|
OS NOVOS VINGADORES
CAPÍTULO 5
SOBRE O QUE FALARAM OS VELHOS PROFETAS - Parte final
Por Márcio Sampayo
Janet Van Dyne se formou antes de completar 18 anos, sendo a única menina nos 70 anos de História do Colégio Sunnyvalle a concluir o colegial com honras do Centro Acadêmico de Pesquisas Avançadas, ganhar uma bolsa de estudos no MIT e ser coroada rainha do Baile de Formatura.
Bonita, inteligente e extrovertida, Janet andava com a mesma naturalidade nos círculos mais improváveis do Colégio. Foi líder de torcida, eleita a aluna mais popular do colégio duas vezes seguidas, líder do time de Ciências, levou a turma de matemática a ganhar dois campeonatos estaduais nas Olímpiadas Colegiais e liderou o coral da escola por três anos.
Despertava admiração e inveja dos colegas na mesma proporção, mas seu jeito simpático e alegre acabava conquistando a todos, até mesmo os desafetos declarados.
Desde muito cedo tinha um senso de moda apurado, que fazia sucesso com as meninas. Era responsável por paixões platônicas avassaladoras, se dava bem com todos os meninos e meninas, mas levava as investidas românticas na brincadeira, e não se envolveu com ninguém durante seu tempo de escola.
Era antenada com tudo o que acontecia em Hollywood e nas colunas sociais, e gostava de ler tanto as revistas semanais de fofocas das celebridades como extensos ensaios científicos, os quais não raramente contestava em sala de aula ou enviando emails para os autores dos trabalhos.
Chegou ao MIT com status de celebridade, sua reputação precedendo-a. O desenvolvimento no MIT não foi diferente do colégio. Circulava entre a turma de tecnologia de meta-linguagem integrada, engenharia mecatrônica aeroespacial avançada e biologia bioquímica mutante com a mesma facilidade com que discutia as novidades da moda. Ela levava ao estilo fechado e sisudo do MIT uma nova forma de enxergar o mundo.
Foi no MIT que ela conheceu Hank Pym, que dava aulas de bioengenharia e era chefe da cadeira de engenharia mecatrônica, apesar da pouca idade. Com 25 anos já era considerado um dos maiores gênios de sua geração, participando de conferências e simpósios com mentes como Alexander Luthor, Stephen Hawking, Niles Caulder, Reed Richards, Anthony Stark e outros.
A paixão foi à primeira vista, avassaladora e dinâmica como tudo na vida de Janet. Demoraram meses antes de assumir o relacionamento, já que o MIT tinha regras específicas sobre o envolvimento de professores e alunos e, mesmo existindo precedentes na História da Instituição, nenhum dos dois queria colocar suas brilhantes carreiras em risco.
Janet teve que abandonar as pesquisas na área de bioengenharia e mecatrônica, já que Hank era professor dessas matérias. Mesmo assim, quando o romance veio à tona, trouxe sua dose de problemas para o casal.
Mas se Hank Pym era um gênio por conta própria, quando começou a publicar os trabalhos que fazia em co-autoria com Janet, a comunidade científica e o MIT tiveram que relevar suas políticas e aceitá-los orgulhosamente em suas fileiras.
Antes de abandonarem a faculdade, Janet e Hank já tinham registrado, juntos, cento e vinte e cinco patentes de idéias e produtos novos desenvolvidos por eles. E foram justamente o trabalho de Hank na bioengenharia e seu estudo no método de comunicação dos insetos, porém, que viriam a revolucionar a comunidade científica e alterar completamente a vida dos dois.
Primeiro, Hank conseguiu compreender, e posteriormente decifrar, o método usado por formigas e insetos para se comunicar. Construiu um elmo que permitia que ele entendesse – e comandasse – formigas e outros insetos, feito que lhe garantiu, entre outros prêmios e reconhecimentos, seu primeiro Nobel.
Depois, Hank descobriu e patenteou as Partículas Pym, que faziam com que ele controlasse seu tamanho e massa, permitindo que reduzisse o seu corpo ao tamanho de uma formiga ou aumentasse até os 33 metros de altura, o que lhe rendeu, pela primeira vez na História, o segundo Nobel seguido.
