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"Enquanto os membros da Sociedade da Justiça discutem as pautas mais amenas de sua assembléia antes de chegar ao assunto principal na ordem do dia, o diretor do Belmont Hospital recebe a visita de alguém que fizera questão de manter longe de seus pensamentos: é a volta do filho pródigo!
E ainda: Exterminador e Nômade procuram sair do Belmont Hospital de forma discreta, mas um estranho personagem se interpõe em seu caminho! Os rascunhos de um inesquecível confronto começam a ser traçados!"
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Quadrim orgulhosamente apresenta: SJA - SOCIEDADE DA JUSTIÇA DA AMÉRICA Criação de Sheldon Mayer e Gardner Fox
SEIS GRAUS DE SEPARAÇÃO: O FILHO PRÓDIGO
Escrito por Carlos Vinicius Marins Editor:Henrique JB
Membros ativos presentes:
Mulher-Falcão Guerreira que utiliza o metal enésimo para voar
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Sideral Possuidora do cinto conversor e do cajado cósmico
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Jakeem Trovoada Possuidor de gênio da 5ª dimensão
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Sr. Incrível Campeão Olímpico e Doutor em Ciências
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Membros reservas participantes:
Homem-Hora Possuidor de superforça, resistência física e vidência de futuro próximo
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F.A.I.X.A. Criador de armadura robótica de amplo poder
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Lady Fantasma Ilusionista e campeã de Savate
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Admirável Absorve as características moleculares do que tocar
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HOJE SEGUNDA-FEIRA
Mansão Dodds Museu e Memorial da SJA Sala de Reuniões Nova York
Assunto em pauta:o ataque do Ultra-Humanóide a SJA e as consequentes morte do Dr. Meia-Noite III e incapacitação do Sr. Incrível II. Busca pelo vilão com o auxílio de outras equipes de super-heróis [1].
- Como está o contato com as outras superequipes sobre esse caso?
Talvez para provar que superara o mal que o Ultra-Humanóide lhe fez ao se passar por Pieter Anton Cross, o Doutor Meia-Noite, e cativar sua amizade – quase o seu coração –, Canário Negro fez questão de se levantar e ser a primeira a responder:
- Estamos fazendo de tudo para espalhar a notícia o mais rapidamente possível, Sand... Por ter feito parte da Liga, ainda tenho conexão telepática com Ajax, então todo o pessoal do satélite já está sabendo e vão ficar de olhos abertos. Oráculo tem contato constante com diversas equipes e vigilantes solitários [2]. Só através desses dois, metade do trabalho está feito.
A segunda a se pronunciar foi Jenny Lynn-Hayden – a Jade, filha do Lanterna Verde dos Anos Dourados, o membro fundador da Sociedade da Justiça. Jade é ex-membro do fracassado grupo que seria a 2ª geração da SJA, a Corporação Infinito [3], e também pertenceu aos Vingadores. Além de membro reserva da Sociedade da Justiça é um dos líderes da reformada Tropa dos Lanternas Verdes:
- A maioria dos Lanternas Verdes é composta de novatos ainda em treinamento ou membros que atuam fora do planeta e nunca tiveram qualquer contato com Pieter [4]. Mesmo assim, estão todos avisados. Já que a Jesse não pode vir, pode deixar que eu falo com ela e vejo como estão as coisas com os Vingadores também.
O Homem-Hora soltou um pequeno suspiro de frustração ao ouvir de Jade que Jesse Quick não estaria presente naquela reunião, mas preferiu guardar seus comentários para si mesmo. Lamentou em silencio mais uma vez o fato de não ter controle sobre seus dons premonitórios. Se soubesse há uma hora atrás que Jesse não viria, provavelmente também teria faltado a mais este encontro.
- Diabos! – O Pantera não conseguiu segurar seus resmungos ao confirmar que ainda não seria daquela vez que viria sua afilhada e começou a murmurar para seu velho amigo Joel Ciclone – Jesse deve ter conversado com Jenny pelo telefone e dito a ela que não poderia vir. Achei que ela estava só atrasada...
Joel quase não conseguiu segurar a risada e respondeu no mesmo tom de voz do amigo:
- Jesse? Atrasada? Essa relação dela com Steve está mesmo te deixando fora de si... [5]– Nesse momento Sand olhou para os dois veteranos como se fosse um professor e eles fossem alunos interrompendo sua palestra. Joel pigarreou e aproveitou as atenções voltadas para si para falar - Já dei uma palestra aos Jovens Vingadores sobre infiltração de vilões disfarçados entre super-heróis e usei Pieter como exemplo... Eles estão preparados.
