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Abençoada e protegida pela deusa do arco-íris, de quem em homenagem ganhou o nome, a jovem princesa foi a segunda criança a nascer na Ilha Paraíso. É treinada e preparada pelas amazonas para assumir o trono do reino que um dia herdará de sua avó. No entanto, sua linhagem não é considerada pura pelo Olimpo nem pelo código das amazonas. Dotada de dons extraordinários similares aos de sua mãe, a falecida heroína que já foi conhecida como Mulher-Maravilha, Íris ainda é uma adolescente que vive os conflitos da fase e ainda não sabe a verdade sobre suas origens.
O Sol toca seus últimos raios na areia da praia. Ela caminha descalça pela costa da ilha todas as tardes e pára assim que percebe que o Sol está prestes a se esconder nos confins do horizonte. Assim fita o astro perdidamente, até deixar seus derradeiros raios do dia encandear sua face. A paisagem é magnífica.
Quando criança, pensava que durante o poente as águas do mar Egeu engoliam o Sol para deixar a Lua surgir. Em certo momento da noite o mar faria o mesmo com a Lua e cuspiria o Sol para clarear a ilha e avisar a todo mundo que já é hora para acordar. Sua mãe sempre dizia que não é bem assim. Ela sempre lhe contava as passagens dos deuses.
Seus cabelos negros flutuam levemente com o vento da noite que chega pelo mar. Ela gosta de fechar os olhos, alçar a face para o céu e sentir a aragem fresca bater-lhe no rosto. Então abre os braços e sente a liberdade.
Seus pés lentamente desprendem-se da areia e seu corpo paira no ar.
Gosta de caminhar pela praia todo fim de tarde. Gosta de ver as conchas do mar trazidas pelas ondas que tocam a areia. O crepúsculo lhe desperta lembranças.
Foi pela areia e água nesta praia que sua mãe ganhou vida. A história se repetiria e não poderia ser tão diferente[1]: Numa tarde chuvosa, uma mulher estendida sobre este manto de areia gemia as primeiras dores do parto. Ao som do primeiro choro o céu se abriu no ecoar de um raio. Sete cores dispostas ordenadamente cobriram a costa em forma de arco e um feixe de luz tomou a praia se materializando em sete criaturas graciosas. O rebento apertou firme com sua pequena mão os dedos da mão de sua mãe. O choro cessou.
-Eu, Atena, ofereço-lhe sabedoria!
-Eu, Deméter, lhe proporciono a força da Terra!
-Eu, Ártemis, lhe compartilho a comunhão com os animais!
-Eu, Afrodite, concedo-lhe graça e beleza!
-Eu, Héstia, lhe presenteio com o dom da fraternidade!
-Eu, Têmis, dou-lhe as virtudes de discernimento, equilíbrio e justiça!
-Eu, Íris, lhe concedo o dom de transmitir as mensagens divinas à humanidade, de paz e bonança, e que assim como o arco luminoso das sete cores, tu saibas ser para o mundo conhecido, a luz que encerra a tempestade!
Alguns dos deuses haviam decidido que a jovem princesa que nascera não mereceria os dons a serem ofertados pelo Olimpo. Argumentaram que seu sangue é impuro e, por sua linhagem compartilhada com o Mundo do Patriarcado, não seria digna de carregar a missão de sua mãe. Contudo, o soberano olímpico, Zeus, deu o voto de minerva. A princesa não herdaria os poderes de sua mãe, que certa vez foram ofertados a ela pelos deuses, mas sim eles lhe seriam concedidos em seu nascimento. Os deuses temiam que a criança fosse geneticamente muito poderosa, tão logo superasse sua mãe e o próprio soberano do Olimpo. Uma vez que o que lhe é dado, pode lhe ser tirado a qualquer momento.
A deusa Íris assistiu a aflição da jovem mãe que temia um decreto dos deuses de tirar sua filha de seu ventre. Assim, a deusa do arco-íris rogou a Zeus, junto a um clamor que se estendeu por várias cadeiras da conferência no Olimpo, pela vida da criança e jurou que seguiria os passos dela para guiá-la segundo a missão divina.
A princesa nasceu abençoada por alguns dos deuses olímpicos e condenada por outros.
Agora, assim que o Sol se esconde por detrás do mar Egeu, ela voa para o interior da costa.
Pára e desce lentamente até pairar próxima ao solo em frente a insigne estátua de ouro feita por Hefestos em homenagem a maior das guerreiras amazonas. Deixa sobre a base da escultura uma pequena concha em meio a um amontoado delas, que pegou na areia como faz todos os dias. Depois voa de volta ao palácio real.
