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Após o devastador confronto com o Falcão de Aço, a Sociedade da Justiça volta para o Belmont Hospital, onde precisa se erguer das cinzas e retornar com força renovada. Um prelúdio para profundas mudanças na equipe. E ainda: Um super-herói resolve seguir as pistas do desaparecimento de Starman.
Nova York Bronx Praça Steven Biko 12:35h
No coração do bairro, duas praças se encontram reduzidas a escombros fumegantes como se tivessem sido atingidas por mísseis, numa cena que – vista do alto – lembrava Bagdá após um ataque americano na primeira Guerra do Golfo. Como resultado de um ataque irracional de uma força que parecia ser irrefreável, além da destruição de bens materiais, alguns mortos e dezenas de feridos - que lotaram o hospital Monte Sinai, o mais próximo ao local da tragédia.
Na segunda praça a ser atingida, uma ambulância acabara de recolher os restos mortais do responsável pela catástrofe: o jovem super-herói conhecido pelo nome de Falcão de Aço [1]. As forças negras do misterioso amuleto que era a fonte de seus superpoderes, conseguiram dominar sua mente e sua alma, levando-o a cometer diversas atrocidades nas últimas horas, visíveis tanto naquelas duas praças do Bronx quanto no Times Square. Vários super-heróis tentavam trazê-lo de volta a razão ou simplesmente interromper seu ímpeto de destruição, mas somente as garras recobertas de adamantium do mutante chamado de Wolverine conseguiram pará-lo, tirando sua vida. Agora tudo terminara, e o misterioso amuleto se encontrava nas mãos do Mago Supremo de nosso universo - Stephen Strange, o Dr. Estranho – que, imerso em seus pensamentos sobre a morte trágica de um jovem e promissor herói, o olhar inconsolável do pai dele e o medo marcado a ferro e fogo na alma de seus jovens irmãos, demorou a notar que o herói conhecido como Pantera estava falando com ele.
- Doutor!
- Como...? Ah, desculpe-me Grant. Fazia tempo que não tentava consolar uma família após a morte de um de seus entes queridos, principalmente quando este morre diante de seus olhos de forma tão brutal. Tudo culpa desse amuleto... Devia ter procurado o jovem assim que soube que o estava usando.
- Você sabia do que esse amuleto era capaz? – perguntou a Feiticeira Escarlate, que também havia sido chamada pelo Pantera.
- Não, Wanda. Mas, após tantos anos lidando com a magia, desenvolvi instintos e percepções que me alertam quando me defronto com elementos e energias místicas que requerem minha atenção. Não havia me dedicado a esse problema ainda porque um maior precisou de toda a minha atenção em uma pequena cidade de New England... [2] Como estão Jesse e Shaft?
- Shaft é um cabeça dura... É preciso mais do que uma rajada de energia arcana para quebrá-lo. Já está lá esbravejando por ter sido tirado de jogada logo no início da batalha. Jesse foi levada com o Capitão para a Mansão pelo Marvel, depois que conseguimos devolver os poderes dele.
- Droga!
- Que foi Pantera?
- Nada... É que eu queria trocar dois dedos de prosa com o Capitão e a Jesse. – O Pantera deu um suspiro de frustração.
Desde que Joel Ciclone tinha lhe falado no dia anterior sobre a possibilidade daqueles dois estarem engatando um romance, Ted ficara irrequieto [3]. Aquilo não parecia certo. Talvez fosse o fato dele ter sido educado nos conservadores anos 30 do século XX, mas não podia deixar de pensar que uma relação entre Jesse e Steve parecia perigosamente perto do incesto e da pedofilia. Precisava tirar aquilo a limpo, mas isso ficaria para depois. Naquele momento um amigo precisava de ajuda.
- Olhem.
O Pantera mostrou para o Mago e a Feiticeira uma grande e estranha formação de vidro sólido apoiada em um dos prédios que cercava a praça devastada. Era como se uma onda de água pura e cristalina tivesse sido congelada no tempo no instante seguinte após ter se chocado com a parede do prédio. Parecia uma escultura modernista e psicodélica dos anos 70.
- Que é isso? – Perguntou Wanda sem entender porque tinha sido levada até ali quando vários amigos seus ainda precisavam de ajuda.