Para a surpresa de todos, o próximo a falar foi o jovem Raymond Terrill, presente a sua primeira assembléia da SJA. Assim como quase todos os membros reservas presentes, Raymond era filho de um super-herói do início da Era Heróica, os anos 40, e herdara seus poderes e seu codinome de seu pai que, por coincidência ou não, também era o seu apelido: Ray.
- Bom... Eu fui dos Titãs durante, tipo, uns 15 segundos. Já faz um tempo que não troco idéias com o Ciborgue, mas...
- O Ciborgue não está mais na equipe, Ray – Corrigiu Sand, sem muita paciência.
- Sério..?? Não consigo imaginar aquela galera sem o ferroso por perto... Bem, eu também era chegado do Mutano e...
- O Mutano? Alguém leva o Mutano a sério? – Gracejou Jade, lembrando da ocasião em que Garfield Logan, o jovem herói chamado Mutano, tentou cantá-la alegando que, pela pele verde que ambos possuíam, eles estavam destinados a ficar juntos e gerar a próxima evolução da humanidade, que seria formada por Homenzinhos Impossíveis.
- Tá bom, tá bom! Mas a Moça-Maravilha ainda está na equipe, não é?
- Está jovem, mas agora ela se chama Tróia. – Respondeu a Rainha Hipólita das Amazonas, com ainda menos paciência que Sand. Hipólita era a exceção a regra dos reservas da SJA: era um membro fundador da equipe, não uma de suas filhas (por sinal, Tróia era uma delas), e parecia ansiosa para voltar à ativa – Outra heroína assumiu o nome de Moça-Maravilha.
- Que seja! Ainda tenho o celular de Donna, pode deixar que eu falo com ela. Vai ser um bom motivo para ligar para ela depois de todo esse tempo...
- Que disse, jovem? – A pouca paciência de Hipólita estava prestes a ir embora.
- Hã... Nada, nada. Só pensei um pouco alto demais.
- Reed Richards esteve no Belmont semana passada para visitar Ted Knight e ver meu caso [6]. O Quarteto também já está avisado e monitorando qualquer suspeita. – Disse Michael Holt, o Sr. Incrível, que melhorara sensivelmente na última semana, mas continuava usando cadeira de rodas, devido aos traumas e ferimentos resultantes do último confronto da SJA com a Sociedade da Injustiça. Apesar dos esforços do Sr. Fantástico e de diversos outros médicos e cientistas, Michael não iria deixar de lado aquela cadeira, pelo menos a curto prazo. Aquela reunião soava para ele como um epílogo em sua carreira de super-herói. E todos os presentes pareciam usufruir dessa mesma sensação.
- E quanto às equipes mutantes? – Prosseguiu Sand.
- Não creio que o Ultra-Humanóide procurasse por elas... – Respondeu Jade - Os mutantes não tendem a se misturar muito, principalmente quando estão reunidos em grupos. Olham os que são de fora com desconfiança, relutam muito em se envolver com quem não é de seu clube. Mas tenho contato com Charles Xavier, o maior mentor deles. Deixem que eu o aviso.
- Você não acha que está sendo preconceituosa, Jenny? – Interrompeu a implicante Dee Tyler, atual herdeira do manto de Lady Fantasma. Ao contrário da maioria dos outros jovens reservas presentes, ela não era filha da heroína original a usar aquele codinome, mas quase uma escolhida por acaso para manter viva a chama de sua predecessora. Ela tornou-se heroína há relativamente pouco tempo (tendo o aval e sendo treinada pela Lady Fantasma original), por isso não pegou a época da Corporação Infinito. Dee Tyler porém, não se ressentia nem um pouco de não ter feito parte daquele grupo de jovens heróis, que sempre considerou um fracasso.
