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Íris 03 - Prelúdio - Terceira Parte PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Larissa Moreira   
Sáb, 04 de Dezembro de 1999 00:00

O peso de um sacrifício paira sobre o destino da princesa amazona. Íris se prepara para a maior provação de sua vida, enquanto na busca pelo legado de sua mãe, deve fazer uma amarga escolha... E enfrentar seu maior desafio sob o fio da espada de Ártemis. No Mundo do Patriarcado, uma grande guerra germina e arde na fúria descomedida instilada por Ares, enquanto Themyscira prepara-se para apresentar aos céus a guerreira que cessará as tormentas dos mortais e colocará fim aos intentos do deus da discórdia...


 

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Mundo do Patriarcado

Um faisão tremula no centro da bandeira multicor, onde o azul, o branco, o verde, o vermelho e o preto buscam se harmonizar de alguma forma, sob os olhos dos homens que fitam o estandarte com orgulho. No brasão, aos pés da ave, está escrito “Bismi-Takhaafi”, que significa “Não tenha medo”.

Uma esquadra de aviões Stealth lança-se sobre o céu cinza israelense, cortando as nuvens encardidas e carregadas de uma tempestade que ameaça pairar sobre a cabeça dos milhares de soldados fardados de amarelo ocro camuflado, estilo guerrilha no deserto, que marcham solenes para a batalha numa sinfonia suja de guerra. Alguns homens, serenos, desfiam rapidamente trechos decorados do Alcorão, como fiéis pedintes por vitória a um deus surdo. Outros apenas marcham, carregando na face, no lugar dos olhos, dois faróis rubros a olhar com firmeza para o horizonte que os espera, onde paira o sol turvo no fim da tarde, e as incertezas que as curvas do mundo nos despertam. Desfila sobre aquela terra pobre e árida do Oriente Médio a trindade mundana: Homens, suas almas banhadas de cobiça e ódio, e suas armas.

Logo atrás caminha a legião de bestas. Soldados transformados em máquinas mortíferas orgânicas. São meta-humanos remanescentes de um projeto falido que todos acreditavam ter sido extirpado, mas escoou para as mãos erradas, se espalhando como um vírus, e contagiou as mentes certas.

Basta um terreno fértil para germinar a pequena semente da guerra, e não há solo mais propício para tal que a mente de milhões de famílias passando fome, sede e dor; milhares de crianças e jovens que crescem sem conhecer o rosto de seus pais e lembram-se apenas dos nomes, pois esses estão espalhados por toda parte nos jazigos e placas memoriais em homenagem às baixas de guerra; nas almas de mulheres cujos maridos e filhos foram arrancados de seus seios, de seus carinhos e cuidados da mesma forma como se corta uma árvore ao meio, extrai seus galhos, suas folhas e frutos, e a deixa jorrando a seiva que não mais poderá alimentar. Todo um cenário feio abaixo dos céus, sob o paraíso inatingível onde os anjos dizem amém e os deuses aguardam sentados, imunes e inertes, enquanto seus filhos queimam no ardor da peleja, justa ou injustamente. Esses homens precisam de um deus, de um general que faça romper a fúria encarnada, que desperte a insanidade adormecida em nosso juízo, e lance sobre essas vidas sofridas o doce veneno da liberdade e de glória.


Íris de Themyscira
Prelúdio – Terceira Parte


Por Larissa Moreira


Ares, o general de toda guerra bruta e insana. Suas pupilas não se contraem; ele fita firmemente o alvo de seus planos: desta vez uma jovem amazona, de pele tão macia como os primeiros pêssegos do outono.

Os olhos de Ares ardem em chamas da mais pura ira e desejo. Mais que chamas, se vistos de perto como agora Íris os vê, ela percebe que, ao mesmo tempo, são frios e secos. O olhar da guerra é visão de terra árida esbraseada.

Bosque da antiga tribo Bana-Migdhal

“Ele mente”, pensou, segundos antes de dobrar os joelhos, “É o mais ardiloso dos deuses”. Indagou-se estar certa em meio ao emaranhado de interrogações que vieram a se chocar em sua mente. Decidiu ignorá-las. De todas as incertezas, o beneficio da dúvida parecia o certo. “Por Hera, que seja!”

- Estou pronta para me unir a você. Diga-me o que tenho que fazer e farei, em troca, indica-me o caminho até ele.

