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Sociedade da Justiça 02 - O Homem com a Máscara Dourada: Amigos Servem Para Isso PDF Imprimir E-mail
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PiorMelhor 
Escrito por Carlos Vinícius Marins   
Sex, 03 de Dezembro de 1999 00:00

O velho Ted Knight não está mais com seu lendário bastão cósmico de Starman para ajudá-lo a enfrentar a multidão enfurecida de moradores de Opal City, que parece querer sua pele a qualquer custo. Seu filho, o atual Starman, não está por perto para socorrê-lo - e o peso dos anos está cobrando seu preço.

Seus amigos da Sociedade da Justiça chegarão há tempo de salvá-lo?

Publicado originalmente em novembro de 2003


OPAL CITY

NOITE ALTA

Edifício Núbia

Alameda Zulu

Centro

Poucos minutos antes, a visita viu as luzes do Observatório na casa de Ted Knight se apagarem. Se tudo corresse como o planejado, o velho cientista só perceberia o que estava acontecendo depois que o tivessem cercado e cortado o seu telefone. A polícia – que, pelas sirenes que ouvira há pouco já deveriam estar sabendo o que estava acontecendo – não seria capaz de deter a multidão antes que fizesse o que estava programada para fazer: matar Ted Knight. Quando os amigos do velho – aqueles que também eram inimigos da visita – soubessem daquela situação, seria tarde demais para qualquer coisa.

 

O sinalizador que estava em sua mão começou a piscar e a zumbir baixinho.

- Maldição!!... Algo saiu errado. De alguma forma o velho conseguiu falar com eles...

Irritadiça, a visita se afastou da janela e quase acionou um dos alarmes do escritório. “Calma...”, pensou. “Ainda não é a hora”. Logo seus inimigos estariam lhe procurando. Estava na hora de voltar a encenar seu teatrinho e responder a convocação – afinal, seus inimigos achavam que era um deles. Quando chegasse o momento – e isso não estava longe – todo esse tormento de se passar por um deles terá valido a pena.

Como dizia o ditado: “A Vingança é um prato mais saboroso quando é servido frio”.


Casa de Theodore Knight

Sala de Estudos

Robinson Hills

Ted desligou o celular. Agora só tinha que se manter vivo pelos próximos sessenta segundos. Lembrou do cajado cósmico de Jack, mas ele estava no laboratório que ficava fora da casa. Para alcançá-lo, só passando através da multidão, o que estava fora de cogitação. Os velhos tempos passaram por sua mente e ele lembrou de quando usava seu uniforme e voava pelos céus de Opal City com seu bastão cósmico na mão. Poderia usá-lo ao menos para sair dali e aguardar a ajuda que estava chegando. Mas para isso teria de atravessar a casa e subir as escadas até a sala das relíquias, o pequeno museu particular em que guardava suas lembranças dos tempos de Starman. O ruído da porta da frente sendo forçada lhe indicava que talvez não houvesse tempo para cruzar a sala antes dela ser invadida por aqueles loucos. Mas ele tinha de tentar.

A casa ainda estava às escuras e as vozes e vidros de janelas sendo quebrados continuavam a tentar intimidá-lo, mas, depois de sessenta anos, o velho Ted sabia os caminhos daquela casa de olhos fechados. Ele se esgueirou para fora da sala de estudos ainda com o celular do filho nas mãos. Não importava o que iria acontecer, nada o faria se afastar daquele aparelho.

Como uma turba de arruaceiros o encurralara daquele jeito? Devia estar mesmo ficando velho. Nos bons tempos jamais seria pego de calças curtas daquela maneira. Mas ele havia deixado de ser super-herói para ser apenas um cientista, que tinha outras coisas para se preocupar. Aquelas pessoas pareciam gente comum de Opal. O que os moradores da cidade que sempre defendeu poderiam ter contra ele? Não, não podia pensar nisso agora. Tinha de se manter vivo.

Ted havia acabado de cruzar a sala e estava subindo as escadas, quando a porta da frente cedeu à investida da multidão. A porta se escancarou com sua trinca quebrada e as pessoas invadiram, dispostas a tudo. O velho cientista, se movendo em desespero escada acima, chamou a atenção de todos.