- Espere... – o Dr. Estranho estendeu sua mão direita sobre a escultura modernista e seus olhos brilharam por um período de tempo rápido demais para ser detectado pelo olho humano – Pelo Olho de Agamoto! Este é o Sand! O Falcão de Aço fez isso a ele?
- Exato. – Respondeu o Pantera – Normalmente temos o Sr. Destino para lidar com estas situações, mas como Hector não está disponível e vocês estavam por perto...
- Bem, se eu e você conseguimos devolver os poderes do Capitão Marvel, isso não deverá ser tão difícil. – afirmou Wanda para o Mago Supremo.
- Sim. – disse o Dr. Estranho - Já sabemos como fazer para reverter a magia do amuleto, agora que ele não está se alimentando da alma de ninguém para se fortalecer. Vamos lá.
Wanda gesticula os braços e começa a emitir esferas de energia que bombardeiam o inerte Sand, enquanto o Dr. Estranho fecha os olhos e se ergue do chão envolto em energias que fazem seu corpo brilhar. A seguir o mago faz invocações e a estrutura de vidro a sua frente começa a se mexer e a emitir uma poderosa luz. O Pantera desvia os olhos por alguns segundos para não se ofuscar e quando volta a olhar, o vidro voltara a se transformar em areia e em instantes os grãos se espalharam. Uma parte deles se reuniu para formar um atordoado Sand.
- Sand! – O Pantera se aproxima do amigo e o segura pelos ombros – sabia que esses dois iam conseguir te trazer de volta!
- O que... O que aconteceu? Onde estão os outros? Cadê o Falcão de Aço?
- Calma, rapaz. Fora o Al que quebrou alguns ossos, todos estamos bem. Os Vingadores apareceram e no final tudo deu certo.
- Tudo deu certo? É isso que você acha, Ted? Pois não é o que parece. – Sand arrancou sua máscara e encarou o Pantera nos olhos – Olhe ao redor! Os membros da nossa equipe foram derrubados como moscas por um cara de quem nunca tínhamos ouvido falar! Se o Espectro não tivesse aparecido ontem nós nem estaríamos aqui!! Acha mesmo que estamos fazendo jus ao legado da Sociedade da Justiça?!
Ted afastou as mãos dos ombros de Sand e deu um passo atrás, surpreso com aquela atitude de alguém que parecia firme como uma rocha desde a reativação da SJA. Dr. Estranho e a Feiticeira Escarlate se entreolharam, também sem saber o que dizer. Wanda foi quem acabou quebrando o gelo.
- Hã... Bom, se o Wolverine não tivesse aparecido, também não sei o que seria dos Vingadores...
Sand olhou para a Feiticeira e pareceu perceber que falara demais e fora de hora. O constrangimento se estampou em sua face e ele tratou de recolocar sua máscara.
- Acho que devo minha vida a vocês. Obrigado. Venha, Pantera. Vamos ver o Al e os outros.
- Hã... Tá. Valeu, pessoal. Foi bom contar com vocês. – Após se despedir, o Pantera foi atrás de Sand.
- Ele está prestes a explodir. – Disse a Feiticeira Escarlate após os dois justiceiros se afastarem – Sei muito bem o que é essa sensação.
- Você tem razão. – confirmou o Dr. Estranho – Mas não se preocupe. O Pantera também percebeu isso, está tão surpreso quanto nós. Garanto que vai tomar uma atitude. Um herói que agiu desde a 2ª Guerra e enfrentou de frente a caça às bruxas do Macartismo saberá lidar com um amigo estressado.
A seguir os dois deixaram de pensar em Sand e foram cuidar de outros heróis caídos e ajudar a equipe de bombeiros a resgatar os feridos enquanto policiais tentavam dispersar a multidão e repórteres chegavam buscando imagens e informações.
No interior do manto do Dr. Estranho, um amuleto ancestral recolhe o resto de energia arcana que lhe resta para poder utilizá-la novamente quando tiver novamente acesso a alguém que deseje usá-lo ou, mesmo que não queira, precise dele. Um coração puro ou uma alma fadada ao Inferno, tanto faz. Cedo ou tarde o amuleto voltará a ser usado e talvez da próxima vez não haja tantos heróis por perto para impedi-lo de alcançar todo o seu potencial e fazer aquilo para o qual ele foi criado.