Íris está de joelhos ante Ares. Sente medo, repulsa. Curvar-se para Ares, o algoz das Amazonas e deus da guerra genuinamente instintiva e desordenada, não é para uma Themysciriana um sinal de louvor e, sim, rendição. Portanto, rende-se. Ainda que esteja se rendendo mais a si mesma que ao próprio deus.

Tudo que Íris queria eram respostas. Mais que a verdade oculta na teia de mentiras em que se sente presa, Ares lhe apresenta a liberdade.

Quando Íris se levanta e o encara novamente, vê sua própria liberdade nos olhos ardentes do deus; uma liberdade insana, impetuosa, incessante. Sente a adrenalina correr por suas veias como um cavalo alado desenfreado, louco para voar. Seu peito pulsa como se houvesse ali dentro um grito abafado de angústia prestes a se soltar. De súbito, lembra-se de sua avó; das omissões que a envolve numa redoma intrincada arquitetada por mentiras, e a ira queima de seus pés à cabeça, como nunca.

- O que estou... O que está acontecendo...? – indaga assustada com as reações de sua mente e corpo após o gesto de curvar-se ante o deus.

- É a ira. Ela está transbordando de seus desejos mais profundos. Aqueles desejos que foram calados e ignorados, e que agora sua raiva os desperta. - Ares sorri, e seu sorriso tem sempre o tom de escárnio.

A fúria tem o calor do fogo, arde, mas não queima, e, incrivelmente causa deleite. Mas, aos poucos, atordoa e sufoca.

- Não quero me sentir assim. Tire-a de mim! – grita Íris, ofegante, com os punhos cerrados, prestes a se atirar para cima de qualquer criatura que se ponha a sua frente. Seus olhos perdem o brilho inocente da juventude e escurecem. Ela inclina o corpo para trás, com a perna esquerda arqueada impulsionando com força o pé sobre o chão, como para alçar-se num golpe severo contra Ares. Talvez não necessariamente Ares, mas estava perdendo as rédeas de sua ira e uma força descomunal a induzia a lutar. Num ato de rasa consciência e força de vontade, Íris ainda consegue enfrentar toda essa energia dentro de si – Eu ordeno! – seu violento grito de fúria ecoa por uma extensa área da mata, provocando o revoar das aves assustadas.

Em um gesto do deus de estalar os dedos toda aquela crescente sensação se esvai. Íris suspira fundo, sentindo o ar entrar suavemente, não tão afobado. Recupera o controle sobre sua força, sobre seu poder, sua energia. Recompõe-se ereta, fitando o deus.

- Foi apenas uma demonstração do que posso lhe proporcionar jovem amazona... Eu pude sentir todo seu potencial e lhe ofereci apenas o que faltava para abrasá-lo. Mas, você ainda não está preparada para controlar a chama não é mesmo?... – Íris assente com a cabeça, ainda recuperando o fôlego – Já lhe mostrei o que queria ver, agora posso levá-la onde estão as respostas.

- Quer um preço mais alto que ofereci, me ajoelhando aos seus pés? – insulta.

- A verdade tem seu preço, minha cara, é o sacrifício.

- E por onde começamos? – arrebata Íris, com o cenho rígido.

- Quero que fique ciente dos planos de Hipólita... Vou mostrar-lhe o que mais ela esconde de você.

As chamas mágicas envolvem aos dois, transportando-os quilômetros à dentro, na Ágora de Themyscira.


As amazonas se unem e se organizam, como numa majestosa sintonia no trabalho, intrínseca da essência feminina. Algumas, que deixam de lado seu manto de guerreira enquanto Themyscira está em paz e executam apenas funções de limpeza e arrumação, cuidam dos preparativos para a festa que celebrará o aniversário de sua princesa e comemorará a vitória da mais apta guerreira do torneio themysciriano. Outras se preparam para o torneio, forjam suas armas, lustram suas armaduras, afiam as pontas das lanças, bordam bainhas para as espadas, ensaiam, treinam, suam... Em poucas horas, devido à fantástica agilidade dessas mulheres, já se pode ver o Coliseu de Themyscira adornado magnificamente com flores, cortinas vermelhas e luzes.

- Será uma bela festa! – exclama Ártemis caminhando pela estrada que leva ao palácio, ao lado da rainha.