Sua mãe a levava até a praia todas as tardes. Juntas deixavam a água do mar banhar-lhes os pés e colecionavam conchinhas trazidas pelas ondas que banham a areia.
Sala de jantar do palácio real:
A rainha toma seu lugar à mesa. A seu lado direito está sentada Ártemis, a nova embaixadora de Themyscira, e a cadeira em seu lado esquerdo está vazia. Três amazonas servem o jantar. Muito vinho, frutas e carne de faisão.
-Onde está Íris? – indaga Hipólita ao notar a ausência de sua neta em meio à sala cheia.
-A princesa não está no palácio, creio que foi até a praia como faz todas as tardes, minha rainha. – responde Ártemis.
-Pedi para que ela não se atrasasse para o jantar. Não cai bem a uma princesa, futura herdeira do trono.
A porta da sala se abre em um ímpeto. A princesa Íris adentra a sala mirada pelas demais e caminha na direção de seu lugar. A barra de sua túnica azul está molhada e coberta por alguns grãos de areia. Ela pára em frente à Hipólita.
-Perdoe mais um de meus atrasos, vovó. – pede à rainha enquanto se curva diante dela.
Hipólita pousa sua mão sobre o queixo da neta, suspendendo seu rosto cabisbaixo:
-Vista outra túnica, calce sandálias e mais tarde levarei pessoalmente seu jantar em seu quarto. – ordena serenamente a rainha e a princesa obedece sem replicar.
-Minha rainha, ando preocupada com o comportamento da princesa Íris. – afirma Ártemis – Pensei em conversar com ela antes de vos contar, porém, percebi que devido a insistente falta de disciplina dela, nada poderia se passar sem o vosso conhecimento. Ela tem faltado ao treinamento militar e tem sido displicente com as aulas de Ferdinand[2]. Tento me dividir entre as tarefas da embaixada e os ensinamentos que venho passando a ela, em respeito à Diana, mas confesso que a princesa não tem cooperado, observei um retrocesso em seu desempenho.
-Há quanto tempo isso vem acontecendo? – indaga a rainha. Suas feições demonstram sua preocupação com a neta.
-Há algumas semanas...
Suíte real – três semanas atrás:
Ela caça insistentemente, procura ávida por encontrar respostas. Deixa as gavetas remexidas. Há esta hora não está mais preocupada com a reação de sua avó quando descobrir. Tudo que ela quer são as respostas, muito negadas, pouco explicadas ou nunca encontradas. Até hoje.
Agacha e vasculha debaixo da cama. Nada. Até que suas mãos tocam numa parte desigual do assoalho. Levanta o tapete e vê o trinco. A pequena passagem se abre em uma escada que a leva para um porão escuro. Era noite, sua avó estava ocupada se reunindo com Ártemis para conversar algo sobre a embaixada. O caminho estava limpo para a busca.
Antes de terminar a descida, ela sobe e volta ao quarto para pegar uma vela. Desce novamente, até o final.
A iluminação da vela é parcial. Ela gira em torno de si mesma para conseguir enxergar o que tem em sua volta. Vê estantes, caixotes e pilhas de pergaminhos. Mas nada disso a interessa agora. Pelo menos não agora. O que ela quer se revela bem à frente: um baú velho de mármore, tomado por pó.
Caminha até seu objetivo. Passa a mão sobre a tampa, o que produz uma pequena nuvem de poeira. Suspende a tampa com a mão direita, um pouco pesada, mas nada que sua força não resolveria. A vela em sua outra mão revela o conteúdo: álbuns, porta-retratos, jóias, pedaço de um tecido vermelho para túnica... Um berço de lembranças. Lembranças fúnebres.
Ela coloca a vela em um castiçal enferrujado sobre uma estante ao lado do baú e tem as mãos livres para remexer no passado. O passado dói, corta, dilacera.
Íris é uma amazona que não acredita fervorosamente em deuses como criaturas supremas e cheias de glória que regem tudo o que existe, até o Sol e a Lua. Sua falta de fé para uma amazona pode parecer absurda, pois todos sabem que na Ilha Paraíso a ordem é ditada pelo Olimpo. Mas talvez tenha sido essa a maldição que alguns deuses sórdidos atribuíram a ela em seu nascimento. Esse é um segredo, se descoberto lhe custaria muito. Porém, se deuses fossem tão superiores aos mortais, porque agiriam sem razão se comportando como ínfimos seres mesquinhos, ardilosos e personalistas? No entanto, Íris sabe que não lhe compete uma objeção, por mais que pense que há de haver algo mais que um deus para iluminar o céu, uma força bem mais humanamente compreensível.
