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Hellblazer 10 - Lobos PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Leo Spy   
Qui, 11 de Novembro de 1999 00:00

Em um novo ano, as coisas começam a se ajeitar para o velho John Constantine. Até aparecer alguém muito estranho na sua frente. Veja as descobertas de um jovem à medida que ele vai se tornando o que deveria ser. E continue acompanhando os capítulos de Hellblazer. Na vida de Constantine, quando tudo está bem é porque algo muito ruim está para acontecer.

Originalmente publicado em Fevereiro/2004

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HELLBLAZER

Capítulo X
LOBOS

Por Leonardo Marcello



Londres, quase uma semana depois.

John e Kit estão no apartamento desde o natal, vivendo de tudo que, felizmente, ainda restava na cozinha do apartamento dele. O amor pode ser muito grande, mas o tesão é maior ainda e eles resolveram deixar o mundo lá fora, resolvendo seus próprios problemas, enquanto eles transam sem parar.

- Você ainda vai enfartar, John. Não acha que está muito velho para isso, não? – brinca Kit, deitada ao lado do amado. Ela o observa com carinho, enquanto afaga-lhe o peito. Apesar de ser um quarentão, aquele homem ainda despertavam-lhe desejos de uma adolescente.

- Muito engraçadinha. Até parece que sou eu que estou levando uma canseira... – John se vira sobre Kit, permanecendo por cima dela. Ele a olha nos olhos e entende o porquê de sua vida estar tão miserável e patética nos últimos meses. Para que pudesse aproveitar ainda mais esse momento.

- É, você ainda não está sentindo os efeitos da idade. Mas sabe que não podemos ficar nesse apartamento para sempre. Uma hora teremos que sair...

- É mesmo? E por que eu iria querer isso? – Ele começa a beijar-lhe a boca, descendo ao pescoço. Ela se arrepia toda, soltando um leve gemido. Por fim, nem se lembra mais o que estava falando quando os dois se enroscam novamente na cama, entre lençóis e travesseiros. Mais uma vez eles se unem, sendo impossível saber onde termina o corpo de um e começa o do outro.


Nos arredores de Londres, em uma estrada quase deserta, um caminhão de produtos tóxicos percorre o longo caminho até a cidade. Dentro dele, dois homens passam o tempo conversando sobre amenidades. O caminhoneiro, um veterano das estradas, se chama Everett. Se ele algum dia possuiu algum sobrenome, seus amigos de anos não sabem. Fanfarrão e falador, Everett sempre foi um homem alegre. E as viagens de dias pela Europa são sempre mais prazerosas quando na companhia de alguém para conversar. Por isso, ao passar por uma pequena cidade ao norte de Londres, ele deu carona ao jovem Tom Scott.

Tom é um jovem sonhador. Sempre imaginou como seria a vida longe de sua promissora, mas não cosmopolita, cidade natal: Birmingham. O rapaz queria começar por Londres, centro do Reino Unido. Depois, Paris, Berlim, Roma, conseguir um emprego em uma dessas cidades e ter dinheiro suficiente para curtir sua juventude nas mais variadas formas. Quem sabe, ir para a América!

- Deve ser um bom lugar para viver, mas não é para mim. Definitivamente, não é para mim, não senhor – O velho Everett já passou da época em que almejava cruzar o Atlântico. Contentou-se com a travessia do Eurotúnel, com seu caminhão sendo transportado pelo Le Shuttle, o trem de carga que atravessa o famoso túnel.

- Ainda não tenho certeza se vou. São apenas sonhos... – Tom estava de camisa branca e calça jeans. Havia fugido de casa e mal teve tempo de colocar algumas roupas em uma mochila e andar até a estrada, onde ficou quase uma hora fazendo sinal até que Everett deu-lhe carona.

- A vida é feita de sonhos, Tom. Mesmo que eles não se realizem. – O velho via-se jovem na pele de seu carona. E isso lhe fazia muito bem.