Nova York Manhattan Belmont Hospital Quarto Particular 212 11:52h
Theodore Knight amanhecera bem melhor naquela manhã, mas ainda não recebera previsão de alta. Seus amigos da SJA deviam ter avisado ao seu médico que ele não ficaria quieto de repouso em casa até se recuperar totalmente, tanto devido a sua ansiedade natural quanto ao fato de que não descansaria enquanto não tivesse notícias de seu filho desaparecido. Além do mais, o velho cientista morava sozinho. Enquanto estivesse hospitalizado seria mais seguro, pois estaria sob constante vigilância e assistido por médicos e enfermeiras.
Já não havia porém o receio de que ele voltasse a ser atacado em sua cidade, como ocorrera uma semana antes em um incidente envolvendo dezenas de opalenses controlados mentalmente [4]. Na noite anterior Ted Grant, o Pantera, havia lhe contado quem havia sido o responsável por aquele ataque: o Ultra-Humanóide, que agora ocupava o corpo de Pieter Anton Cross, o mais recente herói a ser chamado de Dr. Meia-Noite. Charles devia estar arrasado – mais um pupilo que tentava seguir seus passos estava morto. Ted conhecia muito bem aquele sentimento: seu filho mais velho também falecera pelas mãos do filho de um de seus maiores inimigos enquanto seguia seus passos heróicos. E o mesmo também podia ter acontecido a Jack... Onde estaria seu filho mais novo, o único que lhe restara?
Durante a visita que lhe fizera na noite anterior, o Pantera lhe trouxe uma boa nova: Solomon Grundy fora encontrado [4]. Ele fora controlado mentalmente e usado pelo Ultra-Humanóide como membro de uma nova versão da Sociedade da Injustiça [5]. Grant lhe falou que agora ele ficava choramingando pelos cantos perguntado por seus amigos: o homem azul, Jackstar e o velho. O Pantera conseguiu fazer seu velho amigo sorrir e tirou uma de suas preocupações da cabeça.
Além do Pantera, vários membros da Sociedade já tinham ido visitá-lo desde que se internara. Clarence e Hope O’Dare também foram lá para ver como ele estava e novamente afirmaram que estavam atentos em busca de novidades sobre seu filho Jack, mas continuavam sem notícias dele. Ted ainda achava que os irmãos O’Dare estavam escondendo alguma coisa, mas aquela sensação devia ser coisa de um velho paranóico [4]. E todos sabiam o quanto ele era deprimido e paranóico... Ted procurava afastar essas idéias da cabeça, pois sabiam aonde elas podiam levá-lo – passara anos em asilos de repouso por causa delas. Talvez as visitas inesperadas que a enfermeira lhe anunciara minutos antes pudessem lhe ajudar a pensar em outras coisas.
- Olá, Sr. Knight? Podemos entrar?
- Viemos visitar um velho veterano em convalescência... Aposto que logo estará pronto para outra!
- Ora, ora... – Ted se recostou melhor na cama para conversar com os recém-chegados. E sorriu com a visita surpresa – Ralph Dibny, o Homem-Elástico! E esta ao seu lado é sua esposa, eu presumo [6]. Pelo visto, apesar de estar aposentado há um bom tempo, ainda devo ser importante...
- Será sempre importante, Sr. Knight. – disse Sue Dibny – Afinal, o senhor foi o primeiro Starman. Se não me engano, o senhor foi um dos primeiros super-heróis. Começou a atuar bem antes da 2ª Guerra, não foi? Tem muito o que contar e ensinar a todos nós.
- Obrigado, minha jovem. Você sabe como lisonjear um velho aventureiro... Mas já fiz minha parte nesse ramo. Voltei a ser apenas um cientista e deixei essa história de salvar o mundo dos super-vilões para quem tem vitalidade e está mais ágil que eu. Heróis como Jack... – Ao falar em seu filho desaparecido, seu semblante perdeu o sorriso e Ted olhou instintivamente para o celular de Jack, que estava em cima de sua mesa da cabeceira. Mais dia, menos dia ele iria tocar. Esta era sua maior esperança.
- Hã... Jack é seu filho, certo? O novo Starman. – disse o Homem-Elástico, tentando quebrar o clima pesado que se instalara no quarto – É por causa dele que estamos aqui, Sr. Knight.
