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Aquaman 03 - Mercy Reef: O Príncipe Cai PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Laion Sobrinho   
Qui, 02 de Dezembro de 1999 00:00

Era como um coral gregoriano, cantado não por gargantas humanas, era um som familiar... como o de uma baleia ou golfinho. Começava como um sussurro, e crescia em intensidade até alcançar o clímax com um gemido de dor e pranto. Parecia o chorar de uma carpideira, ou dezenas delas. Era um pranto em uníssono, um prato dos próprios deuses, o que mais houvesse. Era como infinitos sinos dobrando em uma profusão de martírios.

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Capitulo Três: O príncipe cai
Quando Anne termina seu flash-back e encontra seu salvador
Escrito por Laion Sobrinho
Editora DC Ana Gomes
Editor Chefe Marcelo Moro

No passado...

Alguns poucos verões depois de nosso primeiro encontro, conversávamos sobre todas as coisas, sentados na mesma areia da mesma praia em Mercy Reef.

- Tome... eu terminei. – ele me disse, entregando “Don Quixote”.

- Você terminou! É lindo, não?

- Enternecedor, com certeza... – e sorriu seu sorriso tímido, olhando para longe de meus olhos.

- Eu desisto de você, pensei que Cervantes pudesse com seu peito Ártico, mas vejo que me enganei...

- Você realmente me vê dessa forma? – ele me olhou nos olhos, com a íris cor das profundezas, os mesmo olhos perdidos...

- Não, Arthur, é só que... você vive meio distante das coisas...

- Não comece Anne, por favor... – ele virou o rosto, entristecido.

- Não, espere! Meu pai não iria se incomodar... Não olhe para o mar, olhe para mim, estou falando com você! – e ele fixou seu rosto pálido em mim, sua pele cor de espuma, seu cabelos loiros. – Meu pai pagaria seu colégio, sua educação, eu já lhe disse... Arthur, você... você merece mais que isso! – e me calei logo em seguida. Ele parecia ofendido.

- Mais que isso o que, Anne? Mais que o farol? Eu mereço Mercy Reef, então? – parecia me questionar, não duvidar de mim. Parecia triste e confuso, não furioso. Sempre paciente, meu Príncipe, comigo e com minhas bobagens. – Você me conhece a tempo suficiente para saber o que eu penso sobre essa cidade...

Continuei calada.

- Seu pai é um homem honrado, e não duvido que fosse capaz de tamanha generosidade. Mas eu seria incapaz – escute-me Anne -, incapaz de aproveitar-me disso. E minha vida... – e olhou para a areia, pegando um punhado com a mão e me mostrando. – é apenas isso...

Eu olhei para meus pés, como a mesma menina em seu vestido de Domingo:

- Você me diz coisas às vezes, Arthur... você é muito inteligente, tem um grande potencial...

- O que eu lhe digo sobre as coisas Anne, não é o que penso ou aprendi... é o que sinto, é o que ouço. É o que as coisas me dizem... – e se calou com um soluço. -... você não ouve Anne?

- O que Arthur?

- As coisas... o Mar... chorando. Tudo está morrendo, Anne...

Ele se calou novamente. Permanecemos mudos por um tempo. Quando dei por mim o pôr-do-sol se avistava no horizonte. Era nossa última tarde juntos nesse verão. No dia seguinte, minhas aulas teriam inicio.

- É nosso último pôr-do-sol juntos... – eu lhe disse.

- Como assim? – ele me olhou preocupado.

- Digo, desse verão...

Ele sorriu aliviado.

- Eu sinto sua falta, ás vezes. No colégio, sabe? É simplesmente difícil, eu tento fazer grandes amigos, mas eu nunca me sinto...

- ... com as companhias certas... – e olhou em meus olhos. Fitamo-nos por incontáveis minutos, até que sua mão, trêmula, acariciou meu rosto. Fechei meus olhos até sentir sua boca, e seu hálito fresco, até gelado, em minha boca. Na escuridão de meus olhos fechados, só o que me atava ao mundo material eram minhas mãos roçando a areia e o som das ondas quebrando na praia.

De repente, acordei daquele momento, quando Arthur afastou-se de mim, de supetão. Parecia aterrorizado. Tateava os próprios lábios, com profundo medo, medo que eu era incapaz de compreender.

- Anne... preciso que você vá embora agora... – ele me disse, sério.

- O que há, Arthur? Eu... eu fiz algo de errado...?

- Nós fizemos Anne, isso... isso é muito errado!

- Do que está falando? Arthur! Arthur! Fale comigo Arthur, o que há? Diga-me, por favor, eu quero saber! – ele tateava a própria boca, desorientado. – Fale comigo Arthur, pelo menos uma vez!

- Anne, eu não quero mais te ver, eu... não venha mais aqui, esqueça tudo isso. Eu não quero nunca mais... por favor...- e me virou as costas, cambaleando com uma tosse violenta. Eu me aproximei para ajudá-lo.

- SAIA! – ele gritou rispidamente. – Vá, Anne, agora! Eu suplico; nunca mais venha ao Farol!

Corri para casa, aos prantos, confusa e perdida.


No presente...

Depois daquele dia, nunca mais encontrara meu Príncipe. Nunca fora capaz de procurá-lo, e com a cidade crescendo para o Leste, o Farol foi ficando cada vez mais afastado. Continuei batendo na porta, aguardando que ele surgisse. Eram duas da madrugada e pouco me importava que o incomodasse. Foi quando ouvi uma música como nunca ouvi antes, vindo detrás do Farol.