Os dois continuaram falando sobre destinos e recomeços de vida, mas então os assuntos foram mudando para mulheres, sexo, empregos e por fim, música. Os gostos eram tremendamente diferentes, tendo como representante de um, Paul McCartney em sua fase pós-Beatles, e de outro, Oasis. Riram um do outro. E a viagem transcorria melhor do que esperavam quando se conheceram, quando um vulto passou na frente do caminhão.

- Mas que diabos...? – O velho mal teve tempo de dizer.

Everett pisou no freio o mais rápido que conseguiu. Os pneus agarraram o asfalto como puderam, produzindo um som estridente. Houve uma colisão do pára-choque com alguma coisa, que continuou sendo arrastada por alguns metros até que a enorme carroceria parasse totalmente.

Tom estava assustado, mas foi se acalmando aos poucos. Seu caroneiro parecia apenas aborrecido com o acidente. O estrago em seu caminhão poderia ser grande e atrasá-lo na entrega do material guardado no tanque. Tom, obviamente, não tinha idéia do quê era, e nem arriscou a perguntar. Mas bastou o símbolo de radiação ao lado do veículo para fazê-lo torcer nesse momento que tudo estivesse do que jeito que deveria estar.

- Deve ser um maldito cervo que cruzou a pista, jovem Tom. Aguarde aqui enquanto vejo... – Everett disse isso e nem esperou a resposta do jovem, já abrindo a porta do caminhão e saindo. Dirigiu-se à frente, tentando olhar primeiro o estado da carroceria. Um amassado aqui e acolá, mas nada que o impedisse de cumprir prazos. Só então reparou bem em uma coisa: o que quer que tenha sido atropelado não estava mais lá. Ele resolveu ver embaixo do caminhão, se agachando um pouco para isso. Foi quando algo o puxou.

Tom, ainda na cabine, deu um pulo ao ver Everett sumindo. Em seguida, pôde ouvir os gritos de socorro do novo amigo. Gritos de desespero e o som de carne sendo mastigada. Ele nem pensou em sair e ajudar. Nem mesmo cogitou isso. O que ouvia arrepiava sua espinha e o paralisava de medo.

De repente, o som parou.

O silêncio tomou conta do ambiente e Tom respirou fundo. O que viria a seguir? Que tipo de animal seria aquele e como sobreviveu ao ser atropelado pelo caminhão? Ele olhou na direção do volante e verificou que o velho Everett havia deixado a chave na ignição. Poderia sair dali e procurar ajuda. Mesmo que fosse apenas para buscar o que restou do corpo do amigo. Mas a curiosidade era maior. Em um impulso, colocou o braço direito e a cabeça para fora da janela, com o intuito de olhar à frente.

Dentes cravaram em seu braço. Tom gritou. Era um lobo. Enorme como ele nunca imaginou que veria em sua vida. Sua reação foi rápida em tirar o braço. Nem sabe como pôde se mover assim. O medo, talvez, dá às pessoas atitudes que elas não esperavam conseguir ter.

Com o braço um pouco rasgado e sangrando, correu ao volante e deu a partida. Já tinha dirigido duas vezes o caminhão do Sr. Pratt, um amigo da família, e essa experiência iria salvar sua vida agora. Engatou a primeira marcha e começou a se deslocar, dando um pequeno solavanco ao passar por cima do que restara do dono do caminhão. Recusou-se a olhar pelo espelho retrovisor, apenas seguiu a estrada.

Tom não sabia, mas por entre a mata ao lado do asfalto, um lobo se movia tão rápido quanto o veículo, seguindo-o. Observando. Esperando o momento certo.


John recebeu um telefonema de uma antiga paixão e amiga. Zatanna ainda se lembra dos bons momentos entre eles, mas especificou que o assunto era de “negócios”. Constantine hesitou em atendê-la, mas Kit o mandou sair. “Resolva o que tiver que resolver e volta logo. E traz comida”.

