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John Constantine finalmente recuperou sua memória e descobriu um jeito de deixar o Asilo Arkham! Mas, para fazer isso, ele precisa conectar 13 assassinatos, de que foi acusado injustamente, com os crimes de... Jack, o Estripador!
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Já passava da meia-noite. John odiava os Estados Unidos e, mais do que tudo, odiava Gotham City. Aquela cidade desgraçada só podia ter sido cagada por um demônio! O grande problema com John Constantine é que um grande problema levava a outro. Já tinham se passado duas semanas desde que salvara o bebê de Proence e mesmo assim, mesmo assim alguma coisa o prendia àquela cidade maldita. Não era o Morcego, disso tinha certeza. Já o encontrara uma vez antes ¹ e ele parecera bem simpático. Encontrara uma segunda vez logo que chegara a Gotham ², mas nessa ocasião ele já estava bancando o fodão dono da rua. Não, não era o Morcego. Tinha alguma coisa no ar... Não propriamente no ar, mas era algo denso... Uma névoa rubra, que parecia dizer seu nome. O problema de passar tanto tempo lidando com espíritos é que, invariavelmente, você acaba perdendo o controle sobre o que ouve. Não era necessário fazer complexos rituais de invocação: os mortos simplesmente vinham até ele e falavam o que achavam que ele precisava saber. “Mas por que eu, caralho?” – perguntou-se John Constantine. Havia várias maneiras de se descobrir o que os mortos queriam. Uma, era perguntando diretamente. O problema é que os mortos que insistiam em prendê-lo em Gotham não pareciam estar em condições de conversar. Pareciam estar sofrendo. Presos no inferno. Presos em Gotham City, isso era algo que Constantine era perfeitamente capaz de entender. A idéia estereotipada que temos de magia é totalmente baseada no que a Igreja Católica acreditava que era magia na Idade Média. A verdade, claro, é muito mais profunda do que aqueles pedófilos poderiam supor. A magia muda. Não é a mesma ontem e não será a mesma amanhã. Qualquer coisa no ambiente podia ser corretamente utilizada para se conseguir alguma coisa. Uma lâmpada, por exemplo. Ela serve para iluminar, para destruir as trevas. As pessoas não se dão conta do quanto isso é poderoso e cheio de simbolismo. Ficam imaginando bruxas jogando sapos e escorpiões em um caldeirão. Isso não servia nem pra fazer sopa. Imagine, por exemplo, se a Terra tivesse anéis iguais aos de Saturno. Como nossos filhos cresceriam se, toda vez que olhassem para o céu noturno, vislumbrassem um arco luminoso de horizonte a horizonte? Eles cantariam as mesmas músicas? Pintariam os mesmos quadros? Sonhariam os mesmos sonhos? Escreveriam as mesmas histórias? Era disso que ele precisava. Um pouco de luz e de imaginação. Constantine foi até uma rua mal-iluminada de Gotham e se posicionou logo abaixo de um dos poucos postes de iluminação que ainda funcionavam. Ao seu redor, as trevas e a neblina impediam que enxergasse muito longe. Mas aquilo era o suficiente para distinguir as formas dos espíritos que tentavam falar com ele. “Onde vocês estão?” – perguntou, quase educadamente. A lâmpada piscou algumas vezes e, em sua mente, Constantine enxergou uma casa abandonada, em um distrito pobre de Gotham, praticamente abandonado desde o grande terremoto que assolou a cidade. Mas havia algo horrível lá. Algo que o chamava e clamava por respostas. Por vingança! “E lá vou eu”, disse John, “mesmo sabendo que vou me arrepender amargamente por isso.” O Mago Inglês encontrou a casa decaída que vira em sua mente. Era apenas feia e tinha sofrido bastante os efeitos do terremoto. Grandes rachaduras, vidros quebrados, portas e janelas pendendo, a pintura descascada e destruída pela umidade... E o cheiro da morte. Entrou na casa pela porta da frente, limpando os pés sem se dar conta de que ficaria com eles mais sujo dentro da casa. Vazia, coberta por pó e teias de aranha, com o assoalho podre e o teto ameaçando cair. Provavelmente, fora saqueada. Mas tinha luz na cozinha! Constantine foi até lá, com um terrível mal-estar golpeando seu estômago. A bile amarga subiu até a boca, mas ele estava diante de algo intrigante demais para ser deixado de lado. Era com ele que os espíritos tentavam falar. Seja lá o que estivesse acontecendo naquela casa, tinha a ver com ele. Havia uma pista aí. Algum indício do que lhe acontecera. Encontrou muito mais do que isso na cozinha da velha casa. Havia uma geladeira ligada, apesar de boa parte do bairro não ter mais eletricidade. Quando ele abriu a porta da geladeira, viu os restos de pelo menos três corpos. Teve um deja-vu. A psiquiatra, o psiquiatra, o negro. Sentiu uma navalha tocando sua garganta. De repente, estava de volta ao Asilo Arkham.