Janet, empolgada, decidiu cruzar as duas pesquisas, criando uma nova versão das Partículas Pym misturadas com DNA de inseto. Após meses de estudo, decidiu aplicar o soro em si mesma, a exemplo do que Hank fizera quando descobrira as partículas Pym.
O soro causou uma mutação inesperada no seu DNA, permitindo que ela alterasse seu tamanho, criasse asas e disparasse ferrões energéticos.
Através de avanços científicos, nascia a Vespa e o Gigante, cientistas, heróis e posteriormente membros fundadores dos Vingadores.
Janet e Hank tornaram-se celebridades da noite para o dia. Se o povo americano – e o mundo em geral – idolatrava atrizes e cantores, nada chegava perto do que significava ser um super-herói.
Janet logo se acostumou à rotina de talk-shows, entrevistas coletivas e ao assédio constante dos fãs e paparazzi. Colecionava as revistas que estampavam sua foto na capa e ficava horas navegando na internet pesquisando o próprio nome, divertindo-se com as mentiras e fofocas que contavam a seu respeito.
Diferente de Hank, que tentava o máximo possível manter-se afastado desse estilo de vida, Janet abraçou-o sem reservas, abandonando completamente as pesquisas científicas.
A vida de super-heroína-celebridade, em contraste com a dedicação exaustiva que Hank dava a suas pesquisas científicas e uma tendência ao comportamento profundamente anti-social – e às vezes violento - acabaram colocando-os em rumos opostos, até que efetivamente se separaram.
Uma vez separados, cada um pôde se dedicar exclusivamente ao estilo de vida escolhido. Enquanto Hank respirou aliviado pelos tablóides o terem deixado em paz, podendo se dedicar com afinco às pesquisas científicas e às suas atividades como Vingador, Janet mergulhou de cabeça no mundo das celebridades, sendo convidada habitual de premiações de cinema, desfiles de moda, eventos esportivos e qualquer coisa que chamasse a atenção da mídia.
Teve um breve romance com o piloto de Fórmula 1 Kimi Raikkonen, com o ator George Clooney e quase ficou noiva do músico Jon Bon Jovi. Mas nenhum de seus namoros sobrevivia muito tempo, sua carreira nos Vingadores e sua sede por eventos sociais deixava pouco espaço para relacionamentos mais sérios.
A verdade é que o grande amor de sua vida sempre tinha sido Hank Pym, e mesmo que tentasse ninguém conseguia ocupar o vazio que a separação deixara no seu coração. Companheiros de equipe, ainda apaixonados, passaram a viver uma relação cheia de altos e baixos, com brigas e reconciliações cada vez mais espalhafatosas.
Sua vida mudou drasticamente em setembro de 2001. Quando as Torres Gêmeas foram atacadas, entre os mais de três mil mortos estava seu ex-marido, Hank Pym, morto quando a Torre Norte ruiu, enquanto ele se esforçava para impedir o desmoronamento do lobby do edifício, salvando a vida de centenas de pessoas.
A morte de Hank afetou Janet profundamente. Aos poucos, ela abandonou a vida de celebridade, dedicando-se cada vez mais aos Vingadores e esforçando-se para recuperar o tempo perdido, tentando entender as pesquisas pendentes de Hank, sem sucesso.
Enquanto ela brincava de ser modelo, atriz e capa de revista, o intelecto de Hank atingira um nível que ela não conseguia mais compreender. E isso fazia com que o peso da morte de Hank a atingisse ainda mais forte.
Eventualmente, começou a envolver-se com outro membro dos Vingadores, o arqueiro Shaft. Mas antes que o relacionamento pudesse evoluir, foram atacados violentamente pela ameaça conhecida como Amazo, deixando-a duas semanas em coma e mais sete meses internada no Hospital Belmont, com fraturas espalhadas em quase todos os ossos do corpo.
