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Sociedade da Justiça 08 - Horário de Visitas: A Pior Parte do Trabalho PDF Imprimir E-mail
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PiorMelhor 
Escrito por Carlos Vinícius Marins   
Qui, 09 de Dezembro de 1999 00:00

"A morte do Dr. Meia-Noite pode deixar chagas mais profundas do que se imaginava... E enquanto descobrimos onde foi parar o Ultra-Humanóide, os membros da SJA tomam conhecimento de uma grande catástrofe no centro da cidade - é o préludio da SJA para sua participação em "O Crupúsculo do Falcão" !!"


Sala da Direção
Belmont Hospital
Nova York

09:45h

O diretor do Belmont Hospital estava vindo do auditório da unidade. Ele acabara de ouvir o boletim da manhã sobre o estado de saúde dos membros da Sociedade da Justiça que ainda estavam internados ser transmitido para os repórteres presentes, que encheram de perguntas Alexander Montez, relações públicas da equipe, e o médico encarregado do plantão da manhã. Alvoroços como aquele aconteceriam duas vezes ao dia, a cada declaração de boletins como aquela. Mas ele sabia que nos próximos dias o interesse da imprensa iria diminuir, a menos que o quadro clínico de um dos heróis piorasse.

O diretor fora informado na manhã do dia anterior, enquanto ainda estava a caminho do hospital, sobre o incidente que ocorrera menos de uma hora antes envolvendo a SJA e uma nova versão da sua tradicional equipe antagonista – a Sociedade da Injustiça –, resultando em vários feridos que tiveram de ser internados [1].

Ao saber do fato não ficou preocupado com a ação de seus funcionários para cuidar dos enfermos. Aquele era um dos raros hospitais do mundo especializados em tratamento de meta-humanos, com alas e profissionais preparados para cuidar de indivíduos tão fisiologicamente diferentes dos humanos comuns como alguém com o sangue radioativo ou com a química do corpo alterada pela água pesada. E ele treinara cada um dos membros da equipe médica pessoalmente desde a fundação do hospital. Não é a toa que ele é o primeiro e único diretor que o Belmont Hospital teve e nunca tivera questionada a sua autoridade ou vocação para o cargo, mesmo já tendo passado dos 80 anos.

Sua preocupação era em relação aos feridos no incidente. Ele conhecia todos os membros da SJA e alguns deles eram seus amigos há muitos e muitos anos. Receava o que poderia acontecer com eles durante suas intermináveis batalhas contra o mal. Dirigir o hospital que fora fundado com o objetivo principal de cuidar dos membros daquela equipe feridos em ação era sua forma de manter-se sempre por perto para prosseguir no que considerava seu principal trabalho após ser obrigado a se aposentar devido a sua idade avançada: cuidar da saúde dos membros da Sociedade da Justiça da América.

No dia anterior ele não chegara a tempo para a coletiva da imprensa sobre o incidente e os heróis internados que podiam dialogar estavam evasivos sobre o que acontecera. Os jornais deram um panorama sobre o fato, mas algo parecia estar faltando. Ouvira nessa manhã as respostas que Alexander Montez dera para as questões apresentadas por vários dos repórteres presentes, mas o diretor prestara mais atenção no que não fora dito, naquilo que Alexander fazia questão de omitir. O timbre de voz, o espaçamento entre as sentenças, a tendência em dobrar os erres... Ele se surpreendia como parecia que mais ninguém percebera que na Mansão Dodds ocorrera algo muito mais grave do que Alexander estava disposto a admitir. O diretor, porém, sabia que não ia demorar muito para saber a verdade. Pressentir a presença de Sand no seu escritório antes mesmo que abrisse a porta confirmou isso.

- Olá, Doutor.

- Olá, Sand. – disse o diretor sem olhar para quem falara, enquanto tirava seu casaco e chapéu para pendurar no cabideiro – Sabia que mais cedo ou mais tarde o líder da SJA viria falar comigo.

- Era de se esperar depois de ontem, não é?