- Olhem!! Lá está ele!!

- Vamos!

- Não o deixem escapar!!

Theodore Knight sentiu algo pesado bater em suas costas, provocando-lhe uma dor aguda e paralisando os movimentos de seu braço esquerdo. Mas ele não parou. Continuou correndo o máximo que podia. Havia perdido o fôlego na metade da escada, quase caiu ao esbarrar na mesa do corredor, mas não parou enquanto não alcançou a sala de relíquias. Por sorte, lá em cima, no ambiente sem janelas, tudo era ainda mais escuro e as pessoas que o perseguiam tropeçavam umas nas outras e nos objetos que encontravam pelo caminho. Mas Ted podia sentir as vozes, os passos, o ruído ofegante da respiração deles nos seus calcanhares.

Conseguiu entrar na sala de relíquias e trancar a porta antes que o pegassem. Mas não se sentiu muito aliviado: a porta frágil daquela sala iria resistir bem menos que a porta da entrada de sua casa àquela turba. Após alguns segundos para recuperar o fôlego, Ted se encaminhou para as estantes, onde estavam catalogados os prêmios que recebeu e os objetos que pegou dos diversos vilões que enfrentou – expostos como troféus. Mas... E o bastão? Onde estava o bastão? Sentiu uma forte pontada no peito. Meu Deus... Só faltava ter um enfarte agora. Suas pernas fraquejavam e ele suava muito.

O vidro da porta trincou. As batidas alucinadas da turba o trouxe de volta à realidade. Lá estava ele!! O bastão repousava sobre a mesa de restauração de peças no fundo da sala. Ted tentou correr até lá. Deu dois passos e cambaleou. Estava próximo à parede e conseguiu se escorar, senão teria ido direto ao chão. Seu braço esquerdo continuava se recusando a cooperar e a dor no peito piorou. “Deus...”, pensava enquanto via a porta fraquejar atrás de si. “Faltava tão pouco...”.

O que aconteceu a seguir não ficou muito claro na memória de Ted, mas ele soube exatamente o que houve. Um forte vento vindo de lugar nenhum apagando as tochas nas mãos dos invasores, pessoas sendo afastadas do caminho como folhas no furacão, uma figura humana rápida e desfocada demais para uma identificação precisa. E num piscar de olhos, o cientista estava fora da sala de relíquias. Ted teve a sensação de ter sido carregado por alguém. Não havia dúvidas: seu velho amigo Jay chegara.

Quando abriu os olhos, Ted reconheceu imediatamente onde se encontrava, apesar da escuridão. Estava na torre do observatório. Mas se confundiu quanto à mulher de asas em cujas coxas repousava a sua cabeça.

- Sh...Shiera! Quanto tempo...

- Ai, meu saco... – disse a mulher alada, com pouca paciência.

- Calma, Ted. Essa bagunça te deixou um pouco confuso. Essa é Kendra, sobrinha-neta de Shiera. Vocês ainda não foram apresentados. Ela é a nova Mulher-Falcão [1]. – Ted viu o sorridente e amistoso herói à sua frente, usando seu famoso capacete de Hermes. Joel Ciclone, o primeiro Flash. Seu amigo e colega de lutas, Jay Garrick. – Evite falar a toa. Você não está em condições.

Atrás dele, no ambiente mal iluminado, havia mais pessoas de pé.

- Eu... Eu sabia que você viria logo... – disse Ted, que tentava se apoiar nos cotovelos para ver melhor em volta. – Mas... Como esse pessoal chegou tão... rápido?

- Eu trouxe a maioria. Os outros estavam por perto e não tardaram a vir.

Ted viu o brilho do luar no capacete dourado de quem acabara de falar. Ele se aproximou, esvoaçando sua capa, flutuando a centímetros do chão.

- Olá... Olá, Destino.

O herói pousou no chão e tirou seu capacete. Por trás dele se escondia um jovem de cabelos brancos e com um olhar sereno de quem já viu o que nos espera do outro lado da vida. Ele sorriu para o velho cientista.

- Ora, tio Ted... Apesar de estar usando esse uniforme agora, o senhor ainda pode me chamar de Hector.