- Sim... Como há alguns anos atrás se lembra? Duas vezes, essa é a terceira... Uma vida diferente e as coisas parecem se repetir... – os olhos safira de Hipólita cintilam um brilho suave, mas logo tomam novamente a aspereza natural.

- Como vai contar a ela?

- Tenho dúvidas sobre isso, mas juro que não cometerei o mesmo erro, como eu cometi com Diana. Sei que ela não irá obedecer... Você a conhece melhor que ninguém, Ártemis! – uma pausa – Confesso até que a invejo por isso... Por conhecê-la melhor que eu. – afirma a rainha, com um sorriso ligeiro no canto da boca.

- Não creio minha rainha. – Ártemis se incomoda com o comentário, pela pura razão de seu respeito inabalável pela rainha, apesar de no âmago sentir-se profundamente lisonjeada.

- Íris não participará, por Zeus! Nem que tenha de mover o céu para impedir! Que os deuses me perdoem por isso!

- Não será necessário, Hipólita, mesmo que a princesa insista, não passará da primeira prova sem ser descoberta. Seus poderes irão emergir de imediato e a desmascaremos instantaneamente. Íris ainda não é capaz de controlá-los. – assegura a amazona, convicta.

- Assim espero, mas não me asseguro disso. Por Atena que eu esteja certa! Presumo que tomarei medidas das quais me arrependerei amargamente. Medidas que deveriam ter sido tomadas anos atrás numa outra era, e que agora tomarei sem hesitar, se o preço a pagar não for maior que a segurança de minha neta.

Ártemis fita os olhos azuis de Hipólita para inspirar confiança à sua rainha, a quem deve a lealdade, ainda que a queira tão bem que chegue ao ponto de se questionar até onde poderia ser leal, especialmente quando, ou, se a rainha estiver errada. Tenta enxergar a mulher que está diante de si, se é uma avó zelosa, uma mãe frustrada ou uma rainha que anseia acima de tudo o bem de todo o seu povo. Só lhe compete aconselhar quando necessário. Hipólita não precisa dizer que é a rainha, e Artemis já sentiu a liderança à flor da pele para saber o que isso significa. Assim, apenas concorda quando a rainha conclui:

- Íris deverá ser contida.


A imagem termina quando Íris diz “Basta”, e as figuras de sua avó e Ártemis caminhando para o palácio esvaem-se com o vento. Assim como Íris viu a verdade sobre seu passado diante de seus olhos numa mágica bruma criada por Ares, ela acaba de ver as mentiras que ainda envolvem seu presente na mesma nébula. A definição sobre a verdade que levará para toda a vida, Íris conhece agora mais que ninguém: ela é ao mesmo tempo concreta e sólida, como tênue e frágil.

- Como ela pôde me esconder tudo isso? – contesta a princesa, amargamente contrariada – Seus planos... É como se eu não fizesse parte desse lugar, não fosse uma delas...

- Você não é uma delas, minha cara, é mais do que qualquer uma delas pode ser! E é por isso que insisto em auxiliá-la, em guiá-la para que enxergue tudo o que merece ver. – encena o deus da guerra.

- Não é justo... Não foi justo com a minha mãe! Hipólita – pela primeira vez deixa de se referir a ela como avó ou rainha – pensa que pode exercer domínio sobre nossas vidas, sobre a minha vida, e eu não vou deixar! Ela não é senhora do meu destino... E minha decisão está tomada. Quem vence o torneio parte para além dos limites da ilha, não é, Ares? O Mundo do Patriarcado...

- Exatamente. Mas, se deseja vencer o torneio, deverá renegar seus poderes. Tu não sabes controlá-los, não controlas tua fúria... Imaginas o estrago que causaria à suas irmãs, à sua família amazona?

Íris abaixa os olhos por um instante. Seu olhar caminha do chão até suas mãos, estendidas. Fita os traços das palmas e em seguida cerra os punhos. Sente sua energia, sua força. Sabe que seus dons são uma maravilha, mas até que ponto eles se faziam necessários à sua vida? Há muito mais a se perder. Lembra-se que esse poder não vem dela, não pertence a ela.

Se ainda alguma vez houvesse tido a chance de experimentar seu poder com algo que lhe desse sentido, doeria mais ter de abdicar de seus dons.