- Não. Se fosse apenas uma visita de cortesia, provavelmente teria sido Joel ou Ted que viriam falar comigo. Mas essa não é uma visita de cortesia. Não depois do que ouvi. – trancou a porta e sentou a sua mesa, diante da qual Sand se encontrava – Desembuche. O que Alexander e vocês estão escondendo do grande público?

- Já soube da briga de Ted com Oliver no seu quintal ontem por causa da Dinah [2]?

- Deve ser mesmo muito sério para você estar desconversando, preparado terreno antes de me contar. – suspirou – Perguntei ontem a Dinah sobre o que aconteceu e ela começou a chorar assim que me viu. Nunca vi Dinah daquele jeito. Bastou somar isso ao fato de Pieter não ter dado as caras por aqui para conversar comigo sobre o ocorrido. Ele sempre está presente acompanhando os membros da equipe feridos ao hospital. Dinah não chorou por minha causa. Ela chorou porque eu lhe lembrei Pieter. – o diretor apoiou os braços na mesa e se aproximou de Sand – Vamos parar com essa embromação. Vou facilitar as coisas para você. Pieter está morto, certo?

Sand permanecia imóvel na cadeira. Demorou alguns segundos para responder.

- Sim, Charles. Ele está.

Charles McNider, o primeiro Dr. Meia-Noite e diretor do Belmont Hospital, se recostou na cadeira e levou as mãos a boca, como se quisesse impedir que palavras de dor fossem emitidas de sua garganta.


Célula Oculta do Quarto Reich
Em algum lugar da Filadélfia

09:50h


Era um sobrado comum numa esquina localizada longe do centro da Filadélfia. No primeiro andar havia uma drugstore, uma loja de doces e um depósito de mercadorias do mercado localizado duas casas adiante. O segundo andar era dividido em quatro apartamentos ocupados por uma família de descendentes de italianos, uma república de estudantes universitários, um solitário funcionário aposentado do governo federal e um casal de ativistas que participava de todo tipo de manifestação anti-imperialista americana: do movimento anti-Luthor ao Greenpeace.

As lojas eram empresas de fachada – inclusive o mercado, duas casas adiante – mas pelo menos metade dos funcionários delas não sabiam disso. E todos os moradores do segundo andar eram agentes ativos do Quarto Reich. Todos os apartamentos possuíam portas de ligação ocultas atrás de móveis, papéis de parede com desenhos que disfarçam frestas, quadros ou espelhos estrategicamente colocados, formando uma grande central de espionagem e terrorismo.

Nesse dia os agentes recebiam duas visitas. Ambos estavam conversando com a mãe da família italiana e com o velho funcionário aposentado em dos cômodos do apartamento deste último – estes eram os líderes daquela célula. Uma das visitas era o Ultra-Humanóide, que chegara na calada da noite anterior após sua fuga da Sede da Sociedade da Justiça [3]. A outra era um dos principais líderes do Quarto Reich: o Monge do Ódio. Ele não era o primeiro a usar aquele uniforme com capuz e a assumir esse codinome – segundo alguns, o próprio Adolf Hitler escapara da morte na 2ª Guerra e fora o primeiro a assumir essa identidade quando tentou trazer o Reich de volta [4]. O atual detentor do nome foi quem sugeriu chamar o Ultra-Humanóide para a primeira ação do grupo que eles assumiriam publicamente. Uma ação que, acreditavam, iria ofuscar os atentados de 11 de setembro e apresentar a América o seu novo Inimigo nº 1. Naquele momento o Monge do Ódio estava com a palavra:

- Você foi derrotado, Ultra-Humanóide. Tal como eu havia previsto.

- O plano era perfeito. Ninguém levaria em conta um morto que voltasse do túmulo ou um maldito fantasma que não participava do grupo há anos!! Malditos justiceiros...!!

- Por mais elaborado que fosse o plano, não venceria. Você já criou planos perfeitos antes contra a Sociedade da Justiça que nunca funcionaram. Não percebe que você mesmo acaba sabotando seus planos? Você nunca vai vencer a SJA. Não com esses seus planos mirabolantes.