Ela sabe também que sua mãe conheceu um outro mundo, outros seres senão guerreiras, deuses, homens-touro, górgonas, ninfas... E é este mundo novo que Íris quer conhecer. Um mundo que não ficou esquecido pelo tempo como a ilha.
Uma de suas principais características é a curiosidade. Na tentativa de saciá-la, tem que remexer nas coisas que pertenciam a sua mãe. Coisas que nunca lhe foram apresentadas. Tem que sentir a dor da saudade produzida pelo passado preso àquele velho baú.
Ela toca no anel das sete cores preso num cordão de ouro em seu pescoço. O arco-íris reluz no anel que lhe foi dado por sua mãe em seu último encontro, há 15 anos atrás...
Foi antes de sua mãe partir. Íris tinha apenas três anos de vida, porém, algo lhe fazia sentir que aquela seria a última vez que sua mãe a levaria à praia para colecionar as conchas trazidas pelo mar Egeu. Aliás, sua esperteza impressionava a todas as amazonas. Sua inteligência e habilidades eram precoces.
Era poente. Apolo já conduzia a carruagem de ouro de volta ao Olimpo. Diana se agachou em frente à filha. Os olhos azuis se encontraram, tão perdidamente, que nada em volta podia ser percebido por mãe e filha. Héstia sorriu e abençoou.
Diana retirou de seu dedo anelar esquerdo o objeto tão reluzente quanto os últimos raios do Sol e o colocou sobre a palma da pequena mão da princesinha. A guerreira amazona conduziu aqueles pequenos dedinhos da filha para fechar a mão dela e guardar aquele anel de um significado, até então, impercebível pela garotinha.
O anel revestido de ouro tem sete pequenas cavidades tapadas por cristal de onde dispõem, misteriosamente, as sete cores que compõem o arco-íris.
Os olhos azuis, de mãe e filha, verteram em lágrimas. Diana acariciou os curtos cabelos negros da pequena e beijou-lhe a testa dolorosamente. Seu coração havia se partido e parte dele estava sendo deixada para trás. Íris segurou forte a mão de sua mãe, tentando prendê-la e impedi-la de partir. Já não havia nada que pudesse fazer.
Íris era muito jovem para compreender aquelas últimas palavras que ouviu da doce voz de sua mãe, mas mesmo assim, de alguma forma, sua memória as guardou e até hoje estes dizeres ecoam em sua mente fortificando as lembranças: “Siga seu legado e exerça-o em honra de seu sangue e de seu povo, minha pequena amazona... Você é meu solzinho e as estrelas giram em seu redor...”.
O que Íris sabe sobre sua mãe já lhe foi dito há anos. Sua mãe partiu e derramou sangue em nome de seu legado. O que Íris não sabe, é qual é o seu.
Agora ela está em seu quarto, sentada em sua cama, segurando a pequena caixa de madeira encontrada a algumas semanas naquele velho baú. Dentro há fotos de pessoas desconhecidas ao lado de sua mãe. Pessoas com trajes estranhos, coloridos, roupas justas cheias de símbolos. Homens, seres que Íris não conhecia, e há tantos nas fotografias.
Em algumas de suas aulas, Ferdinand já lhe falou um pouco sobre esse mundo além da costa da ilha, o Mundo do Patriarcado, onde há muita injustiça, intolerância e desarmonia. Essas aulas aguçavam a sua curiosidade, no entanto, sua avó sempre negava quando Íris a pedia para lhe contar sobre esse lugar além do mar Egeu. Hipólita respondia: “Seu único encargo e preocupação deve ser com a ilha, meu bem, para que assim, quando eu não estiver mais aqui, você a governe com honra e louvor”. No entanto, se esse lugar onde sua mãe exerceu a missão que lhe foi encarregada pelos deuses fosse tão ruim assim, como disse Ferdinand, por que sua mãe sorria tanto em todas as fotografias encontradas no baú velho de mármore?
Íris agora percebe que sua avó talvez tenha medo de perdê-la para o Mundo do Patriarcado, assim como também perdeu a filha. E vê, novamente, pelas fotografias de sua mãe sorrindo a alegria que ela mantinha ao lado daquelas pessoas estranhas.
No fundo do caixote há um bilhete. Íris já o havia lido desde que encontrou a caixa, porém relê buscando compreender os escritos anônimos “Encontre as respostas em seu coração”.
Ela lê mais uma vez, torna a ler, relê, mas não compreende a mensagem. Talvez Menallipe, oráculo das amazonas, possa ajudá-la. Ela vai ao encontro dele.