Zatanna perguntou a John onde seria um bom lugar para se encontrarem em um começo de noite. Ele não teve dúvidas e recomendou-a o Hero.

- Olá, John. Está abatido por quê? – Ela tem um jeito todo especial. Todo o “círculo” de conhecimento deles pensa o mesmo. Talvez o tipo de vida que ela escolheu não seja o que as colegas de classe na escola haviam pensado para uma pessoa tão meiga e bem humorada. Mas ela é filha do grande Zatara e se tornou uma mulher corajosa e temida por causa de seus enormes poderes.

- Impressão sua, meu bem. – John se senta na cadeira ao lado dela. Ele acena para Rick no bar, pedindo a primeira cerveja em dias. – E cadê a cartola? – Pergunta ele, reparando que Zatanna está usando hoje uma simples calça jeans e blusa branca, de botões.

- Bobo. Não fico saindo de casa usando meia arrastão, fraque e cartola. Apenas nos meus shows de mágica uso isso. Por que demorou tanto a vir? Se bem me lembro, você mora a poucos metros daqui. – Diz ela, tomando uma taça de vinho tinto.

- Kit voltou... – John falou sem saber a que reação esperar. Não que Zatanna fosse perdidamente apaixonada por ele. Pelo menos, ele não achava que isso poderia ser verdade. Mas o fato dela ter marcado um encontro com ele e em Londres, poderia significar alguma intenção a mais. Nem que fosse de dividir a cama durante sua estada na cidade.

- Que bom! – Ela sorriu ao dizer – Fico contente ao ouvir isso, John. Vocês se amam e até mesmo um mago inglês de fama pouco adorável precisa de alguém para quando voltar de um dia cheio no... “trabalho”. Mas por que me contou isso com essa cara murcha?

- Cara murcha? Eu apenas pensei que pudesse... sei lá... eu achei que você pudesse não gostar, é isso.

- “John Constantine, o gostosão”. Pensou o quê? Que eu fosse me atirar no chão e espernear? Ou transformá-la em uma perereca e ficar com o “príncipe” pra mim? Você anda muito convencido ultimamente, sabia? E olha que você sempre andou por aí com essa pinta de fodão...

- Tá bom, já chega. Foi idiotice minha. Mas então, o que a traz ao Velho Continente, senão eu?

- Uma ameaça, John. E daquelas. Lembra de uns anos atrás, em que pipocavam grupos religiosos com algum conhecimento nas grandes verdades do mundo? Coisas que certas pessoas nem deveriam saber que existe...

- Lembro. Parecia que o mundo iria acabar toda semana. Mas pelo menos eles se suicidavam em grupo. O foda era limpar depois...

- Pois é. Mas agora é mais sério. É um grupo que realmente sabe das coisas. E eu resolvi investigar porque vi magia sendo manipulada à luz do dia. Era um peixe pequeno, mas me levou aos contatos dele. Sabe como é, né? Basta falar etnoc odut[1] para um cara que ele revela até que já usou calcinha de renda... – Ela não consegue evitar o riso ao lembrar da cena.

- E o que descobriu? – John ri porque não tem como fugir de imaginar o que ela contou.

- Pouca coisa, mas não gostei nem um pouco. Eles são daqui, John, de Londres. E têm sua ficha completa. Não sei pra quê, mas o grupo “Filhos da Deusa” está muito interessado em você.


Tom anda com dificuldade. Ele deixou o caminhão em um posto de gasolina na entrada de Londres. Antes que alguém pudesse fazer perguntas sobre as manchas de sangue no pára-choque, ele saiu correndo. E agora tenta, a todo custo, encontrar alguém que o ajude.

