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Hellblazer 13 - O Caminho da Deusa: Vingança PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Leo Spy   
Dom, 14 de Novembro de 1999 00:00

O confronto final entre John Constantine e Lady Croif!

Um homem misterioso entra em cena!

E o que será do mago depois das perdas sofridas durante o Caminho da Deusa?

 


HELLBLAZER

Capítulo XIII
O CAMINHO DA DEUSA

Parte IV - FINAL

VINGANÇA

Por Leonardo Marcello



Ele está nadando. Não se lembra onde, mas está nadando. Completamente nu, John sente uma paz inédita em sua vida. Nunca se sentiu assim... feliz. Pleno. O mundo não importa. A água cristalina permite a visão completa de cardumes inteiros que passam por ele sem medo. As pedras submersas, cobertas de limo, chegam a brilhar com os raios de sol que penetram no espelho dágua. Neste momento, se pudesse escolher, ficaria para sempre naquele lago, naquele útero. Protegido. Sem a necessidade de sair para um mundo não tão cristalino e que esconde sua natureza.

Mesmo sabendo que está sozinho, ele não sente solidão. Há um aconchego, um conforto naquelas águas mornas. Procura não pensar nos porquês. Por que não fica sem ar? Por que não sente fome? Por que está ali?E por que ele mereceu algo tão bom?

Mas a tranqüilidade, como sempre, é passageira. John sente um puxão em seu abdômen. Exatamente onde se localiza um cordão umbilical que não estava lá. Ele resiste, se debate na esperança de afundar ou encontrar uma pedra em pudesse se segurar. Mas é inútil. Uma força superior o quer fora da paz. E não importa o que ele queira, não conseguirá detê-la. John Constantine lembra de ter passado por isso uma única vez em sua vida de lutas. Ao nascer.

Ele emerge e respira. Continua nu e o cordão não existe mais. Os pulmões ardem, mas não como na primeira vez. Ao olhar em volta, constata que estava mesmo em um lado. Bem no meio de uma floresta de árvores altas e coladas umas nas outras. Aquele pequeno refúgio para as águas simplesmente se destacava porque não deveria existir. Ou porque era exatamente o que deveria existir.

- Olá, John – A voz suave e calma interrompe o silêncio do lugar. Dentre troncos de milênios, surge uma mulher. A mulher. Cabelos cacheados da cor do fogo envolvem um corpo sensual e desnudo. Seios fartos e quadril largo remetem a uma época de beleza e feminilidade naturais – Antes de tudo, peço que me perdoe um dia...

- Quem é você e onde estou? Eu não lembro o que aconteceu... Estava numa casa, numa mansão... Me ameaçavam e... Kit! Eles atiraram na Kit! – Recordações começaram a voltar em um turbilhão de imagens e sensações. Não se agüentou de pé e tombou. Foi apoiado pela linda mulher, que parecia estar mais próxima agora.

- Eles fizeram por mim, John. Por isso peço que me perdoe. Mataram minha filha em meu nome.

- Então você é a Deusa, não? Você é a Danu – Ele tentava se reerguer, ainda confuso.

- Sei que tem muitas perguntas a fazer, mas terá que esperar para fazê-las um outro dia. Preciso de você, John Constantine. Só você pode consertar o que estão fazendo em meu nome.

- Não posso – Ele a afasta. Seu semblante logo adquire a imagem da raiva – Não posso fazer mais nada. Não tenho razão. Por sua causa eles a mataram. Sua causa!

Novamente o silêncio domina a floresta. Até que um vento repentino estremece as copas das árvores. E os cabelos cor de fogo agora queimam. As águas do lago, antes serenas, borbulham. Ela está nervosa.

- Eu sei! Por minha causa! Por viver em esquecimento em terras distantes! Por não poder descer dos céus às florestas em noites de lua cheia para, em júbilo com meus filhos e filhas, celebrar a vida! Você não sabe o que é ser rejeitada, banida de sua terra! Os homens fizeram isso comigo! Os homens e Ele! – Diante de um Constantine acuado, ela pára um instante e toca-lhe o rosto – Mas eu amo tanto...

Pelo segundo momento em menos de um ciclo, ela se rende às suas incertezas. Assim como outros, ela foi usada. Mortais com interesses próprios manipularam seus semelhantes e uma deusa. Mas não há e nem nunca haverá uma mulher que não seja vingativa. Muito menos uma deusa-mulher.

- Eu precisei fazer acordos para te trazer até aqui, John Constantine. Estou em débito com Sonho. Mas não só com ele. Por isso, você fará o que não posso pessoalmente.