Era como um coral gregoriano, cantado não por gargantas humanas, era um som familiar... como o de uma baleia ou golfinho. Começava como um sussurro, e crescia em intensidade até alcançar o clímax com um gemido de dor e pranto. Parecia o chorar de uma carpideira, ou dezenas delas. Era um pranto em uníssono, um prato dos próprios deuses, o que mais houvesse. Era como infinitos sinos dobrando em uma profusão de martírios.

A brisa me impedia de enxergar, mas quando dei a volta na construção podia jurar que havia... seres, pessoas, caminhando em direção ás ondas, lentamente. Levarei aquela imagem para o túmulo; era uma procissão, a mais aterradora que já vi. Cinco criaturas, de véu branco, caminhavam em direção ás ondas, muito lentamente. Quatro carregavam o que deveria ser um caixão, e uma ficava na frente, tocando um instrumento inaudível. As coisas vestiam longas túnicas, como as de muçulmanos, andavam curvadas com um pesar de uma eternidade, e em cada rosto havia uma máscara negra, esculpida em algo que poderia ser ébano... bem como tudo aquilo poderia ser qualquer coisa.

Não pareciam andar, mas se arrastar pela areia, como condenados. E choravam, eu podia ouvir que choravam, pois o som vinha de dentro dos véus, aquele som ora doce, ora gutural, aquele canto maldito, aquele timbre trêmulo de martírio. Fui arrebatada por uma tristeza desesperadora. Senti vontade de chorar pelo cadáver, embora ainda não enxergasse quem era. Fui absorvida por aquela atmosfera tenebrosa com tamanha facilidade, que em poucos minutos eu com certeza tomaria parte daquele lamento. Teria tomado, se não avistasse antes o cadáver de Arthur Curry, o velho faroleiro, sendo carregado pelos espectros. E, pouco atrás da procissão, caminhando lentamente, Arthur Curry Jr., meu Príncipe, acompanhava aquele cortejo funesto, em uma oração solitária e silenciosa.

- ARTHUR! – eu não me contive em gritar desesperada. Antes que eu pudesse entender o que acontecia, as criaturas se desvaneceram pela brisa, sobrando os véus e as máscaras caídos na areia. O cadáver do velho faroleiro tombou no chão, com seu caixão improvisado. Arthur acordou de uma espécie de transe, e ao me avistar, pareceu surpreso de inicio, e logo aterrorizado.

- Anne?! O que faz aqui?! O que você viu, Anne? Anne, me escute! – eu não conseguia ouvi-lo. Só pensava naqueles demônios e no corpo do velho estendido no chão. Comecei a chorar desesperada, sem entender o porquê. Era como se eu fosse possuída por uma profusão de desgraças contidas, explodindo em um pranto nervoso e pouco lúcido. Arthur veio correndo. – Anne! ANNE!

Ele segurou meu braço com violência, enquanto eu tentava me desvencilhar dele.

- O que você está fazendo aqui?! Eu te disse, Anne! Eu te avisei! O que você está fazendo aqui?!

Foi quando Sean apareceu correndo e, antes que eu pudesse entender o que acontecia, meu namorado já estava em cima de Arthur, socando-o com violência. Logo, o namorado de Júlia tomou parte e o que começou como uma forma de me defender transformou-se em uma brincadeira de garotos desocupados.

Arthur, de alguma forma indefeso, era segurado pelo namorado de Júlia, enquanto Sean socava sua mandíbula, seu estomago. Chutou-lhe a boca até a areia torna-se rubra. Estorou o olho direito de Arthur, explodiu a garrafa de champagne em sua cabeça. Ria-se no processo, gritando bravatas, dizendo para Arthur que nunca mais me tocasse daquela maneira, que ele era um mendigo, um maluco, um demente.

Finalmente quebrou o nariz de Arthur, partiu-lhe a testa, cortou-lhe o peito. Chutou seu fígado, acotovelou seus dentes. Júlia me consolava, eu, no chão da areia, omissa a tudo aquilo. Arthur esticava as mãos em minha direção como uma criança. A maré enchia velozmente, logo já me alcançava furiosa. A areia já era lama de sangue.

- A maré... a maré está cheia! – eu dizia. – meu deus... o corpo do faroleiro... sumiu! A maré levou, Júlia, você não viu?!

- Acalma-se Anne, vai passar... logo os meninos cansam... – e virava o rosto, enojada, sem me ouvir. A praia virou um açougue. Os ventos explodiam numa intensidade homérica. Tudo gritava, e eu... e eu ouvia! Era um gemido de morte, um gemido de todas as coisas! Era o mar, era a praia, como uma boca enorme do oceano, suplicando, pedindo, orando por seu filho... seu filho violentamente assassinado em seu próprio lar.

- Meu deus, essa maré está subindo muito rápido! Sean, Mike! Vamos embora! – gritava Júlia.

Sean e Mike deixaram o corpo inerte na areia da praia. Andaram mais alguns passos em nossa direção. O que sobrara de Arthur arrastava-se em direção ao mar, balbuciando coisas incompreensíveis. Sean chutou-o uma última vez antes de ir embora, deixando ele caído, morto á alguns centímetros do mar. Arthur deu uma última e gutural tosse sangrenta e enterrou o rosto na areia, golfando sangue.

E eu fui embora sem ter feito nada para salvar meu salvador.

“A mari usque ad mare” (“Do mar para o mar”) - Lema canadense

CONTINUA...

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Última atualização em Sáb, 20 de Novembro de 2010 21:19
 

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