Jade porém não se sentiu intimidada com a pergunta:
- Sei do que estou falando. Posso ter perdido meus poderes naturais, mas eu sou mutante, Dee. Eu e meu irmão fomos recrutados por Charles para suas hostes quando tínhamos acabado de entrar na adolescência. Na época não sabíamos quem era nosso pai, não sabíamos nem que éramos irmãos. Fomos abandonados por nossa mãe quando crianças e adotados por famílias diferentes. Passamos um tempo com os Novos Mutantes, até Charles descobrir nossa relação fraternal, depois que começamos a desenvolver um elo telepático natural um com o outro, e investigar nossa origem, encontrando nosso pai de verdade: Alan Scott, o Lanterna Verde. Foi quando tudo começou a fazer sentido. Nos aproximamos dele, dos outros membros da SJA e de suas famílias. Eu e Todd achamos então outros garotos que tinham mais em comum conosco do que o fato de serem geneativos. Charles entendeu e concordou quando decidimos ir viver com nossa nova família. Continuei mantendo contato com ele e, sempre que posso, faço parte de campanhas para melhorar a integração dos mutantes na sociedade.
- Você já foi uma das modelos mais requisitadas do mundo, atriz de Hollywood... Não poderia ter feito mais do que participar de campanhas de vez em quando? – Lady Fantasma ainda não tinha se dado por vencida.
- Não estou aqui para levantar bandeiras. Acho que isso só aumenta a segregação. Na realidade esse foi um dos meus motivos para não continuar ao lado de Charles.
- Por favor pessoal... – Interrompeu Sand, botando ordem na assembléia – Vamos nos manter nos assuntos em pauta. Deixem essas discussões para depois.
- Hã... Sei que é chato, mas já falaram com Jackson King? – Perguntou Jade.
- Já sim, Jenny... – Falou o Pantera, após dar um suspiro de irritação – Estivemos com ele na semana passada. Como você deve imaginar, não foi nada agradável.
- Jackson King? Quem é esse? Acho que já ouvi esse nome antes... – Sussurrou para Joel Ciclone o jovem Markus Klay, o terceiro super-herói a assumir o nome de Admirável, seguindo os passos de seu primo e de seu avô, que marcou época como o primeiro herói negro uniformizado conhecido do público.
Jay pensou na possibilidade de ser repreendido de novo por Sand antes de responder. Resolveu que, se fosse para manter o interesse do jovem Markus em sua primeira assembléia da SJA, valia a pena o risco e sussurrou de volta:
- King foi o Batalhão, membro de uma equipe de super-heróis ligada a ONU chamada de Stormwatch. Hoje ele é o homem de ligação dos supergrupos com as Nações Unidas.
- Sim, o Stormwatch... Ele é negro, certo? E porque não seria agradável falar com ele?
- É complicado, Markus... Mas nada tem a ver com a cor da pele dele, não se preocupe. Depois te explico – Concluiu Joel Ciclone, ao perceber mais uma vez o olhar de reprovação de Sand sobre ele.
A última a pedir a palavra sobre a questão foi Karen Starr, a Poderosa. A única super-heroína presente sem nenhuma conexão com a formação clássica da SJA: não viveu aquela época, nem é filha ou assumiu o manto de algum deles. Ela foi treinada pela equipe a apedido do próprio Superman pouco tempo depois do grupo voltar à ativa há alguns anos. Depois acabou por seguir seu caminho, mas sempre manteve contato com a equipe. O passado de Karen ainda estava para ser desvendado, mas sobre ela todos tinham uma certeza: sua língua era ferina e questionadora, de quem não tem papas na língua e possui uma opinião formada difícil de ser alterada.
- Tem uma coisa que preciso dizer. Sei que não estava aqui na votação sobre a atitude que a equipe tomou nesse caso e, mesmo se estivesse, de nada adiantaria, já que atualmente sou membro reserva, por isso não podia votar. Mas eu acho que é só uma questão de tempo até vazar para a imprensa a informação de que o Ultra-Humanóide está usando o corpo de Pieter e aí a sujeira, quando aparecer, será bem maior do que deveria. Mas já que sou voto vencido e esta é a orientação que devemos seguir, que seja. E esperemos que o pior não aconteça.
- Esta é a Karen que eu conheço! – sussurrou Pantera para Joel Ciclone, após cutucá-lo para chamar sua atenção – Estava com saudades dessa garota...