- Desculpe, Hector... – Ted se esforçou para sorrir. Apesar de ter amenizado, a dor que sentia no peito não tinha ido embora. – Preciso me acostumar de que... de que você está entre nós de novo... E que agora é o responsável pelo capacete de Nabú... [2].

- Lamento pessoal, mas o encontro de velhos amigos vai ter de ficar para depois. Ted, você pode agüentar mais alguns minutos antes de ir para o hospital?

Quem estava falando era Sand. O jovem Sandy, parceiro de Wesley Doods, o Sandman, nos bons tempos [3]. Agora ele crescera e estava liderando a Sociedade da Justiça. Quem diria... Como será que Jay e Alan estavam lidando com isso? Serem liderados por alguém que viram deixar as fraldas? Mas o garoto tinha feito uma pergunta...

- Sim... Sim... Não se preocupem comigo.

- Ótimo. Vamos agir. Então, Hector? Fez o reconhecimento? O que achou?

- Você tinha razão. Estas pessoas estão sendo controladas. O poder por trás disso, apesar de possuir natureza mística, utilizou uma forma de hipnose coletiva.

- Certo. E Destino pode reverter esse efeito?

Hector hesitou um pouco. Olhou para o capacete que estava segurando e a seguir colocou-o novamente na cabeça. Instantaneamente, seu olhar ficou mais duro, seu corpo enrijeceu e sua voz ficou mais fria e calculada. Hector Hall voltou a flutuar e era novamente a encarnação de um Lorde da Ordem.

- É claro. Basta que eles olhem para mim.

- Muito bem, vamos providenciar isso. Joel, você, Sideral, Destino e Adão Negro isolem a colina e não deixem mais ninguém subir. Cuidem do grupo que está do lado de fora da casa. Eu, Incrível e Meia-Noite vamos segurar os que já entraram. Depois, Destino entra para tratar dos que estão dentro da casa. E lembrem-se: essas pessoas não são responsáveis por seus atos. Foram incitadas a isso. Quando voltarem ao normal vão se arrepender do que andaram fazendo.

Ted tinha certeza de que Sand fizera questão de falar aquela última frase para que ele ouvisse. As pessoas de sua cidade não o odiavam. Elas não tinham culpa de tentarem machucá-lo. Tudo não passara de um plano sórdido para humilhá-lo. Mas por quê? Ele já não agia como herói mascarado há tanto tempo... Não passava de um velho cientista em busca de seu filho desaparecido. Só poderia ser vingança. Mas de quem? A maioria de seus inimigos estava morta, presa ou inválida.

- Peraí: e quanto a mim?

Era Kendra, a atual Mulher-Falcão, que queria ser ouvida.

- Você vai ficar aqui para proteger Ted.

- Por quê?

- Porque alguém tem de fazer isso.

- Sem dúvida, mas por que eu? Tenho treinamento para lidar com multidões. Sou muito mais útil lá fora do que aqui.

Sand deu um pequeno suspiro. Mais uma vez Kendra questionara sua autoridade como líder ao não obedecer a uma de suas ordens. O seu estilo “rebelde sem causa” ainda poderia colocar o grupo em sérios apuros. Mas aquele não era o momento para uma discussão.

- Sideral, fique aqui e tome conta do Ted. E procure mantê-lo calado.

- Mas... – A jovem Courtney Whitmore ameaçou protestar, mas ao sentir a mão de Joel em seu ombro ela se virou para encará-lo e viu em seu olhar que ele pedia para que ela cuidasse de seu amigo. – Tá, tá bom...

Um grupo desceu as escadas enquanto outro saiu pela abertura do telescópio no teto, indo para o descampado que contorna a casa de Ted Knight.