Depois de mais dezessete meses de fisioterapia e reabilitação, Janet também se aposentou da vida de super-heroína. O Capitão América dissolvera os Vingadores após os ataques de Amazo e desaparecera, a S.H.I.E.L.D. tinha uma nova diretora, Amanda Waller, muito mais ligada ao governo de Lex Luthor, e a colaboração da agência com os super-heróis praticamente deixara de existir.
Não era uma boa época para vestir um uniforme colorido e chamar a atenção da mídia.
E então aconteceu.
Um evento isolado, que foi tomando proporções cada vez maiores e, antes que qualquer um pudesse realmente absorver o que estava acontecendo, o mundo entrava em sua terceira guerra de caráter global.
Uma guerra travada por soldados e meta-humanos, que deixou baixas incontáveis em todos os lados e levou os Estados Unidos à completa bancarrota econômica.
Janet não se envolveu no conflito. Foi convidada a participar da Liga da Justiça, mas recusou.
Foi convocada pelo governo a fazer parte das coalizões aliadas, e também recusou. Dedicava-se unicamente a tentar entender o trabalho pendente de Hank Pym e às suas próprias pesquisas, buscando novas formas de reaquecer a economia americana.
Comemorou nas ruas, junto com milhares de americanos, a eleição do ex-companheiro de equipe, Anthony Stark, à Presidência. E muito polidamente, e com um certo nível de vergonha, recusou o convite para ingressar no governo.
Se dependesse dela, Janet nunca mais colocaria o uniforme de Vespa.
A verdade é que a única pessoa para quem ela seria incapaz de dizer “não” estava desaparecido, tinha sumido sem se despedir e o mundo não sabia mais dele. Foi duramente criticado por “ter acabado com a nossa principal linha de defesa” e por “estar ausente quando o país mais precisou”, jornalistas e especialistas com memória seletiva, preferindo proferir seus impropérios sem sentido e esquecendo que aquele homem lutava pelos Estados Unidos desde a década de 1940.
Steve Rogers, o Capitão América.
Será que alguém tinha realmente o direito de criticá-lo por ter desistido? Depois de ter lutado durante toda sua vida para defender seus ideais, mesmo que eles remetessem a uma época que não existia mais? Um homem que ficou congelado no tempo por mais de sessenta anos, e quando despertou a primeira atitude que teve foi brandir novamente seu escudo e defender seu país?
Talvez se entendessem realmente o sentido da sua perda, se soubessem como ele se sentia diretamente responsável pela morte e incapacitação de seus colegas de equipe, entenderiam melhor por que ele precisou se afastar.
Talvez se entendessem que Steve dissolveu os Vingadores simplesmente porque foi um erro de planejamento tático dele que fez com que todos, TODOS os integrantes da equipe tivessem algum tipo de seqüela após o ataque de Amazo, compreenderiam por que ele deixou para trás seu uniforme e seu escudo.
Talvez se entendessem que ele se responsabilizava por que a mulher que amava, uma velocista, tinha ficado paraplégica, certamente entenderiam sua decisão.
Mas isso seria impossível, pois se Janet tinha aprendido alguma coisa durante sua vida de celebridade, é que as pessoas parecem não saber que existe uma pessoa por trás das máscaras e uniformes. Não enxergam – ou não querem entender – que, antes do mito, existe um ser humano. Uma pessoa comum, com sentimentos, medos e aflições, com as mesmas preocupações do dia-a-dia.
As pessoas não conheciam Steve Rogers.
Elas conheciam apenas o Capitão América.
O mito. A lenda. O super-soldado. A rocha.
Aquele que todos sabiam que seria capaz de resolver qualquer problema, de tomar qualquer decisão, por mais difícil que fosse. Aquele que levaria as dúvidas embora nos momentos de incerteza, que se levantaria para lutar quando todos estivessem derrotados.
Quando o Capitão América caiu, os Vingadores caíram com ele.
Janet conseguiu suportar a morte do marido. Conseguiu sobreviver sem o glamour das celebridades. Conseguiu ficar longe do mundo científico que tanto amava.
Mas quando o Capitão América desistiu, ela também desistiu.