Por que razão os deuses lhe concederiam dons extraordinários? Para fazê-la à sua imagem e semelhança? Para lhe destinar o trono de um reino de guerreiras perdidas no tempo? Seria uma dádiva ou maldição? Seja qual for seu destino, terá que se sacrificar de alguma forma para encontrá-lo.

Ergue o olhar, firme e decidido. Fala aos céus sem esperar por resposta:

- Que os deuses, em sua ínfima sabedoria, compreendam minha atitude de negação e me perdoem um dia. Do contrário, seguirei meu destino mesmo sem a sua proteção...

- Renegue! – impera o séquito Ares – Esquecestes que também sou deus!

- Eu renego... Renego meus dons divinos!

Há uma firmeza sóbria em seu olhar, e ao mesmo tempo um sorriso alheio, profundo, no fundo, quase impercebível, mas está lá, no centro do mar azul que deságua em seus olhos. Um sorriso de conformidade. É duro abrir mão de uma dádiva, e parece covardia, mas não é. É, pois, um ato de mais fina coragem. O sacrifício acontece na vida de quem menospreza o medo da incerteza e engrandece seus ideais.

Um feixe de luz nasce nos limites visíveis do céu e desce em linha reta até tocar o chão, contornando um círculo entorno dos pés de Íris. Seus cabelos balançam violentamente e sua face se vira para o céu. O ar se agita ao redor e toma a forma de um redemoinho, em pequena proporção, levantando terra, arrancando grama e formando uma trincheira de poucos centímetros ao redor da princesa amazona. É tão rápido que Íris não sente a magia dos deuses secando seu corpo da mesma energia que um dia lhe foi agraciada. Mas a consciência não falha, nela Íris sente a dor do sacrifício e o peso da ingratidão.

Seus dons divinos escoam de volta para o leito, os deuses a ouviram, mas nada disseram.

Súbito, a cúpula de luz se esvai e ela cai ao chão, exausta sob o silêncio dos céus.

- Agora você é um pouco mais... “Mortal”...

A princesa agarra um punhado de terra com a mão direita e se ergue. Não sente mais aquela energia viva que a terra lhe proporcionava. Abre um sorriso sutil no canto da boca, o que forma uma delicada covinha em sua bochecha maçã. É um sorriso de esperança, tão suave quanto determinado.

- Eu sou o que preciso ser. Agora não detenho mais a força da terra, nem a velocidade de Hermes, nem a sagacidade de Atena... Mas ainda sou uma amazona. Uma espada e um escudo são tudo que eu preciso agora.


Mundo do Patricarcado

A sala é iluminada parcialmente por uma única luminária contorcida sobre um amontoado de papéis e ficheiros espalhados pela mesa. O notebook do general ligado, transmitindo imagens ao vivo da guerra entre seu exército e a organização terrorista Bismi-Takhaafi, que há um tempo ascendeu à governante do coração árido da Ásia. King Faraday reservou um tempo para trancar-se no silêncio da sala de arquivos, o local ideal para se esconder das reuniões as quais sua carreira o impunha nesse momento. Ainda assim, levou consigo o laptop; não pode se desligar da realidade nem para fumar um cubano, Monte Cristo. Sentado sobre uma poltrona velha, cercado por cofres e armários escaninhos que guardam, arquivados, segredos sobre o mundo, Faraday mergulha em seu próprio passado, de ideais, vitórias inesquecíveis e erros inapagáveis. Deseja cruelmente sofrer de Alzheimer! Culpa e remorso, mesclado ao incansável tempo, tingiram com velocidade todo seu cabelo de branco, e riscaram rugas na sua face amargurada. Devia relaxar-se porque essa guerra virou rotina e não se compara ao terror maior que a humanidade já enfrentou e sobreviveu. Desde 2009, guerras mundiais atingiram um nível de freqüência impressionante. Antes da terceira, um sábio cientista havia dito que a quarta guerra mundial seria à base de pedras e paus. A um palmo para que a quinta estoure, os recursos tecnológicos em armamentos crescem numa velocidade nunca antes conseguida, talvez nem imaginada. Einstein estava errado, mas errou apenas na conta.

General Faraday está de saco cheio dessa rotina. Antes de se aposentar, e especialmente antes que a loucura da guerra o tome por inteiro, pretende findá-la a qualquer custo como seu último ato de honra.