Casa de Theodore Knight

Pé da colina

Clarence O’Dare estava ao lado de sua irmã mais nova, Hope, e de mais alguns policiais tentando impedir que uma multidão passasse pela Rua Sean Silbert e subisse a colina atrás deles, que levava até a casa de Ted Knight. Haviam chegado tarde para impedir que um grupo passasse até lá, mas ninguém mais faria o mesmo caminho naquela noite. Dois de seus irmãos, Matt e Mason, haviam subido as escadas que levavam até a casa de Ted com mais alguns policiais, para tentar impedir que o grupo que tinha subido fizesse alguma coisa de ruim – pois ele tinha certeza de que essa era a intenção do grupo – mas era muita gente para eles segurarem. Clarence temia pelo pior. Ele desistira de tentar ligar para Ted quando percebeu, ao chegar ali, que as linhas telefônicas que conduziam à casa de seu amigo tinham sido cortadas. Ele se lembrou do arrepio que sentira na espinha minutos antes e odiou estar sempre certo nessas coisas.

Clarence estava recarregando sua arma e recuperando o fôlego, quando um clarão atrás de si chamou a sua atenção. Um homem usando uma capa estava iluminado por luzes vindo de lugar algum e flutuava sobre a multidão no alto da colina, que parecia estar sendo comprimida por fortes ventos vindo de todos os lados. E um anjo dava vôos rasantes sobre o grupo de pessoas, como se quisesse assustá-los. Repentinamente o clarão que envolvia o homem voador foi substituído por flashes luminosos, quase rápidos demais para serem percebidos pela vista humana. Então as pessoas no alto da colina, que pareciam transtornadas, pararam e começaram a agir como baratas tontas. Uma fumaça negra começou a sair da casa de Ted e o homem voador foi ver o que havia acontecido lá. A seguir o anjo voou em sua direção, e então o policial percebeu que havia uma terceira figura voadora, mas difícil de se identificar, pois seu uniforme era preto. Ao se aproximarem, Clarence identificou quem eram as figuras e sorriu.

- Que é isso, Clarence? Que está acontecendo? – Perguntou sua irmã, que se aproximou com a arma engatilhada.

- Calma, Hope. É a cavalaria.


Casa de Theodore Knight

Torre do Observatório

- Lamento, Courtney... Por minha causa você não vai... não vai participar da ação...

- Deixe isso para lá, Seu Ted. Fique quietinho, tá? Daqui a pouco a gente te leva para o hospital.

- Sabia... Sabia Courtney, que foi eu que... que fiz esse cinto que te dá poderes...?

- Foi?

- Foi... – Ted começou a tossir. – O Cinto Conversor Cósmico... Minha primeira experiência com os Raios K... Nunca... nunca me dei bem com ele, sabe? O dei para Syl usar em treinos... Achei que seria bom para... aprimorar sua agilidade, entende? Jamais... jamais achei que pudesse ser uma arma de verdade nas mãos dele...

- Syl...? Sylvester Pemberton, o primeiro Sideral, certo? Pat disse que só Sylvester e eu nascemos com o dom de controlar direito esse cinto [4].

- Teve... Teve uma outra pessoa... também [5]. Sylvester já se chamava Sideral antes do meu presente... Depois que começou a voar com o Cinto, o nome acabou ficando perfeito... – Ted voltou a tossir. Dessa vez um pouco mais forte.

- Por favor, Seu Ted... Pára de falar! O senhor está piorando...


Casa de Theodore Knight

Corredor do Segundo Andar

As pessoas estavam sem direção. Prestes a completar aquilo que se tornara o objetivo de suas vidas – eliminar Theodore Knight -, seu alvo foi repentinamente tirado das mãos deles enquanto um estranho vendaval varreu o interior da casa. Que teria acontecido? Para onde ele teria ido? Movidas apenas pela força primal da Máscara da Medusa, as pessoas não sabiam como agir quando o plano não pôde ser alcançado através do objetivo traçado. Dominados pela Máscara, perdiam a capacidade de improvisar, de criar.

- Senhores...

Nenhum dos que haviam sido escravizados pela máscara estava falando. Eles apenas grunhiam ou arfavam. Por isso todos se voltaram para Sand, que pareceu surgir do nada no corredor pelo qual o grupo havia passado. Como estavam olhando para o outro lado, ninguém viu ele se formar a partir da poeira espalhada pela casa.

- Vocês não são bem-vindos aqui. Creio que está na hora de vocês se retirarem.