E quando ele apareceu na porta da casa dela em um dia de chuva, sem se despedir por ter partido, sem avisar que tinha voltado, sem nenhum tipo de justificativa, e pediu que ela voltasse para os Vingadores, ela nem sequer ouviu o restante da proposta.
“- Você me convenceu no “Oi, Jan”...
O barulho da batalha impedia que ele ouvisse qualquer coisa. Steve se abaixou, protegendo a parte debaixo do corpo em um monte de entulho, enquanto tentava gritar mais alto do que o som das balas atingindo seu escudo.
Janet Van Dyne estava alheia a tudo isso. Sentira-se estranhamente mal ainda a bordo da aeronave dos Vingadores. Desmaiara um pouco antes da nave ser atingida por algo desconhecido e explodir. Nem percebera a manobra que Steve fizera, agarrando-a em queda livre e protegendo-a do impacto com o solo usando o próprio corpo, quebrando algumas costelas no processo.
Ele se abaixou para ver como ela estava, seu sorriso iluminando o rosto, fazendo com que todo o barulho ao redor simplesmente desaparecesse. Steve era o homem mais lindo que ela já vira em toda sua vida. Desde que tinha ajudado Hank e Stark a tirá-lo do gelo, passando pelo difícil processo de transição para a vida moderna e lutando tantos anos ao lado dele, Janet nunca conseguiu sentir atração sexual por ele. Ela tinha por ele algo muito mais amplo e complexo do que um mero sentimento amoroso. Ela se sentia mais... patriótica, só de olhar para ele. Cada vez que um político era pego em um escândalo, cada vez que um novo reality show dominava o país, cada vez que uma pessoa como Lex Luthor era vista como exemplo pela nação, quando o amor pelos EUA sofria algum golpe, era só olhar para o sorriso de Steve Rogers, para o idealismo dele, e você se pegava pensando que era Quatro de Julho novamente.
Ele colocou-a no chão, protegida atrás de uma pilha de metal retorcido com a mesma delicadeza com que trataria uma criança. Ignorou o fato de estarem sendo atacados por todos os lados, fez um carinho no rosto dela e falou:
- Você está bem, Jan? Me desculpe pelos sobressaltos... Estamos um pouco ocupados...
Ela sorriu e, com uma boa dose de esforço, levantou a mão e segurou o rosto sujo de fuligem dele, dizendo:
- Você me convenceu no “Oi, Jan”...
- O quê?
- Quando você voltou... Quando me pediu para entrar nos seus Novos Vingadores. Não precisava ter me contado os planos do Stark, nem as idéias malucas do Fury... Você me convenceu no “Oi, Jan”.
Steve sorriu. Falou:
- Se você soubesse que nos meteríamos em tanta confusão, teria me chutado pra fora na hora, não é?
- Hank sempre teve ciúmes da gente, Steve... Ele nunca entendeu o tipo de amor que eu sinto por você. Eu sempre disse para ele que te seguiria até a morte...
- Jan...
Ela cobriu a boca dele com os dedos. Continuou:
- Foi uma vida boa, Steve... Cheia de realizações e maravilhas... Eu fui muito, muito feliz nos Vingadores, e mais ainda ao lado do Hank... Sinto muito a falta dele... Estou cansada, Steve... Muito cansada.
- Jan, por favor...
- Quero que saiba que tenho muito orgulho de ter servido sob o seu comando... Nada que nos aconteceu foi culpa sua, Steve... A maior realização da minha vida foi morrer lutando ao seu lado...
- Jan, você vai ficar bem e...
- Shhh... Steve... Eu... te...
A mão dela caiu pesadamente na areia, os olhos fixos no rosto de Steve, a boca aberta no meio da frase. Os olhos de Steve se turvaram de lágrimas, ele a abraçou com força, e deixou as lágrimas correrem livremente.
Repousou o corpo dela na areia com delicadeza. Fechou os olhos dela com os dedos e se levantou, lentamente, balas ricocheteando no seu escudo e no seu capacete.
Observou a batalha à frente em silêncio, a cena dantesca, bizarra e assustadora.