Ainda assim, ou possivelmente por culpa da idade, ele questiona o princípio de que os fins justificam os meios... Anos atrás, Israel se tornou o centro da cúpula terrorista Bismi-Takhaafi, encabeçada por seu ditador, Vandal Savage. Controlando toda a rede do mercado negro internacional, a organização roubava, clonava e replicava tecnologia e armamento dos países mais ricos do mundo, crescendo e se expandindo de tal forma, que todo o Oriente Médio era então monopolizado pelo terrorismo de Savage. Seu poder político, econômico e bélico rivalizava com o mundo todo. Bismi-Takhaafi era uma erva daninha se espalhando pela Terra.

A organização chegou a entrar em choque com a Liga dos Assassinos, cuja proximidade territorial de suas cúpulas terroristas era senão irônica, absurda, e não podia ser mantida. Savage instaurou seu poder com facilidade, usando da tecnologia para banhar o povo de esperança, tal como se fizesse chover maná no deserto. Mas seria subestimar o demônio, pensar que o déspota se limitaria a presentear o povo que passou a chamar de seu.

Quando uma fresta temporal trouxe de volta Krypton – a majestosa fênix que renasceu das cinzas – e sua raça ousou tentar tomar a Terra, seus maiores heróis deram o sangue pela vitória e morreram, deixando o mundo se reerguer sozinho. Porém, conter uma catástrofe só faz atrasar a próxima, que virá em maiores proporções. O Governo Norte-Americano criou então um grande tecnopólo de segurança de primeiro mundo através do Departamento de Assuntos Meta-Humanos (DAM) em conjunto com a S.H.I.E.L.D e as multinacionais Stark, Wayne e Star. Desenvolveu-se o programa “Justice”, que praticamente era a criação de um grupo de soldados meta-humanos, gerados através da combinação de DNA humano com os genes dos maiores heróis da terra mortos anos atrás. A princípio, o projeto visava à proteção e defesa das nações. Mas super-heróis remanescentes sublevaram-se, indignados com o maculo aos seus predecessores e antigos aliados, e quando souberam do programa, invadiram e explodiram todos os laboratórios envolvidos, ulteriormente destruindo os protótipos. Eles só não esperavam que o projeto houvesse escoado para o mercado negro e caído nas mãos do poderoso Savage.

A pedra filosofal estava então nas mãos dos Takhaafis, que alicerçaram a base para o desenvolvimento do extraordinário programa de defesa americano roubado por Savage, nos arredores da capital santa, Jerusalém, sobre as Colinas Judéias. No curso da História, Jerusalém foi destruída duas vezes, sitiada 23 vezes, atacada 52 vezes, capturada e recapturada 44 vezes... Que diferença faria para o mundo agora? Milhões de vidas destroçadas para justificar o fim de um tormento maior, como lixo reciclado, Jerusalém foi reduzida a pó. Poeira que o vento vindo do Mediterrâneo carregou para o paraíso, onde a cidade sagrada enfim descansaria eternamente, assim como a fé de seu povo.

A bomba-H, a “Messias”, com potência maior que 150 megatons, inédita, porém utilizada sob o mesmo antigo pretexto de cortar o mal pela raiz. Objetivo: destruir toda a base de desenvolvimento científico, tecnológico e bélico dos Takhaafis. Conseqüência: O coração da Ásia sangrou. King Faraday não pode se esquecer do dia em que as suas palavras pronunciaram a ordem para a detonação. Como ele pôde depois disso, se ajoelhar diante de um altar? No entanto, não se faz paz sem guerra.

Ao contrário do que esperavam, a explosão da bomba não foi capaz de destruir os corpos dos soldados meta-humanos. E sim, a radiação penetrou em seus genes sobre-humanos, modificando-os lentamente dentro da auréola de fumaça e destroços que envolvia a região destruída, e despertando-os como monstros, bestas super-poderosas, controladas, replicadas e organizadas como os maiores soldados que o mundo já conheceu. A Legião de bestas Takhaafis que essa noite se prepara para atacar os culpados por tudo isso.


Copa da Casa Real Themysciriana

Um brinde, e o estalo do impacto entre os cristais é o único barulho ouvido no palácio a essa altura. Hipólita ergue a taça e toma o vinho num único gole, enquanto Ártemis delicia-se com goladas esparsas durante a conversa.