Para a multidão, aquela sugestão fora interpretada como um desafio. Sand queria impedi-los de pegar Ted Knight, então precisava ser eliminado. Todos partiram em direção ao herói de forma estabanada e descuidada. Sand se virou e foi até a escada, começando a descer sem muita pressa. Quando estavam prestes a alcançá-lo, Sand novamente se desfaz em poeira e, enquanto passavam através do herói, as pessoas foram atingidas por uma das bombas noturnas de Meia-Noite, transformando um ambiente, que já estava escuro, em breu total. Os opalenses começaram a cair uns por cima dos outros. Muitos se machucaram, outros tantos desmaiaram, mas havia uns dez ou doze que conseguiram ficar de pé. O Sr. Incrível estava usando lentes infravermelhas criadas por ele mesmo para usar em ocasiões como essa e, quase sem fazer ruído, se infiltrou no meio do grupo ainda cercado pela fumaça da bomba e foi colocando um a um para dormir, sem machucá-los desnecessariamente. Quando a fumaça começou se dissipar, Dr. Meia-Noite já estava exercendo sua profissão, cuidando dos feridos. De repente, o Sr. Destino apareceu diante da porta arrombada da casa, a poucos passos de todos eles.

- Muito bem... OLHEM PARA MIM.

Destino não havia gritado, mas era impossível ficar impassível diante daquela voz. Todos que ainda estavam acordados olharam para ele, até os heróis. O corpo de Destino emitiu flashes luminosos intensos e rápidos. Os opalenses presentes começaram a piscar e a balançar as cabeças, como se acordassem de um sonho.

- Meu Deus!! Onde eu estou?

- Que diabos está acontecendo aqui?!

- Aii!! Como... como eu me machuquei?

- Sai de cima de mim!!


Casa de Theodore Knight

Torre do Observatório

Os heróis retornaram após a multidão se acalmar. Courtney estava chorando e continuava sentada no chão sobre as próprias pernas, com a cabeça do velho Ted em suas coxas. O cientista parecia repousar com seus olhos fechados.

- Courtney...?

- Ele está...?

- Tá desmaiado, mas tá mal... – Sideral acariciou o rosto do velho cientista, como se quisesse acalentá-lo – Ele ficou falando o tempo todo... Eu disse para ele parar, mas o cara não ficava quieto... Ficava falando do passado, do primeiro Sideral, do Cinto Conversor, pedindo desculpas... O cara não ficava quieto!

- Eu sabia... Era Kendra quem precisava ter ficado. – falou Sand consigo mesmo. – É melhor irmos logo para o Belmont Hospital.

- Es... esperem...

Ted acordara.

- Por favor, Ted... Fique quieto. – Jay segurava a mão de seu amigo. Tinha receio de ver partir mais um do velho time. – Vamos te levar para o hospital. Não fale mais até chegarmos lá.

- O celu... o celular e... e o Cajado do meu filho.... Não posso ir sem eles... – Ted recomeçou a tossir, desta vez mais forte.

Ted mal havia terminado de falar e Joel Ciclone já tinha ido e retornado trazendo os objetos desejados pelo cientista.

- Pronto, Ted. Não se preocupe. Você não vai se afastar deles.

- Não, não... – Ted segurava o celular com uma das mãos enquanto chamava a jovem que o acalentara com a outra. – Courtney... Aqui... Cuide... cuide do Cajado para mim... Você está na Sociedade... Se deu bem com o Cinto... Use o Cajado enquanto meu filho não volta... Sei que estará em boas...mãos... – Ted voltou a desmaiar após essas palavras.

Courtney continuava a chorar. Não conseguia levantar os olhos, nem parar de acariciar o rosto do cientista. Joel Ciclone se aproximou da garota e pegou uma de suas mãos, fazendo-a segurar o cajado.

- Tome, Courtney. Agora isso é seu.


Casa de Theodore Knight

Pé da colina

Após uma dose das luzes estroboscópicas do Sr. Destino, as pessoas que insistiam em tentar chegar até a colina onde estava a casa de Ted Knight, recuperaram a consciência e começaram a dispersar. Os policiais colhiam depoimentos e cuidavam dos feridos. Ambulâncias já tinham sido chamadas. Jay havia ficado para tentar encontrar pistas sobre o que havia ocorrido. Os outros membros da Sociedade levaram Ted para ser medicado. O herói foi conversar com Clarence O’Dare, o mais velho dos policiais presentes e que parecia ser o líder natural do grupo.