- Por causa de Jack? – Ted sentou na cama, saindo instantaneamente da letargia que se apossara de seu corpo desde que seu filho sumira – Vocês têm notícias dele? Sabem onde ele está?
- Não... Não, Sr. Knight. Calma, deixe-nos explicar. – Sue tentou acalmar o ansioso cientista – Estamos nos mudando para sua cidade, Opal City. Queríamos mudar de ares, deixar o caos urbano de lugares como Nova York e Gotham para trás, mas sem perder as comodidades dos grandes centros. Sempre ouvimos falar do charme de Opal: sua arquitetura retrô, de como ela é tão musical sem os perigos das cheias do Mississipi...
- Isso. Mas a cidade já tinha um herói. Não queríamos simplesmente... sei lá! Invadir o território dos outros sem ao menos saber o que o dono do pedaço achava disso... – Ralph deu um sorriso sem graça para a esposa – Fomos a Central de Polícia em busca de informações sobre o atual Starman e aí...
- E aí...? – Ted esperava a conclusão da explicação – E aí o quê?
- E aí meu marido soube que seu filho havia sumido misteriosamente. Quando começou a buscar mais informações sobre o caso... – Sue colocou a mão na testa e balançou a cabeça como se desaprovasse alguma coisa - ...o nariz dele começou a tremer.
- Nariz? Tremer?
- É. Tremer como se fosse de gelatina recém saída da geladeira.
- ???
- É uma característica minha, Sr. Knight. Sempre que minha intuição identifica algo que não está bem explicado, um mistério pedindo para ser solucionado, meu nariz treme.
- Eu já falei para ele que isso é nojento, mas ele não acredita!
- Ora, amor... O Batman tem o Batsinal, O Capitão Marvel tem seu relâmpago, o Quarteto Fantástico tem o número quatro ardendo em chamas no céu... Eu tenho meu nariz que treme.
- Eu sei, eu sei... Mas acho que nunca vou me acostumar com isso.
- Certo, certo... – Ted ainda não entendia o que estava acontecendo – Seu nariz tremeu. E daí?
- Há algo muito estranho no sumiço de seu filho, sr. Knight. Descobrir o seu paradeiro será meu primeiro caso em Opal City. Além de lhe desejar melhoras, vim aqui conhecer melhor o Jack, buscar mais pistas. Talvez o senhor pudesse me indicar onde começar a procurar.
“Ora, ora... Afinal parece que alguém vai mesmo me ajudar a achar meu filho”, pensou Ted Knight. Agora que ele estava internado, a ajuda de um membro honorário da Liga da Justiça vinha mesmo a calhar. Um super-herói disposto a meter a mão na massa poderia investigar uma possibilidade um senhor idoso ou policiais comuns não tinham chance.
- Bem... Antes de mais nada, me chame de Ted, por favor.
- Tudo bem... Ted.
- Agora, quanto à dica que quer, acho que você talvez possa conseguir alguma coisa com um dos vizinhos que terá quando se mudar para Opal City. Você já o conhece. Estou falando de um homem chamado Shade.
Nova York Manhattan Belmont Hospital Sala Privativa da SJA 16:17h
Os membros da Sociedade da Justiça retornaram do confronto no Bronx e foram atendidos no setor para meta-humanos no hospital. Como era esperado, apenas o Esmaga-Átomo precisaria ficar internado – quebrara o braço esquerdo, três costelas e dois dedos da mão direita. Sand exigiu que o Pantera passasse por um check-up completo, apesar dos protestos do velho boxeador. Como Ted Grant sabia – pois já havia acontecido antes -, apesar de ter morrido e ressuscitado, os médicos não acharam nada de anormal em seu organismo.
Os heróis receberam a notícia do médico que chefiava o plantão de que a Canário Negro receberia alta no dia seguinte. Mas, ao contrário do que eles esperavam, Dinah não iria sair dali direto para o canal de TV em que trabalhava Jack Ryder para esganar seu pescoço. Ela recebera um recado de Oliver pedindo para que o visitasse em Star City assim que pudesse e estava curiosa para saber o que o Arqueiro Verde estava tramando. Jack Ryder teria de esperar mas, como Dinah falou ao comentar o assunto, “o dele estava guardado” [7].