O Ultra-Humanóide continuava usando a máscara e o visor com lentes especiais que permitiam a Pieter Anton Cross ver plenamente a luz do dia e impediam aos outros de ver pelo seu olhar o que se passava em sua cabeça. Mas certamente não ficara feliz com aquele comentário.

- Já conheço há muito tempo sua opinião sobre minha relação com a Sociedade da Justiça, Senhor Sabe-Tudo, e continuo não me interessando por suas aulas de psicologia.

O senhor aposentado cerrou os punhos e se levantou para colocar aquele visitante no seu devido lugar. De pé, prestes a partir para cima do Ultra-Humanóide, em nada lembrava o frágil e lento velhinho que sentava em um dos bancos da praça do quarteirão todo fim de tarde para dar milho aos pombos. Mas um gesto de seu líder bastou para impedi-lo de atacar o insolente.

- Sente-se, Manfred. Não leve em consideração as palavras desrespeitosas de nosso aliado. Ele não acredita na causa e nunca deu importância à hierarquia. Além do mais nos conhecemos há muito tempo, antes que eu assumisse o manto sagrado do Monge do Ódio. O Ultra-Humanóide só tem de se acostumar com o fato de que precisará se curvar diante de nós quando estabelecermos o Quarto Reich no mundo.

- Desrespeitoso? Por acaso não estou aqui para cumprir minha parte do acordo?

- É verdade. Você usou nossa organização para seus planos e agora dará sua contraparte no negócio. O fato de que podemos escondê-lo enquanto todos os super-heróis americanos estarão em seu encalço nada tem a ver com isso...

- Meu Senhor... Esta célula está estabelecida acima de qualquer suspeita há quase cinco anos... Não acha perigoso para nosso disfarce mantê-lo aqui?

- Não, Paola. Enquanto nosso aliado for discreto, nada acontecerá. Alem do mais ele ficará aqui por pouco tempo. Somente o necessário para a conclusão dos preparativos da ação em Washington. – o líder se virou para o Ultra-Humanóide – Falando nisso, o Barão Sangue é dispensável, mas espero que a nossa querida Nash esteja bem...

- A filha do velho Névoa [5]? Não se preocupe. Pelos informes ela não foi capturada e a SJA não matou ninguém.

- Ela não é filha do Névoa e você sabe disso.

- Ops! É verdade...

As mãos do aposentado continuavam cerradas e começaram a tremer de ódio. Queria esganar aquela criatura desprezível que não respeitava seu líder ou sua causa.

- Cuidado, Ultra-Humanóide. Você terá de conviver com os outros moradores desse sobrado por algum tempo. Eles sabem que devem te proteger e que, se algo acontecer com você, perderão a própria vida. Alguns deles porém poderão achar que morrer para que você aprenda da pior maneira a nos respeitar pode valer a pena.

- Certo, “Monge do Ódio”. Vamos fazer o que deve ser feito e assim continuar a ajudar um ao outro. Em nome dos velhos tempos...


Quarto Particular 203
Bloco de Metahumanos
Belmont Hospital

09:52h


- EU MATO AQUELE DESGRAÇADO!!!!!!!!

- Calma, Dinah!! Manere com a garganta... Você acabou de recuperar seu grito sônico. É melhor não abusar...

- Como eu posso me acalmar, Pantera!? COMO EU POSSO ME ACALMAR???? Não é o seu traseiro que está estampado na capa dos jornais como se fosse uma dessas celebridades vazias saídas de reality shows [2]!!!

- Bom... Sair com esses trajes para um jardim recheado de fotógrafos... Há de convir que, como dizem por aí, você “deu mole”....

Ted Grant sabia que Dinah iria explodir assim que soubesse que seu traseiro estaria exposto na mídia daquele jeito. Sabia também que era exatamente desse tipo de tratamento do choque que ela precisava. A briga dele com o Arqueiro Verde no dia anterior tirara Dinah da aparente letargia e comiseração a que havia se entregado após o conflito com o Ultra-Humanóide e a Sociedade da Injustiça. E, apesar dele e o Oliver nunca terem se relacionado muito bem um com o outro, não havia dúvidas que ser pedida em casamento pelo barbudo com o qual tinha um longo e conturbado relacionamento de anos fora fundamental para trazer a boa e velha Dinah de volta [2]. Mas ainda faltava alguma coisa. Algo com o qual ela pudesse descarregar sua raiva e frustração por se sentir responsável pela morte de Pieter. E aquela notícia de primeira página servira direitinho para isso.