- Mas... por que eu? – John estava imóvel. Poderia estar assim devido à situação, mas não. Ela estava fazendo algo com ele. Podia sentir. Magia.

- Você, além de não ser um homem qualquer, de possuir muitos meios quando quer... Você perdeu a mulher que ama. Você é perfeito para o que eu quero, John Constantine.

A mulher sorria e seus olhos brilhavam como duas luas. Com as duas mãos estendidas sobre o peito dele, ela só necessitou dar um leve empurrão em seu interlocutor impassível. Ele dobrou as pernas até deitar sobre a fina grama que circundava todo o lago. Não havia escolha a ser feita, aquilo estava acontecendo porque ela assim queria e é o que deveria acontecer.

Para surpresa de John, toda a raiva, desespero e vazio sumiram de seu coração. Era desejo que o preenchia. Desejo por ela que seu corpo demonstrava, mesmo sem entender direito porquê.

- Relaxe, meu filho – Danu subiu por cima Del e o montou. Ambos expressaram prazer naquela junção. Os corpos se uniram – Meu pai – A visão de John ficou turva. Ele via a mulher por um momento. Logo depois, era Kit olhando-lhe pela primeira vez. Ellie e seus olhos demoníacos. E Zatanna com um sorriso inconfundível. Ela era todas. Ela era única – Meu marido – Subindo e descendo, com os longos fios de cabelo escorrendo por seu dorso até chegar à pele dele – Meu senhor – Os movimentos aceleraram. O mundo pareceu pequeno diante do que sentia. E ele sentia tudo. Todas as coisas e pessoas. Animais, plantas e rochas. Todos vindo em sua direção, entrando por seus poros, sensibilizando cada parte de seu organismo por dentro. Tudo e todos ao mesmo tempo. Vindo. Chegando. Sentindo. Até explodirem de uma vez... – Meu herói.


- Acorda, Bela Adormecida.

John abre os olhos devagar. Sua cabeça dói. Leva a mão a ela e percebe um ferimento aberto que ainda sangra. Foi a pancada que levou logo após o tiro. Estava vestido novamente e não havia sinal de que a experiência no lago havia sido real. Puxando-lhe pelo braço para que levantasse, um homem alto, usando um casaco escuro empoeirado, que aparentava estar nele há muito tempo. Um olhar forte e rosto carrancudo revelavam que não era um homem de fácil convívio. Olhando à volta, os corpos de três seguranças da Mansão Croif confirmavam essa impressão.

- Quem é você?

- Não que interesse muito no momento, dada a situação e o que temos de fazer, mas sou o Enviado. O Guardião da Espada. – falou segurando a bainha onde se encontrava a tal arma. – Levanta logo, temos um mundo para salvar. Mesmo que ele não mereça muito. Achei que ela tivesse sido bem clara... – O homem desferiu um sorriso malicioso.

- A deusa... Mas pensei que tudo havia sido só um sonho.

- Vai por mim, garanhão. Nada é só um sonho. Nem quando é sonho mesmo.

- Já tive algumas experiências que comprovam isso – Constantine, ainda sem forças, é levado pelo homem aparentemente de volta ao salão principal, onde tudo aconteceu. Tenta, em vão, andar sozinho.

- Você não parece muito disposto a matar a bruxa.

- Pode apostar que estarei em um minuto – O ódio voltava a sua mente sempre que se lembrava de Kit. Por ela ter morrido porque se meteu com ele. Finalmente alguém conseguiu feri-lo de verdade. Profundamente – Não será fácil vencermos. Não estou em condições de fazer muita coisa contra o que a Croif está armando. É algo bem grande...

- Confie em mim e nisto aqui – Ele segurou novamente a espada.

- Não tenho outra escolha – John fez com que parassem por um instante – Mas eu tenho uma certa tradição, sabe? Antes de matar quem fudeu comigo, eu preciso fumar um cigarro...

- Você está falando sério? Nós temos uma missão a cumprir e você quer parar para fumar?

- Nunca me fez mal nenhum – falou John confiante, ignorando o câncer de pulmão que teve há poucos anos atrás. O orgulho, uma de suas marcas registradas, estava voltando.

- Os vícios da sociedade contemporânea me enojam. A corrupção dos valores pré-estabelecidos...

- Você nunca cala a boca? Eu vou fumar só alguns minutos e depois vamos matar aquela mulher e acabar com o plano dela. Basta você fazer o que eu tenho em mente.