Os resultados dos exames do Sr. Incrível ainda não estavam prontos, mas os médicos disseram que um tratamento desenvolvido a partir de tecnologia da Waynetech poderia ser usado para que o herói não ficasse paraplégico. A tecnologia ainda era de uso restrito mas, como a empresa tinha uma perene parceria com Michael desde que este vendera para ela sua própria empresa e a patente de parte dos equipamentos que criara durante a vida, o próprio presidente da Waynetech - o empresário Bruce Wayne – se comprometera em ajudar no que fosse necessário, cedendo a tecnologia e especialistas de sua equipe para tratar do Sr. Incrível. Enquanto isso, apesar do sangue que perdera ter sido reposto, o Sr. Destino ainda continuava em coma.
Com tantos desfalques na equipe e com boa parte da Mansão Dodds interditada precisando de reformas depois do confronto com a sociedade da Injustiça, Sand avisou que a próxima reunião da SJA só ocorreria na semana seguinte, quando alguns membros reservas deveriam ser convocados para substituir os ausentes. O esquema de plantões diários na sede da Sociedade porém estaria mantido – só que, diferente da rotina dos plantões, funcionaria em duplas com parcerias escolhidas por Sand, juntando membros que em geral não atuavam em parceria. Alguns reclamaram, mas o motivo para a mudança era óbvio. Por mais de um ano o Ultra-Humanóide esteve entre eles usando o corpo do Dr. Meia-Noite. Sabia das estratégias da equipe, conhecia os segredos e conviveu com os amigos e familiares de cada um deles. Todas as táticas precisavam ser refeitas, os conhecidos da cada membro da SJA precisavam ser alertados. A equipe teria de começar de novo do zero, buscando alternativas de ação e procedimentos em tudo que fosse possível. Aquele era um momento delicado. O líder da equipe estaria caminhando no fio da navalha, passando por uma pressão sem precedentes na história da Sociedade da Justiça... e Sand parecia estar se estressando com isso. Era sobre isso que o Pantera estava falando com Joel Ciclone, na sala privativa que a SJA tinha no Hospital, algum tempo após a equipe ser medicada e ter se dispersado. Joel porém não estava surpreso com o que o amigo lhe falara.
- Tinha receio de que algo assim pudesse acontecer, Ted.
- Esperava? Como assim?
- Quantos anos Sand tinha quando se transformou naquele monstro de silício? Dezessete, dezoito anos? Ele ainda era um adolescente. E aqueles eram os anos 50. Então acorda no século XXI, se vê herdeiro de uma grande fortuna, com os poderes assombrosos que sempre quis ter e totalmente deslocado de seu tempo. Sand não passou pelo processo normal de amadurecimento das outras pessoas, além de seu mentor ter morrido pouco depois dele ter retomado a consciência. Ele tem personalidade forte, pulso firme, é um ótimo líder de campo, mas não deve estar preparado para enfrentar toda essa pressão que está passando nos últimos dias. Acho que ele não tem vivência para isso.
- Então você acha que ele não é o líder ideal para a equipe nessa hora em que o mundo está vindo abaixo? Se é assim, porque você não me falou? Nem parece coisa sua! Somos os mais experientes aqui, Jay. Temos de fazer alguma coisa antes do Sand cometer algum erro sério motivado por esse stress!
Jay não respondeu ao amigo de imediato. Ele estava encostado na parede de braços cruzados. Abaixara a cabeça e cerrara os olhos por instantes antes de prosseguir.
- Ted, lembra quem era o líder da equipe quando fomos intimados a prestar aquele depoimento diante do Comitê de Atividades Antiamericanas nos anos 50?
- Como poderia esquecer? Era Carter. E ainda bem que era ele.
- Exato. Carter era o homem certo no lugar certo. Até hoje, nos momentos mais difíceis, sinto falta de sua opinião e de suas atitudes certeiras e rápidas... Velozes mesmo para mim. – Joel sorriu - Não sei se teríamos encerrado as atividades da Sociedade da Justiça naquela ocasião se outro fosse nosso líder. E vários de nós demoram a entender que aquela era a única atitude que poderíamos tomar naquele momento. Mas Carter já havia sido líder da equipe antes, lembra?