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Belmont Hospital Sala da Direção Nova York
Aquela fora uma semana arrastada para o Dr. Charles McNider, o diretor do Belmont Hospital que nos Anos Dourados atuara como o primeiro super-herói a usar o manto e o codinome de Dr. Meia-Noite. Dois jovens, que ele muito admirou e amou, tentaram manter vivo o legado que ele criara – e, devido a isto, ambos estavam mortos agora. O mais recente deles fora o Dr. Pieter Anton Cross, que muitos consideravam o maior cirurgião de sua geração. Ele teve seu cérebro arrancado de seu crânio e jogado no lixo pelo maquiavélico Ultra-Humanóide, que agora caminhava por aí usando o corpo e a identidade de seu mais querido pupilo, um dos filhos que o Dr. McNider nunca tivera.
Durante aquela semana Charles passara os dias no piloto automático, só não se deixando sucumbir de dor, depressão e tristeza por causa do Belmont Hospital. Há muito tempo – desde que fora obrigado a aposentar seu uniforme de vigilante noturno devido ao seu súbito envelhecimento de 20 anos nas mãos do Extemporâneo, em sua última aventura ao lado da Sociedade da Justiça [7]– aquelas paredes, aqueles médicos, enfermeiros e pacientes eram a sua razão de continuar vivendo. Os que estavam naquele hospital dependiam dele. Ele simplesmente não podia largar todos na mão e sucumbir ao vazio que sentia por perder mais uma vez alguém que considerava um filho devido ao fato dele ter seguido seus passos.
Mas a dedicação ao hospital, que usava para preencher seu tempo, suas ações e seus pensamentos, já não era o suficiente para fazê-lo levantar da cama todo o dia e encarar a vida. Passado os primeiros dias, a ausência de Pieter voltou a preencher seu peito e nada parecia ser capaz de alegrá-lo de novo. Para alguém que não casou nem teve filhos, o futuro nunca parecera tão negro.
Naquele momento Charles percebeu que não estava sozinho em sua sala, apesar de nem a porta, nem a janela terem sido abertas. Alguém, com seus sentidos aguçados pelo uso diferenciado devido a alteração no funcionamento de seus olhos – provocada pela explosão que presenciara em 1938 –, perceberia se abrissem a porta ou a janela. Isso significa que alguém estava ali por um bom tempo, antes mesmo de Charles chegar na sala, e conseguira manter-se incógnito até então.
Poucas pessoas no mundo conseguiriam passar despercebidas por Charles num ambiente em que ele estivesse. Pieter, com os mesmos sentidos aguçados que ele, tentara isto várias vezes e nunca conseguira.
Naquele momento Charles lembrou depois de muito tempo de seu terceiro pupilo. Aquele que não seguira os seus passos, como ocorreu com Pieter Anton Cross e Elizabeth Chapel – a Drª Meia-Noite, que fizera parte da fracassada iniciativa da Corporação Infinito. A relação entre ele e este pupilo que procurara esquecer havia sido maculada por atitudes impensadas, divergências filosóficas e ciúme.
Este pupilo teria conseguido passar despercebido pelos instintos do médico durante algum tempo. O mestre que substituira Charles no coração dele lhe ensinara isto.
- Matt...?
Silêncio durante alguns segundos. Nenhuma resposta ou movimento.
- Matt, sei que você está aí.
Desta vez o intruso respondeu:
- Só soube ontem à noite o que aconteceu com Pieter, quando entrei em contato com Oráculo em busca de informações. Senão teria vindo antes.
As mãos de Charles tremeram. As lágrimas que teimaram em permanecer guardadas durante todo esse tempo, finalmente rolaram por sua face.
- Sinto muito, Charles.
O homem usando uniforme vermelho escuro e segurando uma bengala retrátil nas mãos saiu do canto da sala onde permanecera quase sem respirar por mais de uma hora.
- Você não faz idéia de como eu gostaria que seus pêsames fossem verdadeiros, Matt...
- Então, você não acredita em mim.
Charles deu um suspiro e finalmente virou na direção da voz de seu velho pupilo. Dois cegos, quando começam a falar, não ficam necessariamente um de frente para o outro.
- Desculpe Matt, mas... Isso tudo parece ser formalidade para você. Além de ter aprendido a ocultar seus sentimentos por tanto tempo, com o mentor que você escolheu seguir, você e católico, o que te obriga a sempre dar os pêsames quando a situação pede. Além disso é advogado e não me procurava há anos. Tenho todos os motivos para não acreditar em você.
- Você também podia ter me procurado durante todo esse tempo.