- Jack Ryder... Quando eu puser as mãos nesse cretino...

- Calma. Primeiro você precisa receber alta. E é bom se acalmar, senão os médicos não vão nos deixar mais te visitar enquanto você estiver aqui.

O papo entre os dois continuaria, com Canário Negro ficando cada vez mais irritada com a aparente calma do Pantera, se eles não fossem interrompidos por Sideral, que também estava no quarto ao lado de seu padastro Pat Dungan. Ela prestava atenção na televisão do quarto, onde uma notícia de última hora interrompera a programação normal do canal em que estava sintonizada.

- Pessoal, pessoal!! Olhem o que está acontecendo no centro da cidade!

- Repetindo, estou ao vivo no Time Square, onde a praça mais famosa da cidade novamente é palco de um confronto de super-heróis! Desta vez o Homem-Aranha está enfrentando o pouco conhecido Falcão de Aço! Os motivos ainda são incertos, mas há quem diga que o Falcão tornou-se renegado...[6]

- Falcão de Aço? – Falou Pat – Quem é esse?

- Já ouvi falar. – Respondeu Pantera – Ele pertence a um desses grupos de jovens heróis. Novos... Como é mesmo o nome...? Bom, seja quem for aposto como é o Aranha que está com a razão. Depois do que li sobre o massacre no Instituto Ravencroft [7] ele ganhou meu voto de confiança.

- Ele esteve envolvido naquilo?

- Ele e os Titãs. Aposto que o Aranha cuida desse daí fácil. Os Falcões que merecem respeito são dos da SJA... Paraí, Dinah! Aonde você vai? O Jack Ryder ainda vai estar lá quando você receber alta!


Sala da Direção
Belmont Hospital

09:48h


Um silêncio constrangedor perdurou por mais de um minuto após Sand confirmar o que Charles McNider tanto receou nas últimas horas. Pieter Anton Cross, aquele que mantivera aceso a chama do Dr. Meia-Noite no século XXI, deixara de existir antes que tivesse a chance de superar o herói original – Charles tinha plena convicção de que seria superado por ele e sentia um grande orgulho disso. O que poderia orgulhar mais um professor do que um pupilo tão bem orientado e estimulado que superasse seu mestre? Agora isso não vai acontecer.

Sua dor era maior ainda pelo fato de já tê-la sentido antes. Pieter não fora o primeiro a tentar se tornar o novo Dr. Meia-Noite.

Há quase dez anos, Charles era um dos catedráticos mais admirados da Faculdade de Medicina da Universidade de Nova York. Uma de suas alunas preferidas foi vítima de um acidente e ficou irremediavelmente cega com a explosão de um tubo de oxigênio. Seu nome era Elizabeth Chapel – ao menos foi o que todos pensaram. Mas, tal como acontecera com Charles em 1938 quando também ficou cego devido a uma explosão, Elizabeth na realidade sofreu uma profunda alteração no funcionamento dos seus olhos. Num ambiente iluminado ela nada enxergava, mas, quanto mais escuro fosse o local onde estivesse, melhor conseguia ver.

O acidente e os resultados decorrentes em comum aproximaram ainda mais o professor e da aluna e, para que ela não desistisse da medicina, Charles lhe deu um par de óculos com lentes especiais semelhantes aos seus, que lhe permitia um perfeito simulacro de visão durante o dia. Daí para que ele lhe contasse seu maior segredo, foi um pulo. E Charles não teve forças para impedir que ela seguisse seus passos e torna-se a nova Drª Meia-Noite.