O ferimento em seu braço parou de sangrar há alguns minutos. Tom não sabe como, mas a pele parece estar se regenerando. E uma dor de cabeça infernal o atormenta sem parar. Ao passar de uma rua para outra por um beco, ele pensa em entrar na primeira loja aberta e implorar por socorro. Tom desiste do plano quando sua mandíbula começa a doer.

Ele pára no beco e leva as mãos à boca. Está crescendo? Logo, uma coceira pelo tórax faz com que rasgue sua camisa. Pêlos em toda parte. “No que estou me tornando?”. Seus antebraços convulsionam, seus ossos se esticam dentro do corpo. É uma dor agonizante, interna> Não há como escapar. Tom simplesmente grita.

Um homem ouve os apelos de ajuda e vai em sua direção.


John Constantine está ficando velho. Mas vai dizer isso a ele.

O encontro com Zatanna mostrou uma coisa: o mundo não pára de girar por sua causa. Ou no caso, não pára de ter problemas porque você está feliz. A ameaça de um grupo secreto que envolve magia, alta sociedade e cultos antigos, não poderia vir em pior hora. John quer apenas aproveitar os bons momentos com Kit. Não pôr sua vida em risco.

Zatanna e ele se despediram em frente ao Hero. Ela estava preocupada. John fingiu não perceber.

Ele foi comprar comida e cerveja. Nada melhor para ocupar a mente do que se divertir mais alguns dias com a mulher que ama. Caminhou de volta para casa. Pensando.

Até que ouviu um grito, quando passava por um beco próximo ao seu prédio. Não parecia humano e isso John Constantine sabia muito bem. Ele se aproximou da criatura meio homem, meio besta. Pêlos por todo o corpo e dentes saltando da boca denunciavam o que estava acontecendo.

- Me ajude... Por favor...

John mede bem a situação. Ele sabe que vai correr riscos se ajudar. E Kit ficaria uma fera. Mas John Constantine não pode negar sua natureza: ele sempre se mete em confusões.


- Você ficou maluco??? – Kit não recebeu muito bem a notícia de que eles teriam um convidado para o jantar.

John está parado na frente da porta do seu quarto, de frente para ela. Ele deixou o homem deitado no sofá, sem camisa e com as calças esfarrapadas. Sua forma voltou ao normal, mas restos de sangue... do seu próprio sangue que saiu durante a “transformação”... ainda sujam seu rosto.

- Mas, Kit, é só por hoje. Você queria que eu abandonasse o cara lá na rua? Você tinha que ver os músculos dele em convulsão... eh eh... – John tenta descontrair a situação, mas sabe que isso é impossível. Ele procura afastar as “esquisitices” de Kit, mas quase nunca consegue. E sempre dá em briga. Esse parece ser um momento desses. Mas John não quer perdê-la novamente.

- John Constantine, eu não quero nem saber no que esse homem estava se transformando. Pelas calças, pode até ser o Hulk, que não estou nem aí! – Ela volta ao quarto, pega um casaco em cima da cama, e passa por John, na direção da porta de saída. – Eu vim para ficar com você. Apenas você. Não para levar o seu “reino das bizarrices” no pacote. Vou visitar uma amigas que não vejo há mais de um ano, quando voltar quero ele fora daqui. Ou irei eu!

Kit bate a porta. John, segurando um cigarro, diz um sonoro “merda”. Não era exatamente a noite que ele planejou.

- Desculpe... por isso, amigo – Tom acordou a tempo de ouvir o final da conversa. Sua cabeça ainda dói, mas o resto do corpo está mais relaxado.

- Você não tem culpa. Quer dizer, tem, mas deixa pra lá. Como se sente? Lembra de alguma coisa?

- Ainda estou confuso. Não... lembro exatamente o que aconteceu comigo... fui mordido, eu acho. E teve um acidente com o caminhão. Coitado do Everett...

- E quem é esse?

- Eu estava de carona em um caminhão. O motorista atropelou algo... um animal. Depois ele foi atacado e eu fugi. Eu também fui ferido e comecei a sentir meu corpo queimando, doendo. Acho que tive alucinações. Foi quando o senhor me encontrou.

