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Após anos dado como morto, Oliver Queen retorna para Star City, a fim de liquidar o que sobraram de suas antigas propriedades. No entanto, irá descobrir que reaver mesmo essa pequenina parte do que foi sua fortuna, irá ser mais difícil do que esperava.
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Eu estive morto. Voltei à vida. Ou, pelo menos, acho que sim. Na medida que o tempo passa, aquelas memórias vão ficando mais e mais nubladas, como num sonho. Provavelmente há coisas que os vivos realmente não devem saber... ou se lembrar.
É engraçado para um ateu falar em pós-morte. Ou ex-ateu, sei lá. No tipo de vida que eu levo, vi tantas coisas estranhas que poriam em cheque as crenças de qualquer um. Ou a falta de crenças.
O certo é que estive ausente. Por algum tempo, fui dado como morto, e as pessoas continuaram a vida sem mim. A mulher que eu amo não me esqueceu, mas arrumou alguém. Um filho que nunca reconheci, assumiu meu lugar no combate ao crime.
Meu nome é Oliver Queen. Nunca fui um cara de ficar muito tempo preso a um só lugar, a uma pessoa só. Nunca fui um “homem de família”. E de todos os lugares e pessoas que eu deixei, nunca algo sentiu tanto a minha falta quanto STAR CITY.
A Quadrim orgulhosamente apresenta a nova fase do
ARQUEIRO VERDE Criado por Mort Weisinger e George Papp
Capitulo XVI – VOLTA AO LAR Por Nano Souza
Faz muito tempo que eu não venho para cá. Um dia peguei a estrada, e nunca mais voltei. Deixei pra trás os amigos, o dinheiro, as farras, tudo aquilo na vida de playboy que eu detestara.
Nasci em berço de ouro, de uma família de capitães da indústria. Sou formado em administração porque era conveniente para meus pais, não para mim. Eu realmente não sabia que profissão iria seguir. Fui campeão olímpico de arco e flecha, na juventude, mas até nisso perdi o interesse, depois das festas e noitadas que meu dinheiro podia bancar. Um dia, tudo mudou. Fui seqüestrado por criminosos, e tive que voltar a reaprender a usar um arco e flecha para sobreviver. Foi aí que encontrei minha vocação: onde a polícia não está, onde os advogados e juízes atrapalham, lá estava o Arqueiro Verde.
Me tornei o vigilante de Star City, como Batman protegia Gotham, Starman em Opal City, Flash em Keystone. Parecia uma boa moda para seguir. Nossa cidade não era cosmopolita como Metrópolis, mas também não era sombria como Gotham. Era uma boa cidade, com alguns maus elementos que precisavam de algumas pancadas de vez em quando, mas nada preocupante. Com o tempo, virou tédio. Eu nunca tive uma “galeria de vilões” como o Flash ou o Morcego, então não demorou muito para “limpar a área”. Assim, cai fora de Star City. Fui conhecer a América com meu amigo Hal Jordan, e mais tarde passei a morar em Seattle com minha namorada Dinah.
Agora, volto pra cá, e quase não reconheço os prédios desgastados, os muros pinchados, as ruas sujas e escuras. Alguns bairros de classe média viraram guetos, e já existem gangues que brigam por território.
Eu realmente não deveria ter voltado pra cá. Só fiz isso pela Dinah. Ser dado como morto tem suas vantagens. Depois de tudo que aprontei com aquela menina, minha morte chacoalhou as coisas, a ponte dela me perdoar. E hoje eu sei que não quero mais aventuras extraconjugais. Já passei dos quarenta, quero me assentar e viver com a Canarinho...
Ela também é uma vigilante como eu, e está se recuperando num hospital em Nova York após ter ajudado a salvar o mundo, mais uma vez combatendo um superlunático¹. Foi preciso eu morrer pra ela me perdoar, foi preciso ela quase morrer para que eu decidisse que não posso esperar a vida passar sem fazer aquilo que eu tenho vontade agora mesmo. Não sabemos o dia de amanhã. Uma coisa eu aprendi com a morte: Faça aquilo que quer hoje, viva o momento. Pedi minha garota em casamento, ela aceitou.