- Uma esfinge veio em nome de Atena avisar que Ares já está executando seus planos contra o Patriarcado.

- Sabe-se o alvo direto?

- O que sabemos é que ele está se aproveitando do abandono dos deuses ao Mundo dos Homens e abrindo as garras. Zeus teme esse intento, por isso nos pede que elejamos sua representante contra o seu filho, o deus da discórdia, mais uma vez.

- Por que nossos deuses não descem do céu e fazem o serviço? – ri Ártemis, exaltada com a bebida; os vinhos de Themyscira são sempre mais fortes.

- Ah... E desde quanto nossos deuses ousam sujar suas mãos?! No máximo puxam as cordinhas presas aos nossos membros quando vêem que fomos além do que queriam!

Risos.

- Vamos então limpar a sujeira.

- Os deuses largaram o Patriarcado e temem que Ares pegue para si o que foi achado perdido. Aliás, novamente uma amazona na terra dos homens será útil. A embaixada não deve ficar apenas sob as suas costas, Ártemis, e nas mãos da velha Helena... O prédio está caindo aos pedaços, o museu fechado há anos e quase não estamos presentes nas reuniões das nações... É necessário que saiamos da guarda e voltemos a participar na ativa. O mundo anda conturbado, se esconder já não faz mais o mesmo efeito.

- Sobre o torneio... Há uma movimentação entre as mulheres. Estão dizendo que vão vetar a participação das banas por sua fortuita demonstração de excessiva violência.

- Impossível! As banas-migdhalins sempre estão onde o circo pega fogo! Além do mais, elas são como qualquer uma de nós. Já não há limites entre nossa relação. Diga a todas as responsáveis pela balbúrdia com as banas que sua rainha institui a participação genérica, todas as guerreiras deverão participar. Themyscira não é lar para a descriminação de qualquer espécie! Aliás, Shayane, ex-bana, tem se mostrado a mim como a mais apta...

- Creio que todas nós sabemos quem é a guerreira mais bem preparada para vencer o torneio, minha rainha...

- Não toque nesse assunto agora.

- Perdoe-me, rainha... Estou sendo sincera. Íris é a melhor guerreira que podemos oferecer. E não é pelo sangue que corre em suas veias. Ela fez por se tornar a melhor de nós, a mais bem preparada...

- Ela é só uma jovem confusa. Não tem maturidade para-- Ora! Você mesma já cansou de reclamar aos meus ouvidos quantas vezes ela negligenciava o treinamento. E não quero que ela confunda as coisas, não sairá nenhuma “Mulher-Maravilha” dessa ilha; o torneio elegerá a escolhida dos deuses, uma amazona que será agraciada com dons divinos para enfrentar a insanidade de Ares, e para nos representar no mundo além da costa.

- Não é irônica a semelhança? E Íris está passando por uma fase difícil, ela não é uma de nós, ela não é tão forte como nós, tem as fraquezas dos homens, dos mortais...

- Nunca mais repita que ela não é uma de nós! Íris é a herdeira desse trono e a sua futura rainha!

Silêncio e as duas se entreolham com cenhos cerrados. A rainha se lembra:

- Deixei aberto o portão da sala das armas. Vá lá e verifique que nenhum armamento foi extraviado.

- Sim, minha rainha.


Sala das Armas

Íris olha ao redor do interior do imenso salão. Ela havia entrado ali algumas poucas vezes ao lado de Ártemis, para conhecer e aprender o manuseio de diversos estilos de armas das Amazonas. Mas as armas mais poderosas não lhe eram permitidas nem para o toque, antes que completasse sua maior idade e seu treinamento. Especialmente as armas que foram usadas por sua mãe. Estas ficam expostas ao lado do trono de Atena, e servem para lembrar a maior guerreira amazona de todos os tempos.

Junto às armas estão também o uniforme e a armadura de Diana, ao fundo do salão, na parte mais alta da parede de mármore revestida em adornos de ouro. Um tapete vermelho imponente a leva direto ao altar de Atena, onde, sobre o último degrau, encontra-se um baú dourado entreaberto, que guarda uma espada e um escudo, ambos forjados em ouro.