- Matt, você escolheu qual caminho queria seguir e não olhou para trás. Não tem me procurado mais nem como médico. E não adianta mentir. Reed Richards esteve aqui na semana passada e descobri que você o procurou por causa de uma infecção auricular [8].
- Falou que eu menti para ele?
- Não se preocupe. Reed continua acreditando que você o procurou porque não tinha um médico de confiança. Mas qual é o problema? Se você não veio até mim, então isso não é mentira.
Agora foi a vez do Demolidor dar um suspiro.
- Charles, eu evito te procurar por causa disso, dessa sua atitude. Sempre discutimos quando nos vemos, mas não era para ser assim. Você foi a primeira pessoa a perceber o que aconteceu comigo depois do acidente que me deixou cego. Você estava lá no hospital para onde eu fui levado, escondeu os resultados dos meus exames e não falou a ninguém das conversas que tivemos, onde falei o que estava acontecendo comigo, a alteração que percebia em meus sentidos. Foi você que me orientou a esconder dos outros o que eu tinha me tornado. Você me confidenciou que sofrera uma situação parecida, colocando sua identidade secreta em risco. Você foi o primeiro a quem procurei em busca de orientações para aplicar melhor meus dons...
- Exato. E no entanto decidiu me deixar de lado e seguir o mestre ninja que o tratava como um incapaz, que lhe ensinava na base da pancada como se você fosse um soldado chinês sem alma, que o obrigava a treinar todo o tempo, que lhe fez acreditar que sempre era melhor não sentir nada pelos outros, que era necessário ficar acima da humanidade...
- Você nunca entendeu, Charles. Você acreditava que bastava ter força de vontade e perseverança para chegar onde chegou. Sem o treinamento adequado com metas e constante evolução, não temos o guerreiro apto para enfrentar o crescente mal das ruas. Pessoas morreram quando eu decidi seguir seu caminho: a prostituta, o pai de Elektra [9]... Quantos mais teriam de morrer para mostrar a você que eu não tenho a sorte do Dr. Meia-Noite?!
Silêncio.
- Eu estava certo. Você não veio aqui para me dar os pêsames por Pieter.
- O quê...?
- Você tinha razão. Eu tive sorte. Elizabeth e Pieter não tiveram. Não basta força de vontade. Isto aqui não é nem nunca foi um passeio e só eu não tinha me dado conta. Eles morreram por causa de minha ingenuidade. VOCÊ E SEU MALDITO VIRTUOSO MESTRE STICK SEMPRE TIVERAM RAZÃO!!!!
Com um gesto extremamente rápido para um homem de mais de 80 anos, Charles pegou um peso de papel em forma de bola de cristal que estava em cima de sua mesa e atirou na direção da cabeça do Demolidor, que se esquivou no último instante.
- Charles... A culpa não é sua. Sua cabeça, sua forma de agir ainda é de quando você estava no auge, nos anos 40 e 50. O mundo era diferente naquela época. Você ficou no limbo com seus amigos lutando contra aquele demônio nórdico por mais de dez anos [10]. Não percebeu o quanto este mundo envelheceu, perdeu o viço, ficou menos inocente.
- Exatamente...!! – Charles recomeçou a chorar – E isso não tem perdão!!
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Mansão Dodds Museu e Memorial da SJA Sala de Reuniões Nova York
Assunto em pauta: discutir a posição oficial da SJA sobre a manchete do New York Post com a foto em destaque que mostrava a Canário Negro de costas, caminhando para dentro do Belmont Hospital, com o traseiro de fora [11].
- Desculpe Dinah, mas creio que não devemos fazer nada.
- Como não, Sand?! É a minha bunda que está ali!!
- Imagino o quanto isso deve ser constrangedor, Dinah... – Pela primeira vez em muitos dias, Sand sorriu. Ele desejava estar com sua máscara naquele momento para que não vissem seus lábios tentando conter uma risada que teimava em sair – Mas você saiu do hospital atrás do Oliver e do Ted desse jeito. Você não estava em propriedade particular, ninguém arrancou sua roupa para que saísse assim na foto. E você é notícia. Os repórteres não fizeram mais do que se espera na profissão deles.
- Eh, eh, eh... Deveria esta contente, Canário! – Afirmou a encrenqueira Lady Fantasma que, ao contrário de Sand, não fazia a menor questão de tentar esconder o quanto se divertia com aquilo – Pense bem: já passou dos quarenta e sua bunda ainda é capaz de vender jornais. Não e para qualquer uma! Ah, Ah, Ah!