Sua morte pelas mãos de Eclipso, durante os terríveis eventos que culminaram com o fim da Corporação Infinito, ainda povoa seus pesadelos [8]. Prometera a si mesmo jamais incentivar a outro que seguisse seus passos e achou que o legado do Dr. Meia-Noite morreria com ele. Mas ele havia se enganado.

A sua revelia, um novo vigilante surgira há dois anos numa cidade do Meio-Oeste, usando seu nome e trajes parecidos com os seus. A Sociedade da Justiça estabeleceu contato com ele para conhecê-lo e saber de suas intenções. O Dr. Meia-Noite era parte do legado da equipe e eles não permitiriam que qualquer usasse seu nome. Para surpresa de Charles, a equipe não só achou que ele merecia usar o nome, como o convidaram a integrar a equipe. Havia porém a necessidade de que o Dr. Meia-Noite original concordasse com isso e Charles continuava irredutível em sua intenção de não permitir que mais alguém morresse usando o conceito que ele criara. Mas como dizer “não” para o premiado Dr. Pieter Anton Cross? Aquele que todos diziam ser o maior cirurgião de sua geração e que abandonara a riqueza que recebera de berço, além da chance de conseguir projeção e status internacionais trabalhando nos maiores hospitais do país, para cuidar dos moradores de uma favela, estabelecendo uma clínica num local completamente abandonado pelo sistema público de saúde. Apesar de sua timidez, Pieter era tão seguro de si e de suas intenções... Assim, o Dr. Charles McNider capitulou pela insistência dos amigos.

E agora Pieter estava morto.

Mas, havia algo estranho no ar. Charles percebeu que havia mais coisas a serem ditas.

- Vocês ainda não divulgaram isso nas coletivas para a imprensa... Por quê? Onde está o corpo de Pieter?

A ansiedade de Sand era palpável, mesmo ele estando imóvel em sua cadeira.

- Charles, ainda não soltamos essa informação, mas quem estava no comando da Sociedade da Injustiça era o Ultra-Humanóide...

- O Ultra...? Mas ele não tinha morrido...? - Imagens do passado preencheram a mente de Charles, que lembrou diversos confrontos do vilão com a equipe – Foi esse gorila albino que matou Pieter?

- Ele... ele não está mais usando o corpo de um gorila albino, Charles.

- Bom, e daí? O que ele...

A garganta de Charles travou mais uma vez. Lembrou de Dolores Winters, uma das maiores atrizes de Hollywood dos anos 30. De Tex Thompson, o herói conhecido como Americomando, que foi para a frente de batalha na 2ª Guerra contra as orientações do Presidente Roosevelt e salvou a vida de centenas de soldados e milhares de civis. Ambos mortos para que seus corpos pudessem ser usados como disfarces pelo Ultra-Humanóide. Seus cérebros jogados fora, como se fossem lixo. Suas carreiras e seus nomes sendo usados para que os mais nefastos objetivos pudessem ser alcançados. Suas vidas sendo tomadas, seus amigos enganados – quando não eram mortos a traição. Hoje quase ninguém lembrava que já existira um herói chamado Americomando - fora expurgado dos livros de História - e Dolores Winters era comparada a Mata Hari [9].

- Ele... - As palavras eram difíceis de serem pronunciadas. – Ele está... Está usando o corpo de Pieter...?

Sand não conseguiu responder.

- Há... Há quanto tempo? COMO VOCÊS NÃO PERCEBERAM ISSO??!!

- É a especialidade dele, Charles... Não lembra? Você era amigo de Pieter e também não percebeu...

- Estive com Pieter há um mês atrás... QUANTO TEMPO??! DIGA!!

- Achamos que só a Dinah sabe... Ainda não falamos com ela sobre isso. Mas acreditamos que, no mínimo, há um ano...

- Meu Deus... Meu Deus...!!

- Charles, acalme-se...

- A culpa é de vocês... A culpa é de vocês!! Não deviam ter convidado ele para a Sociedade!! Não deviam ter insistido para que eu aceitasse!! Nunca devia ter permitido que ele continuasse com isso, nunca...

- A escolha foi dele, Charles. Ele começou isso sozinho.