A rainha Hipólita caminha até o fim de um dos corredores do palácio, na torre esquerda onde fica o quarto de Íris. Ela porta uma suntuosa bandeja de jantar nas mãos, composta por frutas, cereais e carne boa. Não é comum tal tarefa à rainha, porém ela viu necessária uma aproximação maior com a neta e esta seria uma boa oportunidade. Bate à porta do quarto de Íris:
-Íris? Minha querida, eu trouxe seu jantar...
Sem resposta ao seu chamado, Hipólita abre a porta vagarosamente e entra percebendo que o quarto está vazio. Coloca a bandeja sobre a cômoda e repara na janela aberta, que dá para a sacada.
-Menallipe? Menallipe? – chama Íris pelo oráculo da ilha.
-Não se aflija em clamar por meu nome, jovem princesa. Eu já estava a sua espera. – responde a divindade.
-Perdoe-me por incomodá-lo, mas algo me aflige muito nestes últimos dias, Menallipe. Um bilhete que encontrei entre as coisas de minha mãe. Bom, os escritos são anônimos, mas creio que ela deixou para mim antes de partir.
-“Encontre as respostas em seu coração” – diz Menallipe, surpreendendo a jovem – Minha jovem, eu posso predizer o futuro... Mas não tenho as respostas para o passado que lhe atormenta a alma. Siga os dizeres e encontrará tudo o que precisa.
Lágrimas vertem pelo rosto da jovem amazona. Está tudo tão confuso e, em meio a mil mães amazonas que a criam, que a ensinam o legado de guerreira e que a amam, ela se sente só. Hipólita contou que Íris foi abençoada pelos deuses, a princesa sabe que cresceu num berço de luz, mas algumas dúvidas latentes, a saudade de sua mãe e a falta da fé que deveria ter a agoniza.
Ela quer a vida que sua mãe viveu. Ela quer conhecer o mundo além da costa. Ela tem curiosidade e não sossega até entender tudo.
Íris fecha os olhos lacrimosos e pousa a mão direita sobre o coração. Então, encontra com a mão o anel que tem pendurado no cordão de ouro. Segura firme com toda a força o objeto e dele surge um lampejo que clareia toda escuridão da noite em volta da princesa. Ainda de olhos fechados, ela paira no ar a poucos centímetros do chão e a centelha se divide em sete cores luminosas: vermelho , laranja , amarelo, verde , turquesa , azul e violeta.
Ela então abre os olhos e vê, com muita dificuldade por causa da intensidade luminosa, uma criatura radiante que vai se materializando em sua frente. Em segundos a criatura divina já está claramente distinguível.
-Deusa do arco-íris? – indaga a princesa extremamente surpresa.
-Sim, sou eu, minha cara. – diz a deusa de mesmo nome que a princesa. A jovem amazona se curva rapidamente em sinal de respeito, ato que é instantaneamente dispensado pela deusa que faz um sinal com as mãos para que a princesa se levante e continua dizendo – Jovem amazona, tu completarás 18 anos na próxima semana. Não te aflijas mais, nem te martirizes por tua ansiedade e curiosidade. Aos poucos todas as tuas perguntas lhe serão respondidas, teus medos serão confortados e tua missão lhe será apresentada. Não importa o que deverás deixar para trás, tu deves seguir teu destino. O que está por vir pode lhe despertar receios, mas toda vez que o medo enfraquecer teu âmago me chame e eu virei. Assim que estiveres pronta, eu renovarei os votos que lhe fiz em teu nascimento. Até breve!
A deusa desaparece com o mesmo feixe de luz em que surgiu. Íris observa minuciosamente o anel, duvidosa e espantada com o ocorrido. Depois da partida da deusa o lugar voltou à escuridão natural da noite, mas, posicionando o anel convenientemente na direção em que os raios da Lua cheia iluminam a ilha, Íris consegue enxergar e ler com clareza uma inscrição no interior da jóia que ainda não havia reparado. Era a marca de um nome no anel: “Bruce Wayne”.
Continua...
[1]: Certa vez, a rainha das amazonas, Hipólita, rogou avidamente aos deuses olímpicos para que lhe concedessem uma filha. Ela moldou a forma de um bebê com barro da praia de Themyscira e os deuses desceram do céu em um feixe de luz agraciando com vida e dons extraordinários a criança que seria a primeira a crescer na ilha. Assim nasceu a portadora da alcunha de Mulher-Maravilha. [2]: Ferdinand, o kithirotauro equivalente a minotauro, Ser com corpo de homem e cabeça de touro.
Na próxima edição:
Íris continua a busca por respostas, agora com mais uma dúvida a afligindo: Quem é o dono do nome marcado em seu anel? E numa investida pretensiosa Ares, o deus da guerra, promete cessar todas as dúvidas da jovem amazona.
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