- “Senhor”? – John não se acostumou muito bem com a passagem dos anos – Qual é o seu nome, garoto?

- Tom Scott.

- O meu é John Constantine. Vamos dar uma volta antes que ela volte. O “senhor” aqui vai te explicar umas coisinhas...


Passeando pela Brook Street, em direção ao Diana´s Park, John e Tom batem papo. O garoto está, agora, usando uma camisa antiga de Constantine e uma calça que não serve mais. Na verdade, nesse diálogo apenas o mais jovem fala, contando sobre sua curta vida. A cidade em que viveu desde que nasceu até horas atrás, a namoradinha do colégio e a chegada turbulenta a Londres. Assuntos comuns, misturados com os últimos acontecimentos, que despertam uma curiosidade em Constantine que poucas pessoas entenderiam. Ele não está apenas jogando conversa fora, esse é o seu modo de descobrir coisas. Pesquisar.

- E o seu pai? Não acha que ele vai ficar puto por você ter fugido de casa? – John acende outro cigarro, talvez o décimo do dia. Apenas porque começou já à noite. Ele oferece a Tom – Quer um?

- Não, obrigado. Fumar faz mal, sabia? Dá câncer.

- Eu sei. Acredite[2].

- Tudo bem, então. Ah, não tenho pai. Eu tive, mas nunca o conheci. Ele deixou Birmingham quando minha mãe estava grávida. Não sei bem o que houve, ela evita falar nisso. – Tom parou em frente a uma vitrine e ficou olhando as roupas que eram vendidas na loja. O sonho de conseguir viver na cidade grande ainda rondava seus pensamentos. Um dia poderia comprar roupas novas e caras. Até mesmo presentear seu novo amigo, John Constantine.

A vitrine parecia hipnotizar Tom. Primeiro, por causa dos produtos. Mas logo depois, ele estava vendo além deles. Ele via seres estranhos. Movimentos dentro do vidro, mas não na loja. Não distinguia as formas, eram vultos. Um olhou para Tom. Pelo olhar, era como se o reconhecesse. Era um lobo. Bem grande. O jovem se aproximou mais do vidro, enquanto John apenas o observava. O lobo também parecia se aproximar do vidro cada vez mais, fitando-o nos olhos. A criatura proferiu apenas uma palavra: “Irmão”.

Tom deu um pulo para trás de susto. – Você também viu? Ele falou comigo. Comigo! – O garoto virou-se para Constantine e não parava de falar. Estava com medo. Muito medo.

- Não vi nada. O que foi?

- Um lobo no vidro! E ele falou comigo. Olhou bem nos meus olhos e disse “irmão”. John, eu acho que estou ficando louco... Estou tendo alucinações a todo o momento.

- Não está ficando louco nada. Vamos sair logo desse lugar. Estamos chegando no parque e eu sei que você vai se sentir melhor lá – Constantine apressou Tom para que chegassem onde ele realmente queria levá-lo. No caminho, foi recordando e conferindo as pistas. Não tinha mais dúvida sobre o que estava acontecendo. Ninguém teria. Era tão óbvio que se sentia um idiota.

Eles entraram no Diana´s Park, um pequeno parque que leva o nome da famosa princesa. Mendigos dormem nos bancos próximos às ruas. À noite, esse não é um bom lugar para passear, devido ao crime que assola o bairro, que não chega a ser de elite. John ia à frente, como se fosse para um canto específico entre as árvores da pequena floresta dentro da cidade. Tom vinha atrás, olhando para todos os lados para se certificar de que não havia nada nos arbustos. Sua preocupação com o que estava em volta o distraiu e não percebeu quando passou por Constantine.

- Tem certeza de que aqui é melhor que nas ruas, John? Não é perigoso? – Falou Tom, sem ver que a pessoa com quem estava falando, agora estava atrás dele, parado e escrevendo com um giz no chão.