Íris continua a caminhada até o fundo do salão; nas paredes há, além de lanças e escudos, telas de pinturas de amazonas que morreram em guerra. No centro, obviamente, a maior de todas as telas, a imagem de Diana enfrentando uma górgona. Abaixo da imagem os escritos: “Diana enfrenta Medusa”. Há tanto tempo Íris não vai a este lugar, que tão pouco se lembrava desses escritos, talvez porque, a última vez que fitou essa pintura mal sabia ler e, das vezes que entrava lá, apenas seguia sua mestra em suas instruções e não reparava ao redor.

Agora, reparando bem, sente o peso de seu legado e um pensamento aterrador vem a sua mente: Será que é capaz de sustentar esse “fardo”? O pensamento desaparece quando Íris é atraída por uma estante de madeira abaixo da tela de Diana.

Ela toca na espada. Sente seu metal gélido. Retira-a da bainha bordada de estrelas, e a impõe em sua mão direita. Os contornos da empunhadura desenhando uma águia confirmam que a espada pertenceu a sua mãe, como se Íris ainda duvidasse disso ao ter a ousadia de tocá-la. É linda, pensou, e imaginou quantos seriam os feitos dessa arma, quanta honra ela representa. Acima, viu o escudo que Diana certa vez ganhou de Zeus após derrotar a Medusa... Mas nada a seduzia mais que a espada em suas mãos, como se fosse um presente deixado por sua mãe.

Estava ébria de pensamentos sobre Diana, até que uma voz familiar rompe o ar e a desperta do devaneio.

- É esse o presente que desejava ganhar aos 18 anos? Que eu saiba sua nova aurora ainda não rompeu...

- Ártemis! – exclama Íris assustada e um pouco incomodada com o flagra.

- Essa era a menina dos olhos de Diana. Foi forjada pela própria Atena e representa o equilíbrio entre o instinto guerreiro e a sabedoria. Acho que nunca lhe disse isso, não é mesmo? – a guerreira caminha para perto da princesa.

Íris assente com a cabeça, ressabiada com o comentário de Ártemis, sua mestra que lhe proibiu expressamente tocar nessa arma, entre outras. Agora, porém, até mesmo Ártemis compreendia o direito de Íris; direito ao legado de Diana. Íris está se tornando uma mulher, assim como Diana foi um dia criança.

- Ela é mais pesada que as outras, as quais você está acostumada a manusear. – afirma Ártemis.

Realmente Íris sente o peso da espada, afinal está agora sem poderes. No entanto, devido ao êxtase do momento, se esquece até mesmo dessa sensação. A princesa aponta a arma para baixo, nervosa, enquanto Ártemis retira a sua espada da bainha e a empoe dizendo:

- Talvez precise de treinamento para ajeitar-se ao uso da arma de sua mãe – arrebata a mestra de cabelos curtos ruivos como o Sol do entardecer.

Com um ligeiro sorriso capcioso no canto da boca, Ártemis surpreende a princesa aproximando-se veemente com velocidade e espada em punho, e Íris só tem tempo de se esquivar do golpe ávido em sua direção, fazendo-o atingir a estante na parede. O golpe resulta em um trinco sobre a terceira prateleira de madeira, de onde caem ao chão uma lança e duas facas pequenas.

A ruiva se recompõe soltando a lâmina que se prendeu à estante, enquanto Íris, às suas costas, toma postura de defesa.

“Ártemis me atacou com fúria e abaixou a guarda. Ela não atacaria desse modo se não quisesse errar; espera que eu a ataque pelas costas: atitude indigna de uma guerreira.” – examina a atitude da mestra, em silêncio, à espreita. Antes mesmo de tentar indagar o porquê do ataque, já o entende. É um teste. Apenas um tempo depois há de perceber que essa fora sua derradeira lição amazona...

Tão rapidamente quanto da primeira vez, Ártemis se lança sobre Íris, agora sem a vantagem da surpresa, pois Íris a aguarda, serena, porém, com olhos árdegos e punho firme.

As espadas retinem no ar e luzem de um brilho intenso. Íris fita o olhar da mestra. Não vê ponta de compaixão naquelas pupilas esbraseadas e logo sabe que Ártemis não cederá e não errará propositalmente como no primeiro golpe. Então analisa, examina, experimenta cada lance. A princesa não está em vantagem, depois de ter renegado seus poderes. Ainda assim, o duelo permanece equilibrado.