- Mortal ingrato...


Uma tempestade se anuncia do lado de fora da casa. A noite, antes sem nuvens, adquiriu ares de fim do mundo. Em parte, era exatamente o que ela queria. O plano que havia elaborado tanto tempo atrás, finalmente estava se desenrolando. Pena não ter sido na primeira tentativa. Só um pequeno detalhe não correra como o previsto: Constantine. Sabia que seria difícil convence-lo ou mesmo obriga-lo a participar. Conheci seus feitos por histórias narradas aos quatro ventos por seres menores. Deveria ter acreditado em algumas.

O filho que seria concebido naquela noite, se tudo tivesse dado certo, não era fundamental para o que pretendia. Era como um bônus. Alguém para manipular o pai mais tarde para que não atrapalhasse muito. Isso já tinha funcionado uma vez.

Mas o que a preocupava era a presença intensa da Deusa que sentiu durante toda a empreitada para arregimentar fiéis. A força mística que possibilitou grande parte do seu plano, com a confiança e adoração de milhares de pessoas ao redor do mundo. Suas viagens deram resultado e neste exato momento uma legião estava realizando rituais para que ela conseguisse o que sempre quis. Mas a presença se foi.

- Não vá pensando que já está tudo ganho... Porque não está!

Aquela frase no meio da multidão de empresários e políticos nus, em transe, despertou sua atenção. No interior do círculo de corpos, Lady Croif, com a cabeça da succubus Ellie nas mãos, pronunciava palavras antigas direcionadas para deuses antigos.

John Constantine apareceu entre as pessoas, caminhando calmamente em sua direção. O homem segurava apenas um cigarro numa das mãos e a outra ficava para dentro do sobretudo marrom. Para alguém que estava lá para matar quem lhe tirou a mulher de sua vida, ele estava paciente.

- Vejo que sua fama é mais do que merecida – Ela diz, inserindo palavras desconhecidas entre as que pronunciava na conversa. Com as duas mãos para cima, fazia gestos que John conhecia apenas de livros. O ritual estava em um estágio avançado. – Mas chegou tarde, não há mais nada que possa fazer.

- E precisa ser eu a fazer algo? – Constantine virou a cabeça para uma das janelas, onde podia-se ver fumaça – Meu novo melhor amigo está lá fora, Croif. Você deixou a maioria de seus capangas esperando encrenca externa, mas mesmo assim nenhum deles pôde impedir que colocássemos fogo em torno da casa. Só há uma saída... a porta principal.

- Eu deveria sentir medo de ser queimada viva? – Ela emitiu uma gargalhada intensa – Não sou uma bruxa de Salem, Constantine. Você nunca enfrentou alguém como eu. Meus planos são tão antigos quanto o tempo. Este encanto não é simplesmente a volta da Deusa para este mundo. É a volta do mundo antigo. De deuses antigos que me deram poder ao longo dos séculos em acordos que exigiam uma brecha, uma porta de entrada para uma Terra desprotegida da magia, que confia muito mais em tecnologia. Eles não terão chance contra...

- Morgana.

- Como disse? – A mulher arregalou os olhos e abaixou as mãos, se esquecendo do que fazia.

- Você é Morgana ou Morgan Le Fay. – Ele se aproximava cada vez mais - A mesma das lendas do Rei Arthur. A que os leigos chamam de bruxa, que seduziu o próprio irmão para dar-lhe um filho e as mulheres metidas a entendidas dizem que nada mais era do que a sacerdotisa em busca da permanência da Deusa como regente deste plano. Que era comum a linhagem real não se misturar e você fez o necessário para tentar expurgar o Deus cristão e suas leis contraditórias baseadas na culpa. Mas a verdade é que você sempre foi as duas, não? Sempre teve seus próprios interesses. – John deu mais uma tragada no cigarro, cuja fumaça agora se misturava com a que preenchia todo o salão.

- Esperto. Mais do que eu pensava. – Ela retomava o encanto, recuperando o controle sobre a magia que o ritual na mansão e nas outras bases da seita Filhos da Deusa gerava. Não se importava com a pouca distância que a separava dele – Mas como eu disse, não há nada que possa fazer. Eu sobreviverei ao fogo, mas e quanto a você? Se conseguir, não terá poder suficiente para me atacar. Não no meu momento de triunfo, quando estou em comunhão com forças infinitas.

- Sozinho não tenho mesmo como detê-la. Mas e com isso? – Ele joga o cigarro fora e abre o sobretudo, revelando segurar a espada que estava com o homem misterioso. Constantine a empunha e olha fixamente para Croif.