- Felix Faust... Os outros dois Jesus Christ - Lothar e a psiquiatra - correram até um canto da cela, enquanto o sangue jorrava farto do pescoço da vítima de Faust. Ele lambeu a navalha e olhou maliciosamente para Constantine. - Então, você me conhece... - Como não poderia conhecer a piada de mau-gosto preferida de nove entre dez ocultistas? Sabia que até o Vingador Fantasma faz piada de você? - E eu presumo que você se divirta bastante rindo de suas próprias piadas, Constantine. - Não levo muito jeito pra comédia. - Não. Não, não leva. Você é um bocado mais burro do que aparenta, e fácil de ser manipulado. Por um momento, eu pensei que você fosse escapar. - Não fui páreo pra você, não é mesmo? Qual o plano, Faust? O que você realmente pretendia matando todas essas pessoas? - Ah, uma coisa muito simples, John – ele disse, com um sorriso diabólico. – Fiz minha lição de casa. Pesquisei. Você já vendeu sua alma antes. Devia saber que há mais de uma maneira de se livrar de um pacto diabólico. Mais de uma estrada para fora do inferno. E eu descobri a minha... Jack. O Estripador. - Jack, o Estripador? Do que você...? - Você é cego, John Constantine. Em sua ânsia por fugir, veio parar aqui nesse lugar. Dentro da sua mente. Não parou para pensar, nem por um segundo, no motivo pra eu me tornar um assassino em série. Em 1888, quando Jack matou aquelas putas em Whitechapel, ele também estava tentando se livrar do demônio. Ele tinha vendido a própria alma... Ele... O Duque de Clarence... Príncipe Herdeiro da Coroa da Inglaterra! - O Príncipe Albert? Ora, vamos, Faust... Essa teoria já caiu há muito tempo... - Como todas as outras eventualmente caem e voltam à baila. Mas eu falei com o espírito de Albert Victor... Ele me contou tudo... Como matou cinco mulheres, de forma a desenhar um pentagrama com sangue que o protegeria de Lúcifer! Uma magia poderosa... Por isso Jack não cometeu mais nenhum crime depois de ter matado a quinta prostituta. Ele não precisava mais... Estava livre! Eu precisava disso, John... Uma magia mais forte. Algo que me protegesse do pacto que fiz. Eu descobri que poderia matar 13 pessoas e entregar um tributo ao diabo, alguém cuja alma ele quisesse. Bastava que a décima-quarta vítima fosse... Você. E, agora que eu finalmente o encontrei, vou matá-lo e libertar minha alma! - Tem um erro no seu plano, Faust, disse Constantine, calmamente. - Não há erro! Eu vou matar você! - Você não pode me matar aqui, tolinho. Felix Faust começou a olhar em volta. Aos seus olhos, aquele lugar parecia simplesmente uma cela do Arkham. Mas não sabia há quanto tempo estava ali, como tinha chegado ou mesmo o mistério de tantos Johns Constantines internados. - Quando você encostou a navalha no meu pescoço, naquele casebre imundo, eu me escondi. Conjurei um feitiço que dividiu minha alma entre todos os universos... Todas as realidades paralelas. O único lugar onde minha mente pôde compreender essa loucura foi aqui... No Arkham. Este lugar é um nexo, uma singularidade que não existe fisicamente. Você não pode me matar aqui. E não devia ter entrado na minha cela. - Do que você...? Constantine caminhou até ele e começou a espancá-lo. Não estava mais magro e cheio de hematomas, não tinha mais a cicatriz da navalha de Faust em seu pescoço. Estava usando seu velho sobretudo. E tinha jurado que alguém ia pagar por todas as surras que levou. Constantine contou cada soco, cada chute, e os devolveu a Faust. Depois, passou calmamente por ele, saindo da cela. Faust tentou segui-lo, arrastando-se pelo chão, mas não conseguia passar pela porta. Tentou golpeá-lo, mas seu braço nunca o atingia. - O que você fez?! - Você não é tão esperto quanto pensa, Faust. Cada vez que eu levava uma surra aqui, usava meu sangue pra fazer um círculo. Agora que você entrou, não pode mais sair. - Não! Você não pode... - Não só posso como já fiz. Não está nos meus planos ser assassinado pra livrar a tua cara. - Você disse que esse lugar não é real! Eu não posso estar preso aqui! - Pode sim. Afinal, ele disse, acendendo um cigarro, é justamente por não saber onde está que você está preso. Se você for tão esperto quanto diz, vai arrumar um jeito de sair... - Constantine, você não pode nos deixar aqui – gritou a Dra Christ. - Você nunca esteve aqui, doutora. Está morta. São de vocês os corpos que eu encontrei na geladeira desse maníaco. Seus espíritos foram manipulados