as contas desse mês?”

Não, nada disso, queria apenas bater um longo papo com seu mais antigo amigo. Entrou em um pub, daqueles esfumaçados que parecem ter saído de algum filme. Acendeu um cigarro (engraçado, não acendera um cigarro sequer desde que acordara. Estaria esquecendo do vício?) e foi até o balcão.

- Olá, John. Quanto tempo!
- Bastante. Quase vinte e quatro horas.
- Depois de passar mais de 72 horas aqui, temi pelo pior. Como está se sentindo?
- A vida continua, é o que dizem.

As pessoas ao redor tinham suas próprias vidas, suas próprias preocupações e seus próprios pertences. Cada objeto tinha uma história a contar, e cada história era verdadeira, todas eram verdadeiras. Pensou no homem misterioso que lhe enviara o pacote, em como ele devia estar aliviado por finalmente reencontrar sua esposa. Era um homem morto, tudo que tinha eram alguns objetos em uma caixa. Não sabia seu nome – fez questão de não saber, para não correr o risco de dizer seu nome por engano e perturbar seu reencontro – mas sabia que todas as histórias eram parecidas, todas as buscas eram parecidas.

Em algum lugar, de alguma forma, aquele homem se reencontrava com sua esposa, seus pertences eram queimados e a fumaça se misturava à névoa. Estava feliz.

- Seu “velho amigo” está aqui, John – disse o barman, deixando uma garrafa de Jack Daniel’s sobre o balcão, junto com um copo. John segurou o copo e teve o lampejo de uma bela garota ruiva. Ela morreria de overdose, a menos que mudasse de vida. Ela não estava disposta a fazer isso. Antes que soubesse o nome dela, John largou o copo e abriu a garrafa.
- Obrigado, mas acho que vai direto no gargalo. Tive uma ressaca daquelas.
- E vai curar com outro porre?
- Conhece remédio melhor?
- Pra falar a verdade, sim. Mas, no seu caso, seria melhor continuar bebendo mesmo.
- Ótimo, muito obrigado e não me perturbe.
- Como quiser. Aliás, uma garota ruiva esteve aqui ontem depois que você foi embora, e perguntou onde podia te encontrar...


A Quadrim Apresentou:
John Constantine - Hellblazer Os Pertences de um Morto
Constantine criado por Alan Moore, Steve Bissete e John Totleben


"

Última atualização em Dom, 21 de Novembro de 2010 15:17
 

Comentários  

 
0 # mika 13-02-2012 06:32
tem uma pessoa que amooo ele diz se esse cara acho que por isso estou me apegando a ele sei la :oops:
Responder | Responder com citação | Citar
 

Adicionar comentário


Código de segurança
Atualizar

random_hulk.png