- Excalibur... Mas é impossível!

- Minha vez, filha da puta! – Com um ataque certeiro, ele a empala com a espada mística, imune às defesas criadas pela bruxa. Fora de si, tomado pelo mesmo frenesi que outros homens que foram dominados pela Deusa antes dele, John levantou Morgana o mais alto que pôde. Ela gritou alto e despertou as pessoas que mantinha sob seu poder.

Fiéis e participantes da festas, todos da alta sociedade européia e nus, se viram em meio à fumaça e uma mansão em chamas. A confusão foi generalizada, com empurra-empurra e alguns sendo pisoteados de início. Até que um homem abriu os grandes portões do salão, dando caminho aberto para os jardins. Aos poucos, todos foram saindo, desesperados e envergonhados com a atual condição.

O fogo já chegava perto de Constantine e Lady Croif, que permaneciam na mesma posição. Ela sofria para morrer, com o aço frio por dentro de seu ventre. Mas foi parando de tentar se soltar, perdendo as energias que se acumularam ao seu redor, só restando o suficiente para dizer uma última ameaça.

- Eu voltarei para matá-lo, John Constantine...

- Eu estarei aqui te esperando – Ele disse, ainda com os olhos vermelhos de ódio, perdendo a força que mantinha a mulher levantada. Foi abaixando-a, retirando a espada do corpo sem vida. Quando estava prestes a desmaiar, ficando indefeso diante do incêndio que derrubava a casa aos poucos, mão firmes o seguraram. O homem pegou de volta a espada que vem protegendo há gerações e depositou-a na bainha. Então, colocou John num ombro e saíram dali.


Já era quase cinco horas da manhã quando ele chegou em casa. O apartamento vazio não dava uma boa recepção de boas vindas depois de tudo pelo que passou. E durante o que restou da noite conversou com Lancelot, o homem que o salvou. Os dois viram não sobrar nada da casa. A polícia chegar, interrogar pessoas influentes que deram explicações vazias e tudo ficar por isso mesmo. O primeiro-ministro era um dos presentes e fez questão de abafar o caso, resultando em uma festa que acabou em incêndio com a anfitriã morrendo queimada.

Sentou-se no sofá, quase despencando. O cansaço era tamanho que mal se agüentava de pé. A falta de força de vontade ajudava o corpo se sentir pesado. Não havia mais motivos para lutar.

Os olhos, apesar do peso que sentia, era a única parte do corpo que resistia. Fixaram-se na estante à frente. Livros, antigos LPs e álbuns de fotos disputavam o pouco espaço. Guardar objetos para lembrança não era idéia dele. Nunca achou que precisava. A verdade é que lembrar do passado nem sempre é uma boa coisa.

Era idéia dela. “Você não gosta de lembranças porque não cultiva nenhuma, John”, falara com uma voz rouca ao acordar depois de uma noite de amor. As discussões mais interessantes – para ela – eram nesses momentos. “Ah, cala a boca e coloca os discos em ordem. Os da sua banda na frente”, definira no dia seguinte.

“As lembranças só servem para jogar na sua cara que o passado foi melhor que o presente”, o que ele pensava de verdade.

Levantou-se com o vigor da insanidade. Um ser irracional se jogou contra a estante com força, puxando-a para baixo até derrubar todo o seu conteúdo. A estrutura de madeira caiu por cima, desferindo um estrondo.

Foi à cozinha e trouxe uma garrafa de álcool consigo. Despejou sobre a pilha de coisas distribuídas sob a estante. Jogou a garrafa pro lado.

John abriu o sobretudo e retirou a caixa de fósforos. Ia fechar o casaco, mas lembrou do maço de cigarros. Acendeu um fósforo e acendeu o Silk Cut, último que restara. Aproveitou a chama para pôr fogo no maço, admirando o brasão se retorcendo. Então o deixou cair. Fechou a porta atrás de si sem olhar o fogo que em poucos segundos já tomava toda a sala.

Nunca mais guardaria lembranças do passado.


[1] Como visto em Sandman 14, aqui na Quadrim.

[2] Este Lancelot tem como nome completo Lancelot Logan e foi criado por Otávio Larsen, escritor da Quadrim. O protetor da espada Excalibur foi mostrado pela primeira vez no título do Batman. Agradecimentos ao Larsen pelo personagem!

Última atualização em Dom, 21 de Novembro de 2010 15:17
 

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