- Claro! Carter foi o primeiro líder da equipe. Nossa! Ainda lembro a cara de susto do Presidente Roosevelt quando Alan indicou o nome do Falcão da Noite para comandar a Sociedade da Justiça. Carter era cabeça dura, não se abria com os outros, sério como um papa-defunto e tinha pouca experiência...
- Pois é. Exatamente como Sand. Tanto daquela vez quanto agora, foi o Alan que sugeriu o nome do líder da equipe. E aquele também era um período de crise, mais intenso do que esse que estamos vivendo agora.
O Pantera relembrou as primeiras aventuras, os primeiros meses de existência da Sociedade da Justiça da América. O Nazismo crescendo e se espalhando na Europa como uma praga, com seus partidários sentindo-se inatingíveis, pois eles tinham seus supersoldados, Percival e a Lança do Destino com eles. Os japoneses dominavam o Oceano Pacífico e já haviam devastado Pearl Harbor. Espiões e agentes do Eixo já agiam nos Estados Unidos e os americanos se questionavam se as maravilhas mascaradas que começaram a surgir poucos anos antes os protegeriam num momento como aquele. Sem dúvida aquela foi a mãe de todas as crises vividas pela SJA.
Ted Grant começou a lembrar do Falcão da Noite como o primeiro líder da equipe. As diversas brigas, a dificuldade que foi fazer amizade com ele, o primeiro confronto com a Sociedade da Injustiça – quando o grupo quase foi derrotado pela primeira vez. O Pantera se surpreendeu por nunca ter percebido as semelhanças entre ele e Sand e entre as posturas dos dois na liderança da SJA.
- Então é isso? O que era bom nos anos 40 é bom no século XXI? – O Pantera encarou seu amigo nos olhos – Peraí... Você estava aposentado e o Alan te convenceu a voltar a atuar conosco quando ele teve de ir para o espaço. Esse tipo de idéia é mais a cara dele que a sua. Vocês conversaram sobre isso antes dele partir, certo? Então o grande empresário das telecomunicações conseguiu fazer sua cabeça, Jay?
- Sei o que você está pensando, Ted. Não acredito no que Alan pregava, mas o que falou aconteceu. Sand era o tipo de líder que nós precisávamos quando retomamos a SJA: jovem, guerreiro nato e com uma grande necessidade de provar para si mesmo que merece estar no lugar que ocupa. Carter era assim quando nos liderou pela primeira vez. E deixou a liderança para o herói mais apropriado quando o quadro mudou, quando a situação pedia um outro tipo de líder.
- Isso significa que chegou a hora de ter outro herói ocupando essa vaga. É isso?
- Creio que sim... Alan avisou que isso iria acontecer e pediu que eu estivesse por perto quando chegasse a hora. Ele temia que ainda não tivesse voltado quando acontecesse. – Joel se aproximou do Pantera e colocou a mão em seu ombro – Ted, isso não significa que Sand não é bom para liderar. Ele foi um ótimo comandante e voltará a ser de novo um dia, exatamente como aconteceu com Carter. Não percebe? Ele mesmo já está percebendo que precisa passar o bastão. Por isso esse rompante, essa falta de paciência consigo mesmo.
- Mas será que ele vai perceber a tempo? Um de nós não poderia morrer enquanto ele não se decide! Bom, na realidade um de nós já morreu... Sorte que fui eu, que podia voltar. Mas e se fosse outra pessoa? E se fosse uma das garotas? Alan não percebeu que, se realmente acreditava nisso, tinha de ter contado?!
- Acho que foi por isso que ele preferiu contar isso para mim do que para você... Já disse que não acreditei nele. Falei que não dava para transformar seus amigos em números estatísticos. Quis provar que ele estava errado e esperei que Sand mostrasse isso. Mas estamos aqui, exatamente onde Alan disse que estaríamos. Aquele Lanterna nos conhece muito bem... Sabia o que eu ia fazer numa situação dessas. Vou ter de agir para que não aconteça o que você tem medo.
- O que você pretende fazer?
- Você tem razão. Sand não pode continuar como líder do grupo. Os riscos são grandes demais. Mas não farei nada antes da próxima reunião. Acho porém que Sand vai usar esses dias para refletir em suas atitudes e verá que esse é o momento para deixar a liderança.