- É verdade... Mas só prosseguiu porque eu permiti!! Primeiro Elizabeth... Agora...

- Nós vamos pegá-lo. E logo. Já avisamos aos principais grupos de heróis da América. Isso não vai ficar impune.

- Saia, Sand. Deixe-me sozinho.

- Charles...

- SAIA!

Sand se desfez em areia e poeira. Em segundos era como se nunca tivesse estado ali. O Dr. Charles McNider apoiou os cotovelos na mesa e a cabeça e suas mãos.

Após o confronto da Sociedade da Justiça com o Extemporâneo, – ocasião em que envelheceu mais de 20 anos em segundos - decidira aposentar seu uniforme de super-herói [10]. Nunca se casara e não tivera filhos. Elisabeth e Pieter haviam lhe dado esperança de que seu legado prosseguisse, mesmo sem ter desejado isso conscientemente. Acabara perdendo os dois filhos que nunca teve. Seria preciso se esforçar muito para conseguir achar forças para prosseguir.


Corredor A
Bloco dos Metahumanos
Belmont Hospital

10:17h


Sanderson Hawkins caminhava pelos corredores do Belmont Hospital como se quisesse passar o tempo. Parecia não querer ir a nenhum lugar especificamente. Mesmo com Charles pedindo para ficar sozinho, ele passou na sala dos enfermeiros e pediu para que fossem dar uma olhada nele. Sabia que a morte de Pieter e a possibilidade de ter o legado de seu pupilo maculado de forma tão profunda iriam abalá-lo. Ainda assim fez questão de falar com ele sozinho no dia seguinte a batalha, depois que a poeira baixasse. Ele era o líder da equipe. Aquela era uma de suas responsabilidades. E naquele momento ele precisava sentir se era ainda o líder que a Sociedade da Justiça precisava.

Ele fizera a mesma pergunta de Charles. Como não percebera que aquele não era o Pieter? Se puderem ser pegos de calças curtas daquela forma, como ele poderia cuidar da equipe? Ser responsável pelo bem estar e pela eficiência deles? O Ultra-Humaóide fora um deles por tempo demais. E para complicar, o Dr. Meia-Noite era uma espécie da “confessor” de vários membros. Agora sabia de todos os segredos da equipe e isso aconteceu na sua gestão. Como não se sentir responsável por isso?

E não foi só Pieter. O Ultra-Humanóide levara de novo Adão Negro para o mal. Hector estava entre a vida e a morte. Michael poderia ficar aleijado para sempre. Michael... Ao fazer de tudo para que o Sr. Incrível não ficasse pior do que estava, Sand deu as costas para a equipe. E se o Espectro não tivesse aparecido? Por quê ninguém questionara ainda sua liderança? Ninguém percebera a quantidade de erros que ele cometera como líder [1]?

Os passos incertos de Sand acabaram levando-o para próximo do quarto onde Dinah estava se restabelecendo. Não havia muito que fazer pelos outros – Adão estava trancafiado num quarto especial, Michael estava sedado para suportar a dor enquanto aguardava o resultado de exames preliminares e Hector estava em coma devido a grande perda de sangue –, então a maioria dos membros restantes da equipe se concentrava no quarto da Canário durante as visitas. Além do fato dela ser a única consciente, eles queriam estar por perto para evitar que ela caísse em depressão pelos tormentos que lhe foram impostos pelo Ultra-Humanóide. E pelos ruídos vindos do quarto, parecia que estavam alcançando o objetivo.

Ao entrar no quarto, Sand viu seus companheiros aglomerados em volta da tevê – inclusive Dinah, que deveria estar na cama e ignorava os apelos da enfermeira para que permanecesse deitada.

- Que está acontecendo? - Perguntou Sand a Pat Dungan, o mais afastado do grupo.

- Está acontecendo uma carnificina na cidade! Parece que um herói chamado Falcão de Aço ficou maluco. Quase matou o Homem-Aranha e está encarando os Titãs e os Novos Guerreiros! Acho que algum deles até morreu... Como tinha um cara com esse poder em Nova York e ainda não conhecíamos?