Areia voava por todos os lados, centenas de soldados zumbis enfrentando os Vingadores no deserto, disparando a esmo, sem objetivo ou determinação... O Homem de Ferro enfrentando meta-humanos voadores desconhecidos no céu, raios repulsores levantando areia e transformando-a em vidro, enquanto deixava corpos já mortos em pedaços.
Quase 500 metros à frente, raios cortavam o ar e vitrificavam o chão, onde Thor enfrentava no mano a mano o monstro conhecido como Abominável.
Emil Blonsky acertou em cheio um soco, fazendo com que Thor voasse longe, arrastando-o por vários metros na areia escaldante. Desde que fora enviado por seu pai a Midgard, aquele foi o golpe mais forte que já tinha recebido, mesmo já tendo enfrentado a criatura que seus companheiros de equipe chamavam de Hulk, e que Nick Fury deixava guardado apenas para “uso em situações especiais”.
Apoiou-se na areia com um cotovelo, sentiu algo escorrendo do seu nariz e, para sua surpresa, percebeu que estava sangrando. Um sorriso iluminou o seu rosto, enquanto ele se levantava, brandindo seu martelo, gritou:
- Finalmente um oponente à altura do Deus do Trovão!
Feliz por finalmente poder lutar sem segurar sua força, Thor correu em direção ao Abominável, que aproveitou para procurar alguns destroços ao redor, para jogar em cima dele.
Antes que a criatura verde pudesse atingi-lo, Thor saltou, subindo vários metros, com os braços esticados sobre a cabeça, segurando fortemente seu martelo. Fez um semicírculo no ar, girando a arma gigantesca na direção da cabeça do Abominável.
Emil Blonsky viu aquela força da natureza descendo direto sobre ele e o máximo que conseguiu fazer foi proteger o rosto com o braço. O martelo o atingiu em cheio, quebrando seu rádio e úmero, deixando músculos em frangalhos e a mão direita pendurada, presa apenas pela pele grossa cheia de escamas.
Antes que Thor conseguisse se apoiar, no entanto, foi atingido por um potente soco no estômago, deixando-o sem ar.
Aquilo sim era uma batalha digna dele. Digna do herdeiro do trono de Asgard, do neto de Odin! Não um bando de criaturas mortas sem vontade própria, lentas, que se liquefaziam a cada golpe do seu martelo.
Alguém que podia bater com toda sua força e, ainda assim, era capaz de revidar.
Enquanto recuperava o fôlego, viu o Abominável segurando o braço quebrado, tentando deixá-lo no lugar tempo suficiente para seu metabolismo ultra-acelerado recompor tecidos e ossos dilacerados pela força da pancada. O golpe realmente enfurecera a criatura, que agarrou um pedaço grande do resto de um tanque e atirou-o com toda força contra o Deus do Trovão.
Thor ainda se levantava quando foi atingido em cheio, rolando para trás.
Emil Blonsky sentiu que a luta começava a se virar contra ele, e que talvez não fosse uma decisão muito inteligente continuar enfrentando aquela divindade descerebrada no meio do deserto. Estava cansado por estar lutando há dias contra os zumbis, e a fadiga começava a cobrar seu preço.
Não havia vergonha alguma em fazer uma retirada estratégica, nessas condições.
Olhou ao redor, o deserto em chamas, centenas de zumbis atacando os Vingadores em bloco, espalhados em vários pontos do deserto, areia e sangue voando por todos os lados.
Eles que cuidassem daquela coisa bizarra e sem sentido. Blonsky fizera o que fora contratado para fazer, e agora só queria receber seu dinheiro e sumir por uns tempos.
Virou-se e pegou impulso, um salto o levaria para longe dali, para a paz de alguma caverna escura, onde poderia devorar algumas ovelhas e dormir por uma semana.
Foi atingido violentamente nas costas por Ragnarok, o martelo/machado encantado de Magni Thorson, tirando o ar de seus pulmões e deixando-o virtualmente paralisado, enquanto seu organismo tentava se recuperar do golpe.
Não conseguiria manter o ritmo por muito mais tempo.