para me atrair, mas tudo que queriam era minha ajuda. Hoje, eu libertei vocês. Faust se virou para ordenar aos espíritos que eles não falassem com John, mas eles não estavam mais lá. - John Constantine. Jesus Christ. JC. Deus, Faust... Você realmente se acha tão esperto assim? - Constantine, volte aqui! Não me deixe aqui, Constantine! Volte aqui! Mas ele não estava a fim de ouvir. Continuou andando lentamente pelos corredores do Arkham, olhando para dentro de algumas celas. Viu todos os outros Johns Constantines, de várias outras realidades. Todos os pedaços de sua alma que fragmentou com um encanto para escapar do golpe mortal de Felix Faust. O desgraçado teria matado todos eles, teria matado quantas pessoas precisasse para se livrar de sua maldição, mas para Constantine bastava acertar uma única vez e estaria fora. Qual daqueles era o verdadeiro? Encontrou um Constantine em um berrante traje colorido, uma “versão super-herói” de si mesmo. Um idiota que pediu para ser chamado de Jack Carter. Uma mulher que atendia por Constance Johnansen. Willoughby Kipling. Ambrose Bierce. Lady Johanna Constantine. Um escritor inglês de barba e cabelos muito compridos. Um mendigo. Um rei. Um brasileiro com sérios distúrbios de personalidade. Um artista de rua. Um alcoólatra. O filho bastardo de um soldado romano, criado como filho de carpinteiro. Até mesmo um John Constantine de cabelos pretos, morando em Los Angeles. Todos eles viviam ao mesmo tempo, separados por uma fina cortina de “realidade”, que todos nós conhecíamos, mas nos recusávamos a atravessar para ver. Ninguém gosta de deixar a realidade. Mas, como John explicara anteriormente para os médicos, a alma não é uma coisa só, concisa, coesa. É feita de fragmentos, um caleidoscópio de realidades alternativas e universos paralelos. O que John Constantine fez quando Felix Faust tentou matá-lo foi atraí-lo para o cerne de todas as realidades. Sua mente construiu um hospício para abrigá-los – afinal, estava em Gotham. E os espíritos dos mortos continuavam a torturá-lo. Finalmente, encontrou a si mesmo. Cumprimentou-se com um aceno de cabeça e então se deu conta de que estava de olhos fechados. Abriu os olhos devagar e viu-se no chão do casebre. Os corpos em decomposição na geladeira fediam. Felix Faust não estava mais lá. Estava em algum lugar entre as realidades, sem a menor idéia de como escapar. Mas talvez isso fosse preferível a ir pro inferno. Talvez Faust o agradecesse um dia. A navalha ainda estava no chão. Não havia marca nenhuma em seu pescoço. Ia escapar com vida. Resolveu não tocá-la e deixar o mistério para a polícia, ou para o Batman. “O Estripador de Gotham.” Soava bem. Deixou o casebre e foi direto para o centro de Gotham onde, de um orelhão, fez uma denúncia anônima. Para ele, pouco importava se seriam capazes de descobrir a identidade do assassino. Faust estava fora do alcance da Lei e ia ficar assim por um bom tempo. Até que ele encontrasse um jeito de deixar o nexo, teria aprendido uma importante lição. Você não livra sua alma entregando outra no lugar contra a sua vontade, não importa se é a alma de um condenado ou de um inocente. Não existe negociação. Não existe contra-proposta. Uma vez que você se fode sozinho, é sozinho que você tem de se livrar dos seus problemas. Faust era incrivelmente velho, era impressionante que não soubesse algo tão óbvio. Talvez ele nem estivesse em débito. Talvez fosse somente sua loucura. Constantine seguiu direto para a rodoviária de Gotham. Queria sair dali e pegar um ônibus para fora da cidade, embarcar num vôo e ir pra casa. Pra Londres. Onde as pessoas não eram tão idiotas assim. O que o pobre Felix Faust não sabia é que o príncipe Albert não era realmente Jack, o Estripador. Era apenas um pervertido com sérios distúrbios mentais, que morreu de sífilis impossibilitado de subir ao trono. John conhecia a história muito bem. Afinal, ouvira tudo do próprio Jack.
A Quadrim apresentou: John Constantine - Hellblazer Por Raul Kuk  São as Pequenas Coisas – Conclusão John Constantine criado por Alan Moore, com Steve Bissete e John Totleben
Na próxima edição, John Constantine se envolve na Guerra Final entre o Céu e o Inferno! Crossover com A Herança! ¹ - isso aconteceu na maxi-série Crise nas Infinitas Terras. ² - este rápido encontro foi em Hellblazer #15, aqui na Quadrim!
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