O Pantera coçou a nuca e se virou para o outro lado da sala, procurando digerir a frieza do mecanismo das guerras – fossem nos campos de batalha nos anos 40 ou nas ruas do Bronx no alvorecer do Terceiro Milênio. Socou a palma de sua mão esquerda antes de voltar a falar.
- Vou ter de falar muito sério com aquele Lanterna Verde quando ele voltar... Quem ele pensa que é?! O que ele pensa que nós somos?! – Grant soltou um suspiro de resignação. Naquele momento não tinha como imprensar Alan na parede – Bom... Nossa Eminência Parda já deveria ter em mente quem seria o mais adequado para substituir Sand na Liderança da Sociedade antes de ir para o espaço... Aposto que ele disse quem você deveria sugerir para ocupar o cargo.
- Não vou sugerir ninguém, Ted. Ainda acho que Alan está errado. Dessa vez aconteceu o que ele previa, mas não significa que acontecerá sempre. Eu acredito no livre-arbítrio.
- Mas ele disse quem ficaria no lugar do Sand, não disse?
- Disse. Mas eu não vou dizer a você. Não sei se o próximo líder da SJA vai ser quem Alan acredita, mas se você souber quem ele imagina que será, provavelmente faria de tudo para que não fosse o escolhido. E isso seria tão errado quanto garantir que ele fosse o indicado... Não coloque minhocas na cabeça, Ted. Pense em quem você acha que deveria ocupar esse cargo. Só devemos garantir que Sand ponha o cargo a disposição. Você sabe que ele não pode continuar como líder, por isso veio falar comigo.
- Sinceramente, agora não tenho tanta certeza...
- Se você achar mesmo que Sand merece uma outra chance e pode continuar liderando a equipe, exponha isso. Só não tenha essa postura apenas para contrariar o Alan. Aproveite esses dias para pensar também. Lembre-se que o futuro da equipe está em jogo. Bom, agora deixe-me voltar a Keystone. Jakken está tendo uns problemas com seu gênio, Carrie está enjoando sem parar e preciso ajudar Joan a tratar das begônias [8]. Ainda bem que não tenho nenhum plantão programado para esses dias. O pessoal lá em casa está precisando de minha presença. Tchau, Ted.
- Tchau, Jay... – Joel Ciclone já havia desaparecido antes que Ted terminasse de falar a curta frase. Joel fora embora, mas deixara a velho felino com a pulga atrás da orelha. Afinal, seu velho amigo Sentinela tinha uma vasta percepção dos acontecimentos históricos e quase profetizava o que deveria acontecer, ou ele manipulava os fatos para que eles se encaminhassem na direção que achava mais conveniente?
Sem dúvida o Pantera teria muito o que pensar naquela semana.
Nova York Manhattan Mansão Dodds Museu e Memorial da SJA 20:17h
Depois da invasão da Sociedade da Injustiça, ocorrida dois dias antes, a Mansão Dodds ficou interditada, proibida para visitação pública enquanto não concluísse o delicado processo de restauração da centenária residência. A empresa responsável pelo serviço começaria os trabalhos em três dias. O sistema de segurança havia sido sabotado pelo Ultra-humanóide e seu criador e responsável por sua manutenção – Michael Holt, o Sr. Incrível - ainda estava internado no Belmont Hospital. Ainda assim uma equipe com antigos colaboradores da velha Holtronics estava sendo formada para dar um jeito no sistema enquanto Michael não pudesse por as mãos nele. A equipe trabalharia no sistema no dia seguinte e, segundo os prognósticos, antes do anoitecer a segurança eletrônica estaria funcionando com mais de 70% de sua capacidade.
Naquela noite a Mansão estava praticamente vazia. Fora os três vigias da empresa de segurança contratados para trabalhar enquanto o sistema de segurança não estivesse em pelo funcionamento, estava na mansão a dupla responsável pelo plantão daquela noite: Kendra Saunders, a Mulher-Falcão, e Courtney Whitmore, a Sideral. Courtney não gostara muito de ter sido escala num plantão com Kendra, mas Sand tinha razão: não havia na SJA uma dupla mais improvável que aquela. Não só pelo fato delas não serem amigas, mas por se equivalerem nas estratégias da equipe – quando se pensava em usar uma delas, a outra era logo descartada. Se o Ultra-humanóide aparecesse na Mansão, certamente ficaria surpreso ao encontrar as duas atuando juntas.