- PARE DE FICAR FALANDO MINHA IDADE, SUA VACA! Isso não tem nada a ver com o assunto! E eu não sou alguém em busca do sucesso fácil para gostar de me ver exposta desse jeito!
- Dinah! Contenha os xingamentos ou você terá de deixar a assembléia! Isso vale para suas brincadeiras também, Dee!!
- Desculpe, Sand. Tem razão, me excedi... Acho que é a proximidade do casamento. Mas nossos advogados não podem fazer nada para que esse jornal e esse Jack Rider aprendam o que é se meter com a Sociedade da Justiça?
- Já falei com Franklin Nelson sobre isso. É claro que existem brechas na justiça para levá-los até a última instância e obrigá-los a pagar uma soma exorbitante de dinheiro para nós. Mas a questão não é essa.
- Qual é então?
- A questão é que seria errado. Como eu disse, você é uma celebridade e eles não fizeram nada ilegal. Ganharíamos porque temos ótimos advogados, que conhecem bem a lei para passar por cima delas e temos dinheiro para pagar por isso. E iríamos provar para eles que somos mais poderosos do que a justiça. É esse tipo de imagem que você quer passar para o público? Para aqueles que confiam na Sociedade da Justiça?
Um longo silêncio preencheu o salão e todos os presentes encararam a Canário Negro, que olhou de volta para todos e respirou fundo antes de responder:
- O.K., você venceu. Mas não significa que eu tenha de gostar disso. Tenho certeza que a mídia nunca vai me deixar esquecer que tiraram essa foto de mim. Aposto que ela irá ilustrar muitas matérias que fizerem sobre meu casamento.
- Também acho. Que isso sirva de lição e você seja mais precavida da próxima vez.
- Pode deixar. Mas meu caminho e do desse Jack Rider vão se cruzar de novo... E tenho certeza que a situação será bem diferente quando isso acontecer.
- Lançando uma maldição para o coitado, Dinah? – Lady Fantasma não conseguiu ficar sem soltar um gracejo.
- Não, estou falando de destino. O mundo dá voltas, Dee. Um dia da caça, outro do caçador...
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Belmont Hospital Auditório Nova York
Em geral quando algum dos vigilantes mascarados e superhumanos justiceiros que utilizavam o Belmont Hospital para se recuperar de seus combates ficavam internados, o auditório localizado no 3º andar se enchia de repórteres duas vezes ao dia. Eram os horários em que o médico que chefiasse o plantão ou algum assessor de imprensa apresentava o mais recente boletim médico dando as condições do ilustre paciente e respondendo dentro do possível as perguntas que eles faziam.
Esse ritual voltou a acontecer quando diversos membros da Sociedade da Justiça se internaram para se tratar, com variáveis níveis de gravidade, depois que a equipe enfrentou a mais nova versão da Sociedade da Injustiça. Como era de se esperar, com o passar dos dias a quantidade de repórteres que vinha para essas coletivas diminuía. Côo nenhum super-herói morria – apesar de alguns deles estar em estado grave –, novas notícias passavam a ocupar as páginas dos jornais e o interesse dos telespectadores.
Naquela segunda-feira, uma semana depois que os heróis foram internados, menos de meia-dúzia de jornalistas apareceriam para a coletiva daquela manhã. O primeiro a chegar, mais de uma hora antes do horário marcado para a leitura do mais recente boletim médico – como sempre fazia, aliás –, foi aquele que os funcionários do hospital – na realidade, quase todo mundo – consideravam o mais inconveniente de todos os repórteres de Nova York: Jack Ryder, um dos jornalistas mais polêmicos e de maior audiência da Rede Galáxia de TV, repórter especial do New York Post e colunista do Action & Detective Marvel, um dos portais de informações mais acessados da internet. Ele também era conhecido pelos debates acalorados no twitter com as mais variadas celebridades e nomes da comunidade superhumana, da política local e nacional e da lista de celebridades do momento.
Jack estava sentado em um das cadeiras da segunda fileira do auditório e se espreguiçara pela décima vez. Os seguranças presentes conversavam sobre o fato dele não ter ficado em uma das cadeiras da primeira fila por um único motivo: poder colocar os pés na espaldar da cadeira da frente, como se estivesse em sua casa.