Quem casa, quer casa, e aqui estou eu, em Star City. Há alguns anos atrás, fui à falência, perdi quase tudo, e também foi um desses motivos que me fez deixar a cidade. Tenho alguns imóveis no meu nome, então a idéia é descobrir o que ainda é meu, vender tudo, e cair fora. Mas pelo jeito, as coisas não vão ser tão fáceis quanto eu pensei:
- Como assim, eles foram desapropriados pela prefeitura!? – São apenas 10 horas da manhã e estou gritando com um funcionário do cartório de Star City. É um lugar apertado, por fora quer parecer sofisticado, mas por dentro tem orgulho em ser antiquado. Um corredor apertado, com seis metros entre as portas e vitrines de vidro, é dividido por pelo menos treze pessoas lutando por alguma atenção dos seis funcionários presentes.
- Entenda, Sr. Queen, o senhor sumiu há dez anos... – O sujeito que finalmente me atendeu é um desses contadores magrelos e de óculos. Puro estereótipo, tem até cabelo ruim e usa daquelas camisas cor de burro. Acho que esse tipo já nasce pra trabalhar em cartórios. - Seus impostos deixaram de ser pagos... Então, pela lei, eles foram absorvidos pelo erário, como forma de...
- Ei, espera aí, tudo bem que eles tinham até o direito de ficar com um ou dois dos meus prédios pra pagarem as minhas dívidas... Mas tudo? O valor das minhas propriedades é muito maior do que eu devia!!!! – Dou uma pancada com meu punho fechado sobre o balcão de fórmica.
- Hã... Bem, não é bem assim... – O sujeito treme e gagueja. Alguém tão magro parece um saco de ossos a ponto de desmontar. - A venda mal correspondeu ao total da dívida e...
- Como assim, não correspondeu? Espera aí, qual o valor que eles foram vendidos?
- Duzentos mil dólares...
- Valiam muito mais! Aí tem tramóia!
- Entenda, os imóveis desvalorizaram muito em Star City nos últimos anos, o aumento da criminalidade, as pessoas estão saindo da cidade, ninguém quer mais investir...
- Não me enrola, cara! A prefeitura vendeu tudo que eu tinha por muito menos que valia, e nem se deram ao trabalho de me notificar...!
- Bom, consta nos documentos da época, que o senhor era difícil de localizar...
- Não quero saber! Me diz aí, tem uma forma de eu saber quem foram os compradores?
- Hã... Bom, não sei isso pode ser divulgado, olha...
- Ai, ai, as coisas não mudam, não é mesmo? – Saquei uma nota de cem dólares e enfiei no bolso do cara. – Dá uma olhada pra mim, certo?
O cartorário mexeu no computador, conferiu com os endereços das propriedades e coçou a cabeça:
- Engraçado...
- O que é engraçado, cara?
- O senhor vai gostar de saber que foi apenas uma pessoa que comprou tudo, num lance só.
- Uma pessoa?
- Sim, o nome dele é Phineas Wing...
- Puta que pariu!
- O senhor o conhece?
Ô se conheço! Phineas Wing era aquele típico filhinho de papai que também nasceu em berço de ouro. Mas enquanto eu, justamente por isso, nunca me preocupei e desprezava dinheiro, Phineas era obcecado em aumentar mais e mais a fortuna da família, fazer dinheiro simplesmente por fazer dinheiro.
Já na época da escola o desgraçado criava uma rivalidade artificial comigo. Simplesmente porque meus pais tinham mais grana, ele acreditava que deveríamos ser inimigos. Ou isso, ou era despeitado por eu arrumar mais garotas, já que ele sempre foi meio feio.
Imagino que ele deve ter tido um orgasmo quando eu fui à falência. Adquirir o que sobrou deve ter sido a cereja do bolo. Mas comprar tudo por apenas duzentos mil e ainda por cima no que deveria ser um leilão... Alguma coisa estava errada aí. Com certeza, os terrenos e prédios teriam subido de valor em poucos lances; Ainda por cima, ele comprou todos, o normal que fossem esparsos entre vários compradores. Quero ser um esquilo se o fato de eu não ter sido notificado não ter alguma coisa a ver com isso...
- Senhor? Senhor, está meu ouvindo? – O cartorário voltava a me incomodar.
- Sim, sim, eu só estava divagando. – Resolvi me mandar de lá. – Escuta, qual o setor da prefeitura onde devo reclamar sobre essa palhaçada?
- Na Secretaria de Planejamento, senhor.