Ártemis nada diz também. Seu olhar já diz tudo. Não é o olhar seguro com que batalha com inimigos nem com o que fitou a sua pequena aprendiz anos atrás, em seus pequenos passos de guerreira, quanto ela tampouco sustentava uma espada em punho. Há uma ponta de receio em seu olhar verde de floresta, pois aquela garotinha graúda, delicada e teimosa, estava realmente se fazendo uma guerreira. E é apenas o começo...

Os corpos feminis dançam pelo salão das armas, uma valsa de guerra, rubra, rígida, oposta. Mesmo que em confronto as duas se harmonizam. Seus golpes se completam e se equilibram. Chega o ponto em que a aprendiz alcança sua mestra.

Íris desfere um lance com vontade sobre a ruiva, fazendo-a titubear sobre o canto lateral do estrado de meio metro de altura à beira da escultura de Atena, no centro do salão. Abaixo de seus pés que se equilibram há um degrau. Mais uma vez a princesa se lança com gana, e dessa vez Ártemis se desequilibra e cai.

Ergue um pouco as costas do chão, curva, para sustentar a espada sobre o corpo protegendo-se de mais um golpe. Seu rosto derrama suor enquanto força a defesa sob a lâmina de Íris. As gotas percorrem um surpreendente sorriso seu, seguido de algumas palavras que Íris ouve de relance, antes de ser ela a vítima, pelo impulso dos pés de Ártemis sobre seu tórax em meia-lua, que a faz cair por trás, de dorso no chão.

- Não force o ataque com o punho deixando o tórax vulnerável. Equilibre a força!

Caída ao chão, pisca os olhos e sente a falta da arma em sua mão direita.

Ártemis a encara de cima, as duas espadas na mão apontadas para ela. Pensa rápido. Na fração de tempo em que uma das lâminas corta o ar seguindo a rápida trajetória até seu corpo, Íris rola para o lado e agarra as duas mãos à lateral do tapete vermelho que se estende pelo chão no centro do salão e termina aos pés de Atena. Ela o suspende e o puxa para cima de si a tal altura de seu corpo que seus braços ficam esticados. O material é pesado e resistente; couraça de algum grande animal que, após ser retirada e tratada, fora tingida do mais imponente tom de vermelho. É com esforço e agilidade que Íris o sustenta, para ganhar o tempo necessário de se reerguer e virar o jogo. Arrasta-se um pouco para trás, empurrando seu corpo caído com os pés calçados de sandálias, enquanto uma fresta se abre sobre o tapete em suas mãos, revelando o fio da espada amazona de Ártemis.

Com sagacidade, Íris se contorce para o lado esquerdo e puxa de uma só vez o tapete de couraça, onde a lâmina jazia agarrada sem que Ártemis tivesse tempo de perceber. A espada retine, dança sobre o chão e cai a uns três metros longe de onde Íris se ergue, antes que a outra arma em posse de sua mestra chegue a lhe atingir.

A princesa recua e vai de encontro ao escudo onde jaz a cabeça entalhada da Medusa. Por azar, ele fica na direção oposta onde sua espada foi lançada. Ainda assim o pega e o segura contra o peito, sua alternativa, enquanto Ártemis avança novamente. Recua um tanto mais até pisar sobre faca, a mesma faca das duas que haviam caído ao chão com o primeiro golpe de Ártemis que acertou a estante.

Bate com o escudo sobre a lâmina da ruiva em movimentos laterais para desconcertar a firmeza dela no punho, e agacha até alcançar a faca. Cai novamente, dessa vez num impulso voluntário contra o chão, tendo o escudo sobre si. Protegida, acomoda a faca de dois gumes numa pequena bainha costurada no espartilho de couro, sobre sua coxa. Enquanto Ártemis, incansavelmente, a golpeia outra vez, Íris impulsiona o escudo para baixo e em seguida para cima, fazendo-o atingir em cheio a empunhadura da espada da mestra.

Mais uma lâmina cai e rodopia no chão. Enquanto Íris se levanta e larga o escudo, Ártemis a encara, surpresa com sua astúcia. Elas se entreolham: a sala está cheia de armas. Mas agora não há lâminas, nem fios, nem gumes. É braço a braço.


Um trago. E uma luz ardente surge no recinto, tomand" " a form"

Última atualização em Qui, 02 de Dezembro de 2010 23:02
 

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