- Como está Ted?

- Não muito bem... O levamos para o Belmont Hospital em Nova York para ser tratado.

- Temos um ótimo hospital aqui.

- Olha... Não me leve a mal, mas Solomon e aquele alien amigo do Ted foram seqüestrados lá [6]. E essa tentativa de assassinato foi bem orquestrada. Podem tentar de novo e podemos não estar por perto para ajudar.

- Certo...

- A sorte do Ted é que ele estava com o celular do filho.

- Ainda bem.

- O Belmont é financiado por um dos nossos [7]. Temos uma ala especial com segurança máxima para tratar nosso pessoal.

- Entendo.

- Desculpe, mas você é qual deles?

- Clarence. Sou o O’Dare mais velho. Ted já havia falado de nós?

- Várias vezes. Sua família age como um grupo de guardiões dos Starmen, não é?

- Na verdade nosso objetivo é proteger a cidade. Ajudar os Starmen é parte desse trabalho.

- Isso ajuda um bocado as coisas. Vocês têm idéia de como tudo isso começou?

- Bom, tudo indica que começou no Centro, na Alameda Zulu, durante o horário do rush. Por isso atingiu tanta gente. Mas ninguém lembra exatamente como foi. De repente um grupo grande de pessoas sentiu um impulso incontrolável de ir à casa do Ted para matá-lo. Parecia uma espécie de catarse coletiva.

- Mas o que começou isso, afinal?

-Os depoimentos são desencontrados. Uns falam num louco com uma camisa de força, outros de alguém com um rosto comido por vermes. E tem também uma máscara dourada...

- Máscara dourada?

- É. Um homem com uma máscara dourada parece ser a imagem mais recorrente na cabeça desse pessoal.

- Máscara dourada... catarse coletiva... Onde foi que já ouvi isso antes?

- Sabe de alguma coisa?

- Não, mas isso não me é estranho. Como se já tivesse presenciado antes. Curioso... Sou bem conhecido pela minha memória. Não costumo esquecer as coisas.

- Bom, acho que isso vai entrar para as lendas urbanas de nossa cidade.

- Concordo. Bem, já vou. Vocês fizeram um ótimo trabalho aqui, O’Dare. Sem vocês a coisa poderia ter sido bem pior.

- Por favor, me chame de Clarence.

- Então pode me chamar de Joel. Até a próxima.

O velocista sumiu num piscar de olhos, em meio a uma lufada de vento. Clarence não estava acostumado a lidar com outros heróis, além de Starman, mas ele tinha certeza que o velho Joel se surpreendera com a maneira afável que a polícia de Opal tratava os uniformizados. Agora ele tinha uma série de relatórios para preencher e teria de agüentar o mau-humor da mulher quando chegasse em casa de madrugada. Mas ele fizera bem em confiar no seu instinto. Sabia que poderia continuar contando com ele quando a pior hora chegasse.

E, de acordo com Shade, ela não irá demorar muito para chegar.


NOVA YORK

MADRUGADA

Belmont Hospital

Ted já havia sido medicado e feito uma longa bateria de exames. O médico responsável já havia dado o boletim final da noite e o velho Knight estava com o quadro estável. Se tivessem se atrasado um pouco, se ele tivesse se esforçado um pouco mais, provavelmente não teria dado tempo para salvá-lo. Nenhum dos heróis saiu de lá antes desse último boletim. Depois que o médico saiu da sala privativa onde eles estavam, Sand segurou o braço do Sr. Destino e o levou para o corredor.

- Acho que você já sabe porque quero falar contigo.

- Sei. A Mulher-Falcão.

- Tire o capacete, Destino. Quero falar com Hector.

O Sr. Destino tirou seu capacete e imediatamente uma transformação ocorreu. São vários detalhes que, somados, tiram de Hector seu ar de divindade encarnada e o trás de volta ao nível humano.

- Eu sei que vocês se conhecem há pouco tempo, mas Kendra não tem ainda profundos laços com nenhum de nós, então sobrou pra você, o primo dela. Sabe porque eu a tinha escolhido para ficar com Ted?