- Então eles que se preparem, porque vão ouvir algumas verdades!
A minha vida é mesmo assim, nada pode ser simples. Tudo tem que ter problema, tudo tem que acabar em confusão. Tenho que morrer pra assumir meu filho, minha namorada tem que quase morrer pra eu casar com ela. E até mesmo o meu dinheiro é difícil de arrumar de volta.
E se eu pensei que reclamar na justiça, contratar um advogado e entrar na maior pendenga jurídica era problema suficiente, é porque não tinha ainda visto a confusão na frente da prefeitura: Uma passeata, das grandes. Quando eu era moleque, adorava passeatas. Principalmente porque meus pais odiavam. Lembro do meu velho puto da vida quando ia me buscar na delegacia, por causa dos conflitos com a polícia. Foi numa dessas tretas que conheci a mãe do Connor...
Mas a coisa está ficando realmente feia ali. Os manifestantes parecem furiosos, e tem mais meganha aqui do que num jogo entre Gotham e Metrópoles... Os caras trouxeram até os cavalos, e parecem que não tão muito tolerantes não. Caralho! Aquilo era uma bomba de gás lacrimogêneo! E os caras também começaram a atirar! Mas o povo não fez nada demais... Só estavam gritando palavras de ordem...
Antes que eu possa racionalizar sobre isso, já estou correndo por uma escada de incêndio e vestindo minha roupa de arqueiro, que está junto comigo nessa pequena bolsa de viagem. É algo que nunca me separo, quase uma segunda pele. Infelizmente, estou com poucas flechas, vou ter que improvisar.
A polícia está provavelmente usando balas de borracha, mas isso machuca pra valer, quando acidentalmente não mata. Acho que algumas flechas desarmando esses caras pode trazê-los pra razão...
- Ungh! – Um policial acaba se arranhando com uma das minhas flechas, quando derrubei o revolver. O cara se mexeu, a culpa não é minha, pô.
- Olha em cima! – Um policial aponta.
- Não pode ser! – Alguém na multidão me reconhece, pelo visto.
Os meganhas começam a atirar, e por um centésimo de segundo eu sorrio relembrando dos bons tempos. Agarro um cabo do prédio em construção onde estou fazendo mira, e pulo pra cima de um dos carros. Nesse movimento, aproveito pra disparar uma flecha supersônica, caríssima, que Bruce me deu de presente. O barulho é o suficiente pra assustar os cavalos, e causar o maior auê na polícia, que parou de atacar os manifestantes. Felizmente, eu estou usando proteção nos ouvidos.
- Escuta cambada, vão já pra suas casas! – Eu me dirijo pros manifestantes que ainda estão indecisos se começam a se mandar ou não. – Os caras tão pegando pesado, acho melhor vocês entrarem com um bom advogado pra na próxima vez não haver isso...
- Mas e o prefeito...? – O cara que me reconheceu chega perto de mim.
- O que tem ele...? – Reparei que conhecia o baixinho de algum lugar, mas não exatamente quando ou onde. - Está acontecendo na Câmara uma votação para decidir se abrem uma CPI contra ele... Provavelmente não vão abrir, porque ele tem a maioria dos vereadores no bolso... Mas a gente queria pressioná-los para que abrissem a investigação, por isso organizamos a manifestação.
- Deixa pra outro dia, camarada. Agora a coisa tá feia! – Os tiras se recuperaram e já estavam vindo pra cima de mim. E alguma coisa me dizia que aqueles tiros não seriam de borracha!
- Espere! – O sujeito tentou me acompanhar, assim que pulei de cima do carro e comecei a correr. – Você... É você mesmo?
- Quem?
- O Arqueiro Verde! Você é o verdadeiro ou...?
- Sim, sou eu, o original, se é isso que quer saber.
- Eu sabia! Arfh.. Você voltou! Arfh.. Voltou pra salvar Star City!– O tampinha estava acima do peso, e pelo visto fora de forma. Já começara a arfar. - Olha, cara, não é bem por aí... – Tinha que me livrar do sujeito, afinal, precisava urgente tirar aquela fantasia e me esconder em algum lugar até a coisa se acalmar. Correndo desse jeito, logo seríamos pegos.
Virei para trás e disparei minha ultima flecha especial, uma bomba de fumaça. Isso nos daria alguns minutos.