Agachou-se, pegou impulso e saltou, mas foi agarrado no ar por Thor que, por sua vez, aparentava estar mais empolgado do que nervoso. Os dois caíram no chão, rolando, enquanto o Deus do Trovão socava a criatura verde repetidas vezes.
Blonsky levantou-se, atingindo um chute nas costelas de Thor. Tentou atingi-lo com um soco, mas o asgardiano desviou, agarrando-o firmemente por uma de suas orelhas enormes. Com o Ragnarok, Thor deu um potente golpe no rosto de Blonsky, que caiu para trás.
Thor estava com um pedaço de couro verde do tamanho de um livro na mão, metade da orelha esquerda do Abominável.
Blonsky se enfureceu ao ver uma parte do seu corpo nas mãos do Deus do Trovão, com aquele sorriso arrogante no rosto.
Partiu pra cima dele como uma locomotiva, atingindo-o com toda a força que lhe restava, disposto a esquartejá-lo com as próprias mãos.
O filho do regente de Asgard não perdeu tempo, atingindo o Abominável com chutes e socos, enquanto tentava desviar ou bloquear os muitos golpes do Abominável. Finalmente, Blonsky deu um soco no chão, levantando uma parede de areia que atingiu em cheio os olhos de Thor, cegando-o momentaneamente.
Foi tempo suficiente para Blonsky se levantar, agarrar o Deus do trovão pela perna e batê-lo seguidamente contra o chão, com toda sua força, várias e várias vezes, causando uma verdadeira névoa de areia.
Blonsky jogou um atordoado Thor longe, enquanto lutava para recuperar o fôlego e sair dali.
Estirado a alguns metros dali, o filho do Deus do Trovão sentira o golpe. Tentava recuperar o fôlego, sentindo fortes dores no peito, talvez até mesmo com algumas costelas quebradas.
Não estava mais se divertindo.
Estava irritado. MUITO irritado.
Ficou em pé, girando Ragnarok em suas mãos. Avistou a criatura através da névoa de areia e segurou firmemente o cabo do martelo, deixando o lado do fio do machado para baixo.
Não iria mais subestimar a criatura.
Simplesmente arrancaria a cabeça dele!
Ou morreria tentando.
Longe dali, Steve Rogers abatia soldados mortos sentindo uma raiva imensurável crescendo dentro do peito. Raiva por terem sido derrubados sem aviso, raiva por estarem enfrentando um inimigo que não podia ser derrotado, raiva pela abominação que a loucura de um homem trouxera para a terra, que fizera com que eles fossem obrigados a intervir. Raiva por estarem sendo atacados por uma horda meta-humana que, ele sabia, defendia os interesses da Palestina, que era contrária à presença deles ali, na fronteira de Israel.
Respirou fundo, deixou os instintos tomarem conta do corpo, e passou a agir no automático.
Saiu correndo à toda velocidade, atingindo soldados com seu escudo, girando e atirando ao mesmo tempo. Não tinha mais ressalvas, não tinha mais como se segurar. Aqueles soldados já estavam mortos, e por mais empatia que ele sentisse por eles, não tinha como salvá-los.
Atirou até a metralhadora ficar sem balas, descartou-a e com um giro lançou seu escudo, destroçando a cabeça de um morto-vivo ao mesmo tempo que tirava sua Colt .45 do coldre. Quando o escudo ricocheteou e ele o apanhou com a mão esquerda, já estava atirando, cada tiro certeiro estourando a cabeça de um zumbi.
Os cadáveres se acumulavam pelo chão, dificultando a movimentação. Um soldado com o corpo cortado ao meio agarrou sua bota, quase derrubando-o. Sem tempo para sutilezas, Steve girou o escudo e cortou a mão do soldado, e continuou avançando.
Queria chegar até o Gigante, que esmagava hordas e hordas de soldados com as mãos e as botas. Clint Barton, o Gavião Arqueiro, estava um pouco à frente dele, sem flechas, usando o arco como se fosse um taco de baseball, esmagando a cabeça dos soldados que o rodeavam, em número cada vez maior.
Podia jurar que ele parecia estar se divertindo.