- Provavelmente achou que ela não seria a ideal para sua estratégia devido à sua impetuosidade.

- Com certeza foi isso que ela também pensou. Mas ela tinha razão. Kendra estava muito mais preparada que Courtney para enfrentar multidões iradas. Seria mesmo a melhor escolha, se eu estivesse pensando na estratégia da equipe. Mas eu não estava pensando nisso. Pensava em Ted. Ele tinha de ficar com alguém que não o incentivasse a falar, que não o estimulasse a relembrar o passado para que ficasse quieto.

- Mas mal acordou, Ted olhou para Kendra e se lembrou de Shiera.

- Só que Kendra odeia a comparação e cortaria a conversa dele no ato. Ted teria ficado quieto. Para ficar com ele, só poderia ter dispensado ela ou Courtney, que se elas se equivalem em nossas estratégias. Para não discutir, eu não tive escolha e quase perdemos Ted por causa disso. Hector, ela não pode questionar novamente minha liderança durante a ação. Hoje lutamos apenas com uma multidão descontrolada. Amanhã, quem sabe? Pode ser Darkseid, Galactus, ou nosso amigo Mordru [7].

- Certo, Sand. Já me convenceu. Vou falar com ela.

- OK. Bom, vamos nos reunir com o resto do pessoal e voltar para a Mansão. Amanhã a gente volta para ver o Ted.

- Vá na frente. Já estou indo.

Assim que Sand retornou à sala de espera, Hector olhou para o elmo de Nabú em suas mãos antes de recolocá-lo em sua cabeça. Com ele, Hector via o mundo em outra perspectiva, sabia onde cada peça do universo se encaixava. Não havia espaço para algo tão insignificante quanto a disciplina de sua prima.

Encarar o mundo como a encarnação do Lorde da Ordem era muito mais fácil.


Mansão Doods

Horas depois

Aqui, aquela pessoa, não é uma visita. Esta é a casa da Sociedade de Justiça da América e um de seus membros - a visita de Opal City - estava pensando no que havia falhado em seu plano perfeito.

“Um celular... Quem diria que aquele velho antiquado estaria com o celular do filho...”

Por muito pouco Ted Knight não sucumbiu à multidão enfurecida de opalenses. Seria ótimo poder destruir a auto-estima dos seus inimigos com a morte de um de seus fundadores de forma tão pouco nobre, mas não foi possível.

“Deixa estar. Não é por causa da falta de cereja de enfeite, que vou atrasar a entrega do bolo...”

Seu primeiro passo fora em falso. Mas o grande plano para destruir a Sociedade da Justiça seria colocado em prática a partir do dia seguinte.


OPAL CITY

MADRUGADA

Cidade Velha

A musicalidade de Opal se torna mais próxima da que encontramos em outras cidades durante a madrugada. Em Benoits, dependendo do ponto onde se vá, podemos escutar pelas ruas variantes de Blues, Jazz, Country, os grandes standards americanos... Procurando bem, você pode encontrar até gêneros musicais de outros países em pequenos redutos. O resto da cidade nestas horas perde muito de sua graça sonora. É raro ver transeuntes nas ruas e, sem a presença deles, é como termos os músicos de uma orquestra num belo teatro com uma ótima acústica, mas sem seus instrumentos.

Nesta noite em especial, os ritmos perderam em importância para os acontecimentos de horas atrás, assunto em todas as mesas de bares e dos jornais da TV. Muito irá se comentar no futuro sobre essa noite, na qual centenas de opalenses perderam o controle de si mesmos e tentaram invadir a casa de Theodore Knight, o primeiro Starman. Será relembrada, como já acontece com o “Verão do Ragdoll” de 88 [9], a invasão dos alienígenas nos anos 70 ou os dias de caos quando o Névoa – e A Névoa – tentaram dominar a cidade. Como ocorre com a face do Ragdoll e também vai ocorrer no futuro com os óculos característicos da Névoa, a Máscara da Medusa – ou a Máscara Dourada, como já começou a se tornar conhecida em Opal City – se transformará num ícone pop, numa imagem cult. Alguns jamais irão se livrar dos pesadelos, um ou dois chegarão a tentar cometer suicídio, mas, para a grande maioria, aquela noite será lembrada por um sonho engraçado para se contar aos amigos e familiares.