- Por favor, você não sabe como é importante! Arfh.. Um símbolo de como Star City já foi e pode voltar a ser... Arfh...
- Fala sério... – Só pode ser piada, afinal eu sou um vigilante, um fora da lei.
- Puff... Puff... – Realmente, o cara podia ser um bom orador, mas desse jeito ia acabar tendo um ataque cardíaco. Resolvi parar pra ele tomar ar, me virei pra trás disposto a encerrar de vez a conversa:
- Olha, desculpa aí, mas eu tenho que me mandar...
- Tudo bem, eu me viro. Puff.. Sabia que isso podia acontecer. Arfh... Nosso advogado já me espera na polícia, mesmo...
- Então, vou nessa...
- Não, não. Puff... Puff.. Olha, só apareça na nossa sede, tá bem? Precisamos muito conversar... – Ele me entregou um cartão.
- Cara, eu só estou de passagem em Star City...
- Não vou forçar a barra... Só aparece pra conversar, está bem? Se você é mesmo o verdadeiro Arqueiro, então tenho certeza que ainda se preocupa com Star City. Por favor...
- Tá bem, mas não garanto nada, ok? – E antes que ele pudesse continuar aquele papo interminável, atirei uma flecha com cabo de aço, e escalei rapidamente um prédio da região. Por cima dos telhados, seria mais difícil pra me localizarem, daria a volta, recuperaria a bolsa, e como Oliver Queen poderia tentar retomar as coisas que vim fazer em Star City....
Mas pelo visto elas teriam que esperar. A prefeitura estava fechada, por causa dos tumultos, e o péssimo atendimento do serviço público, me fez considerar se aquele povo não tinha alguma razão de estar puto com o prefeito. Com certeza, políticos só sabem fazer isso mesmo, imploram nosso voto na hora da eleição, e depois nos ignoram pelos próximos quatro anos.
Sem nada pra fazer, me hospedei num hotel ali do centro e descansei um pouco. Aproveitei pra fazer umas ligações:
- E aí, filhão, onde você está?
- Na Cidadela dos Lanternas, pai. Acabei de chegar. – A voz jovem e suave de Connor ecoou do outro lado.
- Cidadela dos...? Quer dizer, Coast City?
- Não mais...
- Sim, eu sei... – Melhor não pensar muito no assunto. Ainda me sinto mal quando penso no Hal. – O que anda fazendo?
- Eu e o Kyle desbaratamos uma quadrilha de traficantes intergalácticos. Os aliens queriam distribuir uma nova droga aqui na Terra...
- Putz, já não basta os narcóticos que temos...
- Poisé, mas demos um jeito nos caras. Acho que eles vão pensar duas vezes antes de virem vender bagulho por aqui...
- E de resto? Pegando muitas lanterninhas?
- Pai...!
- Você está na sede da tropa, não está? Não tem alguma calouras novinhas aí em fase de treinamento?
- A Tropa ainda se reformando pai. Não são mais dezenas, como antigamente... e a maioria até agora são homens. Bom, eu acho. Com esses aliens, nunca se sabe...
- Cuidado aí, hein? Não vai ter uma “primeira vez” traumática...
- Pai...!
- Certo, eu sei que você fica constrangido quando fala nisso. Não tá mais aqui quem falou.
- Você ainda está em Star City?
- Infelizmente sim.
- Algum problema?
- Coisa pouca, talvez não seja tão fácil descolar algum dinheiro como eu pensei...
- E o que você vai fazer?
- Ir a luta, meu filho. Teu pai nunca trabalhou de verdade, talvez faça parte do processo de amadurecimento...
- Mas o que é que você sabe fazer além de atirar flechas e distribuir porrada?
- Ei, mais respeito! Eu sou formado em administração!
- Belo administrador você é, suas empresas foram à falência...
- Um cara me manipulou, lembre disso...!
- Tá, bom, tá bom... Vai ficar em Star City, muito tempo?
- Não, não, amanhã vou ver o que resolvo na prefeitura e depois me mando.
- Volta pra Nova York?
- Provavelmente.
- Nova York não tem nada a ver contigo, pai.
- E por que?
- Não tem verde suficiente...
Esse meu filho...
Não consegui dormir a noite, bom, isso é até normal, afinal são anos de vigilantismo noturno. Resolvi colocar minha roupa preferida e dar umas bandas pela cidade.