Lançou o escudo, atingindo dois soldados que se aproximavam pelas costas de Clint, enquanto corria em direção ao grupo de zumbis. Deu um chute no peito de um soldado, jogando-o longe, enquanto pegava o escudo no ar. Em um só movimento girou o corpo, decepou a cabeça de um zumbi e com a mão livre pegou a metralhadora que ele segurava, tirando-o das mãos mortas antes mesmo que o corpo meio apodrecido chegasse ao chão.
Sem diminuir o ritmo da corrida, entregou a arma nas mãos de um atônito Gavião Arqueiro, dizendo apenas:
- Bom trabalho, soldado.
Finalmente, chegou até o Gigante, uma visão assustadora de trinta metros de altura coberto de sangue e restos humanos, empenhado em destruir o maior número de zumbis possível. Um dos meta-humanos kamikazes palestino tinha conseguido fugir dos ataques coordenados do Homem de Ferro, e vinha cruzando o ar para atacar o Gigante.
Steve lançou seu escudo, acertando o kamikaze em cheio, desviando-o da rota de vôo. Foi tempo suficiente para o Gigante se esquivar e bater as palmas da mão, matando o kamikaze como se fosse um mosquito. Ele limpou as mãos nas pernas do uniforme, deixando rastros de sangue espalhados, o que explicava o estado do uniforme.
Steve pediu que ele se ajoelhasse com um gesto, e subiu na palma da sua mão. O Gigante o ergueu, para poder ouvi-lo no meio de tanto barulho, Steve apontou para a luta do Thor com o Abominável e falou:
- Preciso de uma carona.
O Gigante concordou com um gesto, e Steve se ajoelhou, enquanto colocava o escudo nas costas, ficando em posição. Já tinham treinado – e usado – aquela manobra outras vezes. O Gigante fez uma curva com a mão, como se lançasse uma bola de baseball, e lançou o Capitão América em direção à cratera onde o Abominável enfrentava o Hulk.
Steve virou-se no ar, esticando-se e mantendo o corpo rijo, como uma flecha, cruzando o ar a uma velocidade incrível. Sentia o vento no rosto, mas não se incomodava, a segunda dose do soro do super-soldado, que salvara sua vida, deixara todos os seus sentidos ampliados, e ele enxergava – e processava as informações de forma tática – perfeitamente, apesar da velocidade e da força do vento.
Agindo com precisão absoluta e contando com uma boa dose de sorte, atingiu o Abominável com os dois pés no peito, ao mesmo tempo que Thor acertava o joelho da criatura com o Ragnarok.
Emil Blonsky caiu pesadamente, levantando areia, enquanto Steve rolava no chão e recuperava o equilíbrio. Thor vinha correndo com o martelo acima da cabeça, prestes a pular e soltar um golpe capaz de esmagar a cabeça do Abominável.
Steve ergueu a mão, fazendo com que Thor parasse, contra sua vontade. Magni Thorson estava irritado, tomado pela fúria da batalha, e gritou:
- Saia da minha frente, mortal, ou eu arranco a sua cabeça também.
- Cale a boca e aguarde suas ordens, soldado!
Ignorando a possibilidade – não tão remota – de ter realmente a cabeça arrancada, Steve virou-se e levantou a cabeça, apontando o dedo esticado para o rosto do Abominável, ainda ajoelhado, recuperando o fôlego e pronto para recomeçar. Steve falou:
- Acabou a brincadeira. Você vem com a gente.
No horizonte, os helicópteros do exército começavam a se aproximar. O Abominável estava exausto, mas deu um riso rouco e falou:
- Eu estou só começando, bandeiroso.
- Não. Acabou. Eu estalo os dedos, ele arranca a sua cabeça.
- Ele pode continuar tentando.
- Ele não estava tentando. Ele tem ordens específicas de pegar você vivo e, por isso, você só perdeu uma orelha. Você acha realmente que teria alguma chance contra um deus?
Blonsky ficou pensativo, encarando os dois. Thor estava com as veias do pescoço saltadas, o corpo inteiro retesado, como uma arma pronta para ser disparada. Ele não queria realmente descobrir se era páreo para a fúria irrestrita do deus do trovão, mas não iria se entregar sem luta. Falou:
- Eu não sou cidadão americano. Vocês não têm autoridade nenhuma para me prender.