Após verificar mais uma vez o monitor de chamadas no segundo andar, Kendra resolvera descer e dar uma circulada pelo museu.
- Mas, Kendra... E se houver chamada no monitor? Sand falou que devemos estar de olho para qualquer emergência.
- Você sempre fez tudo que seus pais mandam, não é?
- Não... Na realidade eu costumava deixar minha mãe maluca. Mas as coisas mudaram depois que vesti esse uniforme.
- Se você pensa assim, porque desceu atrás de mim? Devia ter ficado vendo o monitor, se isso te faz feliz.
- É que... Não quero ficar sozinha hoje.
- Está preocupada com sua família, não é? Por causa do Ultra-humanóide. Quem dera eu tivesse uma família para se preocupar...
- E o seu avô?
- Speed? Aquele velho sabe se virar sozinho muito mais do que eu. Alem do mais está mais seguro do que qualquer um de nós. Veja a quanto tempo os caras da Sociedade estão caçando ele e nem sinal do cara até agora. Já deviam ter parado de procurar ele... Quem precisa daquele velho afinal?
- Mas ele é seu avô...
- O que aquele velho queria era alguém com seu sangue para seguir os passos da irmã dele! Depois que conseguiu isso, fez questão de se livrar de mim! Eu não considero aquele cara meu avô...!
- Tá bom... É melhor parar de falar nisso, né? – Kendra não respondeu e as duas caminharam em silêncio por alguns minutos antes de Sideral falar novamente – Kendra, tem uma outra coisa que queria falar com você...
- Que foi?
- Sabe, essa luta que a gente teve com aquele herói maluco... Eu era ágil, forte e sabia voar com o cinto conversor, mas agora preciso ser mais que isso.
- Como assim?
- Esse cajado que o Sr. Knight me deu... Ele é muito poderoso, agora o papo é outro. Nós atacamos aquele cara com tudo, mas a única coisa que realmente o afetou foi esse cajado. É como se eu tivesse subido de nível, deixasse de trabalhar no time de apoio e passasse a agir na linha de frente.
- E...?
- Preciso treinar mais. Pat ia me ajudar, ele me disse que esse cajado devia ser usado com cuidado, mas não imaginava que ele era isso tudo. Mas a armadura dele partiu e não sei se ele é bem a pessoa com quem quero treinar...
- Mas que diabo você quer falar afinal? Desembucha logo!
- É que... Bem... Eu queria treinar com você.
- Comigo?! Essa é boa... Você nunca foi com a minha cara, Courtney. Por que isso agora?
- Por que... Você é durona, encara qualquer coisa com unhas e dentes... Treinou duro desde quando era da minha idade. Acho que você nunca piscaria diante de alguém como o Ultra-humanóide.
- Você... – Pela primeira vez, Kendra se virou para encarar a jovem heroína que a seguia desde o fim da tarde – Você queria ser que nem eu? É isso?
- Bom... Não exatamente como você, mas acho que sua atitude é a que a gente precisa ter agora.
Kendra deu um leve sorriso. Nunca tinha se imaginado como motivo de inspiração de alguém. Aquela era uma sensação nova. Ela ia responder a Courtney quando escutou um baque surdo em uma das salas do museu e sua pele se arrepiou. Mal sinal. Ela desviara o olhar de Sideral e parecia farejar o ar. Coutrney ia falar alguma coisa, mas um gesto da Mulher-Falcão com o seu indicador diante dos lábios pedindo silêncio fez com que suas palavras morressem ainda na garganta. Kendra levitou no ar usando o metal enésimo em seu cinto e se deslocou no ar devagar, sendo seguida de perto por Courtney, que levitara com seu Cinto Conversor Cósmico. O barulho pareceu ter vindo da sala do museu que recebera um novo acesso, com o buraco da parede feito pelo Espectro ao atirar o Barão Sangue através do salão principal. As duas se aproximaram do buraco. O interior das sala estava em completa escuridão. Com um gesto, Kendra apontou o interior do salão para Sideral e com outro ela indicou o que a jovem deveria fazer. Courtney apontou o Cajado Cósmico para o interior da sala e ele se iluminou, eli inando |