- Tenho sim. Pelo menos é o melhor lugar para você, confie em mim. – John estava rabiscando símbolos arcanos de proteção na terra, após retirar gravetos e folhas do local. Depois, fez um círculo de dois metros de diâmetro em volta de si e das figuras.

- O que está fazendo?

- Me protegendo, o que acha? Pensa que eu vou ficar me expondo diante de uma matilha de lobisomens assim?

- “Lobisomens”? Mas o que... – Tom sabia o que era o termo, mas não pensou que ouviria isso de alguém como Constantine. Claro que ele tinha uma imagem bem simplista sobre quem era John na cabeça. E, por isso, não entendeu a mensagem.

- Vire-se, garoto. Eles estão lá... te esperando.

O jovem que já havia passado por muita coisa estranho no mesmo dia olhou por cima do ombro na direção das árvores. Lobos. Vinte deles. Ferozes e mostrando os dentes, cada membro da matilha era capaz de devorar um homem em questão de minutos. Mas eles pareciam estar mudando de forma. De lobos, algo quase humano aflorava em seus olhares e gestos. Começaram a se sustentar em duas patas e a quantidade de pêlos, embora ainda grande, diminuía gradativamente. Tom estava petrificado, não conseguia se mexer. Antes que falasse qualquer coisa, a explicação começou a vir na voz de um mago inglês.

- Você é um deles, Tom. Eu desconfiei assim que te vi agonizando naquele beco – John tragou e liberou a fumaça branca do cigarro – Mas, claro, suas outras informações me confirmaram isso. Pai sumido? Mordido por um lobo grande e logo depois a ferida sumiu? Estava claro como um cristal. E nem pense que virou um lupino por causa do ferimento, isso não existe na vida real. Só em filmes. Você nasceu assim, garoto. O lobo provavelmente te mordeu por susto, quando apareceu naquela janela de caminhão para ver o finado Everett. E a vitrine então, caramba! Lobisomens estão sempre em contato com a natureza, eles... vocês são parte dela. Usam objetos reflexivos, como espelho e vidro, para alcançar uma dimensão superior que serve de abrigo, já que as cidades estão tomando conta das florestas. Por isso te trouxe aqui, sabia que deveria ter uma matilha por perto[3].

- Mas... não pode ser verdade. Isso é ridículo, lobisomens não existem. – Tom começou a andar na direção de John, mas seus braços foram seguros por mãos peludas e fortes. Dois seres que o jovem disse não existirem estavam agora prendendo-o. Puxando-o na direção das árvores.

- Você é um de nós. – Disse um homem maior que os demais, a alguns metros de distância, aparentando ser o líder. Os outros, então, puxaram Tom com mais força, arrastando-o à força.

- Eu confiei em você, John. Pensei que iria me ajudar – Foi a última frase do jovem ao desaparecer na floresta. Algo que Constantine já ouviu muitas e muitas vezes, sempre antes de algo trágico acontecer.

- Tenho três lições para você, garoto: nunca confie em estranhos; às vezes a vida não é exatamente do jeito que queríamos; e a mais importante... não negue sua natureza. Eu não nego a minha – John Constantine voltou na mesma direção que chegou, agora protegido por um círculo brilhando no chão que pisava, acompanhando-o.

FIM


[1] Zatanna pronuncia os seus encantos ao contrário. “Ajuda na concentração”, diz ela.

[2] John Constantine já teve câncer de pulmão. Foi durante o arco “Hábitos Perigosos”, publicado na revista Vertigo (1995 – Editora Abril).

[3] Algumas informações sobre lobisomens foram obtidas com jogadores do rpg “Lobisomem: Apocalipse”, mas podem ter sofrido adaptações para se adequar à história.

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Última atualização em Dom, 21 de Novembro de 2010 15:18
 

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