Mas para algumas pessoas essa noite ficará marcada a ferro e fogo. Theodore Knight nunca irá esquecer a noite em que a cidade que sempre defendeu se voltou contra ele e quase o matou. Hector Hall vai se recordar de quando teve de chamar para si a responsabilidade sobre uma prima que mal conhecia. Courtney Whitmore se lembrará no futuro da noite em que recebeu o presente com que salvou a humanidade.

Mas, de todas as pessoas, ninguém se lembrará mais daquela noite do que o Dr. John Highwater. Ele usara pela primeira vez os poderes que foram de Roger Hayden e então decidiu assumir o codinome dele. Se ele tinha de viver com a Máscara da Medusa, por que não usar seu poder? Ele não imaginava o quanto era bom, o quanto era prazeroso manipular as emoções alheias. Quanto tempo perdido, vivendo apenas para não deixar os excluídos voltarem e reivindicarem um espaço nas histórias... As coisas seriam diferentes agora.

Depois de anos internado no Asilo Arkham, chegara a hora de compartilhar com todos a sua responsabilidade de manter o mundo são, uno, coeso. Aqueles seres, aqueles mundos e universos que já existiram querendo voltar e que estavam o tempo todo em sua cabeça, teriam agora a sua chance de voltar a participar das histórias, serão lidas por novos leitores. Mas Highwater não ia escancarar as portas do inferno liberando todos os demônios sem nenhum critério, como fizera Hyden. Não... Ele iria soltá-los um por um e nem todos seriam agraciados com essa dádiva. Convivendo com eles esses anos, já estava apto a separar o joio do trigo: aqueles que mereciam uma nova chance daqueles que ficariam encarcerados para sempre. Mas quem seria o primeiro...? Quem seria o primeiro...?

Enquanto se afastava pelas sombras da cidade, o Pirata Psíquico resmungava para si mesmo sobre descobertas, loucura, segredos e histórias que mereciam ser contadas de novo. Tropeçando em meios-fios e arrastando as longas mangas de sua camisa pelo chão, o homem com a máscara dourada pensava em mim, no que eu escreveria a seguir e no que estaria pensando você que está lendo estas linhas que eu digitei.

FIM

A Seguir: A Volta da Sociedade da Injustiça!


Se você quer saber mais sobre o Pirata Psíquico e de como ele descobriu que vive num universo imaginário, fruto da mente de diversos autores, que criam apenas para o entretenimento das massas leitoras de quadrinhos (e de fanfics...), leia – ou releia – Crise nas Infinitas Terras, que está sendo relançada pela Editora Panini, e as aventuras do Homem-Animal de Grant Morrison, publicadas entre as edições 32 e 34 da revista DC 2000, da Abril Jovem.


Notas do Autor:

[1] Shiera Sanders Hall e Carter Hall – Mulher-Falcão e Falcão da Noite –, heróis fundadores da SJA, estão mortos há alguns anos. Diferente da opção adotada pela Editora Panini, decidimos chamar Kendra Sanders de Mulher-Falcão, e não de Mulher-Gavião. A Panini tem o objetivo de aproximar a personagem da heroína de mesmo nome da Era de Prata e de sua contraparte masculina dessa fase, o Gavião Negro. Mas o Gavião seguirá um caminho diferente no Universo Quadrim, como vocês verão em breve. E ele tem sua própria Mulher-Gavião não permitindo essa aproximação.

[2] Hector Hall, filho do Casal Falcão mencionado no item anterior, era o super-herói conhecido como Escaravelho de Prata e já estava morto quando foi convocado para ocupar o lugar de Kent Nelson – que também morrera –, tornando-se o novo Senhor Destino, hospedeiro do Lorde da Ordem conhecido como Nabú.

[3] Sandman foi herói fundador da SJA. Este não é Morpheus dos Perpétuos, apesar de ter tido uma estreita ligação com ele. Morreu há alguns anos. A sua antiga mansão m Nova

Última atualização em Qui, 02 de Dezembro de 2010 22:53
 

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