- É... – Jack se levantou e ajeitou seu terno bem cortado e seu antiquado cabelo escovinha enquanto pensava alto – Vim mais cedo para a coletiva à toa. Não adiantou torcer para que algum desses supermanés quebrasse o tornozelo perseguindo o Galhofeiro ou ficassem entre a vida e a morte após cruzar o caminho de Galactus ou Darkseid. Essa vai ser uma manhã sem graça.
- Cale a boca, Ryder! Não estou nem um pouco a fim de ouvir sua ladainha hoje. – disse Ken Elis, repórter do Clarim Diário que havia perdido toda a paciência por ficar responsável pela cobertura dos eventos no Belmont Hospital por dois dias seguidos de vacas magras de novidades. – Vocês borboletas deslumbradas da TV me enchem o saco... Por que não continuou lá na Califórnia, do outro lado do país, em busca de mais uma fofoca envolvendo os Lanternas Verdes, em [12]?
- A inveja é uma merda, em Elis? Sei o quanto minha presença incomoda repórteres medíocres como você. Vai ganhar um programa na TV ou uma coluna em um grande jornal e volte para falar comigo. – Jack estalou os dedos e começou a caminhar para a porta – Vou caminhar um pouco e postar alguma coisa interessante no twitter que eu ganho mais.
Um dos seguranças deveria ter seguido Jack quando este saiu do auditório, para ter certeza de que ele não iria longe nem entraria em áreas de acesso restrito. Mas o repórter inconveniente esgotou a paciência deles logo no terceiro dia, após a quinquagéssima piada sobre vigilantes que não vigiam bem suas esposas ou namoradas. De comum acordo eles decidiram abrir uma exceção e observar o repórter quando ele se ausentasse da sala apenas através das câmaras de vigilância do hall dos elevadores, antes que algum deles cometesse um desatino. E Jack Ryder constantemente saía do auditório, antes de começar a coletiva, pelos mais variados motivos: postar no twitter, conversar pelo celular com fontes ou para confirmar informações, ir ao banheiro, fumar. Os motivos pareciam incontáveis.
Como Jack esperava, a vigilância sobre ele acabou relaxando. Não tinha como ter certeza mas, se conhecia bem seu próprio potencial de antipatia, àquela altura os seguranças mal deviam dar uma olhada em direção a câmara quando ele saía do auditório. Todos queriam ver Jack Ryder bem longe e isso era a sua maior arma em sua identidade mundana.
Ir todos os dias as coletivas do Belmont Hospital permitiu que Jack estudasse detalhadamente os horários das rondas dos enfermeiros e médicos do 3º andar, a rotina do pessoal de limpeza , o esquema de segurança e, principalmente, o posicionamento das câmaras de vigilância. Ele acreditava que tinha descoberto inclusive onde estavam as câmaras ocultas – ao menos a maioria delas.
Sendo assim, ele decidiu que aquele seria o dia em que iria agir.
O elevador acabara de subir e ninguém deveria passar por ali nos próximos dez minutos, a menos que surgisse uma emergência. Com sorte, os seguranças só iriam dar pela falta dele depois de uns quinze ou vinte minutos. Era tempo suficiente.
Jack caminhou pelo salão de forma aparentemente não premeditada enquanto parecia estar enviando mensagens pelo seu celular e parou ao passar por trás de uma grande pilastra, próxima a uma das paredes do salão. A seguir ele apertou com um polegar direito um dispositivo oculto sob a pele no pulso da mão esquerda. Uma nuvem de fumaça surgiu atrás da pilastra, fazendo surgir uma estranha e esguia criatura de cabelo verde e olhar insano, trajando um uniforme de cores berrantes. A seguir ele subiu pela pilastra, como se fosse uma lagartixa, se esgueirando pelo teto até o banheiro, enquanto evitava as câmaras. Uma vez no banheiro, ele penetrou por um tubo de ventilação onde, de tão estreito, nem um bebê devia ser capaz de engatinhar.
Mais uma vez o Rastejante passeava entre os mortais. E mais uma vez Jack Rider usaria seu alterado alter-ego para conseguir informações para suas matérias.
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Mansão Dodds Museu e Memorial da SJA Sala de Reuniões Nova York
Assunto em pauta: a situação dos pacientes de alta periculosidad" " do Hos" |