E adivinha o que descobri da nova vizinhança: Impedi dois estupros, quatro assaltos, detive cinco traficantes, apartei uma briga entre gangues, peguei um tira corrupto cobrando proteção, e como recompensa, a noite inteira tive a polícia no meu pé, pelo visto a “corporação” não esqueceu nem o que eu aprontei pela manhã, nem gostaram muito do que fiz com o colega deles.
Pela manhã, estava um bagaço e com a sensação de não ter feito nenhuma diferença. Dormi até o almoço e no início da tarde, descobri que se a prefeitura estava aberta, isso não era motivo pra funcionar. Ninguém na Secretaria de Planejamento sabia do meu caso, queria conversar sobre o assunto, ou estava interessado em me atender. Quase fui colocado pra fora por dois seguranças mal encarados.
Puto da vida, caminhei quase sem querer até a sede do “Movimento pela Recuperação de Star City”. Era o endereço que estava no cartão do cara que me abordou noutro dia.
Era um lugarzinho pequeno, mas ajeitado. O corredor era espaçoso e funcionava como recepção, com alguns sofás, bebedouro, mesinha com jornais e revistas... Devia haver pelo menos mais quatro salas, à primeira vista. Não havia muito movimento, só umas duas pessoas andando pra lá e pra cá com papéis e a garota no que devia ser o balcão da recepcionista.
- Hã... – Me dirigi até ela. Cabelos curtos, negros, óculos redondos e antiquados, mas uma gracinha. – Como eu faço pra falar com o senhor Miles Poindexter?
- Sou eu mesmo. – O baixinho da passeata apareceu do nada pelas minhas costas. – E o senhor seria... oh.
Diacho. Pelo visto ele me reconheceu.
- Hã... Um amigo meu disse pra procurar o senhor... - Cocei a cabeça por instinto, como se quisesse inutilmente esconder meu rosto.
- E esse amigo seria o Arqueiro Verde? - Ele sorriu de forma maliciosa, focalizando seus olhos espertos pra cima de mim.
- É, esse mesmo... – Tentei sorrir de forma ameaçadora. Como é que o Batman faz isso mesmo?
- Ah, qual é, quem você quer enganar? – Ele abriu os braços, como se tivesse descoberto a pólvora.
- Como? Não entendi...
- Nos velhos tempos quando você não usava esse cavanhaque podia ser difícil dizer exatamente quem você era... Mas com esse bigode e cavanhaque você fica inconfundível, sabia?
- Ah, você está falando do meu visual? Eu e o Arqueiro temos o mesmo gosto...
- E a mesma voz. A mesma altura. Até o jeito de se portar é igual...! – Putz, o cara parecia que ia começar um discurso.
- Tá certo, você me descobriu, mas fala mais baixo, caralho. A minha identidade é...
- Secreta? Ahahaha. – Ele riu. – Ok, vou fingir que acredito nisso. Mas olhando você agora, sem aquele chapéu e máscara, seu rosto não é me estranho... – Ele baixou o tom de voz, me pegou pelo braço e indicou uma salinha, onde nós entramos.
Fechou a porta do pequeno escritório, onde havia uma mesinha, um computador, agenda, jornais e muitos, muitos bilhetinhos espalhados para todos os lados.
- Tem certeza que não nos conhecemos, Sr... – Ele se sentou na sua cadeira, fazendo um gesto para que eu me sentasse na outra que havia no cômodo.
- Você me trouxe aqui só pra bancar o detetive, ou tem algo sério pra falar? – Não me sentei, apoiando minhas mãos nas costas da cadeira pra mostrar pouco tempo e paciência.
- É o seguinte, senhor Arqueiro... Diabos, tenho mesmo que chamar você de Arqueiro? Não pode me dizer seu nome, pelo menos...
- Daí está querendo demais.
- Como se eu não fosse descobrir...- Ele resmungou. – Bom, como eu ia dizendo, o Arqueiro Verde é um símbolo dos bons tempos em Star City, quando nossa cidade era considerada a mais segura entre as com mais de 500 mil habitantes. Nossos criminosos mais “perigosos” eram palhaços fantasiados e ladrões de joalheria, sempre detidos por nosso galante cavaleiro e seu parceiro mirim. Aliás, o que aconteceu com o Ricardito?
- Não é da sua conta, companheiro. Ele cresceu.