- Deixa eu ver isso... - Mal terminou de falar, Sand se decompõe em grãos de areia e se refaz diante da tevê na frente de seus amigos, que se afastam assim que vêem os grãos de areia se juntando no ar.

- ...Uma das heroínas do grupo conhecido como Novos Guerreiros foi levada por Justiça dos Titãs, após receber uma poderosa rajada do Falcão de Aço! Seu estado parecia bastante grave! O Time Square lembra uma praça de guerra com escombros espalhados por centenas de metros! Os heróis estão encurralando o renegado no ar e parece que finalmente... Esperem... OH, MEU...!!

No instante seguinte um clarão toma conta da tevê e a câmara de filmagem pareceu entrar em curto, com a imagem sendo substituída por chuviscos até aparecer uma imagem padrão com o logotipo do canal e a frase: “SISTEMAS COM PROBLEMAS. POR FAVOR, AGUARDEM ALGUNS INSTANTES”.

O quarto fica silencioso, até que Sand virou-se e encarou a sua equipe.

- O que estão esperando?! Cadê o Joel, o Al e a Kendra?!

- Bem... - O primeiro a falar foi o Pantera - Kendra está no quarto do Hector, Al está com o Incrível e Joel ainda está em Keystone... A esposa chamou ele ontem com urgência [11]. Mas sabe como é: basta estalar os dedos que ele vai estar aqui em...

- Pois faça isso agora! Sideral, vá chamar Kendra e Al e nos encontre no Jardim! Canário, nem pense nisso! Você ainda está internada!

- Você está brincando, né? - Mal Sand começara a falar, Dinah já estava procurando seu uniforme no armário com a enfermeira inutilmente em seus calcanhares.

- Eu sou o líder aqui E VOCÊ NÃO VAI!!! Pat garanta que ela não saia desse quarto!

- Tá legal, chefe! - Todos sabiam que, com sua armadura robótica em frangalhos, Pat não poderia fazer muita coisa na linha de frente. Ainda mais diante de um inimigo desconhecido e poderoso como aquele.

Dinah sabia que reclamar só iria atrasá-los mais e vidas poderiam estar sendo tiradas naquele momento. Soltou um suspiro ao ver a Sociedade da Justiça sair correndo pela porta, preparando-se para enfrentar um novo desafio, desfalcada da maioria de seus membros mais poderosos – e sem hesitar um só momento.


A seguir: Corram para ler Falcão de Aço #28 e #29, com o início da saga “O Crepúsculo do Falcão” e voltem aqui para acompanhar SJA x Falcão de Aço!! E mais uma vida vai se perder nesse confronto...


Notas do Autor:

[1] - Como vimos na saga “Cavalo de Tróia” publicado aqui na Quadrim entre SJA #03 e #06.
[2] – A pancadaria foi mostrada em Arqueiro Verde #15.
[3] – A fuga ocorreu em SJA#06.
[4] – Isso ocorreu em Fantiastic Four #21. Alguém sabe se isso foi publicado no Brasil?
[5] – Nash, a filha do Névoa, fez parte da mais recente formação da Sociedade da Injustiça, como visto no arco “Cavalo de Tróia”, mencionado no ítem 1.
[6] – O conflito ocorreu em Falcão de Aço #28, aqui na Quadrim.
[7] - Isso ocorreu na saga “Carnificina Máxima”, aqui na Quadrim entre Homem-Aranha #26 e #29.
[8] – Opa! Spoiller!! Ainda veremos isso melhor nas próximas aventuras da SJA aqui na Quadrim.
[9] – Isso foi mostrado na mini-série “Era de Ouro”, publicado pela Editora Metal Pesado em 1998.
[10] – Na Quadrim decidimos por um caminho diferente para o Dr. Meia-Noite original. Enquanto na DC, o personagem morre ao envelhecer drasticamente na Saga “Zero Hora”, aqui ele sobreviveu a este processo.
[11] – O motivo de Joan chamar seu marido foi mostrado em SJA#07.


Última atualização em Qui, 02 de Dezembro de 2010 22:51
 

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