- E quem falou em prender? Estou aqui para oferecer uma cura.
Blonsky ficou encarando-o por longo tempo, incrédulo. Finalmente, falou:
- Não existe cura para isso. Pergunte a seu amigo Bruce Banner.
Steve fechou a cara. Falou:
- Banner não é da sua conta. Isso não é uma negociação, Blonsky. Ou você vem comigo, e te oferecemos uma cura, ou eu te deixo aqui com o Thor e olho para outro lado, está claro?
- ...
- Ótimo. Onde está o General Hamman?
- Hunf! Eu tinha acabado de resolver isso, quando vocês apareceram para me incomodar... O bunker dele fica a alguns quilômetros daqui, é só seguir a fumaça... O que sobrou do corpo dele está logo ali na frente, embaixo daquele Hummer capotado...
Steve encarou-o sem dizer uma palavra. Blonsky ergueu as mãos, em sinal de rendição, e disse:
- Não olhe pra mim... Quando eu cheguei lá ele já estava com uma bala na cabeça, falando sem parar... Eu fui contratado para levar ele vivo ou morto, imaginei que as duas coisas ao mesmo tempo poderia me render alguns trocados a mais...
Steve observou os helicópteros pousando ao lado do Gigante, que protegia o rosto da nuvem de areia levantada pelos rotores. Soldados americanos, portando lança-chamas, saíam do helicóptero e carbonizavam tanto os restos mortais quanto os mortos-vivos que ainda se arrastavam pelo campo de batalha. O Exército, em conjunto com o governo de Israel, estava considerando o incidente oficialmente como um foco de infecção, por isso a medida era necessária.
A adrenalina no corpo de Steve Rogers começou a baixar, e ele foi tomado por uma profunda tristeza. Prometera a si mesmo que não perderia mais nenhum soldado sob seu comando, mas sabia que em situações de guerra essa era uma promessa que não podia ser mantida e nunca deveria ter sido feita. Mas a morte de um companheiro de equipe era um fardo muito difícil de se carregar.
Mas a morte de Jan, uma amiga que ele amava de todo o coração, era algo que ele ainda não sabia se conseguiria suportar.
Parou ao lado de Thor, colocou a mão no ombro dele e disse:
- Fez um ótimo trabalho, Magni... Seu pai ficaria orgulhoso.
Thor assentiu com a cabeça, agradecendo. Colocou o Ragnarok em cima dos ombros, como se segurasse um taco de bilhar, enquanto observava o Capitão América se afastando em direção aos helicópteros. Olhou para o Abominável, que ficara parado observando a conversa dos dois. Sentia o corpo inteiro doer, o que não era uma coisa comum para ele. Falou:
- Há tempos eu não enfrentava um desafio à minha altura. Obviamente, se ele permitisse eu teria arrancado sua cabeça e a luta teria durado apenas alguns segundos, mas agradeço por me entreter por algum tempo.
Blonsky não notou a provocação, ou se o fez, preferiu ignorar. Estava com a cabeça em outro lugar. Falou simplesmente:
- Acha mesmo que eles podem me curar?
Thor levantou o martelo gigantesco, apontando para o Capitão America, que se afastava em direção aos helicópteros. Falou:
- Aquele é o único homem a quem eu sigo sem questionar. Se ele disse que pode fazer, acredite, ele pode fazer.
Blonsky ficou fitando o horizonte, acompanhando a movimentação dos soldados. Virou-se novamente para Thor e falou:
- E agora?
Thor irrompeu em uma gargalhada. Falou:
- Agora? Vamos embora, eu acho. Venha, tomaremos uma cerveja quando chegarmos à base. O calor desse deserto me lembra as fornalhas de Vunfgdam.
Emil Blonsky seguiu o deus do trovão, cansado demais para protestar. Olhou para trás uma última vez, varrendo o chão calcificado com o olhar, e falou para Thor:
- Precisava mesmo ter arrancado minha orelha?
|