- Ah, certo. Continuando, suas atividades já significaram muito pra essa cidade, embora não a valorizássemos. Talvez por isso tenha ido embora pra Seattle. De lá pra cá, o crime foi gradualmente aumentando, graças a uma polícia corrupta, juízes coniventes e um bando de políticos que não está nem aí pra população.
- E o que você quer que eu faça? Que eu volte pra cidade e tudo volte a ser como antes? Olha, ultimamente eu até sou chegado numa nostalgia, mas a minha situação financeira não está das melhores. Sinto muito, mas não posso ficar. Acho até mesmo que vou parar com esse negócio de vigilante...
- O problema é dinheiro? Eu posso ajudar!
- Como, me pagando pra ser o Arqueiro?
- Claro! Não é ótimo?
Considerei por um momento. Era tentador, mas... Não, não era ético.
- Sinto cara, você tem boas intenções, mas não é assim. Não posso ser pago pra ser herói. É algo que faço porque acho que é certo. A partir do momento que eu fosse pago, seria como ter um chefe ou...
- Encare como um patrocínio. Você não segue ordens, minhas ou de ninguém. Não queremos saber. Até porque o que você faz é ilegal. Mas queremos ajudar, entenda. Se eu fosse mais alto, mais forte... Se soubesse artes marciais e atirar tão bem quanto você... Eu mesmo vestiria um colante e faria esse trabalho. Nossa cidade precisa disso. Mas infelizmente, a natureza não me ajudou nesse sentido. O que posso fazer é minha parte: posso ajudar com meu dinheiro. Por favor, aceite. Se você não fizer algo, nós perderemos uma das poucas chances de realmente ajudar Star City...
- Nós?
- Um grupo de cidadãos bem intencionados que ainda ama essa cidade. Nascemos aqui e aqui queremos ficar. Não vamos ser expulsos por políticos e criminosos. Por favor, seja nossa mão. Seja a nossa máscara. Onde as autoridades falham, traga justiça pra nosso povo.
- Lutar contra as autoridades, né?
- Bem, não com essas palavras...
- Não, não, entendi o sentido... – Não podia acreditar, mas estava gostando realmente disso. Fazer alguma diferença. Onde as autoridades falham, onde os juizes corruptos, onde a polícia e os advogados atrapalham, onde os políticos conspiram... Lá está o vigilante. Foi por isso que me tornei o Arqueiro Verde. Porque mais ninguém podia fazer ou gostar de fazer esse trabalho.
- Olha, se eu aceitar... – Encarei o baixinho. – Se eu aceitar, vai ser nos meus termos, ok? Eu trabalho do meu jeito, investigo quem eu quero, enfrento qualquer um, está bem?
- Arqueiro, Arqueiro... – Ele sorriu, de forma cordial. – Acredite em mim, não sou um pilantra. Não sou um milionário desses, como Phineas Wing, que se aproveita da amizade do prefeito, pra enriquecer ilicitamente...
- Espera aí, você disse, Phineas Wing...?
- Sim, você o conhece?
- Já ouvi falar...
- Bom, Phineas é o tipo de pessoa que queremos combater. Ele é como um poder paralelo na cidade, o sujeito é amigo do prefeito, amigo de juízes, manda e desmanda na polícia, e dizem a más línguas que tem influência até no crime organizado...
- Tudo por dinheiro, não é mesmo?
- Você tem certeza que não o conhece, mesmo?
- Olha, Miles, sabe de uma coisa... – Respirei fundo. Era isso: uma coisa você aprende com a morte: Faça o que tem vontade agora. Não deixe pra depois: viva o momento. – Pode dizer pros seus amigos que eu topo. Diga pra eles que O ARQUEIRO VERDE ESTÁ DE VOLTA À STAR CITY!
CONTINUA!
A seguir: Ollie Queen volta a patrulhar as ruas de Star City, mas vai descobrir que, decididamente, as coisas jamais vão ser como antes! E o que Dinah Lance tem a dizer com essa guinada na vida do herói, em busca de suas raízes? Ela aceitará deixar Nova York mais uma vez ou isso porá em risco os planos de casamento dos dois heróis?
¹ Dinah Lance foi ferida no arco “Cavalo de Tróia”, publicado no titulo da Sociedade Justiça, 03 a 06, aqui na Quadrim.
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